“Linha de Passe”: Crua Realidade



por Cloves Geraldo*

A dupla de diretores Walter Salles e Daniela Thomas entra na vida de família de trabalhadores da periferia de São Paulo para extrair lições de sobrevivência na megalópole.


Brasileiros Walter Salles e Daniela Thomas

Em grandes e belos planos, a dupla de diretores Walter Salles/Daniela Thomas, expõe em seu filme “Linha de Passe” vários meses do cotidiano de uma típica família da periferia paulistana. À frente dela está Cleusa (Sandra Corveloni), grávida, equilibrando o orçamento e a vida de seus quatro filhos homens, cada um deles tido com um parceiro diferente, o mais novo, Reginaldo (Kaíque de Jesus Santos), com um afro-descendente. Numa megalópole sombria, com poucas chances de um deles se erguer para além do asfalto, eles se viram como podem. Dênis (João Baldasserini), motoqueiro, faz entregas pela cidade, enquanto entra e sai da vida da ex-companheira, com quem tem um bebê; Dinho (José Geraldo Rodrigues), evangélico, frentista, encontra na religião uma forma de levar a existência adiante; e, por último, Dario (Vinícius de Oliveira), às voltas com o sonho de ser jogador profissional de futebol. Nada anormal num país onde o vôo para os trabalhadores está a poucos metros da linha do chão, ainda que a propaganda insista em trombetear que lhes basta exercer sua liberdade valendo-se da livre iniciativa.

Rodado em ambientes tomados pelo claro-escuro, que traduz duplamente o estado de espírito dos personagens e a ausência de perspectivas da cidade, “Linha de Passe” introduz em ações paralelas a vida dos quatro irmãos e a desventura da mãe, Sandra. Cada um deles indo contra situações que lhes dão poucas chances para verem o horizonte ao longe. Este poderia vir através do sol amplo e nítido, que expusesse os contornos dos prédios que dominam a paisagem urbana, mas está sempre tomado pelas sombras. Às vezes vêm-se apenas os contornos dos personagens movendo-se na escuridão, como espectros à procura da eternidade. Eles vão e vêem madrugada e noite-adentro, entrando, sentando-se à mesa, fazendo a magra refeição noturna e estirando-se em beliches e sofás. Quando não se refestelam na velha kombi, símbolo da vida que poderiam ter tido.

Dênis é cheio de ambigüidades

(“Terra Estrangeira”, “O Primeiro Dia”) não se perde em firulas, criando falsas expectativas para o público, com cenas que mostrem saídas fáceis, numa megalópole que mais engole seus filhos que os acaricia. Ao lançar uma olhada na vida de Dênis, o mais sorridente dos irmãos, o faz sem nuances. Ele é cheio de ambigüidades. Vive de expedientes, tem amigos mal situados e não se prende a nada. É o retrato mais acabado dos jovens da periferia. Tem filho, ex-mulher, e não vê adiante o que irá lhe tirar do aperto, da falta de dinheiro, da possibilidade de se relacionar com os irmãos sem lhes pedir ajuda. E, sobretudo, tem um emprego miserável, que o faz pôr a vida em perigo a cada instante. Os diretores não o tornam simpático, a empatia com ele vem mais das situações, da maneira como ele se comporta nas ações-limites.

É dele, também, uma das mais bem elaboradas cenas do filme, quando não se sabe se é ele ou seu parceiro que acabou debaixo de uma caminhonete. Há várias situações em ocorrência, em meio ao tráfego intenso, tensão em alta, e todas elas terminam num anticlímax. Nenhuma idealização de Dênis, ele está ali diante de sua vítima porque foi engolido pelas armadilhas engendradas por sua posição subalterna. Poder-se-ia falar em determinismo, mas ele é o único que busca saídas; mesmo que não sejam as mais louváveis. Não se ilude como o irmão Dinho, que busca a religião para exorcizar seus desencontros; tem única e exclusivamente a si e os amigos para continuar indo em frente em meio aos impasses do desemprego, da falta de dinheiro e da possibilidade de conviver com o filho bebê e a companheira que ainda o aceita.

Religião condena Dinho a uma falsa humildade

No outro extremo está Dinho, entregue à Igreja Evangélica, cujo pastor lamenta a evasão de fiéis e o magro dízimo contado no fim do culto. Ele é a própria lisura, lealdade e um contido comportamento, que o faz não externar o que sente. Quando o faz solta fel, maledicências, e solta a violência contida num ser ansioso para estar longe da vida miserável que leva. A religião que poderia ser um abrigo, o condiciona a uma falsa humildade, uma subserviência suspeita e uma honestidade premida pelas circunstâncias. Diferente do irmão Denis, que tenta mirar o horizonte na escuridão, ele só quer se entregar a Jesus. A crítica de Salles/Thomas não está na igreja evangélica em si, no pastor que tenta fazer milagre e fracassa; sim na incapacidade de a religião esvaziar o corpo do fiel, expulsando o demônio que ele trás dentro de si. Em suma, este demônio não lhe foi incutido ou se apossou dele; faz parte de si. E, sacrilégio, é capaz de entregar-se aos prazeres solitários da carne.

A cena que ele se atira furiosamente sobre o dono do posto onde trabalha, dá a exata noção do que se diz aqui. Atingido em seus brios, a fúria vem à tona e ele não se contém. Toda a hombridade, ética, moral, honestidade se desprende de seu corpo e ele é tão só um ser enfurecido. Uma bela cena que reflete menos a violência e mais a carga de ódio nele contido. Principalmente para quem se divide entre a casa, o trabalho e a igreja. Dele nada de ruim se espera; tampouco a mãe, sempre disposta a vê-lo como exemplo.

Está sempre o cercando de carinho, como se ele fosse um anjo. No entanto, ele, Dinho, mostra o que é, ao desnudar a vida da mãe, dizendo que seus parceiros acabam por deixá-la grávida, sem chance alguma de com eles conviver. É o suficiente para o espectador entender a natureza humana, por mais que possa mudá-la, criando suas próprias soluções. Mas a dupla Salles/Thomas não está interessada nestas saídas, tão só expõe o tipo de bicho que a megalópole cria.

Realidade mostrada pela dupla de diretores é de doer

Por fim, Dario, o mais centrado dos irmãos, com sua ambição de ser contratado por um grande clube. Vive as mesmas dilacerações de milhares de jovens, que sonham com contratos milionários, carrões, modelos e vida nababesca. A realidade mostrada por Salles/Thomas é de doer. Dario, como seus irmãos, está fora do processo de inclusão, seja social, seja cultural, seja humana (veja a maneira brusca como ele é dispensado da seleção de jovens jogadores pelo treinador). Definham. Com pequenos detalhes, como o da chuteira com a sola soltando, o olhar fixo no homem que poderia lhe dar uma chance, o andar pela via expressa solitário em plena madrugada, a dupla de diretores sintetizam o que o espera e a seus concorrentes. O futebol, longe dos gramados profissionais, é apenas o reflexo da luta de milhões de brasileiros por um futuro equilibrado (casa, comida, emprego, roupa e dinheiro para a cerveja). Dario quer tão só passar pela peneira que poderia levá-lo a um contrato, qualquer contrato. Feito por Vinícius de Oliveira com economia de expressões, gestos, fala sôfrega, Dario trás no rosto cheio de espinhas todas as impossibilidades.

A mesma impossibilidade que faz com que Reginaldo, o afro-descendente, filho caçula de Cleusa, ande a esmo à procura do pai. Garoto ainda, não tem as projeções dos irmãos, nem suas agruras cotidianas. Pode permanecer num vai-e-vem noturno, encantando com a viagem de ônibus e sofrer as conseqüências ao chegar em casa. Pouco se dá que está aí seu espaço, uma vez que nenhum dos irmãos se projeta nele. Ele é outsider, vive fora daquele ambiente sombrio, onde nada se move e o sonho é sempre adiado. Ao evadir-se, tem o mais belo momento do filme e, também, o mais emblemático, unindo o mágico e o real. Fantástica a seqüência em que ele atravessa o elevado dirigindo o ônibus; parece voar, mal tocando o asfalto. É desses momentos que faz um filme se torna mais que diversão. Fica-se com a sensação de que há magia e instante maior na vida. Os personagens estão ali para transfigurar a realidade, mas esta os agarra de tal forma que só uma cena como esta os liberta. Aparentemente os entrechos não se fecham, mas isto pouco importa. Inexiste intenção de fechá-los. A vida segue.

Cinema que busca cotidiano transcende as aparências

Somente este cinema que busca as oscilações do cotidiano é capaz de transcender as aparências. A vida que está diante do espectador é igual à sua, pelos desencontros e poucos achados – o diferente é o instante mágico provocado pelo personagem que usa o veículo símbolo da megalópole para ter um instante só seu. É o instante em que o cinema ergue-se do chão e chega a outro patamar: o da transcendência. É o que ganha o espectador. Se os irmãos de Reginaldo não conseguem romper com a realidade que os oprime, ele o faz. Bom que assim seja; “Linha de Passe”, preso demais à realidade, terminaria por impactar menos. Ainda que emocione, traga para o expectador as desventuras de uma família de trabalhadores, ele precisaria escapar a esta camisa de força. Suas matrizes, centradas no neo-realismo, têm mais de documentário, de abrir frestas na janela para que se possa olhar e ver muito da crueza da vida dentro de uma humilde casa.

“Linha de Passe”, enfim, segue a linha do Cinema Novo, entendido como aquele cinema que retrata as contradições da sociedade brasileira, expondo a dialética terceiro-mundista. Mas o filme da dupla Salles/Thomas não se quer como tal. A realidade hoje é outra, adversa ao caminhar célere do período pré-derrocada da ex-URSS. Seus entrechos sequer lamentam os impasses que bloqueiam a visão do que causa tais problemas à família de Cleusa. Principalmente quando ela vocifera contra a patroa, ao sentir-se ameaçada de perder o emprego, por estar prestes a ter o bebê, e Dinho se insurge contra o patrão quando este o acusa de ter facilitado um assalto. Talvez seja isto mesmo, hoje a classe operária, com o perfil que assumiu na era neoliberal-globalizante, esteja entregue a si mesma, só reagindo com fúria, quando se sente ameaçada. O que é muito pouco.

A família de Cleusa está, assim, entregue à sua própria sorte. Nem a religião a salva, pois está mais interessada em operar milagres que encham seus templos de fiéis e lhe permita arrecadar mais dízimos, que ordenar seu rebanho em direção à redenção. A dupla Salles/Thomas destituiu seu filme do messianismo caro, por exemplo, a Glauber Rocha, em “Deus e o Diabo da Terra do Sol”, não o enchendo de profetas. O pastor, com sua fala mansa, não tem grandes gestos, sermão eloqüente, apenas emite frases que possam enlevar os fiéis. E Dinho não o segue fielmente, tão só cumpre seu papel de servidor da igreja. Suas contradições não aplacam sua fúria, tampouco sua desconfiança em relação ao poder do milagre. Fica algo indefinido na relação fiel-igreja. Lacunas que o espectador terá de preencher, já que a dupla Salles/Thomas não lhes dá pista. Deixa em aberto os espaços, devendo ele, espectador, preenchê-los com sua visão do que acontecerá à família de Cleusa, entregue aos seus próprios impasses. Um exercício e tanto, porque as indagações são muitas e as respostas nem tanto, pelo que se vê em “Linha de Passe”.

“Linha de Passe”. Drama. Brasil. 2008. 108 minutos. Roteiro: Daniela Thomas, George Moura e colaboração de Bráulio Mantovani. Direção: Walter Salles e Daniela Thomas. Elenco: Sandra Corveloni, Vinícius Oliveira, João Baldasserini, José Geraldo Rodrigues, Kaíque de Jesus Santos.




*Cloves Geraldo, Jornalista

Educação e Corrupção

Custo mundial da corrupção supera R$ 1 trilhão por ano
Não só o Brasil sofre com a praga da corrupção, que leva para o ralo centenas de milhões de reais, desviados por saqueadores do erário. Tanto isso é verdade que a Polícia Federal trabalha sem parar na apuração de fraudes, sonegação fiscal dolosa e desvio de verbas destinadas à execução de obras públicas, notadamente nas áreas da saúde, educação, saneamento básico e melhorias viárias. Mundo afora, o problema é tido como o mal que mina substantivamente o desenvolvimento econômico e social de um país. O Banco Mundial (Bird) estima que o custo anual da corrupção é de US$ 1 trilhão, US$ 259 bilhões superior ao gasto dos países com o ensino entre a primeira e nona séries, de US$ 741 bilhões. A educação fundamental equivale a 1,3% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial em paridade do poder de compra (PPC), modo de calcular o PIB que tenta eliminar a diferença do custo de vida entre as nações. As perdas com a corrupção representam cerca de 2% do PIB global, 0,7 ponto percentual a mais que o gasto com a educação para crianças e adolescentes.

Anualmente, somente os países em desenvolvimento perdem entre US$ 20 bilhões e US$ 40 bilhões em ações de corrupção, o que pode chegar a 40% dos gastos oficiais com assistência social. Negociações como sonegação e corrupção podem custar até US$ 1,6 trilhão a cada ano em todo o mundo. Apenas a África, segundo a União Africana, perde US$ 148 bilhões anualmente – equivalentes a 25% do PIB do continente – por culpa de desvios ilegais de recursos. O ônus da prática da corrupção é avaliado pelo Banco Mundial com base em dados econômicos de mais de 200 países, sobretudo do dinheiro desviado em esquemas de superfaturamento de projetos e pagamento de propinas a servidores públicos. As aplicações em educação primária, que equivale, no Brasil, ao ensino fundamental, por sua vez, foram apresentadas, no fim de 2007, no relatório Educação para todos, da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Os custos dizem respeito, entre outros, à construção e manutenção de escolas, aos salários dos professores, aos materiais de aprendizagem e às bolsas de estudo.

O cientista político e professor de teoria da corrupção da Universidade de Brasília Ricardo Caldas aponta que a educação é uma das formas de combate à corrupção. “O nível de educação é uma condição necessária em ações contra o problema. No Brasil, o nível de educação poderia trazer, mas não necessariamente, cultura política”, ressalta. Para ele, o índice médio de crianças entre cinco e 14 anos em sala de aula (97%) pode ser considerado um avanço em relação a décadas passadas, mas pondera que a situação ainda não é a ideal. Tatiana Filgueiras, do Instituto Ayrton Senna (IAS), acredita que a educação é duplamente uma ferramenta de combate à corrupção, pois promove uma dupla condição: o fortalecimento das pessoas, importante para a efetividade do controle social, e das instituições, imprescindível à instauração de cadeias de prestação de serviço mais éticas, eficientes e transparentes com sistemas de responsabilização. Vê-se que combater a corrupção sem melhorar os níveis educacionais do país é uma tarefa inglória, um verdadeiro enxugar gelo. Não há, portanto, outro caminho a seguir que não o da educação, como forma de separar o joio do trigo.

Dexter: Seres humanos não são vinhos


Franco da Rocha

São exatamente 23:10 horas, desse dia 03 de agosto, somente a luz da televisão e o silencio são meus aliados que contribuem para que eu possa refletir e escrever sobre as injustiças do sistema.



Dexter. Exilado sim, preso não!


Fico perplexo diante de tanta covardia, desinteresse e hipocrisia.
Primeiro nos ensinam que precisamos vencer, sermos grandes cidadãos e trabalhar em prol de uma sociedade feliz, linda e maravilhosa, depois é o seguinte, nos tiram tudo que conquistamos num piscar de olhos, violam nossa dignidade e não nos dão nem se quer o direito de resposta. Covardia é pouco, o jogo é: Apanhem e sofram o mais que puderem, no reino dos céus tudo será bem melhor!

Dar asas para quem sabe voar é muito perigoso, o mas correto é que eles não sabiam o verdadeiro objetivo, os “nossos” objetivos...

É necessário corrigir a postura de nossa sociedade, é necessário que ela mostre sua verdadeira cara, é preciso saber a verdade. Sem verdade não haverá justiça, sem justiça não haverá paz!

Infelizmente, preciso dizer só a verdade, se não serei julgado e condenado por mentir, e a verdade é “nossa sociedade e nosso sistema são extremamente incoerentes, falidos, destruidores e implacáveis”.

Quantas famílias, jovens e crianças (mesmo antes de despertarem para o mundo), foram e continuam sendo destruídos pelo sistema, nessa hora se levanta o advogado de defesa e diz:
- Protesto Meritíssimo, essas verdades são mentirosas.
E o juiz responde:
- Protesto aceito!

Isso é inadmissível! Diante de toda essa palhaçada, chego a conclusão que nós revolucionários precisamos nos organizar, precisamos unir forças e contra atacar com veemência associada à inteligência, toda essa política de destruição implantada sem piedade e sem dó em meio às favelas , periferias e presídios existentes, em nosso Brasil, sim, realmente nesse, mesmo Brasil americanizado e programado para extirpar a maioria de seus filhos que o ama e acredita que ele seja o melhor país do mundo por não ter em suas terras vulcões, avalanches, guerras armadas e outras coisas parecidas, mais ai, quem enxerga “dois” palmos além do nariz, consegue ver muito bem um outro tipo de guerra, a guerra contra a fome , miséria, enchentes, moradia, um bom estudo, cultura , informação. Melhores condições de vida, bons salários e condições de sobreviver, é uma guerra reivindicando o mínimo.

Mas ai, são bem poucos que enxergam “um” palmo além do nariz, imaginem enxergar “dois”...

Lutar por todos esses direitos que deveriam chegar até você (nós) sem nenhum protesto, nos tornam criminosos de alta periculosidade e sem direito a nada.
Brigar pela ascensão do meu povo, que além de sofrido que nunca teve nada, é pedir para ser morto, é pedir para ser noticia nas paginas policiais: Bandido é morto por policiais após reagir à voz de prisão, esse é o laudo pericial da morte de um revolucionário.

Querer educar meu povo em meu país, é como dar um golpe no estado, é cadeia mano, mas o estado dar um golpe em meu povo é sinônimo de regalias, luxurias e tudo mais que o dinheiro pode proporcionar.

Seres-humanos jogados e esquecidos em palácios como o Carandiru e aqui Penita II de Franco da Rocha , cheios de ratos, baratas, covardias, maldades e miséria. Custa dinheiro, mas pra onde vai toda essa grana, já que nossas condições são extremamente mas do que precárias?

De uma coisa tenho certeza, eu continuo pobre, ou melhor, bem mais pobre! Mais ai, em todas as coisas existe um lado bom, o sofrimento nos ensina várias coisas, entre elas, a riqueza da experiência e da paciência, ficar rico neste sentido é bem mais importante do que simplesmente ter dinheiro no bolso, o sofrimento te leva muito mais além.

Você passa a querer ensinar outras pessoas como o sistema trabalha, manipula e destrói, é preciso contar essa história, todos precisam saber e entender para que também venham a fazer parte desta tão esperada revolução.

Revolução essa, que trabalhamos a favor desde 1500 e que ganhamos força um século depois quando ainda eram vivos Zumbi, Anastácia e tantos outros irmãos descendentes de nossos ancestrais africanos.

Essa mesma força revolucionaria tem destaque nos EUA na década de 60 e lá estavam Malcom-X, Martin Luther King Jr e os Black Panther, na África estavam lá Estivie Biko, Nelson Mandela e outros, todas essas pessoas foram e continuam sendo muito importantes para o crescimento da nossa auto-estima, conhecimento e espírito guerrilheiro.

Precisamos conhecer e ter como exemplo o passado, a guerra existe, o medo não!
Precisamos ter forças e muito conhecimento para enfrentarmos essa guerra que com toda certeza, posso dizer que já não é tão mais fria assim!

Nos anos 70 nasceram mais soldados e já nasceram com uma missão, enfrentar de igual para igual, um traidor chamado Sistema.

A maioria desses soldados nasceu nas favelas espalhadas pela cidade de São Paulo, isso nos mostra que desde criança já conhecem doenças e seus sintomas, portanto, tudo que for dito por esses soldados á respeito de injustiça, sempre será ou terá um conteúdo verídico.

É bem verdade que esses soldados não foram muito além nos estudos pois, aqui é assim, quem estuda não trabalha e quem trabalha não estuda, diante as dificuldades financeiras, esses mesmos soldados optam por trabalhar.

Ótimo, o trabalho dignifica o homem, o torna valente faz com que ela compreenda as regras do jogo, 170 reais por mês.

Quanto à educação, foi muito mais refinada do que se estivessem estudado no melhor colégio do mundo, além de estarem vivendo na realidade, em suas vitrolas só se ouvia Jorge Bem, Geraldo Vandré, Caetano, Luiz Gonzaga, Gilberto Gil, Toni Tornado, Sandra de Sá, Roberto Carlos, Tim Maia. Diante disso estava prevista a continuação da luta em prol da revolução.

Hoje, quase 30 anos depois, esses soldados estão crescidos e lutando pela mesma causa de 500 anos atrás, a Liberdade, seja ela de qualquer espécie, mas que seja a Liberdade.

É necessário dar oportunidade para quem quer trabalhar, é preciso ter terra para quem quer plantar e contribuir, é necessário dar condições de sobreviver para o meu povo.

Nós precisamos mostrar para o sistema que também somos capazes de contribuir para a reconstrução de nossa sociedade, mas isso só será possível se nos empenharmos nos estudos e muito trabalho, cada um de nós temos que contribuir!
Todo e qualquer ser humano é capaz de produzir, basta que o sistema nos dê a oportunidade, é preciso que eles saibam que até no lixão uma flor pode crescer.

É preciso praticar o amor, só falar é muito fácil, temos que pratica-lo. Somente o amor salvará o mundo!

Esses soldados falam sobre, praticam e pregam o amor, porque não ajuda-los, ao invés de esconde-los ou proibi-los de fazerem o que mais gostam, que é cantar, escrever, falar, enfim de trabalhar?

Deixa-los ao Deus dará, em palácios, favelas ou periferias não é nada justo. Todos nós somos arrimos de falhas, todos nós erramos, todos merecem uma 2° chance.

Não escondam esses soldados em palácios, buracos ou porões, seres humanos não são vinhos!

Dexter - ex-integrante do 509-E, segue carreira solo, esta guardado na prisão de Franco da Rocha.

Colaborou:
Adunias e Cezar, D´Favela

As cores do talento

Projeto expõe no Palácio das Artes mais de 100 peças que traduzem em colorido e formas os trabalhos produzidos por estudantes da rede estadual em oficinas de artes plásticas
Thiago Herdy
Marcos Vieira/EM/D.A Press
Trabalhos da exposição aberta ontem têm como tema o corpo humano e buscam levar à reflexão sobre anatomia, pensamentos, medos e anseios.

Investimento que se concretiza em cores e formas. Os resultados das oficinas de artes plásticas do Programa Valores de Minas podem ser conferidos, desde ontem, no Espaço Mari’Stella Tristão, no Palácio das Artes, na Avenida Afonso Pena, 1.537, Centro de Belo Horizonte. Por lá estão expostas pinturas, esculturas, modelagens, desenhos e instalações produzidos por 40 jovens de escolas da rede pública estadual que participam da edição mais recente do programa, uma parceria do governo de Minas com o Serviço Voluntário de Assistência Social (Servas), iniciativa privada e entidades de classe.

A quarta exposição de trabalhos produzidos pelos meninos e meninas, desde o lançamento do programa, em 2005, tem como tema o corpo humano. Mais de 100 peças buscam levar à reflexão não apenas sobre anatomia, mas também em torno de pensamentos, medos e anseios presentes na vida do homem. A abertura da exposição ocorreu ontem à noite, com direito a apresentação de dança e teatro promovida por meninos que também participam do projeto.

“Defendemos um conceito macro, muito claro, de dar aos jovens a chance de usar a arte como ferramenta de transformação”, afirma o coordenador do Valores de Minas, Carlos Gradim, para quem a exposição tem dupla função: oferecer à população a oportunidade de conhecer o trabalho dos jovens que participam do programa e dar-lhes a chance de ocupar o espaço público. “Já houve família que ficou intimidada em entrar no Palácio das Artes. A idéia é descortinar esse espaço para a cidade”, conta o coordenador.

Talento e intimidade com a arte são elementos que unem as vidas de Isaac Fernando da Cruz, de 16 anos, e Glenda Alves Mendes, de 19, autores de vários trabalhos expostos na galeria. Estudante da Escola Governador Israel Pinheiro, no Bairro Durval de Barros, em Betim, na Grande BH, Isaac desenhava desde criança, principalmente em preto e branco. Está certo de que continuará traduzindo seu mundo por meio da arte pelo resto da vida.


Glenda mora no Bairro Independência, na Região Noroeste de BH. Para ela, os trabalhos são uma “forma de transmitir meus sentimentos, é um jeito de desabafar sem usar palavras”. Ela apresenta seis trabalhos individuais na exposição, “que falam sobre o corpo e coisas que, normalmente, as pessoas não notam”. Uma grande escultura, feita de cimento, é uma obra coletiva que contou com a participação de todos os jovens. Há muitas peças em gesso e auto-retratos.

A exposição ficará no Espaço Mari’Stella Tristão até o dia 21. Visitas de alunos de escolas públicas já estão agendadas para todos os dias. “O programa tem o intuito de servir de exemplo, de dizer que há uma possibilidade de reflexão”, explica Gradim. Os visitantes podem conhecer a mostra às segundas-feiras, de 18h30 às 21h, de terça a sábado, das 9h30 às 21h, e domingo, das 16h às 21h. Informações pelo telefone do Palácio das Artes: (31) 3236-7400.

O QUE

Definido pelos seus realizadores como “uma usina de cidadania que transforma a inquietude, curiosidade e as utopias de jovens mineiros em teatro, circo, música, dança e artes plásticas”, o Programa Valores de Minas já contou com a participação de mais de 2 mil alunos de escolas públicas estaduais. Os estudantes participam de oficinas de arte e cultura por um ano. Ao final, podem se transformar em multiplicadores do projeto em suas comunidades. A proposta vai além da experiência artística: história, literatura, ética e cidadania, também estão no currículo.

Cinema invade Sabará

Festival mineiro reúne obras de diretores que se dedicam à animação. A organização promete agradáveis surpresas para crianças e adultos
Walter Sebastião
Terpins Greco Estúdio/divulgação
Exposição no Teatro Municipal de Sabará mostrará maquetes e bonecos do filme A batalha, guerra do vinil, do diretor Rafael Terpins

Um novo evento estréia hoje: o Animará – Festival Internacional de Animação, realizado em Sabará. Será exibida cerca de uma centena de curtas-metragens, obras para crianças e adultos criadas por diretores brasileiros e estrangeiros com as mais diversas estéticas. As sessões começam amanhã e vão até o próximo sábado. A programação, gratuita, inclui oficinas, mesas-redondas e exposição.

Silvino Fernandes, coordenador da Casa de Animação, diz que a festa oferece amplos espaços para o visual, a ficção e a diversidade de técnicas de animação. “Vamos mostrar filmes de muita qualidade, tanto do ponto de vista do roteiro como no modo como se conta uma história. São obras de realizadores importantes, bem-feitas tecnicamente, com ambientes plasticamente maravilhosos. Há muitas surpresas”, garante.

“Priorizamos obras de linguagem fácil, com poucos diálogos, de entendimento tranqüilo, e outras que puxam pela imaginação e pelo intelecto”, explica. Os diretores têm, em média, entre 29 e 30 anos. “Mas já estão na estrada há algum tempo”, diz o coordenador do evento.

O enfoque internacional sinaliza a expansão mundial da linguagem de animação. “Hoje, ela está em toda parte, em filmes científicos, projetos de arquitetura, obras artísticas e projetos pedagógicos, criando panorama rico de questões”, afirma Silvino. Isso se deve às facilidades trazidas pelas novas tecnologias. A discussão sobre mercados para os produtos será o eixo das mesas-redondas do Animará.

Qual a importância de um festival de cinema? “Disseminar novos conceitos estéticos e visão de mundo ampla. É um trabalho de formação de público”, responde Silvino. O evento pretende fazer de Sabará referência em animação, “além de o Brasil olhar para Minas Gerais, pois está aqui a única universidade federal com curso de animação”, diz, referindo-se à Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

“Festival é oportunidade de, em pouco tempo, assistir a filmes do mundo inteiro. Não só as animações tradicionais, mas trabalhos realizados com as mais diversas técnicas, conhecendo o que está sendo feito com linguagem que, a cada dia, é parte da vida das pessoas”, garante o brasiliense Alê Camargo, roteirista e diretor de Rua das tulipas. Esse curta foi selecionado para o Siggraph, de Los Angeles (EUA), considerado a mais importante mostra de computação gráfica.

Exposição no Teatro Municipal de Sabará receberá todo o material (maquete de favela com quase 300 barracos, cerca de 30 bonecos e cenários internos) do filme A batalha, guerra do vinil, cuja trama gira em torno do confronto entre os DJs Air e Black Jamanta – um, veterano; o outro, iniciante. O curta virou seriado de TV com quatro episódios de cinco minutos. “Queremos desdobrar o filme. Já temos argumento para a continuação da série, para longa-metragem. O projeto ganhou o apoio do grupo de rap Racionais MC’s”, conta o diretor Rafael Terpins. A fita não será exibida em Sabará.

“O fascinante na animação é a poesia, a fantasia. É possível contar histórias sem se prender ao real”, afirma Abi Feijó, premiado diretor português. Um curta-metragem dele (“são longas de cinco minutos”, brinca) está na mostra relativa à animação em Portugal.


ANIMARÁ

Abertura hoje, às 19h30, no Teatro Municipal de Sabará, com apresentação de orquestra de viola e intervenção de dança contemporânea. Amanhã: palestra, às 16h, de Quia Rodrigues (TVE Brasil e programa Animania) e João Alegria (TV Futura), no Teatro Municipal. Às 19h, mostra internacional no Cine-tenda, Praça Melo Viana, Centro Histórico de Sabará. Informações: (31) 3674-8865.

Trabalho não deve se misturar com religião

CÂMARA MUNICIPAL


Sebastião Batista Sobrinho - Belo Horizonte

“Se o Estado é laico, não deveria constar do regimento interno da Câmara Municipal de Belo Horizonte a obrigatoriedade da leitura de um versículo da Bíblia para o início dos trabalhos. O Brasil é o país do fingimento na área política: eles fingem que estão preocupados com o Brasil e nós fingimos acreditar nisso. Não gosto de religião, creio em Deus. Ela é dirigida por homens comuns. O que há nos corações dessas pessoas – evangélicos e católicos, em sua maioria – que usam palavras de um livro dito sagrado e depois vão embora, ganhando um absurdo de salário, tirando dinheiro do erário que poderia ser utilizado para ajudar a alimentar criancinhas e tratar de doentes? Um dos vereadores até trancou a tramitação de um projeto de lei que trata da propaganda em determinados locais de nossa tão suja cidade. De que adianta rezar, pedir ajuda divina, se o que interessa é só encher os bolsos?”

HEMOFILIA


Portadores deveriam abandonar a procriação

José de Mattos Souza - Brasília

“Fala-se muito ultimamente sobre a hemofilia. Isto deixa claro o sofrimento dos portadores do mal. Também mostra que todos eles conhecem perfeitamente o porquê de tê-la: a hereditariedade. Uma pergunta que não quer calar: será que eles terão filhos? Têm a absoluta certeza de que algum, ou alguns, de seus descendentes vai desenvolver a hemofilia, contribuindo, assim, para a perpetuação do mal. Algum dia, alguém terá que fazer algo para interromper essa cadeia fatídica. Quem sabe, os laboratórios farmacêuticos – que faturam rios de dinheiro vendendo medicamentos para repor o Fator VIII – possam pensar em campanhas educativas que alcancem as crianças hemofílicas, para que, num futuro próximo, elas possam ser responsáveis pela eliminação da hemofilia na Terra. Por enquanto, só pensam em garantir uma vida melhor a quem sofre.”

O valor da identidade

Brasil é o país mais adiantado quanto ao número de aplicações de identificação digital no mundo virtual
Arnaud Laurans, Vice-presidente da Gemalto, líder mundial em segurança digital, na América Latina
O novo modelo para as carteiras de identidade, a ser implementado a partir de 2009, conforme anunciado recentemente pelo governo federal, abriu uma discussão: afinal, quanto vale a nossa identidade e o que está sendo feito para protegê-la? Sabemos que ela contém informações pessoais insubstituíveis e que tem um valor incalculável. Cada um de nós tem, em cada parte de nosso corpo, uma maneira de sermos reconhecidos. Esta identificação está em nossas impressões digitais, íris, arcada dentária e DNA, que podem ser chamados de características pessoais de segurança. Porém, como passar a mesma credibilidade para nossos documentos sem que estes sejam questionados sobre sua veracidade? Esta é a preocupação de diversas organizações, dos cidadãos e dos governos ao redor do mundo.

Para tentar chegar o mais perto possível de uma identificação segura, algumas soluções estão disponíveis no mercado e a que mais atrai a atenção das áreas governamentais de identificação é a tecnologia dos smart cards. Esses cartões inteligentes garantem mais segurança ao permitir o armazenamento da assinatura digital e de características biométricas num chip, que podem ser utilizados como meio de segurança no acesso físico a ambientes, bem como no acesso lógico a sistemas de informações. Diminuir a distância entre governo e cidadão, ampliar a oferta de serviços para a população, aumentar a segurança nas fronteiras, facilitar e controlar a distribuição de benefícios e não ter a preocupação que seus documentos sejam falsificados são alguns dos principais objetivos da adoção de meios digitais de identificação. Com o modelo eletrônico é possível, portanto, dar transparência e garantir a segurança em qualquer tipo de operação, evitando fraudes.

Estudo realizado pelo Home Office Identity Fraud Steering Committee, por exemplo, mostra que o custo de fraude de identidade para a economia britânica está em torno de R$ 7,6 bilhões por ano. Já no Brasil, estima-se que a falsificação das carteiras de identidade é responsável por 72% dos golpes nos bancos e comércios. Poder comprovar a veracidade de documentos de identificação é fundamental, principalmente quando a comprovação da identidade está atrelada ao recebimento de benefícios sociais ou habilitação de direitos, como o de conduzir um determinado veículo, por exemplo, ou até na hora de descontar um cheque.

Diversos países já utilizam o smart card. Portugal, por exemplo, adotou recentemente, após uma fase de testes, a identidade eletrônica. Ao utilizar o smart card, a população passou a se beneficiar com uma tecnologia de identificação com elevados padrões de segurança e que respeitam as diretrizes nacionais e comunitárias sobre a proteção dos dados dos cidadãos. Com a adoção desta tecnologia, o governo português substituiu a carteira de identidade e os cartões do contribuinte, de segurança social, de saúde e, assim que a lei do sistema eleitoral for revista, a meta é substituir também o título de eleitor. Batizado como Cartão do cidadão, a identidade se tornou um dos principais catalisadores da estratégia de modernização da administração pública do governo português.

Países como Bélgica, China, Japão, Estados Unidos, Arábia Saudita, El Salvador, França, México e Espanha, entre outros, também já aderiram aos documentos com chip para garantir a veracidade deles. O cenário na América Latina também é positivo. Pesquisas realizadas pela consultoria Frost & Sullivan mostram que o uso de identidade digital (ID) pelo setor público desta região tende a crescer mais do que outras aplicações tradicionais de smart cards, como telefonia e bancos. Na avaliação da consultoria, o mercado de ID vai saltar de 1% em 2005 para 15% em 2011. O Brasil é o país mais adiantado quanto ao número de aplicações de identificação digital no mundo virtual, criando um conjunto de normas conhecidas como ICP Brasil (Infra-estrutura de Chaves Públicas Brasileiras), que rege a certificação digital. Além da segurança oferecida, um dos motivos para que este tipo de operação seja realizado eletronicamente é a agilidade e a desburocratização na utilização dos serviços públicos. É uma questão de tempo, portanto, para que o Brasil também adote tecnologias mais seguras para a identificação física do cidadão.

Eleilson Leite: o Hip Hop nunca foi tão pop



Ouviram da rua Vinte e Quatro de Maio, no Centro de São Paulo, de um microsistem surrado, uma batida retumbante e ritmada: tum, tistac, tum, tistac tum. Eram os primeiros sinais da cultura hip hop no Brasil, 25 anos atrás. Ali, na esquina com a rua Barão de Itapetininga, tinha um piso liso redondo de uns quatro metros de diâmetro, em meio ao calçadão áspero e quebradiço.

Por Eleilson Leite, no Le Monde Diplomatique Brasil



A superfície lisa atraiu os b-boys liderados por Nelson Triunfo. O povo se aglomerava para ver a novidade. A dança era chamada de robô. Popularizada por Michael Jackson, ficou logo conhecida como break. Os manos eram da periferia, quase todos pretos. Não deu outra. A polícia colou e desfez a roda. A fama, porém, já tinha se alastrado. Triunfo, que já era figura conhecida dos bailes black dos anos 70, virou um astro. Até em abertura de novela da TV Globo o cara apareceu.s

A roda de b-boys ressurgiu tempos depois no pátio da Estação São Bento do Metrô (pelos idos de 85) e também no Largo São Bento, em frente ao mosteiro dos beneditinos, onde, um dia desses, o Papa se hospedou. Já não eram mais apenas dançarinos. Agora tinha os MC’s. Na falta de DJ’, o som rolava nos toca-fitas e no embalo do Beat Box (batida de DJ produzida pela boca).

Em 1988, surge a primeira Coletânea de Rap e o movimento enfim se estabelece como cultura hip hop juntando o b-boy (dançarino), o MC (rapper), o DJ e o grafitti. Em 1990, o Racionais MC’s lança seu primeiro disco. O hip hop cresce de forma avassaladora durante toda a década, tendo seu ápice em 1997, com o lançamento do disco Sobrevivendo no Inferno que posicionou o grupo como a maior e mais importante expressão do rap no Brasil.

A ampliação da presença da cultura hip hop até então vinha muito acompanhada do engajamento. A dimensão do protesto era uma marca indissociável daquele movimento. “Sou apenas uma rapaz latino americano apoiado por mais de 50 mil manos”, diziam os Racionais, que se apresentavam como “terroristas da periferia”, “efeito colateral que seu sistema fez”.

Os manos cultivavam uma expressão indignada, cara marruda. O rap era uma metralhadora com pente carregado. O sentido de ser da periferia se expressava, naquele tempo, principalmente pelo ódio às elites e ao Estado, que empurraram os pobres para os fundões da metrópole.

Essa contundência, porém, já não tem o mesmo apelo de outrora. Nesta primeira década do século 21, assistimos o hip hop virar cada vez mais pop e menos engajado. A pegada da denúncia mantém seu ímpeto, mas o show business passou a fazer parte da cultura hip hop e a ditar muitas tendências nesse meio.

Fazer um rap não tem mais como inspiração apenas a denúncia. Os MC’s também movem-se por motivações comerciais, para compor. O que não é ruim. Pelo contrário: os manos estão sacando que podem e devem fazer sucesso e gozar do seu prestígio como fazem, há tempos, os rappers nos EUA. Ser da periferia também não significa apenas pobreza e violência para os manos e minas. Há muitos prazeres nos becos e vielas do subúrbio e essas delícias têm aparecido cada vez mais nas composições atuais do rap paulistano.

O que se vê hoje é que a cultura hip hop está bombando como nunca. Cabe é manter uma reflexão permanente sobre seus princípios e sua essência. É importante fortalecer os grupos de base, as posses, que são as típicas organizações de hip hop. Para conferir todos os aspectos dessa cultura, fruir e discutir o que rola atualmente há, nada menos do que dez eventos na região metropolitana de São Paulo.

Um já começou e os demais rolam a partir desta sexta, 25/7, até a terceira semana de agosto. É uma overdose. O pessoal do hip hop deve gostar das baixas temperaturas do inverno paulistano. Não por acaso, os Racionais cantavam: “Faz frio em São Paulo / Pra mim tá sempre bom / Eu tou na rua de bombeta e moleton”. Quer conferir e se aprofundar num dos maiores fenômenos culturais de nosso tempo? Respire fundo e acompanhe a agenda:

Teatro Hip Hop – 5x4: Particularidade Coletivas – Tendências da Cultura Popular Urbana - Trata-se de um projeto super-conceitual, concebido e realizado pelo Núcleo Bartolomeu de Teatro, que há quase dez anos vem desenvolvendo uma pesquisa sobre o teatro Hip Hop. Entre os membros da companhia está o DJ Eugênio de Lima, que teve atuação destacada na construção do evento. No espaço 5º Andar da unidade do Sesc na Avenida Paulista, rolam desde 20 de junho, e seguem até 10 de agosto, espetáculos de teatro, oficinas, discotecagens, bate-papos e cinema. Há também a exposição Linha do Tempo, que começa em 1973 até os hoje mostrando a evolução do hip hop. É bacana, a parada. Vale à pena conferir. Dá tempo de ver ainda dois espetáculos, entre eles Cindi Hip Hop – Pequena Ópera Rap (estréia dia 01). Nas discotecagens, que rolam sempre às quartas, teremos ainda dois DJs: Willam Robson (30/07) e Luaa Gabanini (06/08). Talvez a apreciação fragmentada da programação não dê ao público a possibilidade de se apropriar do conceito do evento, mas a leitura do catálogo ajuda a entender a idéia.

Suburbano no Centro – É a quarta edição do evento organizado e apresentado pelo escritor e agitador cultural Alessandro Buzo, que comanda o quadro Buzão Circular Periférico, no programa Manos e Minas. A parada rola nesta sexta, 25/7, no auditório da ONG Ação Educativa. O evento, que começou num sebo do Centrão, transferiu-se desde junho para a Vila Buarque, também na região central, e mudou sua concepção. Buzo, que organiza o tradicional Favela Toma Conta, grande evento de rap realizado quadrimestralmente no Itaim Paulista, pretende, com o Suburbano no Centro, abrir espaço para novos grupos de rap mostrarem seu trabalho. São dez atrações: Sniper, Almas Errantes, ROMS, Mano Rogério, Triste realidade, Teoria da Rua, Banca 121, Walter Limonada, Ebenezer e Toroká. Cada grupo apresenta uma música apenas. Quem quiser ouvir um rap com aquela pegada anos 90, cola nesta sexta, que a diversão é garantida e gratuita.

Harmônicas Batalhas – Finalíssima do campeonato que começou em março e teve várias eliminatórias realizadas nas quatro regiões da capital. Serão cinco batalhas reunindo bboys e bgirls. Não é homem contra mulher. É tudo junto e misturado, dentro das crews que disputam o título. O evento acontece no Tendal da Lapa neste sábado, às 17h, com pocket show e performance do DJ Guinho. À noite, a partir das 22h, rola a festa de encerramento deste grande evento organizado pelo Instituto Voz, com apoio do Programa de Ação Cultural (PAC)de São Paulo. A balada será no Centro Cultural e Popular da Consolação (CCPC) .

Hip Hop em Ação – Especial de aniversário da Casa do Hip Hop de Diadema. Este espaço, pioneiro no Brasil em termos de política pública (a Casa é um equipamento da Prefeitura local), realiza todo último sábado do mês seu já tradicional evento. Na ocasião, será lançada a coletânea Uma só Voz – Mantendo o Hip Hop Vivo, produzido pela Zulu Nation Brasil, ONG formada a partir do movimento hip hop do ABC. Vai rolar muito rap, performances de DJ’s, graffiti e dança. A Casa do Hip Hop é um reduto do hip hop autêntico, fiel aos seus princípios. Lá, é um por todos e todos por um. Nenhum elemento do hip hop é mais importante que outro e onde tem um, tem todos. Vale a pena chegar em Diadema e curtir a programação, que começa às 12h e vai até às 2Oh.

DMC Brasil – Reconhecido como o primeiro e mais importante campeonato mundial de DJ’s do Mundo, o DMC começou nos anos 80, na Inglaterra e EUA, e se espalhou por mais de 25 países, chegando agora ao Brasil. Neste domingo, rola a finalíssima, com mais de dez concorrentes selecionados em eliminatórias anteriores, envolvendo DJ’s de várias partes do Brasil. O evento tem a curadoria do DJ Pogo, que é inglês e foi vencedor mundial em 1997. O cara anda sempre por aqui e se juntou à Panteras Produções para realizar o DMC no Brasil. O evento é uma super produção, cercada de grandes patrocinadores, muito glamour e apelo midiático. A parada rola no Pacha SP, espaço de festas descoladas na Vila Leopoldina. O ingresso é caro para os padrões da cultura hip hop: R$ 50,00, para homens. O DMC não se restringe ao Hip Hop, mas tem nele sua principal inspiração. Quem puder conferir vai ter show do DJ inglês Cash Money, campeão mundial em edições dos anos 80 do DMC e o DJ brazuca KL Jay (Racionais MC’s).

8ª Semana de Cultura Hip Hop – Pelo oitavo ano consecutivo, a Ação Educativa realiza o evento que já se tornou um dos mais importantes de São Paulo. Começa nesta segunda-feira, 28/7, e segue até sexta, 1º/8, sempre das 13h às 22h. A programação tem festival de basquete de rua, oficinas, mostra de filmes, apresentações artísticas, debates e palestras. O tema deste ano é Hip Hop: caminhos para educar. Na quinta-feira, rola o Projeto Hip Hop Mulher, que lançará o CD Realidades, produzido pela rapper Atyeli Queem . Na mesma sessão, a DJ espanhola Delise fará uma aula-espetáculo. No show de encerramento, que acontece no Sesc Consolação, tem 9 atrações, entre elas o espetáculo Dos Tambores aos Toca-Discos com o DJ Erry-G.

Sarau do Rap – Há mais de um ano, toda última quinta-feira do mês, o poeta Sergio Vaz realiza, em parceria com a Ação Educativa, este sarau, voltado exclusivamente a rimadores e rimadoras do rap. É um espaço de exercício da criação poética. Rap é ritmo e poesia. Mas nessa noite, evidencia-se a poética das letras. Sem música, os MC’s declamam suas composições, compartilhando seu talento literário. Vaz, que há sete anos fundou o Sarau da Cooperifa, um dos mais importantes da cidade e o maior da periferia, sabe como poucos criar um clima de intensa magia em torno da palavra. É bonito. E nesta quinta, 31 de julho, vai ter surpresa. Apareçam.

1º Encontro de DJ’s de Hip Hop – Um evento inédito reunirá, em 2 e 3 de agosto, 35 DJ’s da região metropolitana, no Centro Cultural São Paulo. Tem a curadoria do DJ Erry-G . Na programação, oficinas, performances, shows, entre outras atrações, ocupando vários espaços do velho e bom CCSP, inclusive a Praça das Bibliotecas. É tudo gratuito. A DJ espanhola Delize vai estar por lá nos dois dias. O DJ CIA também passará, mas só no sábado. Na noite do dia 2, rola uma balada no Sambarylove, agitada casa noturna do Bixiga. No evento será lançado o Mapa Cultural da Periferia – Edição DJ’s de Hip Hop, um produto derivado da Agenda Cultural da Periferia. Realizada pela ONG Ação Educativa a publicação apresenta o perfil de cinqüenta DJ’s de Hip Hop, sendo dez mulheres. O encontro de DJ’s tem a parceria do Centro Cultural da Espanha, além do CCSP.

15º Cedeca Hip Hop em Festa – Certamente, este é o mais antigo evento de hip hop de São Paulo entre os ativos. Um marco. Acontecerá, como sempre, no primeiro domingo de agosto, dia 3. Começou em 1993, tendo como organizador o Cedeca Sapopemba, na Zona Leste. Tem basquete de rua, apresentações de diversas crews, mais de vinte grupos de rap, grafitti, muita animação e discussões sobre questões de interesse da juventude da periferia.

Hip Hop DJ 2008 – A arte dos toca discos. Evento organizado pela 4P, que tem entre os sócios o Rapper X e o DJ KL Jay. Acontece desde 1997 e é o mais importante campeonato de DJ’s do Brasil. As seletivas acontecerão nos dias 20 de agosto e 3 de setembro, no Studio SP, uma casa noturna muito parceira dos artistas do hip hop. As inscrições já estão abertas. Este evento já revelou feras como o DJ CIA. Nas batalhas é que se desenvolve a habilidade no manejo das pick ups. A participação nesses eventos acaba por posicionar o DJ de Hip Hop entre os mais virtuosos nos scratchs. E já tem aqueles quase imbatíveis. Nas últimas cinco edições houve apenas dois ganhadores. DJ Tano conquistou nos anos 2003, 2004 e 2005 e o DJ Erick Jay defende o bicampeonato de 2006 e 2007. Os dois podem ser vistos no Encontro de DJ’s de Hip Hop, no CCSP.

Perdeu o fôlego? É hip hop até umas horas. Não há dúvida do vigor dessa cultura, sua influência e permanência na cena pop contemporânea. Mas a polêmica está colocada. Há quem diga que o hip hop está perdendo espaço nas periferias para o funk pancadão. Outros falam que a mídia, ao incorporar a cultura, acaba por deformar sua essência.

Talvez não tenhamos que ficar numa discussão principista sobre os fundamentos da cultura hip hop. O fato é que ela resiste e se reinventa a todo momento. Tampouco cabe uma dicotomia arte/engajamento. Até porque não convém essa separação.

Ganhar dinheiro e ficar famoso não é problema. Que haja mais filmes como Antonia. Que o Programa Manos e Minas alcance picos de audiência. Que o MV Bill continue aparecendo na Globo. E que também os Racionais MC’s continuem vendendo centenas de milhares de discos e arrastando multidões sem aparecer na mídia.

Tudo que os artistas do hip hop puderem alcançar será pouco, diante do que merecem esses jovens (alguns, já nem tanto) das quebradas e que viveram segregados desde crianças vendo seus pais comerem o pão amassado no buzão lotado. Hip Hop é, por excelência, uma cultura da periferia. O que não pode é perder a humildade, dignidade e proceder. E essa é uma lição que os manos e as minas sabem de cor. Vida longa ao Hip Hop!



Cooperifa: leia o livro, veja o filme e ouça o disco



O Sarau da Cooperifa, que acontece todas as quartas-feiras no Bar do Zé Batidão, Chácara Santana, periferia da Zona Sul de São Paulo, não pára de surpreender. Não bastasse a ousadia de sua existência e longevidade (comemora sete anos neste inverno), esses poetas acabam de ter sua história registrada em livro e filme documentário.

Por Eleilson Leite, no Le Monde Diplomatique Brasil



Sergio Vaz, criador e criatura deste Sarau, lançou, no dia 20 de agosto, o livro Cooperifa – Antropofagia Periférica, dentro da Coleção Tramas Urbanas, da Editora Aeroplano, do Rio de Janeiro.

Já o filme, Povo Lindo, Povo Inteligente – O Sarau da Cooperifa, lançado no dia 1º de setembro, no Cinesesc, foi dirigido por Sergio Gagliardi e Maurício Falcão, numa produção da DGT Filmes. As duas obras somam-se ao CD Sarau da Cooperifa, lançado em 2006 pelo Itaú Cultural, que reproduziu em estúdio a magia da poesia declamada por 26 poetas cooperiféricos.

Este CD, por sua vez, foi precedido pela coletânea Rastilho de Pólvora, lançada no finalzinho de 2005, com o apoio da mesma instituição. Esgotada há muito tempo, essa coletânea já está com os originais prontos para lançamento de um segundo volume.

Sergio Vaz escreveu um livro de memória, uma autobiografia poética. Ele parte de sua infância, a vida na periferia, a escola, futebol, os primeiros bailes, o trampo no bar de seu pai, o mesmo bar do Zé Batidão. Então, a adolescência inocente encontra-se com a adulto insurgente. Veja. Depois de serem despejados do Garajão, bar no Taboão da Serra onde o Sarau firmou-se nos dois primeiros anos, Vaz não teve dúvida: Zé Batidão.

O atual proprietário do bar comprou o estabelecimento do pai do Sergio Vaz ainda na década de 1990, e lá o poeta fez alguns eventos no início de sua carreira literária, anterior à Cooperifa — inclusive o lançamento de seu terceiro livro, Pensamentos Vadios. O Zé acolheu os poetas e até viabilizou um transporte para a galera vir do Taboão. Não saíram mais de lá. Essa e outras histórias, contadas no livro, ganham imagem no filme.

Centrado na figura de Sergio Vaz, o livro não deixa de registrar a participação dos que estavam junto dele. Generoso que é, o poeta dá nome a todos e todas que fizeram e fazem a história da Cooperifa. Na primeira noite do recital de poesia, ele dá a escalação do time. Não passava de 15 pessoas. Quando o sarau aportou no Zé Batidão, a lista de nomes era infindável, e ocupa quase uma página do livro. Estão quase todos lá, segundo Vaz, que já não confia tanto na lembrança.

O livro é saboroso. É daquelas obras que a gente lamenta quando chegam ao fim, como a de um amigo que nos fazia uma boa companhia e de repente se foi. Vaz escreve poesia em prosa. Para quem tem o prazer de conhecê-lo, é como se estivéssemos ouvindo tudo pessoalmente. Ele só não registra bem as datas deixando a mim, historiador de formação, um tanto aflito.

O documentário aborda o Sarau a partir do depoimento de alguns de seus freqüentadores. As câmeras partem do cotidiano de cada um, seja em suas casas, seja no trabalho; persegue o poeta até a Cooperifa e registra o êxtase que é, para um autor, declamar um poema diante de uma platéia sedenta, atenta e rigorosa.

Cada poesia provoca uma avalanche de aplausos. Captadas com enorme sensibilidade, as imagens do filme Povo Lindo, Povo Inteligente revelam a fúria, a doçura, a alegria, o escárnio, a paixão e todos os sentimentos que afloram em quem declama e em quem ouve a poesia. É muito bonito.

Um desavisado ficaria surpreso ao ver qualquer dos protagonistas do filme declamandos poema num Sarau. Estão lá a Rose (musa da Cooperifa), falando de sua relação com a poesia da mesa do escritório onde trabalha como secretária. Ela, que no começo não se arriscava nos versos, foi se soltando e se envolveu tanto com a literatura que voltou a estudar. Rose relata com especial encanto o dia em que anunciou que ficaria afastada dos encontros poéticos, por causa das aulas. O Sarau da Cooperifa transforma vidas.

Jairo Barbosa, taxista de profissão, hoje educador na Fundação Casa, também dá seu depoimento, no sentido da mudança de perspectiva que teve ao começar a freqüentar o Sarau. Já o "seu" Lourival, aposentado que fez 70 anos em 2008, conta o quanto se delicia com o ato de declamar sua poesia.

Casulo é outra figura. O cara é funileiro, tem um fusca customizado, para usar um termo na moda, chega no sarau com uma leveza de espírito cativante e manda uma poema de crítica social contundente sem perder a ternura. É bola num canto e goleiro no outro; o povo vai ao delírio.

Assim como o filme, o livro do Vaz traz diversos poemas transcritos — dele e de muitos poetas. São obras documentais, porém impregnadas pelo objeto de observação: a poesia e a memória. A lembrança é um fio que não tem fim, um novelo perpétuo, uma história puxa a outra.

Quando nos damos conta, estamos tão envolvidos que nos sentimos parte do lemos ou vemos. Sergio Vaz, Maurício Falcão e Sergio Gagliardi conseguiram o que queriam. Juntaram memória e literatura numa sinergia perfeita e envolvente.

É certo que nada supera a realidade. Portanto, leiam o livro, vejam o filme, ouçam o CD, mas não deixem de ir à Cooperifa. Lá a gente entende o que a jornalista Eliane Brum diz em mágicas palavras, no seu depoimento no livro do Sergio Vaz: “Não é sempre que a gente testemunha a história em curso, percebe o instante exato em que o mundo balança. A Cooperifa é isso, um abalo sísmico a partir de uma esquina de quebrada”.

Não é sempre que um movimento cultural consegue a façanha de produzir tanto. E a Cooperifa é uma árvore frondosa de abundantes frutos. Muitos outros movimentos começaram a partir dela ou dela se serviram para se afirmarem.

A idéia contemporânea de cultura de periferia deve muito à Cooperifa. Felizmente isso está registrado, graças à generosidade de pessoas e instituições que se juntam ao movimento para fortalecer sua autonomia e não para se apropriar ou tutelar. Assim acontece com a DGT, Editora Aeroplano, Itaú Cultural, Sesc, Global Editora, Ação Educativa, Casa das Rosas, ASSAOC, prefeituras de Taboão da Serra e Suzano — entre outras instituições públicas e privadas, com ou sem fins lucrativos.

A Cooperifa, graças principalmente à liderança e capacidade de negociação de Sergio Vaz, consegue agregar apoiadores que se tornam parceiros, que depois se tornam amigos e que, enfim, se tornam parte do movimento.

A Cooperifa concede, desde 2005, um simpático prêmio no final do ano a todos os que contribuíram para uma periferia melhor. Quando a Ação Educativa recebeu pela primeira vez a homenagem, dissemos lá que os prêmios servem para distinguir as pessoas — ou seja, colocá-las em outro plano, acima dos demais. O Prêmio Cooperifa, não. Ele serve para colocar a gente no mesmo nível dos demais, fazendo parte de um grupo onde ninguém é mais que ninguém, uma família.

E a família Cooperifa não para de crescer. O livro e filme que acabam de sair vão servir para agregar mais e mais gente e fortalecer ainda mais esse movimento. Preparem-se. Vem muito mais por aí. Sergio Vaz e sua trupe são muito abusados.



HORÁRIO ELEITORAL


Contribuinte não crê em gratuidade

Sebastião Ferreira da Silva - Belo Horizonte

“Mais uma grande e antiga mentira brasileira: a gratuidade do horário eleitoral no rádio e na TV, além da própria mentira que ela representa. Faz-se referência, a todo instante, ao horário eleitoral gratuito. E o povo acredita na benevolência das empresas de rádio e televisão. Não existe, no mundo capitalista, absolutamente nada grátis, gratuito, de graça. Alguém tem que pagar, sempre. No caso da propaganda eleitoral, quem paga é o povo, o contribuinte, porque o Estado (União) fica sem arrecadar parte do Imposto de Renda devido pelas empresas de rádio e televisão, que deixam de pagar o imposto para ceder o horário, com a chamada renúncia fiscal.”

Fogueira do desencanto

A conquista do sucesso, identificado como felicidade, inclui a terrível dinâmica da eliminação do outro
Dom Walmor Oliveira de Azevedo, Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte
Fogueira do desencanto! Parece ser alusão ao linguajar de rituais religiosos que usam das estratégias próprias do mercado para vender produtos e atrair os clientes. Na verdade, é uma expressão do linguajar de especialistas que, em campos próprios do saber, buscam explicitar o que está se passando no coração humano e no coração da cultura contemporânea. Aliás, as análises da cultura contemporânea tendem a abordar, quase exclusivamente, os aspectos e perspectivas que mostram as conseqüências desastrosas dos desdobramentos sociais, econômicos e políticos. A pátria, por exemplo, tem coração. O coração da pátria é sua cultura. Esta cultura ultrapassa as significações e alcances de tudo o que diz respeito aos números de composição de sua natureza e de suas reservas. A cultura como coração da pátria define os rumos e as dinâmicas de organização de um povo e seus hábitos no tratamento de suas coisas, podendo progredir, regredir ou causar desastres ecológicos e humanos, sociais e políticos de alta monta.

É incontestável, pois, que é preciso noticiar, propagar e pôr sobre a mesa, em discussão, também o que diz respeito à cultura como coração da pátria e, por conseqüência, o coração dos cidadãos e cidadãs que configuram a pátria. Aqui, neste âmbito de análise, o coração dos cidadãos, coração da pátria, se localiza bem, sem nenhuma prévia conotação de ordem religiosa, o que significa fogueira do desencanto. Trata-se da configuração cultural contemporânea. A cultura contemporânea vive o frenesi de um clamor gritante que no coração humano ressoa como imperativo de que todos devem gozar, sempre e intensamente. Os especialistas que estudam este grave fenômeno advertem que a dinâmica desta compreensão da vida como gozo é tão forte e hegemônica que esta busca deve ser atingida, está aí o comando forte, não importa como. Este não importa como está alimentado pelo discurso capitalista pós-moderno. Todo prazer possível deve ser alcançado e não deve ser interditado.

Neste horizonte, se constata a força alucinatória da satisfação gerando estranhezas, vertentes paradoxais, o horror da morte, a necessidade de organizar a vida sem limites para poder alcançar, a tempo e a hora, o que se quer e do jeito que se deseja. O desejo se torna tirânico. Esta tirania do desejo alimenta a depressão e a angústia dos corações, instâncias insubstituíveis para a presidência da vida com sentido de cidadania e dignidade. Este quadro tem complicações em se considerando o empobrecimento das razões que sustentam a esperança e norteiam os caminhos a serem percorridos. É óbvio que uma cultura configurada assim não se sustentará, esvaziando razões políticas, filosóficas, éticas e religiosas para edificar compreensão e vivência com nobreza e profundo sentido social. É incontestável, portanto, que as razões que dão sentido são aquelas do mercado, atiçando o desejo para vôos alucinatórios. As dinâmicas da cultura do individualismo competitivo passam a presidir projetos de vida, sentimentos, as relações entre as pessoas e os entendimentos a respeito de responsabilidade social e participação política.

Ora, o indivíduo é levado pelo desejo desenfreado da felicidade. A felicidade é entendida sempre como sucesso. A conquista do sucesso, identificado como felicidade, inclui a terrível dinâmica da eliminação do outro. É a eliminação moral, física ou profissional. Curiosamente, esta dinâmica, no entanto, não traz a saciedade desta felicidade procurada a todo custo. Não traz porque o discurso é estéril e inconsistente para sustentar o desabrochar de uma alegria duradoura e a conquista de um prazer que não seja fracassado. O resultado de tudo isso é uma cultura marcada pela angústia e pela depressão camufladas em promessas ou projetos de muita fachada; em busca desarvorada pela garantia de uma auto-imagem intocável e de comodidades garantidas. Há, pois, neste quadro de complexidades um comprometimento da existência como substrato de uma cultura cidadã e nobre.

Aí está a fogueira do desencanto incomodando muita gente e sendo encoberta por muitas coisas que só têm fachada, mesmo quando contabilizam números que impressionam e configuram cenários que comprovam avanços. Os especialistas destas análises apontam que esta cratera deste amplo vazio deve ser enfrentada, para sua superação, dando suporte à cidadania que a pátria precisa ter, com uma consistente dimensão política, estética, filosófica, ética e religiosa. Particularmente, estas dimensões, ética e religiosa, têm, na proposta da fé cristã, uma resposta garantidamente fecunda. Na contramão do alucinatório desejo que reacende a fogueira do desencanto, está a indicação da experiência de ser discípulo. O outro é o Mestre, Jesus Cristo, dando uma nova dimensão à vida, pela experiência de encontro com Ele. Este encontro é um encantamento inigualável para fecundar a cultura da pátria.

Desigualdade Social 2


Desigualdade começa na renda e vai até a saúde
Cristina Horta/EM/D.A Press - 15/7/08
Maria Pinheiro ganha três vezes mais que o marido: "Os homens querem deixar o pesado com as mulheres"
Apesar do aumento de renda registrado no Brasil na última década, a melhoria de vida não foi igual para todos. Segundo a pesquisa do Ipea, os negros ainda ganham a metade da renda (R$ 502) de um homem branco (R$ 986,5), em média. Já as mulheres em 2006 tinham uma renda média de R$ 577, o equivalente a dois terços da renda de um homem.

E as desigualdades continuam também na expectativa de vida. Mulheres brancas vivem mais e os homens negros são o grupo com menor representação entre as pessoas acima dos 60 anos de idade. Em 2006, enquanto 9,3% das mulheres negras tinham 60 anos ou mais de idade, entre as brancas essa proporção era de 12,5%. No grupo masculino, a tendência é similar. Em 1993, os negros com 60 anos ou mais correspondiam a 6,5%. Em 2006, a 7,8%. Entre os brancos, no entanto, os idosos passaram de 8,2% para 10,6% cento no mesmo período.

Euler Junior/EM/D.A Press - 24/07/08
Geraldo trabalha desde os 13 anos, mas só aos 23 começou a pagar o INSS: "Brancos têm mais oportunidade"

Os negros trabalham durante mais tempo ao longo da vida, entrando mais cedo e saindo mais tarde do mercado de trabalho. “Os brancos têm mais oportunidade na vida. Na minha opinião, as chances deveriam ser iguais para todo mundo”, afirma o mestre de obras Geraldo Alves da Rocha, de 46 anos. Ele trabalha desde os 13 anos como pedreiro, mas só aos 23 começou a pagar o INSS como autônomo. “Trabalhava com biscate e o que sobrava não dava para pagar a previdência”, explica ele, que, em tese, poderia se aposentar em dois anos, mas terá de contribuir por mais 13.

ELETRODOMÉSTICOS Hoje, já é possível encontrar geladeira e fogão na maioria dos lares brasileiros, mas enquanto somente 5,5% dos domicílios chefiados por brancos não possuíam geladeira, essa situação alcança 17% dos lares chefiados por negros, apesar de serem bens de primeira necessidade.

Outro forte indicador da discriminação é que 69% dos domicílios que recebem o Bolsa Família são chefiados por negros. Em relação aos dados do Sistema Único de Saúde (SUS), percebe-se também uma diferença significativa entre a população branca e negra. Para os brancos, 54% dos atendimentos e 59% das internações foram cobertos pelo SUS. Para os negros, as proporções foram de 76% e 81,3%, respectivamente. Segundo a pesquisa do Ipea, a população negra é SUS-dependente.

OUTRA REALIDADE


Mulher é a nova chefe do lar
De 1993 a 2006, total de famílias formadas por casais com filhos e comandadas por elas cresceu mais de 10 vezes, de 200 mil para 2,2 milhões, reflexo do avanço das brasileiras no trabalho
Sandra Kiefer
RETRATOS DA VIDA

O homem está deixando de ser o chefe da casa, dividindo esse papel com a mulher e até transferindo para ela as responsabilidades de sustentar e cuidar dos filhos. No Brasil, o total de famílias formadas por casais com filhos e chefiadas por mulheres cresceu de pouco mais de 200 mil, em 1993, para 2,2 milhões em 2006. Em 13 anos, esse novo modelo da família brasileira expandiu 10 vezes, evoluindo de 3,4% para 14,2% do total de lares brasileiros, segundo a pesquisa Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça, elaborada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em parceria com o Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher.

Não há dados suficientes no estudo para explicar se essas mulheres estão trabalhando fora e o homem cuidando da casa, ou se elas passaram a ganhar mais que o marido e se sentem mais confiantes para tomar decisões. “Fato é que as mulheres estão sendo reconhecidas como chefe dentro de um casal e que essa mudança ocorreu em espaço curtíssimo de tempo. Uma transformação cultural dessa ordem costuma levar mais de uma geração para acontecer”, compara a antropóloga Alinne Bonetti, pesquisadora do Ipea. Segundo ela, a virada das mulheres reflete uma mudança mais profunda em curso nas convenções sociais e nos valores da sociedade brasileira. “Na época dos nossos avós, as mulheres ainda se sentiam vitimadas, levadas a cumprir as expectativas sociais em relação à ética do cuidado da casa, dos filhos, dos doentes.”

Moradora do Conjunto Santa Maria, a doméstica Maria Pinheiro de Oliveira não sente o menor constrangimento em dar as ordens dentro de casa. Ela ganha R$ 870, quase três vezes mais em relação ao companheiro, pai de três dos seus sete filhos. Ele recebe R$ 350 fazendo bicos como servente de pedreiro. “Se eu ganho mais do que meu marido, ele é que devia achar ruim. Mas ele não está nem aí”, despreza ela, que trabalha de dia como doméstica e, à noite, ainda cuida de uma idosa de 84 anos. No intervalo de 16h às 22h, cuida da casa e dos filhos entre 9 meses e 21 anos, que ajudam nas tarefas domésticas. “Os homens de hoje querem tirar o pé fora e deixar o pesado com as mulheres”, completa ela.

Dentre os novos arranjos familiares, a pesquisa detectou também um ligeiro aumento das famílias formadas por homens cuidando sozinhos dos filhos. Na última década, esse modelo cresceu de 2,1% para 2,7%. “Embora tímido, o crescimento dessas famílias masculinas tem sido acompanhado de perto por pesquisadores por ser um indício de mudanças comportamentais no que se refere aos padrões hegemônicos da masculinidade brasileira. Ele assume a responsabilidade tanto pela provisão quanto pelo cuidado da sua prole”, diz o levantamento, que teve como base os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 1993 a 2007. Nesse estudo, ainda não foram incluídas outras configurações familiares, como por exemplo os casais gays, que devem entrar na próxima Pnad.

A maior representatividade das mulheres nas famílias tem uma correlação direta com sua entrada no mercado de trabalho, que as levou a ter o próprio salário e a dividir as despesas com o marido. Com pouco mais de 30 anos do movimento feminista, datado a partir de 1975 no Brasil, mais da metade das mulheres em idade ativa (52,6%) estavam trabalhando em 2006 (ante 46% em 1996), segundo o levantamento do Ipea. Apesar de ter escolaridade superior e ocuparem cada vez mais espaço no mercado de trabalho, os homens ainda têm melhores cargos e salários.

Muitas dessas mulheres que trabalham também exercem funções que exigem menor capacitação, como o trabalho doméstico remunerado. Em 2006, do total de ocupados somente 0,9% dos homens se dedicavam ao trabalho doméstico remunerado, mantendo a mesma tendência observada na década. Em contrapartida, nesse mesmo ano, do total de mulheres ocupadas, 16,5% desenvolviam esse trabalho. Mesmo revelando um discreto recuo de um ponto percentual em relação a 1996, o padrão se manteve.

A taxa de desemprego é pior para as mulheres e também para os negros, que apresentam os maiores níveis de desocupação – 11,0% e 7,1%, respectivamente. Para os homens, o índice é de 6,4% e de 5,7% entre os brancos. As mulheres negras constituem, portanto, o segmento que se encontra em situação mais vulnerável.

Morador conta como milícia tomou conta de favela no Rio



A nova ameaça à segurança no Rio de Janeiro vem justamente de quem deveria proteger o cidadão. Policiais e políticos são acusados de chefiar as chamadas “milícias”, que se espalham pelas regiões mais pobres para explorar a população.



Alguns moradores são expostos a situações de humilhação. Na reportagem do " Jornal Hoje " desta segunda (8), um homem conta que viu a milícia chegar para dominar a favela onde mora.


“A entrada da milícia foi assim, uma ocupação militar. E eles, a princípio, não cobraram nada. Inclusive, chegaram oferecendo cesta básica para as pessoas mais necessitadas. Aí, depois fizeram uma grande reunião com o pessoal da comunidade e daí eles começaram a ditar as regras que iam funcionar daqui pra frente”, disse um morador não identificado pela reportagem.


E as regras dos grupos de milícia são duras, como conta outra moradora. “A lei é deles. A gente só tem que obedecer, igual bandido. Só que a diferença é que a gente tinha que pagar. Pagar por nada, porque nada era feito. Justiça nenhuma, lei nenhuma”.


Enquanto as zonas Sul e Norte do Rio sofrem mais com os traficantes de drogas nos morros, na Zona Oeste o domínio é das milícias.


A reportagem do "Jornal Hoje" esteve em uma favela que era controlada por um grupo de milicianos. Até há pouco tempo eles mandavam no transporte alternativo, na venda de gás e de TV a cabo pirata. Além disso, o grupo extorquia dinheiro dos moradores e comerciantes da região, cobrando taxas de segurança.


“A gente, que é de baixa renda (eles cobravam), R$ 15. As pessoas que tinham mais condições, R$ 20. E a antena, R$ 35”, disse outro morador.


Medo


E, mesmo com a prisão de parte da milícia e a presença ostensiva da polícia, o medo ainda é grande. “Se você atrasasse o pagamento da TV a cabo, você já tomaria uma advertência e seria suspenso. Se no próximo mês você não pagasse, você teria que sair da sua residência e arrumar um outro local para ficar”, conta uma testemunha.


Um levantamento já identificou pelo menos 150 milícias atuando no Rio. E segundo uma investigação policial, só o grupo mais forte, que atua na Zona Oeste, é responsável por 105 mortes nos últimos anos.


“Eu mesma tenho um parente sumido agora, há poucos dias. Por isso, eu estou aqui hoje muito revoltada. Esses monstros aparecem por aí e fazem isso na vida das pessoas”, disse uma moradora.


Delegado que investiga milícia


O delegado Marcus Neves, da 35ª DP (Campo Grande), é o homem mais protegido do Rio atualmente, porque é ele quem comanda a guerra contra um grupo de milícia que age na Zona Oeste. O grupo é conhecido como Liga da Justiça.


A própria delegacia foi atacada por uma bomba há três meses. A investigação apontou que o atentado foi ordenado pela milícia da região. Quarenta e cinco pessoas já foram presas, inclusive policiais.


“A grande complexidade que envolve o combate a esses crimes e essas organizações criminosas é justamente a participação de policiais, agentes públicos nesses grupos. Esses grupos são formados na sua maioria por policiais civis e militares, eventualmente bombeiros, agentes penitenciários, eventualmente militares das forças armadas também, e com ramificação dentro da atividade política do estado”, disse o delegado.


Fonte: G1

Infidelidade Virtual

CRÔNICA


Rosângela Firmino dos Santos
Aluna do 2º período de direito da Faculdade Dom Helder Câmara



Quem diria? Pois é. Ninguém nota mais está aí e se chama infidelidade virtual. Mais fácil de administrar, sem causar o inevitável conflito doméstico, sem cartão corporativo, sem exposição à crítica de terceiros, a menos que a outra parte ponha a boca no trombone. É curioso, mas descobre-se também que a classe social mais baixa, portanto, com menor informação, é a que menos comete este delito a moda atual e virtual, preferindo à moda antiga e real. A tecnologia avançada e moderna, o alto padrão cultural de alguns, a curiosidade de assimilar coisas novas, acesso voluntário e rápido somam-se, totalizando uma explosão de efeitos inesperados e indesejados numa relação conjugal. Navega daqui, navega dali, enfim, chega lá no começo do fim.

O distanciamento nas relações é um forte indício revelador de que algo ocorre na mais velada discrição. Nas noites insones, no excesso de trabalho, na azia, tudo é motivo para se ausentar do convívio familiar, no recanto confortável da sala de computador. Observa-se que a ausência é dentro do próprio lar. Ocorrendo um vazamento de informações do navegador desatento a (o) esposa (o) que equilibra o adereço desconfortável na sua cabeça, digo, chifre, sente o desconsolo, ao constatar a real troca, por um caso virtual. Impossibilitada (o), no calor da descoberta de proferir impropérios, cara a cara engole seco, silenciosamente, pois, ato contínuo, quebrar o computador como se quebrasse o cara, ou a cara, não vai resolver nada. O melhor é esperar. Eis que, ao adentrar o recinto acolhedor, com as mesmas desculpas, o inesperado acontece. O que era virtual agora é real. É físico.

É a revolta, a traição e a dor de ser enganado, ganhando forma e volume imensuráveis. E o pau quebra. Afinal era tudo tão metódico, tão certinho? Como é que ocorreu? Hoje, tudo mudou. Até a traição. Só que, de cara nova, ela vem em embalagem moderna, não causa repulsa e é até companheira, evita gastos supérfluos, fotos comprometedoras e por aí vai... Bem diferente da forma antiga, conservadora e tudo o mais. Mas como se explica o sorriso virtual que o fato delituoso deixa no rosto do suposto “infrator”? Aquela felicidade alcançada pela demência passageira?

Portanto, é de relativa importância a atenção em casa, para que, amigos e amigas de plantão, a tecnologia virtual não nos furtem os nossos cônjuges reais, tirando os bens emocionais, a alegria, convivência, felicidade, amor, fidelidade e, em contrapartida, deixe a dor, a revolta, a humilhação, o desconsolo e a decepção jamais reparada pelo dano causador da tragédia conjugal. Ah! Esqueci! Fica bem real, se vai ao tribunal! Mas aí é outra história!

Reviravolta no quartel

Roberto Pompeu de Toledo

"O ministro Jobim quer fazer do serviço militar um ‘nivelador republicano’. Se realmente obrigatório, ajudaria a abalar o muro entre as classes"

Houve um tempo em que os jovens, não importa de que classe social, tinham um encontro marcado com o serviço militar. Alguns festejavam a ocasião. Entre estes, os mais preparados optavam pelo Centro de Preparação de Oficiais da Reserva (CPOR), que, por exigir presença só nos fins de semana, permitia a continuidade dos estudos. Outros – a maioria – procuravam um jeito de escapar. Se a família fosse bem conectada, conheceria um tenente ou coronel a quem recorrer para pedir a dispensa do filho. Se não, restava confiar no pé chato. Bendito pé chato! Seria mito? Seria verdade? Corria entre os rapazes que quem tivesse pé chato seria considerado inapto para o serviço. Excelente hora para ter pé chato ou, ao menos, confiar em que o pé pudesse passar por chato. Hoje, quem é da classe média para cima passa longe do serviço militar. Para estes, é algo arquivado num passado tão remoto quanto o futebol com bola de capotão, o laquê que segurava o penteado das meninas e a TV em preto-e-branco.

O ministro da Defesa, Nelson Jobim, apresentará ao presidente Lula nesta semana um Plano Estratégico de Defesa que, entre outras coisas, proporá mudanças no serviço militar. "Durante a maior parte do século XX, as Forças Armadas foram um nivelador republicano", escreve Jobim num artigo publicado pela revista Interesse Nacional. "Constituíram um espaço de oportunidades iguais para todos, onde se reproduzia um microcosmo da sociedade brasileira, tanto do ponto de vista social quanto do geográfico." Não mais. Hoje, só pobre presta serviço militar. Do 1,5 milhão de jovens que anualmente chegam à idade de servir, a maioria é dispensada de cara; é só dizer que não quer. Os que querem – 600 000 – entram num processo de seleção, para afinal, dada a restrita capacidade de absorvê-los, serem aproveitados de 60.000 a 70.000. Na prática, ao contrário de obrigatório, como previsto na Constituição, o serviço virou voluntário.

Os que querem, com raras exceções, são jovens das classes que os publicitários chamam de "C" e, principalmente, "D". As Forças Armadas constituem para eles uma oportunidade. No período de serviço terão cama, comida e um pequeno soldo. Os mais capazes poderão até ser convidados a seguir carreira. Os outros ganharão treinamento que poderá lhes ser útil em outras atividades. O serviço militar virou mais um braço da rede brasileira de proteção social aos desvalidos.

Um filme recente, o bom documentário PQD, do diretor Guilherme Coelho, mostra a realidade vivida hoje no Exército. O filme acompanha a turma de 2005 de uma companhia de pára-quedistas ("PQD", no jargão da corporação) do Rio de Janeiro, com foco nos jovens, seus desejos, seus planos, suas famílias e seus ambientes. São quase todos de pele escura, moradores de favelas ou semifavelas e, tipicamente, criados pela mãe. Aos que mais se destacam o serviço oferece, no fim, um prêmio reservado para poucos – são engajados na carreira e, como cabos, passam a receber o invejável salário de 1 200 reais. Consideram-se então "estabilizados", como dizem no filme, para o resto da vida. Os outros imaginam que poderão aspirar a uma vaga de segurança ou, quem sabe, policial. (As mães do filme não gostam dessa opção: no mundo em que vivem, é arqui-sabido que pertencer à polícia é pôr-se na mira dos traficantes.)

Reverter as Forças Armadas à condição de "nivelador republicano", como quer Jobim, representará uma mexida e tanto. Significa tornar o serviço militar obrigatório de verdade, e para todas as classes. O ministro de Assuntos Estratégicos, Mangabeira Unger, co-autor do plano a ser levado a Lula, propõe que o serviço obrigatório seja civil, do tipo do Projeto Rondon, e prestado também pelas meninas. Talvez tudo não passe de sonho, pelos gastos implícitos e pelo tamanho do sacolejão na inércia burocrática, mas são propostas na boa direção. Se o abandono do serviço militar pelos "As" e pelos "Bs", a exemplo do que ocorrera na escola pública, ajuda a reforçar o já colossal muro entre as classes, no Brasil, a mistura com os "Cs" e os "Ds" opera no sentido contrário. Quanto ao serviço civil, independentemente de outras virtudes, vale pelo simples fato de dispensar as armas. Quanto menos gente souber pegar num fuzil, ou mesmo num revólver, num país como este, melhor.