Faltam alunos e docentes negros nas universidades



Por Luiz Paulo Juttel

Dados de uma pesquisa de 2003 do antropólogo José Jorge de Carvalho, da Universidade de Brasília (UnB), mostram que o percentual de alunos e docentes negros nas universidades públicas brasileiras girava até então em torno de 0,5%. Mantidas as condições sociais de hoje, a projeção de Carvalho para os próximos 170 anos indica que esse índice não ultrapassará 1% do total. Tristes informações como essas preocupam uma das maiores instituições científicas brasileiras, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). A atenção se traduziu em debates sobre o tema durante a 60ª Reunião Anual, realizada em julho, na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Dentre as metas figurou a possibilidade de incentivar o ingresso dos negros e pardos no meio científico.

O consenso maior entre os palestrantes ficou a cargo da defesa do sistema de cotas, algo que vem sendo amplamente discutido. Para Sonia Guimarães, pesquisadora do Centro Técnico Aeroespacial (CTA) e palestrante da conferência, para falar do negro na ciência é preciso tratar sobre a entrada dele na universidade. “Como é que os negros vão adentrar no meio científico se só 3% da população universitária brasileira alunos é negra?”, questiona a pesquisadora.

As cotas, para Guimarães, são medidas que visam diminuir o impacto da desigualdade social entre brancos e negros visualizados nos dados estatísticos. Por isso, ela criticou o manifesto "113 cidadãos anti-racistas contra as leis raciais” entregue em abril deste ano ao presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes. Tal documento foi assinado por artistas e intelectuais, entre eles Caetano Veloso e Ruth Cardoso, falecida recentemente. A função principal do documento é mostrar que a Lei de Cotas é inconstitucional e geradora de segregação racial, citando, por exemplo, artigos da Constituição brasileira como o 19 que diz: "é vedado à União, aos estados, ao Distrito Federal e aos municípios criar distinções entre brasileiros ou preferências entre si”.

De acordo com a pesquisadora do CTA, as estatísticas apontam que essa distinção já ocorre na prática. Dados divulgados pelo Portal UOL e jornal Folha de S. Paulo, em maio deste ano, mostram que mulheres negras ganham 51% do salário das brancas na cidade de São Paulo e que negros ocupam apenas 3,5% dos cargos de chefia. Sonia Guimarães ressalta que os negros dificilmente conseguirão reverter este quadro se não conseguirem cursar uma universidade.

“O manifesto contra as cotas conclui que, basicamente, são as diferenças de renda e tudo que vem associado a elas, e não de cor, que limitam o acesso ao ensino superior. Se a cor não tem nada a ver com isso, porque será que entre os mais pobres só 30% são brancos e 69% são pardos e negros?”, questiona Guimarães.

Unipalmares e ações afirmativas

Para a química Denise Alves Fungaro, pesquisadora do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), as ações afirmativas, como a Lei de Cotas, são medidas importantes contra os fatores negativos que impedem a entrada do negro no meio acadêmico. Entre tais fatores ela cita principalmente o ensino público básico de baixa qualidade, a baixa renda familiar da população negra e a falta de bolsas de pós-graduação. Em seu relato pessoal, a pesquisadora explica que a ausência desses fatores foi determinante para o seu sucesso acadêmico e profissional na área de química ambiental.

Apesar dos problemas, o número de negros nas universidades públicas brasileiras tem aumentado nos últimos anos graças, segundo Fungaro, as ações afirmativas. Além das cotas, ela destaca outros acontecimentos que contribuem tal aumento. O primeiro foi a proliferação dos cursos pré-vestibulares comunitários na década de 1990 que passaram a preparar estudantes de baixa renda para o vestibular. O segundo trata sobre idéias inovadoras nessa área, como a criação da Universidade da Cidadania Zumbi dos Palmares em 2000 na cidade de São Paulo.

A Unipalmares é uma instituição sem fins lucrativos focada na formação de afrodescendentes. Graças a parcerias feitas com diversas empresas do setor privado, os dois mil alunos que atualmente cursam os três cursos oferecidos - direito, administração de empresas e tecnologia de transportes - pagam mensalidades abaixo de um salário mínimo. Em março desse ano a primeira turma de graduação se formou. “Oitenta e nove porcento deles eram negros”, diz Sonia Guimarães.

A idéia principal trabalhada nessa conferência é que medidas especiais precisam ser tomadas para assegurar que o negro, historicamente desfavorecido socialmente, consiga cursar uma graduação e, posteriormente, receba apoio para se especializar ao ponto de ter condições de trabalhar com ciência e tecnologia. Para Sonia Guimarães, o sistema de cotas é uma oportunidade capaz de gerar um futuro melhor a muitos afrodescedentes talentosos. “Se ficarmos podando essa chance da maioria das pessoas negras vamos ficar outros 170 anos nas mesmas condições. Precisamos agir diferentemente”.

João Cândido Ganha Monumento no Dia da Consciência Negra


Para marcar o Dia da Consciência Negra, a Secretaria de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR) vai promover em 20 de novembro uma atividade cultural na Praça XV, no Centro do Rio de Janeiro, palco da Revolta da Chibata de 1910. O ponto alto do evento será a instalação de monumento em homenagem a João Cândido. O presidente Lula confirmou presença no evento, que contará com shows de João Bosco e Martinho da Vila, entre outras manifestações artísticas.



O Almirante Negro liderou revolta dos marinheiros

João Cândido, conhecido como o “Almirante Negro”, liderou a revolta dos marinheiros – negros em sua maioria – contra os castigos físicos a que ainda eram submetidos 22 anos após a Abolição da escravidão.

Cândido foi anistiado apenas agora em 2008, após sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a projeto de iniciativa da senadora Marina Silva (PT-AC), atendendo a uma antiga reivindicação dos movimentos negros brasileiros.

Intolerância religiosa


Na solenidade, representantes da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa vão entregar oficialmente ao presidente Lula, propostas para a redação de um programa nacional sobre intolerância religiosa. Esta será a primeira vez que um presidente da República recebe a comissão para discutir a matéria.


O anúncio foi feito durante encontro de representantes de diversas religiões no Rio de janeiro, na semana passada, quando foram discutidos, entre outros pontos, o mapeamento de centros religiosos no país e a aplicação da lei que determina o ensino de História da África e Cultura Negra nas escolas.


Fonte: SEPPIR

Drogas na vagina e fraudes na Saúde

DRAUZIO VARELLA


Por que não condenar os parasitas, como é feito com as moças presas nas portas dos presídios?

HÁ ANOS vejo mulheres sendo presas por tráfico de drogas ao visitar maridos e namorados nas cadeias.
Quase sempre são jovens com pouca escolaridade, mães de mais de um filho, moradoras da periferia das cidades, apaixonadas por bandidos que nunca mais se lembrarão delas quando estiverem atrás das grades.
Essas moças geralmente são surpreendidas pelas funcionárias ao passar pela revista, em dia de visita, tentando levar cocaína ou maconha escondida em sacos plásticos introduzidos na vagina.
Encaminhadas à delegacia, são autuadas em flagrante e trancadas. Não voltam mais para casa; os filhos ficarão sob os cuidados sabe lá Deus de quem.
Meses mais tarde, serão condenadas a cumprir penas que podem chegar a quatro ou cinco anos. As novatas entrarão em contato com criminosas de carreira e aprenderão a obedecer a leis impostas pelas quadrilhas que dominam os presídios paulistas; as mais experientes farão pós-graduação no mundo do crime.
Primárias e reincidentes, quando libertadas, estarão na mesma condição: ex-presidiárias sem dinheiro nem emprego, com filhos para acabar de criar e com a folha de antecedentes marcada. Dos anos no cárcere, carregarão as cicatrizes do aprisionamento e as ligações com as parceiras de infortúnio. Voltar a delinqüir é a saída natural.
Sem a pretensão de analisar o rigor das leis contra o tráfico, muito menos a de defender quem as infringe, confesso que no caso dessas moças fico confuso.
Quantos gramas de maconha cabem na vagina de uma mulher? Essa quantidade apreendida é relevante no combate ao tráfico? Será que uma simples medida administrativa, como cassar definitivamente o direito de visitar qualquer presidiário, não seria castigo suficiente para essas contraventoras e não reduziria a superpopulação nas cadeias femininas?
Semana passada, a Operação Parasitas, da Polícia de São Paulo, prendeu cinco acusados de comandar uma quadrilha que fraudou centenas de licitações nos principais hospitais públicos da cidade, além de outros no interior do Estado, em Minas Gerais e no Rio de Janeiro.
O golpe era o de sempre: empresários subornam funcionários públicos para ganhar licitações superfaturadas, realizar vendas de artigos desnecessários e entregar produtos de qualidade inferior à estipulada nos contratos (ou nem entregá-los).
Os policiais encontraram compras efetuadas a preços 400% mais altos do que os encontrados no mercado, cateteres contrabandeados da China vendidos como material de primeira e até fraudes em leilões eletrônicos, com provável participação de pregoeiros e de funcionários dos hospitais.
No período de dois anos, o volume dos negócios teria chegado a R$ 100 milhões. A lavagem do dinheiro era feita em offshores abertas no exterior em nome de pessoas humildes, como sempre.
Por meio de doações a campanhas políticas, os chefes exerciam influência nos municípios em que atuavam. Num deles, chegaram a "comprar" o cargo de secretário da Saúde por R$ 200 mil, doados ao caixa de campanha de um candidato a prefeito nas últimas eleições.
O que mais me chamou a atenção, entretanto, foi o fato de que algumas das empresas investigadas e alguns dos suspeitos estavam envolvidos em outras falcatruas perpetradas contra o sistema de saúde: a máfia dos sanguessugas e as fraudes do antigo PAS da Prefeitura de São Paulo. Outros, ainda, haviam sido investigados pela CPI do Banestado e pela Operação Farol da Colina, da Polícia Federal.
Quer dizer, esses senhores não haviam apenas escapado da cadeia como suas empresas tinham toda liberdade para negociar com hospitais públicos e secretarias de Saúde.
Os escândalos que se repetem em ciclos na área da Saúde desde que me conheço por gente são frutos da impunidade. Quem rouba dinheiro destinado ao tratamento de doentes pobres deveria responder por crime hediondo e cumprir pena em regime fechado, sem nenhuma regalia, naquelas celas de CDP com mais de vinte ladrões.
Não sou ingênuo, leitor, sei que os acusados estarão na rua em uma semana. No Brasil, cadeia foi feita exclusivamente para bandido pobre.
Apesar disso, tomo a liberdade de fazer uma sugestão: por que não condenar esses parasitas, predadores da pior espécie, a quatro ou cinco anos, como é feito com as moças presas nas portas dos presídios?
É pouco, dirá você. Também acho, mas é melhor do que nada.

Ministro defende criação de delegacias étnico-raciais



Em entrevista ao Bom Dia Ministro, produzida pela Secretaria de Imprensa da Presidência da República e transmitida via satélite para rádios de todo o País na última quinta-feira (6), o ministro da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), Edson Santos, falou sobre a proposta de criação das delegacias especializadas em crimes étnico-raciais.



Também foram abordados temas como a Semana da Consciência Negra, celebrada de 17 a 23 de novembro, e a política de cotas nas universidades.


Leia abaixo os principais trechos da entrevista.


Delegacias especializadas - "Buscamos a nacionalização das iniciativas de criação de secretarias e delegacias contra crimes raciais. Não entendi a reação de alguns setores contra a proposta. Queremos dar conseqüência a um princípio constitucional, que tipifica o racismo como crime inafiançável e imprescritível.


Na medida em que não há agentes públicos qualificados e treinados para acolher as denúncias de racismo, acaba não havendo punição para os autores dessa agressão. São Paulo e Piauí já têm uma delegacia com essas características. Não será uma delegacia de negros. No Brasil, temos judeus, ciganos, indígenas, que também são vítimas de agressões étnicas e raciais. É uma delegacia para cuidar dessas questões."


Treinamento - "Sugerimos que a própria delegacia tenha especialista no âmbito da antropologia, psicologi a, do serviço social, porque a agressão racista atinge a alma da pessoa, a auto-estima do cidadão. Tanto o agressor quanto a vítima precisam passar por um tratamento, porque o racismo é uma doença. Por isso precisamos dotar as delegacias com esses profissionais, que atuariam no sentido de orientar as pessoas. Nosso propósito é não ter apenas um órgão que acolha o crime e puna o agressor, mas que também trabalhe no sentido da prevenção e educação."


Impunidade - "Uma denúncia de agressão racista ser qualificada como calúnia, que resulta em uma pena leve, acaba por estimular as pessoas a continuarem a cometer este ato. Na medida em que for tipificado enquanto crime inafiançável, isso vai desencorajar as pessoas a terem reações que busquem desqualificar o seu próximo com agressões racistas."


Implantação - "Nosso objetivo é estimular essa discussão e solicitar a adesão das secretarias de seg urança dos estados, que têm competência efetiva para criar delegacias com essa característica. É um programa que pressupõe a adesão dos governadores e secretários de segurança. Na verdade, nosso papel é exatamente estimulá-los para tomar esse tipo de iniciativa."


Consciência Negra - "Nosso foco na comemoração do dia 20 de novembro, que vai ser no Rio de Janeiro, será o resgate histórico da figura de João Cândido. Colocaremos uma estátua de João Cândido na Praça XV, onde ocorreu a Revolta da Chibata. A cerimônia contará com a presença do presidente da República, que irá descerrar a placa da estátua."


Política de cotas - "A política de cotas não tem racializado as relações dos jovens nas universidades. O quadro existente é o de convívio. Não há separação entre os jovens cotistas e os não-cotistas. As relações são as melhores possíveis. Além dis so, o rendimento desses jovens cotistas tem sido comprovadamente superior à média da universidade.


Temos a preocupação de não estabelecer um ambiente de conflito e disputa racial. A criação dessas delegacias é para proteger pessoas que sofrem algum tipo de agressão racial, porque o Estado não tem tido a capacidade de defendê-las. O que se propõe com a criação de delegacias é qualificar o agente público para que ele possa efetivamente recepcionar e dar conseqüência a essas denúncias.


E que as pessoas que incorrem nesse delito sejam punidas, de acordo com a Constituição. Há uma certa tendência de pensamento no Brasil de evitar discutir as relações raciais. Acho que é preciso refletir sobre isso e discutir essa questão para que esse mal seja curado.


Nos Estados Unidos, a questão do racismo assumiu a forma da segregação racial. Isso levou a sociedade americana a refletir e se mobilizar no sentido de oferecer espaço para a população negra. O resultado que se tem, ao longo de meno s de 50 anos, é a eleição de um presidente negro no Estados Unidos."


Eleição Barack Obama - "A eleição de Obama é algo que vai ser objeto de discussão no Brasil durante algum tempo, mas acredito que ainda estamos longe de chegar a esse ponto no Brasil. Somos 49,5% da população brasileira, mas isso não se remete a nossa representação institucional. Hoje, no Congresso Nacional, não temos 10% de deputados negros.


Há ainda um longo caminho a ser percorrido no sentido da projeção de líderes negros comprometidos com o Brasil. A vitória dele deve-se ao fato de ele ter sintetizado o sentimento da maioria da população americana. É um país que vive uma crise comparável à da década de 1930.


O discurso dele levou esperança à população dos Estados Unidos. Por essa razão, essa eleição teve o maior quorum da história recente americana. O Obama foi o candidato que melhor conseguiu interpretar o sentimento do povo americano. Ele é produto de um processo histórico vivido pela população americana.


Até a metade do século passado, os negros eram segregados e não tinham direito a voto em vários locais. A luta pelos direitos civis contou com mártires como Malcolm X e Martin Luther King. Ao longo desse processo, houve também o lançamento da primeira candidatura de um negro para a presidência dos EUA, que foi o pastor Jesse Jackson. Entendo que Obama também é um tributo a esse movimento. Não imagino que os EUA pudessem hoje eleger um presidente negro sem ter passado pela experiência da luta pelos direitos civis."


Mercado de trabalho - "Temos dialogado com o setor privado sobre essa questão. No início do ano, estive em uma reunião com o presidente da República, que contou com a participação das 500 maiores empresas que atuam no Brasil. Tivemos a oportunidade de tratar do tema da discriminação racial no ambiente de trabalho. Tem havido progresso não só nas relações no ambiente de trabalho, como também o ingresso no mercado de trabalho para o jovem negro.


Estive em São Paulo com representantes da Febraban, que qualificaram jovens para assumir funções mais qualificadas no sistema bancário. Acredito que com a formação de jovens pelo sistema de cotas e pelo ProUni, eles vão buscar o mercado de trabalho e teremos condições de ter um debate massificado no que se refere às relações de trabalho. Evidentemente, um jovem que se forma engenheiro, advogado ou médico vai ingressar no mercado e não vai aceitar uma diferenciação salarial pelo fato de ser negro."


Racismo e preconceito - "Acho que o País está mudando. Até a polêmica em cima do tema é saudável. Todo debate relacionado às questões raciais no Brasil tem sido objeto de polêmica. Até porque alguns defendem que as políticas públicas universais darão conta de termos um país onde as diferenças entre negros e brancos serão sanadas ao lo ngo do período de implantação dessas políticas.


Quem defende isso se esquece de que tratar os desiguais como iguais manterá a desigualdade durante todo esse período. É fundamental a atuação do Estado no sentido de dar mais a quem tem menos possibilidades de ascender na sociedade. Felizmente, hoje temos um governo que tem buscado investir na promoção social da nossa população.


Temos dados de vários institutos de pesquisas que nos mostram um número cada vez maior de brasileiros na classe C. Isso se deve à política de desenvolvimento implementada pelo governo do presidente Lula, que tem propiciado à população essa ascensão social.


Há uma dívida histórica do nosso País com a população negra. Tivemos a abolição da escravidão em 1888, que não veio acompanhada de medidas de inserção do negro nas atividades econômicas. Nosso País era essencialmente agrário e não foram oferecidas terras para o negro se fixar. Entendo que, neste governo, estamos tomando iniciativas que terão impacto a o longo de algumas gerações.?


Agenda social quilombola - "Nosso objetivo é instalar 22 comitês gestores até 2010. Será nesse comitê gestor que serão definidas as ações a serem desenvolvidas junto às comunidades quilombolas, sejam ações no âmbito do saneamento, saúde, habitação ou do fornecimento de energia elétrica. A agenda social quilombola tem a participação de vários ministérios e órgãos públicos comprometidos com investimentos para a melhoria das condições de vida das comunidades remanescentes dos quilombos. Evidentemente, a instalação do comitê gestor e as definições tomadas por ele vão contribuir de forma significativa para a melhoria das condições de vida das comunidades quilombolas. É importante informar que no comitê gestor pressupomos a participação de lideranças indicadas pelos quilombolas para que eles possam também assumir a responsabilidade da discussão da locação de recursos voltadas para a melhoria das condições d e vida dessas comunidades."


Demarcação quilombola - "O primeiro passo no processo de reconhecimento das comunidades quilombolas é a certificação dessa comunidade a partir da sua auto-definição, realizado pela Fundação Cultural Palmares. O segundo é a demarcação da terra, um desafio secular e que evidentemente causa reações. Temos uma ação de declaração de inconstitucionalidade do decreto que regulamenta a ação do governo junto às comunidades quilombolas. Essa ação tramita no Supremo Tribunal Federal e consideramos que há condições de manutenção do decreto."


Boletim Em Questão

Raça e racismo

Eleição de Barack Obama é exemplo da possibilidade de superação da questão das injustiças e ódios, com ações que reconheçam problemas e apostem na política como forma de solução
João Paulo
Antônio Scorza/AFP
Fenômeno Barack Obama cruza fronteiras e mobiliza a esperança dos brasileiros

A eleição do presidente Barack Obama deixou lições para os americanos. E para o mundo todo. O primeiro fato incontestável foi o incremento da crença na política como esfera de manifestação da vida pública. Não foi apenas pelo fato de ser uma campanha que ganhou repercussão mundial, da disputa pelo comando da nação mais rica do planeta, ou da coincidência com a crise dos mercados, de conseqüências ainda desconhecidas. O candidato democrata criou em seu país uma onda de participação e vontade de protagonismo que parece deslocada no tempo e espaço.

Em primeiro lugar, nos EUA, a política vinha se tornando instrumento de divisão, reforço de isolamento, arma de arrogância, confirmação de posição de destaque. Tudo no cenário internacional apontava para a separação em relação aos interesses da maioria das nações, para a desobediência de decisões coletivas de fóruns reconhecidos pela seriedade e representatividade, para a concentração das medidas econômicas em nome do protecionismo irresponsável. Os EUA vinham, desde Ronald Reagan, numa crescente desmobilização e desvalorização da política em nome dos interesses do mercado.

Em seguida, a dinâmica da política externa norte-americana, emanada dos mesmos valores, elegeu o combate ao terrorismo como ação mais relevante, identificando inimigos, demonizando democracias legítimas, impondo barreiras, ameaçando com embargos. O país se isolou ao lado de aliados ricos, mas perdeu o que talvez tenha sido sua maior obra de civilização: o legítimo afeto que nutria em todo o mundo em razão de sua defesa da liberdade.

Em vários aspectos, essa confiança foi se desfazendo. Há os processos relacionados aos direitos humanos, sobretudo envolvendo questões de terrorismo. Cenas de tortura, descumprimento de tratados internacionais, censura à informação, espionagem, xenofobia, intolerância de crença. Tudo que sempre foi combatido pela história política do país ganhou álibi a partir da guerra ao terrorismo. Em estado de guerra permanente, a posição de defesa política foi transferida para a arena econômica e de relações internacionais. Os EUA se autoproclamaram defensores da economia de mercado – embora não a pratiquem quando se trata de seus interesses – e da democracia internacional, mesmo que à custa de guerras e invasões repudiadas por seus cidadãos.

Além disso, a própria situação interna do país, cada vez mais cindido entre ricos e pobres, tem levado à insatisfação com as chamadas políticas sociais, que foram pulverizadas no período pós-Reagan. Saúde, habitação, emprego e violência não foram solucionados pela lógica competitiva do mercado. O país das liberdades perdeu a capacidade de garantir direitos que tinham melhor provimento no período que antecedeu a vaga da globalização. Tocar em questões de natureza social era considerado populismo e, no estágio seguinte, começaram a ser identificadas as populações geradoras de problemas, instigando a xenofobia e o isolacionismo.

HARVARD

A campanha de Obama trouxe elementos inovadores que merecem ser destacados. O candidato democrata tem história política singular para os padrões de seu país. Formado em Harvard, uma das mais prestigiadas instituições de ensino da elite norte-americana, deixou de lado a carreira jurídica para se especializar em ações voltadas para a política social. Algo que, na América Latina, poderia ser chamado, com a devida singularidade, de ações de assistência social ou de movimento de base. Obama construiu sua carreira a partir dessa experiência. Aprendeu a negociar, a incorporar outras correntes, a fazer política. Levou esse conhecimento para seu partido e para o Senado. Daí, vencer a poderosa e tradicional máquina voltada para Hillary Clinton foi um portento.

Em sua campanha, Obama carreou sua trajetória. Ele ajudou a ampliar o universo de eleitores, incorporou o eleitorado jovem, fez uso de estratégias que fugiam do marketing para se aproximar do debate vivo. Dono de retórica poderosa e de grande charme pessoal, fez o contrário do que se espera de um político tradicional: não usou de recursos populistas, não chamou a atenção para sua personalidade nem para a de seu oponente, priorizou grandes questões e foi franco em questões polêmicas, como a guerra do Iraque, a política externa e a ecologia.

São comportamentos que o credenciam a tomar a frente do país mais poderoso do mundo, a enfrentar questões universais e uma grande crise que, não por acaso, tem seu epicentro no próprio descontrole do sistema econômico baseado em padrão inviável de consumo. Para cumprir essa missão, além da expectativa mundial, Barack Obama carrega a história de seu país. Ele é o exemplo de uma nação construída na liberdade e na tolerância. Aprendeu a conviver com a diferença em sua trajetória de vida cosmopolita. Um país dividido historicamente entre negros e brancos e que, com o tempo, foi incorporando novas distinções em relação aos estrangeiros, foi capaz de reagir a essa inspiração e propor ações afirmativas. Barack é um exemplo do sucesso dessa intervenção civilizatória. Ela não gerou mais ódios. Impôs sua verdade por meio do respeito.

DEBATE POLÍTICO

Por tudo isso, pode parecer espantoso que o candidato democrata não tenha utilizado em sua campanha o discurso racialista. Ele não precisava disso. Barack Obama é um exemplo de que raça não existe, como defendem os cientistas. Mas que o racismo é terrível chaga para qualquer nação. Esse quadro não é apenas norte-americano, mas se deixa entrever em várias regiões do mundo, inclusive no Brasil.

Um debate que mobiliza da academia ao movimento negro procura equacionar o dilema social de um país em que os mais pobres são negros. Para alguns setores, pensar em ações afirmativas, como cotas em universidades, seria importar o discurso racialista, odioso e capaz de gerar comportamentos distantes da história da constituição da nacionalidade. Para outros, a evidência da injustiça histórica cometida contra as populações negras tem um potencial de permanência que não será alterado sem atitudes que cobrem a conta da exclusão, com maiores ofertas de participação nas agências de inclusão social valorizadas, como os postos de trabalho de destaque e as vagas nas universidades públicas.

A corrente sociológica que vem dos estudos de Florestan Fernandes, que analisou a inclusão do negro na sociedade de classes no Brasil, alimenta com argumentos os defensores das cotas. Por outro lado, um novo discurso baseado em análises de pesquisas recentes quer tirar do racismo a responsabilidade pela diferenciação social, ancorado na tese científica da moderna biologia, que assevera que raça não existe. O interessante é que a pesquisa genética, que deveria vitaminar exatamente as conseqüências danosas do racialismo “científico” do século 19, é usada para retirar a responsabilidade pela diminuição de suas perdas civilizatórias. São sempre os brancos que dizem que o racismo não existe.

A convivência pacífica entre negros e brancos no Brasil é tida como exemplo de democracia racial a ser exportada. No entanto, não se exporta que essa realidade se constrói sobre pilares ideológicos poderosos. Como toda ideologia, ela é tão mais forte quanto mais se afigura real. A boa ideologia não é a que convence pelo argumento, mas que é aceita como natural. Assim, parece natural que os brasileiros se tratem como irmãos, mas que haja mais brancos nos bairros ricos e mais negros nas favelas. É natural que nos consideremos meritocráticos, mesmo que as posições superiores sejam quase sempre de brancos e as subalternas, de negros. As exceções cumprem seu papel.

No Brasil, há um carimbo usado para segregar que mascara a vigência violenta do racismo constitutivo de nossa divisão social. Os exemplos de pessoas pobres que sobem na vida depois de freqüentar escolas públicas é, se não um mito cândido e ingênuo, argumento de má-fé científica e de pouca exemplaridade social.

O campo das ações afirmativas ou de assistência compensatória no Brasil costuma ser dividido em dois rounds. O primeiro é o da defesa. Trata-se de instituir uma postura sistemática de oposição ao racismo em todas as suas vertentes, da discriminação escondida pelo preconceito latente e pela localização social diferenciada das duas populações à violência policial e social, que, provam todas as estatísticas, mata mais negros que brancos. O genocídio é uma conclusão natural da nossa cordialidade racialmente orientada.

O outro campo de ação é o da promoção, que se dirige sobretudo ao setor educacional. Trata-se desde a facilitação de acesso até a limpeza do material didático das contaminações racistas que marcam nossa formação. Remover o preconceito e estimular a auto-estima das crianças negras não pode ser visto como defesa de ódio, mas como estabelecimento respeitoso de diferenças.

Barack Obama, mesmo egresso de família de classe média e tendo estudado em bons colégios, não deixa de ser filho das ações afirmativas. Sua filiação ao bem-sucedido processo de inclusão criado em seu país se dá menos pela inserção pessoal que pela aposta em seus resultados. Ele faz política como quem conhece as cisões, mas que não as vê como falsas, cheias de ódio ou portadoras de disputa. O novo presidente norte-americano leva para a Casa Branca uma nação de negros. Mas não leva um país em que as pessoas tenham raça. Raça não existe. Racismo sim.

DEBOCHE : Ladrão processa vítima por lesões corporais


Juiz considera 'uma afronta ao Judiciário' ação que assaltante moveu contra comerciante dono de padaria, por ter levado surra ao tentar roubar estabelecimento em Belo Horizonte
Ingrid Furtado
Uma ação em tramitação no Fórum Lafayette, em Belo Horizonte, leva às últimas conseqüências a máxima segundo a qual a Justiça é para todos – todos mesmo. O pedido de um assaltante, preso em flagrante e que decidiu processar a vítima por ter reagido durante o assalto, provocou surpresa até mesmo nos meios jurídicos e foi classificado como uma “aberração” pelo juiz Jayme Silvestre Corrêa Camargo, da 2ª Vara Criminal, que suspendeu a ação. Não satisfeito, o advogado do ladrão, José Luiz Oliva Silveira Campos, anuncia que vai além da queixa-crime, apresentada por lesões corporais: pretende processar, por danos morais, o comerciante assaltado. O motivo: seu cliente teria sido humilhado durante o roubo.

Wanderson Rodrigues de Freitas, de 22 anos, se sentiu injustiçado e humilhado porque apanhou do dono da padaria que tentava assaltar. O crime ocorreu no mês passado, na Avenida General Olímpio Mourão Filho, no Bairro Planalto, Região Norte de BH. Por volta das 14h30 de uma terça-feira, Wanderson chegou ao estabelecimento e anunciou o assalto. Ele rendeu a funcionária, irmã do proprietário, que estava no caixa. Conseguiu pegar R$ 45.

No entanto, quando ia fugir, foi surpreendido pelo dono da padaria, um comerciante de 32 anos, que prefere ter a identidade preservada. “Estava chegando, quando vi minha irmã com as mãos para o alto. Já fui roubado mais de 10 vezes nos sete anos que tenho meu comércio. Quatro dias antes de esse ladrão aparecer, tinha sido assaltado. Não pensei duas vezes e parti para cima dele. Caímos da escada e, quando outras pessoas perceberam o que estava acontecendo, todos começaram a bater nele também. Muitos reconheceram o ladrão como autor de outros assaltos da região”, conta o comerciante.

Ele diz ainda que, para render a irmã, Wanderson escondeu um pedaço de madeira debaixo da blusa, fingindo ter uma arma. “Pensei que fosse um revólver. Quando a vi com as mãos para o alto, arrisquei minha vida e a dela. Mas estava revoltado com tantos crimes e quis defender meu patrimônio. Trabalhei 20 anos para conseguir comprar esta padaria. Nada foi fácil para mim e nunca precisei roubar para viver. Na confusão, chamamos a polícia e ele foi preso em flagrante por tentativa de assalto a mão armada”, conta. O comerciante acha absurda a atitude do advogado. “O que me deixa indignado é como um profissional aceita uma causas dessas sem pensar no bem ou no mal que pode causar a sociedade. Chega a ser ridículo”, critica.

Quem parece compartilhar da opinião da vítima é o juiz Jayme Silvestre Corrêa Camargo. Em sua decisão, ele considerou o fato de um assaltante apresentar uma queixa-crime, alegando ser vítima de lesão corporal, uma afronta ao Judiciário. O magistrado rejeitou o procedimento, por considerar que o proprietário da padaria agiu em legítima defesa. Além disso, observou que não houve nenhum excesso por parte da vítima. O magistrado avaliou que o homem teria apenas buscado garantir a integridade física de sua funcionária e, por extensão, seu próprio patrimônio. “Após longos anos no exercício da magistratura, talvez este seja o caso de maior aberração postulatória. A pretensão do indivíduo, criminoso confesso, apresenta-se como um indubitável deboche”, afirmou o juiz. Da decisão de primeira instância cabe recurso.

Com 31 anos de carreira, o advogado do assaltante, José Luiz Oliva Silveira Campos, está confiante no andamento do processo. Ele alega que o cliente sofreu lesão corporal e se sentiu insultado e rebaixado por ter levado uma sova. “A ninguém é dado o direito de fazer justiça com as próprias mãos. Wanderson levou uma surra. Ele foi humilhado e, por isso, além dos autos em andamento, vou processar o comerciante por danos morais ”, afirma.

Ele conta que há 31 dias Wanderson está atrás das grades, no Ceresp da Gameleira, pelo crime cometido no Planalto. Além de justificar a ação, ele desfia um rosário de teorias. “Não vejo nada de ridículo nisso. Os envolvidos estouraram o nariz do meu cliente e ele só vai consertar com uma plástica. Em vez de bater nele, o dono da padaria poderia ter imobilizado Wanderson. Para que serve a polícia? Um erro não justifica o outro. Ele assaltou, sim. Mas não precisava ter sido surrado”, afirma. O advogado acrescenta que sua tese é a de que Wanderson não estava armado, mas “apenas com um pedaço de madeira de 20 centímetros”.

Ele também culpa o governo pelo assalto praticado pelo cliente. “O problema mora na segurança pública. Há câmeras do Olho Vivo pela cidade. Por que o poder público não coloca nas padarias também? Temos que correr atrás de nossos direitos e Wanderson está fazendo isso. Meu cliente precisa ser ressarcido”, diz o advogado.

De líderes e de liderança

Haroldo Vinagre Brasil, Engenheiro, professor universitário

Ao imaginar um líder agindo para mudar a realidade, me recordo da metáfora da mesa coberta de limalha de ferro de forma desorganizada, sob a qual alguém passa lentamente um ímã, fazendo com que todas elas se alinhem na direção norte-sul. Um líder é como um catalisador que acelera uma reação química; faz com que as coisas ocorram por intermédio das pessoas; ele tem seguidores e produz coletivamente resultados – todos são, por isso, um recurso escasso nas instituições e nos países. Por sua vez, a
liderança traduz sempre um compromisso e uma transação entre o líder, seus seguidores e o objetivo ou sonho que pretendem atingir. É um fenômeno situacional, de duração variável, mas sempre transitório. Mas a liderança está permeada pelas convicções firmes e sentimentos fortes dos líderes, visão para construir o futuro, capacidade de correr riscos e de vender idéias e coerência entre o que fala e o que faz. Ela se constrói numa experiência de vida rica e surge pela conjugação de fatores convergentes, numa determinada circunstância.

Basta-nos lembrar de Winston Churchill, João XXIII, Nelson Mandela, Franklin Delano Roosevelt, Charles de Gaule, Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e de seus posicionamentos históricos. Churchill, que em várias situações se mostrou um político medíocre, foi o homem certo para enfrentar Adolf Hitler na 2ª Guerra Mundial. Já Roosevelt se fez o parteiro do renascimento norte-americano pós-crise de 1929. De Gaule, um especialista em guerra motorizada, pela sua capacidade de resistência na situação totalmente desfavorável em que se encontrava a França, derrotada e humilhada, foi a tábua de salvação daquele país no pós-guerra. Por sua vez, JK soube capturar as aspirações de desenvolvimento do Brasil e concretizá-las em torno do símbolo modernizante de Brasília. João XXIII forçou e abriu as portas e as janelas de uma Igreja mofada, para o mundo, fazendo-a inserir-se na imanência da história, a semelhança de Mandela, que foi capaz de derrubar o muro da intransigência racial do apartheid na África do Sul. Entre erros e acertos, esses líderes levam um grande saldo positivo de acertos. São, por fim, agentes de mudanças. Para Truman, liderança é a habilidade para conseguir que os homens façam gostando coisas de que não gostam.

Barack Obama, pela sua trajetória de vida e pelo perfil de estadista que manteve durante os 21 meses da campanha presidencial dos EUA, parece ser um líder capaz de conduzir a República do Norte por novos caminhos, que não aqueles trilhados pelo seu antecessor George W. Bush. Fazendo-se o presidente da mais poderosa nação do mundo, é de esperar que intua estarmos em um mundo multipolar, que, para a solução de seus problemas, exige muito diálogo e nenhum posicionamento unilateral. As duas derrotas sofridas pelo seu país no Vietnã e no Iraque, os fracassos em Doha e da Alca, devido à intransigência nas posições assumidas, apontam para a impossibilidade, hoje em dia, de uma postura do eu sozinho. Há males que vêm para o bem: só um Bush possibilitaria um Obama.

Tambor cidadão



O Tambolelê e Maurício Tizumba, faz turnê por nove escolas e 11 entidades sociais de Belo Horizonte. Os tamborzeiros, além de tocar, vão participar de oficinas, palestras e bate-papos com a garotada. Cerca de 9 mil pessoas poderão ter acesso ao projeto. A estréia está marcada para amanhã, na Escola Municipal Padre Massote, no Bairro Coqueiros, Região Noroeste.

•••

Vinte e dois profissionais se revezarão para visitar as escolas, instituições e projetos, como Centro de Recuperação de Menores Infratores, Terreiro Ilê Wopo Olojukam, Querubins, Meninos do Morro e Grupo Luna de Capoeira Angola. As visitas serão registradas por videomaker, que entregará documentário ao final da turnê.

Entre Santos e Orixás

Ailton Magioli
Netun Lima/Divulgação
Maurício Tizumba desenvolve elementos da cultura afro-brasileira

A experiência pioneira com o diretor João das Neves, em Besouro rei de ouro, fez o ator Maurício Tizumba reunir elenco integralmente negro no musical O negro, a flor e o rosário, que ele estréia hoje à noite, no Teatro Alterosa. Produto da militância do artista em torno da causa, o espetáculo leva para o palco seis contos da cultura afro-brasileira entremeados por dança e música, a última especialmente criada pelo próprio Tizumba.

“O musical mostra um pouco da minha própria experiência de vida, neto que sou de benzedeira com quem aprendi a rezar o terço, e filho de uma eketi do candomblé, que me ensinou a rezar o kibuko”, diz, orgulhoso, Maurício Tizumba, lembrando que a mistura de etnias proporcionada desde a travessia do navio negreiro pelo oceano Atlântico continua dando a tônica à questão no Brasil. “O candomblé está ligado à mitologia africana por meio dos orixás, enquanto o congado é uma manifestação da matriz africana ligada à religião católica”, distingue o ator as duas manifestações com as quais ele trabalha na nova encenação.

SEM PRECONCEITO Percussionista, cantor e ator que vem se especializando na montagem de musicais – de Hollywood bananas a Besouro rei de ouro, foram muitos os espetáculos do gênero que contaram com a sua participação –, Maurício Tizumba se tornou um dos principais nomes da atual cena mineira, com história diretamente ligada às manifestações afro. Segundo diz, em O negro, a flor e o rosário ele foge “do colorido e das coisas fáceis que não acrescentam nada nem colaboram para a queda do preconceito na sociedade”.

Voltado para o público infanto-juvenil, para o qual trabalhou em Pianíssimo, A turma do Pererê e Zeropéia, o novo musical de Tizumba recorre a personagens da cultura afro-brasileira como saci-pererê, Dandara, Zumbi dos Palmares, os orixás, com os quais o artista convive desde a infância, para levar à cena a temática negra na qual se aprofundou depois da leitura de livros de especialistas como Leda Martins e Glaura Lucas. Com cenário e figurino do artista plástico Eduardo Félix, que também criou dois bonecos para o espetáculo, e coreografia de Giovana Penna, da escola do Grupo Corpo, Tizumba sobe ao palco em companhia de nove jovens atrizes negras, com direção de Paula Manata, do Grupo Armatrux.

Além da filha Júlia Dias, de 18 anos, integram o elenco Josi Lopes, Ana Cecília, Elisa Sena, Tássia de Souza, Fernanda Patuá e as irmãs Viviane Moreira, Isabela Coelho e Ana Luisa. “É muito gratificante estrear no teatro ao lado de meu pai, que considero um artista fera”, comemora Júlia, que vê no musical a oportunidade de falar da causa negra por meio da arte. “O meio mais eficaz para sensibilizar as pessoas”, conclui a jovem atriz.

Conteúdo sensual na TV estimula gravidez entre adolescentes


A exposição a algumas formas de entretenimento exerce influência corruptora sobre crianças e adolescentes, disseram pesquisadores dos Estados Unidos nesta segunda-feira (3). Esse fenômeno aumenta a incidência de gravidez entre jovens que assistem a programas contendo sexo. Além disso, crianças que jogam videogames violentos tendem a adotar comportamentos agressivos.


Pesquisadores da organização Rand disseram que seu estudo é o primeiro a vincular a programação sensual de canais de TV a comportamentos sexuais de risco entre adolescentes. ''Nossas descobertas sugerem que a televisão pode exercer um papel significativo nos altos índices de gravidez adolescente nos Estados Unidos'', disse a cientista comportamental Anita Chandra, que chefiou o levantamento da Rand — uma organização de pesquisas sem fins lucrativos.

Os pesquisadores recrutaram adolescentes de 12 a 17 anos e os pesquisaram três vezes entre 2001 e 2004. A eles, perguntaram sobre seus hábitos como telespectadores, seu comportamento sexual e gravidez.

Os resultados abrangem 718 adolescentes, entre os quais houve 91 gravidezes. Os 10% dos adolescentes que assistiram aos programas com mais sexo apresentaram o dobro do risco de engravidar ou causar uma gravidez, comparados aos 10% que assistiram a menos programas desse tipo, segundo o estudo publicado no periódico Pediatrics.

O estudo focou 23 programas de TV aberta e a cabo populares entre adolescentes, incluindo sitcoms, dramas, programas de realidade e desenhos animados. As comédias tinham o maior teor sexual, e os programas de realidade, o menor.

''O conteúdo de TV que vemos raramente destaca os aspectos negativos do sexo, seus riscos e responsabilidades'', disse Chandra. ''Portanto, se os adolescentes estão recebendo informações sobre sexo, raramente recebem informações sobre gravidez ou doenças sexualmente transmissíveis.''

Os índices de gravidez na adolescência caíram nos Estados Unidos desde 1991, mas ainda são altos comparados a outros países industrializados. As mães adolescentes têm probabilidades maiores de abandonar a escola, precisar de assistência pública e viver na pobreza.

Além da TV

De acordo com Chandra, a televisão é apenas uma das influências da mídia sobre o comportamento dos adolescentes. ''Devemos analisar também o papel das revistas, da internet e da música na saúde reprodutiva dos jovens.''

Um segundo estudo publicado no periódico acrescentou novas provas às evidências já existentes de que os videogames violentos favorecem o comportamento físico agressivo de seus jogadores adolescentes. Pesquisadores dos Estados Unidos e Japão avaliaram mais de 1.200 japoneses e 364 norte-americanos, de 9 a 18 anos. Constataram ''um risco significativo de comportamento físico agressivo posterior em culturas muito diferentes''.

Da Redação, com informações da Reuters


Trabalho e desigualdade

Flávio Constantino - Professor de economia da PUC Minas
Nos últimos anos, o Brasil logrou reduzir a desigualdade de renda em função da estabilidade, dos programas de transferência de renda e da criação de empregos. Esse último ponto merece um pouco mais de atenção, uma vez que a queda da taxa de desemprego foi motivada por taxas de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) superiores às registradas nas décadas de 1980 e 1990. Mas até que ponto o mercado de trabalho contribuiu para a redução da pobreza? De acordo com os trabalhos de Ana Flávia Machado e Rafael Ribas (Mudanças no mercado de trabalho retiram famílias da pobreza?) e Marcelo Néri (Você no mercado de trabalho), a resposta não é muito alentadora. A pobreza resulta, basicamente, de duas condições: ou o país não tem as condições suficientes para atender as demandas sociais (insuficiência de recursos) ou decorre da péssima distribuição de renda. O Brasil se encaixa no segundo caso, uma vez que temos uma das maiores economias industrializadas do mundo. Nossa incompetência está na repartição e a dinâmica do mercado de trabalho nos ajuda a compreender tal fenômeno social.

O que os trabalhos demonstram é que crescimento econômico e redução do desemprego não estão prontamente relacionados com a queda da pobreza. Quando um país entra em uma trajetória de crescimento, a mão-de-obra que mais é demandada é aquela que tem maior qualificação, justamente o atributo que não está presente nos indivíduos ou famílias que vivem abaixo da linha de pobreza. É verdade que a origem do indivíduo, raça e sexo são elementos que têm um apelo muito forte na discrepância entre ricos e pobres, tanto que as famílias lideradas por mulheres, negras e faveladas encontram-se entre as mais pobres. Mas são esses elementos que se confundem com a incapacidade delas em fugir a esse círculo da pobreza por meio da educação, da qualificação e do treinamento. O fato de o país apresentar taxas mais elevadas de crescimento não constitui, para esse grupo, uma porta para uma vida mais digna. E, para os que acham que há um certo exagero no peso atribuído ao investimento em capital humano, basta observar uma das passagens do estudo de Marcelo Néri: “Os salários dos universitários pós-graduados são 544% superiores aos dos analfabetos com as mesmas características sociodemográficas e chance de ocupação (emprego) 422% maior”. Em outras palavras, o combate à pobreza depende muito mais da correlação entre escolaridade e emprego do que crescimento e emprego.

Investir mais e melhor na educação significa aprimorar o mercado de trabalho, com impactos positivos sobre a produtividade (as empresas produziriam mais com um custo menor) e sobre os rendimentos (maior qualificação, maior salário e inclusão social). E como o Nobel de Economia Amartya Sen já relatou em sua obra, quanto maior a escolaridade (principalmente das mulheres), mais liberdade o indivíduo tem para realizar escolhas. Talvez o que impeça os mais pobres de saírem do círculo de pobreza seja o fato de não poderem realizar muitas escolhas, caindo na informalidade ou na criminalidade. A contribuição de todos esses pesquisadores deve servir como parâmetro paras as políticas públicas. Os próximos anos serão de crescimento mais modesto devido à crise dos países desenvolvidos, mas independentemente de ser o setor externo ou o mercado interno a bancar a expansão, temos que nos ater ao caráter qualitativo desse processo. Se uma taxa mais elevada de crescimento não conseguiu grandes resultados para amenizar a pobreza, não será com taxas menores que chegaremos lá. O erro não está na pretensa miopia do senador Cristóvam Buarque (PDT-DF), mas nos cegos que rondam os castelos dos governos desse país.

PRECONCEITO CONTRA OS NORDESTINOS


Por Berenice Agra

Um período difícil de minha vida foi quando vim para São Paulo na década de 1970, migrante nordestina, (de Campina Grande-PB, com rápida passagem e estada em Recife-PE). Vim de "Fuscão" modelo 1967, com dois filhos pequenos, a menor no meu colo, com apenas seis meses de vida, rasgando os três mil quilômetros que separam mais do que dois estados distantes, separam dois estilos de vida completamente diferentes. Separam duas perspectivas de passado e de futuro quase que antagônicas.

Viajei com a filha no colo para dar mais espaço para o filho de três anos poder dormir e descansar. E não é preciso dizer da péssima qualidade das estradas e dos hotéis (naquele tempo, não havia as famosas churrascarias gaúchas, hoje tão comuns ao longo das rodovias). A BR-116 era muito esburacada e a Bahia, que tem 800 quilômetros de extensão nordeste-sul, parecia ter dois mil quilômetros.

Quando cheguei, fui morar no Parque Continental (bolsão de classe média alta metida a classe alta). Os olhares eram insinuantes de reprovação ao nosso linguajar, aos nossos trajes e até de um ranço de preconceito interessante e maquiado: como estes nordestinos têm dinheiro para vir morar aqui?

No CEAGESP, logo nos primeiros dias, quando eu falava era tratada por baiana (até por outros nordestinos radicados há mais tempo aqui). Havia um ar de espanto, de indignação e de ironia quando eu pedia jerimum (em vez de abóbora) ou macaxeira (em vez de mandioca) etc. Era motivo de riso, mas jamais me deixei abater. Fazia uma pequena guerrilha para ir vencendo o preconceito e o preconceito indevido daqueles nordestinos aqui radicados há mais tempo.

Ao dirigir o "Fuscão" com a placa de Recife, vinham os gritos e as gozações, era um tormento.
Depois de um ano, comecei a lecionar no SESI: mudou o cenário, mudaram apenas as gozações e o estilo das mesmas. Uma colega me perguntou, para meu espanto: "Como você pode ensinar aqui com a formação na Paraíba? Como foi que eles deixaram? A Delegacia de Ensino sabe disso?"

Se isto acontecia com colegas, podem imaginar como era com os alunos e seu fogo da juventude, sua irreverência e sua vontade de bagunçar. O meu "Boa Tarde" já era motivo de muita gozação e se tornava até empecilho segurar a disciplina da classe. A música "Paraíba, mulher-macho" [Paraíba Masculina], de Luiz Gonzaga, chegava a ser solfejada, e foi difícil (não foi impossível) me impor perante eles.

Estas dificuldades foram sendo superadas uma a uma, cada vez deixando mais em mim um sabor de vitória, de passo dado, conquistado. De vez em quando, ecoava no meu íntimo a sensação de uma mulher vitoriosa e de uma vitória em constante progresso.

Eu, que estudara na fazenda com professoras leigas, que só fiz a 4ª Série com 15 anos, estava lecionando em São Paulo, a locomotiva que arrasta o meu país.
Já casada, entre 1973 e 1975, fiz o Curso de Estudos Sociais, com a responsabilidade de mãe e todas as outras responsabilidades domésticas. Meu marido viajava demais.

Depois, na década de 1980, fiz outra faculdade. Fiz concurso para professora do Estado e da prefeitura, e, em todos eles, minha classificação superou minha expectativa (e a de muitas colegas). Nessa época, eu lecionava na Escola Estadual João Baptista de Brito, em Osasco (SP), e fui a única da escola aprovada no concurso.

Mas, a guerra ou, mais apropriadamente, a batalha do preconceito, continuava, no Parque Continental, nas ruas, nas lojas, nas escolas, etc...

Um dia, fui visitar, com minhas filhas (já havia nascido a segunda filha) o Shopping Center West Plaza. Minhas filhas começaram a experimentar casacos, vários, como é comum entre as meninas. A atendente da loja comentou com a colega: "Odeio baianos". Chamei minhas filhas e fomos embora sem comprar nada...

Devo reiterar, antes de concluir, que nem as piadas, nem as brincadeiras (algumas de mau gosto), nem as anedotas, nem as muitas indiretas, nada disto atrapalha meu sentimento. Nada disto tem me abatido. Pelo contrário, é uma espécie de cimento valioso, um amálgama diferenciado de melhor quilate em duas pilastras mestras que estão a nortear minha vida: minha auto-estima e meu amor por este estado brasileiro. Estes percalços são fertilizantes de uma árvore que plantei e rego, a árvore de ternura e apreço por esta gente paulistana.

Interessante e digno de nota: a recíproca não é verdadeira. Qualquer paulista ou paulistano que for ao nordeste será bem tratado. Com uma dose mística de respeito, carinho, admiração e até inveja. Mas, não há traumas nem desejos de revanche, nem lamentos, porque é esta miscelânea de coisas, conceitos e preconceitos que faz e sustenta este país harmônico na sua diversidade e chamado Brasil.

(História enviada em agosto de 2008)

A legítima defesa da honra conjugal


Gleice Barral - 5º período de Direito PUC Minas


Ao longo dos tempos, em vários casos envolvendo infidelidade conjugal, decisões judiciais reconheceram a existência da discriminante “legítima defesa da honra”, invocada em beneficio do cônjuge ultrajado que agredia, e até matava, o outro cônjuge ou seu amante, depois de surpreendê-los em flagrante adultério. E hoje? Será que o cônjuge traído poderia alegar que agiu em legítima defesa da honra para, assim, afastar a punição decorrente da prática delituosa?

Nos termos do artigo 25 do Código Penal Brasileiro, “entende-se em legítima defesa quem, usando moderadamente dos meios necessários, repele injusta agressão, atual ou iminente, a direito seu ou de outrem”.

Depreendem desse dispositivo legal os requisitos necessários à existência da legítima defesa: a agressão; a reação moderada; o conhecimento e a necessidade de se defender da ofensa.

A legítima defesa é reconhecida, portanto, quando se reage a uma agressão que está sendo desencadeada, que está prestes a ocorrer, ou quando, de fato, apresenta-se um perigo concreto. Noutras palavras, não há legítima defesa contra agressão futura, remota, e que possa ser evitada por outros meios.

Deve-se realçar, também, outro pressuposto: na reação, deve o agredido usar de moderação no emprego dos meios necessários, assim entendidos como aqueles que o agente dispõe no momento da repulsa.

Encontrado o meio, o indivíduo deve agir com moderação, a fim de não ir além do que é preciso para evitar a lesão do bem jurídico protegido (no caso, a sua honra). Se transpostos os limites, desaparece a legítima defesa e surge o “excesso culposo”.

O conhecimento da agressão e da necessidade da defesa é outro requisito de grande importância. Portanto, aquele que se defende tem que conhecer a agressão atual e ter o animus defendi, isto é, vontade de defesa.

Feitas as colocações, podemos dizer que não mais encontramos o entendimento fortemente arraigado de que o adultério da mulher fere a honra do marido. A doutrina e jurisprudência existentes não acolhem a invocação de infidelidade nem reconhecem a discriminante nessa situação, alegando a sua incompatibilidade com os requisitos do artigo supramencionado (artigo 25-CPB).

De fato. Como a reação na legítima defesa deve ser preventiva, impedindo a deterioração ou extinção do bem jurídico, teríamos, nas situações de adultério, contrariamente, verdadeira vingança, pois nesses casos já houve a agressão à honra: se alguém diz ter uma honra a proteger, o bem já foi lesionado, pois o fato ocorrido já terá chegado ou chegará ao conhecimento de outras pessoas.

Além disso, há incompatibilidade da legítima defesa com relação à subjetividade dada ao bem jurídico honra. O “bem honra”, por ser personalíssimo, talvez não possamos estipular a dimensão de seu valor a cada pessoa. No entanto, não devemos sobrepor o bem jurídico honra ao bem jurídico vida, já que esse último é pressuposto básico para a existência e usufruto dos demais bens tutelados pela lei, inclusive a honra.

Em muitas situações pode prevalecer, na verdade, o reconhecimento da justificativa de violenta emoção ou perturbação de ânimo daquele que se sentiu traído. Todavia, essa alegação apenas atenua o crime, não exclui o fato típico. Importante consignar que tal entendimento não significa que a honra deixou de ser protegida juridicamente. Pelo contrário. Assim como a vida, o patrimônio e a liberdade, a honra é também um bem e, da mesma forma que os demais, pode ser defendida contra agressões. No entanto, com certos limites.

Aliás, há outros caminhos na legislação brasileira para a preservação da honra do traído e que não representam necessariamente a agressão física ou, mesmo, a morte de um dos cônjuges.

O Código Civil Brasileiro dispõe que a “ação de separação judicial pode ser proposta por qualquer um dos cônjuges quando imputar ao outro comportamento desonroso ou qualquer ato que implique grave violação dos deveres do casamento, tornando impossível a vida em comum”. Assim, a lei admite que desapareça entre os cônjuges a obrigação de coabitação e confere ao cônjuge ultrajado o direito de viver separado.

O fascínio do jornalismo

Carlos Alberto Di Franco - Professor de ética, doutor em comunicação pela Universidade de Navarra (Espanha)
As virtudes e as fraquezas dos jornais não são recatadas. Registram-nas fielmente os sensíveis radares da opinião pública. Precisamos, por isso, derrubar inúmeros mitos que conspiram contra a credibilidade dos jornais. Um deles, talvez o mais resistente, é o dogma da objetividade absoluta. Transmite, num pomposo tom de verdade, a falsa certeza da neutralidade jornalística. Só que essa separação radical entre fatos e interpretações simplesmente não existe. É uma bobagem. Jornalismo não é ciência exata e jornalistas não são autômatos. Além disso, não se faz bom jornalismo sem emoção. A frieza é anti-humana e, portanto, antijornalística. A neutralidade é uma mentira, mas a isenção é uma meta a ser perseguida, todos os dias. A imprensa honesta e desengajada tem um compromisso com a verdade. E é isso que conta.

Mas a busca da isenção enfrenta a sabotagem da manipulação deliberada, a falta de rigor e o excesso de declarações entre aspas. O jornalista engajado é sempre um mau repórter. Militância e jornalismo não combinam. Trata-se de uma mescla, talvez compreensível e legítima nos anos sombrios da ditadura, mas que, agora, tem a marca do atraso e o vestígio do fundamentalismo sectário. O militante não sabe que o importante é saber escutar. Esquece, ofuscado pela arrogância ideológica ou pela névoa do partidarismo, que as respostas são sempre mais importantes que as perguntas. A grande surpresa no jornalismo é descobrir que quase nunca uma história corresponde àquilo que imaginávamos.

O bom repórter é um curioso essencial, um profissional que é pago para se surpreender. Pode haver algo mais fascinante? O jornalista ético esquadrinha a realidade, o profissional preconceituoso constrói a história. Todos os manuais de redação consagram a necessidade de ouvir os dois lados do mesmo assunto. Trata-se de um esforço de isenção mínimo e incontornável. Mas alguns desvios transformam um princípio irretocável num jogo de cena. A apuração de faz-de-conta representa uma das maiores agressões à ética informativa. Matérias previamente decididas em bolsões engajados buscam a cumplicidade da imparcialidade aparente. A decisão de ouvir o outro lado não é sincera, não se apóia na busca da verdade. É um artifício. O assalto à verdade culmina com uma estratégia exemplar: a repercussão seletiva. O pluralismo de fachada convoca, então, pretensos especialistas para declararem o que o repórter quer ouvir. Personalidades entrevistas avalizam a “seriedade” da reportagem. Mata-se o jornalismo. Cria-se a ideologia.

É necessário cobrir os fatos com uma perspectiva mais profunda. Convém fugir das armadilhas do politicamente correto e do contrabando opinativo semeado pelos arautos das ideologias. Boa parte do noticiário de política, por exemplo, não tem informação. Está dominado pela fofoca e pelo declaratório. Não tem o menor interesse para os leitores. A precipitação e a falta de rigor são outros vírus que ameaçam a qualidade da informação. A manchete de impacto, oposta ao fato ou fora do contexto da matéria, transmite ao leitor a sensação de uma fraude.

Autor do mais famoso livro sobre a história do New York Times, Gay Talese vê importantes problemas que castigam a imprensa de qualidade. “Não fazemos matéria direito, porque a reportagem se tornou muito tática, confiando em e-mail, telefones, gravações. Não é cara a cara. Quando eu era repórter, nunca usava o telefone. Queria ver o rosto das pessoas. “Não se anda na rua, não se pega o metrô ou um ônibus, um avião, não se vê, cara a cara, a pessoa com quem se está conversando”, conclui Talese. E o leitor, não duvidemos, capta tudo isso. O leitor que precisamos conquistar não quer o que pode conseguir na TV ou na internet. Ele quer algo mais; quer o texto elegante, a matéria aprofundada, a análise que o ajude, efetivamente, a tomar decisões. Conquistar leitores é um desafio formidável. Reclama realismo, ética e qualidade. O jornalismo tropeça em armadilhas. Nossa profissão enfrenta desafios, dificuldades e riscos sem fim. E é aí que mora o fascínio.

Clientes de bares farão teste de drogas na Escócia

Itemiser
O 'Itemiser' detecta traços de drogas nas mãos dos usuários
A polícia de Aberdeen, na Escócia, vai testar os freqüentadores de bares para o uso de drogas na porta dos estabelecimentos.

O teste vai ser feito com um aparelho - chamado de Itemiser - que detecta traços de drogas ilícitas nas mãos dos usuários em segundos, entre elas cocaína, maconha, heroína e ecstasy.

A participação é voluntária, mas quem se recusar a fazer o teste não poderá entrar nos bares. No caso de resultado positivo, os clientes podem passar por uma revista e até acabar a noite na prisão.

O objetivo da medida, segundo a polícia, é afastar traficantes de drogas dos bares.

“O projeto oferece a oportunidade de implementar um tipo de intervenção alternativa que vai ajudar a mudar atitudes e a reduzir a demanda por drogas ilícitas”, disse o coordenador nacional antidrogas da Escócia, Willie MacColl.

“Esperamos que, com o tempo, o modelo possa ser desenvolvido e usado em parcerias com a comunidade em outras cidades da Escócia para diminuir os efeitos nocivos causados pelas drogas.”

O Itemiser já está sendo usado em bares na Inglaterra, onde a ação foi questionada pela possibilidade de os clientes receberem a luz vermelha simplesmente por terem tocado uma superfície com traços de drogas. Mas a polícia afirma que o aparelho consegue detectar a diferença entre este tipo de contaminação e o uso de drogas.

MÃES PRECOCES


Joana Vieira - Juiz de Fora-MG

“Uma em quatro mulheres na América Latina é mãe antes dos 20 anos, segundo estudo divulgado pela Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal), ligada à Organização das Nações Unidas (ONU). O número é considerado alto pelos especialistas e foi influenciado, principalmente, pelos altos índices de gravidez na adolescência no Brasil e na Colômbia. A situação aqui teve uma leve melhora entre 1996 e 2006, mas os números ainda são altos. De acordo com um levantamento da Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde, do Ministério da Saúde, a cifra de mulheres que têm filhos antes dos 20 anos é de 32,8% – bem acima dos 25% da média regional. A pesquisa mostra que na América Latina há 76,2 nascimentos para cada 1 mil adolescentes com idades entre 15 e 19 anos, enquanto no resto do mundo a média é de 52,6 nascimentos por mil. No Brasil, ela é de 83 nascimentos para 1 mil adolescentes, uma melhora em relação a 1996, quando a cifra era de 86 filhos para cada 1 mil. Mas a situação no Brasil continua mais delicada do que em alguns dos países vizinhos. No Paraguai, a média é de 63 nascimentos para 1 mil jovens. No Chile, onde a média era de 80 nascimentos a cada 1 mil entre 1986 e 1996, este número caiu para 50 nascimentos a cada 1 mil adolescentes – apesar de este ter sido um dos últimos países da região a permitir campanha pelo uso de preservativo. A situação é mais crítica nos países da América Central, como Guatemala (114 nascimentos por mil) e República Dominicana, que registra o percentual mais alto – 116 a cada mil. Certo é que, se as famílias não mudarem de comportamento, educando seus filhos para a importância de viver as primeiras fases da vida discernindo direitos e deveres, para que não atropelem o tempo de estudos e dar início à fase adulta com responsabilidade, pensando em filhos apenas depois dos primeiros passos na vida profissional. Na verdade, a razão maior disso tudo há hipocrisia que campeia no país: não há educação sexual nas escolas; a maioria dos país não conversa com os filhos assuntos pertinentes à sexualidade; e o poder público não atua incisivamente na questão da paternidade responsável.”

UNE critica senador tucano que quer proibir meia-entrada



Um projeto em discussão no Senado Federal pode alterar a forma como a carteirinha de estudante é utilizada atualmente para a compra de ingressos pela metade do preço. A proposta também vale para o benefício concedido às pessoas com mais de 60 anos de idade. O senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG), o mesmo que tentou regular o uso da internet, é o autor do projeto. "O senador enfrentará a resistência da UNE que é a favor do direito amplo e irrestrito", disse Lúcia Stumpf, presidente da UNE.


Entre outras coisas, o texto estabelece que a meia-entrada não valerá nos cinemas em finais de semana e feriados locais ou nacionais. Para todos os outros eventos, como peças teatrais e shows, a meia-entrada não valerá de quinta-feira a sábado, se o projeto for aprovado.

O projeto também tenta coibir a emissão de carteiras de estudante falsificadas, criando um documento único, padronizado, de validade nacional: a Carteira de Identificação Estudantil. Cria ainda um Conselho Nacional de Fiscalização, Controle e Regulamentação da meia-entrada e da identidade estudantil.

A proposta está pronta para ser votada pela Comissão de Educação, Cultura e Esporte (CE), mas a data da votação ainda não foi definida. Se passar pelo Senado, ainda será analisada pela Câmara dos Deputados.

No Senado, antes de chegar à Comissão de Educação, a matéria foi aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), com alterações ao texto original. Na Comissão de Educação sofreu mais mudanças, após a realização de várias audiências públicas com representantes dos estudantes e dos produtores culturais.

A relatora do projeto na Comissão de Educação é a senadora Marisa Serrano (PSDB-MS), que apresentou um substitutivo à matéria original, do senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG). "Chegou-se a um acordo com a UNE, Ubes, representantes da área de cinema, teatro, e eu acatei esse acordo", justifica a senadora Marisa, que incluiu a limitação dos dias em que a meia-entrada estará em vigor.

A UNE (União Nacional dos Estudantes) é favorável ao documento único de identificação, mas é contra as restrições ao uso da carteirinha, como explica Lúcia Stumpf, presidente da entidade. "Esses pontos vão enfrentar a resistência da UNE, que é a favor do direito amplo e irrestrito conquistado pelos estudantes. Os senadores resolveram encaminhar dessa forma, mas vamos lutar para mudar isso."

Fasificação

O representante dos produtores de eventos defende a medida. Para Ricardo Chantilly, diretor da Abeart (Associação Brasileira de Empresários Artísticos), se aprovado, o projeto terá como resultado uma queda nos preços dos ingressos. "No dia de maior fluxo de pessoas e que o faturamento é maior, deixa o produtor cobrar o preço normal. Aí, não tem meia nem inteira", diz. "O que vai acontecer é que, no sábado, o preço de um show pode ser R$ 45, e no domingo, o estudante paga R$ 22,50. É melhor do que o que acontece hoje, quando a gente tem que colocar o ingresso a R$ 80 com meia a R$ 40", exemplifica.

Para ele, com a disseminação das carteirinhas falsificadas, os produtores foram levados a cobrar um preço maior, para evitar prejuízos. Assim, o diretor da Abeart também defende um limite na quantidade de ingressos destinados aos estudantes e idosos, como já ocorre em alguns lugares, como São Paulo - a meia-entrada é regulamentada por leis estaduais e municipais.

"A média hoje é de 70%, 80%, até 90% de meia-entrada nos eventos. Eu defendo uma limitação da venda de meia-entrada a 30% do total. Assim, a gente saberia que, em um evento para mil pessoas, teria 700 pagando inteira e 300 pagando meia. Seria possível uma redução de, no mínimo, 30% nos preços, porque conseguiríamos o mesmo faturamento de agora, com um ingresso mais barato", argumenta.

O que garantiria a queda nos preços? Segundo Chantilly, o mercado. "Se eu fizer um show do Nelson Ned e colocar a R$ 80, não vai ninguém. Se eu colocar um show da Ivete Sangalo a R$ 300, também não vai ninguém. Uma vez por ano tem uma Madonna, que pode cobrar R$ 500, R$ 800, que lota um Maracanã. Mas quem regula os preços é o bom e velho mercado", afirma.

Autor do projeto original, o senador Azeredo também diz que a expectativa é que os preços caiam. "O que se espera é que haja uma redução do preço dos ingressos; essa é informação dos produtores", afirma. Sobre a limitação dos dias de validade da meia-entrada, ele tem posição contrária. "O ideal era que pudesse valer para todos os dias, mas esse foi o acordo. O mais importante, sem dúvida, vai ser a padronização da carteira em todo o Brasil", destaca.

O projeto em análise no Senado também revoga a Medida Provisória 2.208, editada em 2001, que acabou com a exclusividade das entidades estudantis na emissão da identidade estudantil. O relatório da senadora Marisa Serrano afirma que a medida "provocou descontrole na concessão desses documentos" e levou "na prática, à perda do benefício do pagamento de meia-entrada por parte dos estudantes e idosos."

Padronização

A presidente da UNE diz que a padronização do documento não resultará em aumento do preço de emissão. "Não deve aumentar exatamente porque não vai mais ser regido pela disputa de mercado", diz Lúcia Stumpf. "Hoje, existem até cursinhos de línguas e pré-vestibulares fantasmas, criados só para emitir a carteira", critica.

A UNE cobra preços diferenciados para emissão da identidade estudantil nas diferentes regiões do país. Em São Paulo, o preço é R$ 25, no Centro-Oeste, R$ 15, e nas regiões Norte e Nordeste, a taxa varia de R$ 8 a R$ 10, segundo a presidente da entidade.

Lúcia Stumpf é contrária ao sistema de cotas para a venda de meia-entrada por achar impossível a fiscalização. "Nem mesmo os produtores apresentaram uma alternativa eficiente para controlar a venda dos ingressos para estudantes. Sem isso, podem vender apenas os cinco primeiros e dizer que já venderam toda a cota", afirma.

Além de defender a limitação à meia-entrada, os produtores também cobram uma compensação do governo pelo benefício concedido. "Os taxistas compram carro 30% mais barato, mas não são as empresas que arcam com isso, o desconto vem dos impostos. Nos ônibus, os idosos têm passe livre, mas as empresas recebem por isso. A gente não é o 'lobo mau' da história, o governo é que não deu a contrapartida necessária", ressalta.

O ressarcimento está previsto na análise da relatora, e seria feito com recursos do Pronac (Programa Nacional de Apoio à Cultura), da Lei Rouanet.

Pelo projeto do Senado, o direito à meia-entrada fica assegurado aos estudantes e às pessoas com idade igual ou superior a sessenta anos, em cinemas, cineclubes, teatros, espetáculos musicais, circenses, eventos educativos, esportivos, de lazer e entretenimento, em todo o território nacional, promovidos por quaisquer entidades e realizados em estabelecimentos públicos ou particulares.

O benefício não é cumulativo com quaisquer outras promoções e convênios e também não se aplica ao valor dos serviços adicionais eventualmente oferecidos em camarotes, áreas e cadeiras especiais.

Fonte: da redação, con informações da UOL

Valeu a pena?



por Toni C.*

- E ai, cadê o hip-hop?
- Seis num eram us pá?
- Cadê os manos? Onde estão us Vida Loka agora?
Hahahahaha!



Coloco um CD novo no leitor do computador. Abretesesamo é a palavra mágica que abre portais invisíveis e move rochas gigantes com passagens secretas para novos espaços. A música de abertura do grupo Inquerito toca a milhão no barraco.

Enquanto ouço tento rascunhar uns baratos...
Fico pensando no cara que mora em Diadema, saiu de casa no domingo dia 6 passado foi até a escola para votar no Nelsão...
Ou na mina que mora no Jardim Jaqueline na zona oeste de São Paulo que não só votou, mas conseguiu uma par de votos para o Nuno Mendes.
Nos malucos de Hortolândia que fizeram de tudo para ter como prefeito Aliado G.

E poderia falar de cada um dos eleitores, dos mais de 30 candidatos que o movimento hip-hop lançou pelo país.
Grande parte destes talvez se perguntando:
- Valeu a pena?

Renan líder do grupo Inquérito é estudante da Unicamp, conquistou seu espaço num dos grandes centros de excelência de educação do país. Não sofre de ejaculação precoce nas palavras bem colocadas de suas músicas “... queria cantar com o Tim, tocar como o Ton, jogar que nem Pelé escrever igual Drumond” Inquerito

- E ai tiu firmeza? – Renan me salva pelo MSN.
- E ai rapaz, firmão, tava ouvindo seu som.
- O Toni conseguimos eleger alguns manos?
Me perguntou antes de trocarmos idéias sobre literatura “A saudade é a presença de uma ausência!” ele fala atribuindo a frase a Rubem Alves quando disse que estava lendo um livro deste autor.

Me lembro de um sábado quente em que acompanhei Nuno Mendes a uma atividade de campanha numa favela. A recepção calorosa da comunidade é rotina, troca de idéias, comprimentos, visitas às casas, enquanto andávamos pelas vielas estreitas, vejo um homem abaixando e pegando algo dum bueiro. Sabe o que significa?
Que havia acabado de descobrir onde o cara mocava a droga que vendia.
O cara ficou arisco. Que eu estava fazendo ali? Com quem? Autorizado por quem? Perguntou para um parceiro nosso que mora na comunidade. Ao saber que estava acompanhando o Nuno, em campanha política, a convite dos próprios moradores, ficou um pouco mais aliviado. Mas que naquele dia atrapalhamos o comercio, atrapalhamos, de tanta gente que vinha pra falar com o locutor do Espaço Rap.

Anderson 4P foi reeleito em Francisco Morato num segundo mandato. Mas como diz o nome do CD do Inquérito: Um Segundo é pouco.
O movimento sacou isso teve mais de 30 candidaturas, milhares de votos, muitos foram os mais votados do partido, outros assumiram suplências e se elegeram além do Anderson a Eva em Sumaré, Alceu em Coordeirópolis e o Raissuli em Salto. Não foi em vão.

Aliado G teve 3.816 votos, Nuno Mendes 1.368, Nelson Triunfo teve 1.277. Será que valeu a pena tanto esforço? Lançar candidatos de expressão e depois não eleger, isso não tira a credibilidade do movimento?
Bom vale lembrar que o Lula teve de se candidatar por 4 vezes para se tornar presidente da república. E se o movimento tivesse de ter certeza que elegeria para lançar a candidatura nunca teríamos nenhum representante.

- Mas o que adianta eleger um cara que é do hip-hop? Ele pode ser do movimento e fazer pilantragem, né? – Pode continuar questionando algum mano mais incrédulo.
Estamos as vésperas de mais uma edição do prêmio Hutúz. Como é possível acreditar que ser indicado, fazer campanha, ser votado e receber o prêmio é em pró do hip-hop e se eleger vereador para lutar pela periferia não é?


Renan fala com saudades dos tempos que produzia fanzines, das aulas que dava no assentamento do MST, e da descontinuidades destes projetos por falta de apoio. Conquistar espaços na administração pública deve servir para valorizar, enriquecer, resgatar e desenvolver boas iniciativas que dão certo nas comunidades. Ou eu estou louco?

“Todo homem será condenado pelos bem que ele não fez” Inquérito
Um “jornalista” do UOL preparando uma matéria para o portal, há 4 dias das eleições lança a pergunta ao Nuno Mendes:
- Mano Brown diz em seu disco: “Apoiado por 50 mil manos.” O movimento não é muito pequeno para ter tantos candidatos?

Eu pensei se essa lógica fizesse sentido FHC jamais seria presidente, afinal quantos sociólogos existe no país?
- Esta música dos Racionais do qual se refere - respondeu Nuno - saiu num disco que vendeu mais de um milhão de cópias – é claro que esta parte não foi para o ar.
- Ridículo! Agora qualquer um quer ser candidato, era só o que me faltava. Haahaha! Debocha uma patricinha ao ler a matéria sacana no UOL.

Pode rir, mas desacredita não!
- Não! Eu já acreditei nisso, mas não será por esta via que a coisa acontecerá. - Me diz um bom malandro.
- E verdade professor, mas Malcom X já ensinava que devemos guerrear por todos os meios necessários, né não?

Nelson Mandela, por exemplo, liderou e venceu o apartheid mesmo encarcerado. Poderia acreditar que cumpriu seu papel, mas ao sair da prisão se tornou presidente da África do Sul pela via eleitoral. Pablo Neruda poderia se contentar em ser um dos maiores poetas da humanidade, e se tornou também senador no Chile.

Lendo o relato de Bob PTG me emociono, você viu o que os manos do rap aprontaram? Fundaram o Partido Comunista numa cidadezinha no interior do Ceará chamada Potengi, elegeram três vereadores e o prefeito da cidade. (leia)

Tenho lido muitos relatos sobre a campanha por gente do rap. Peqnoh fala sobre as eleições em artigo no Rap Nacional (Leia). DJ Sadam candidato no Rio de Janeiro, também problematiza sobre se vale a pena, em seu espaço no Bocada Forte (Leia). Kim Isac denúnciou repressão a sua campanha... (Leia)

Na noite havia chuva torrencial, numa terça-feira de transito monstro. Chegamos em Varginha extremo sul da cidade por volta das 21 horas, duas horas de atraso. Haviam mais de 30 pessoas passientemente nos aguardando. Corremos para a casa de um parceiro ali perto.

Formamos um circulo, um por um foi se apresentando, crianças, idosos, senhoras, manos... por mais de uma hora, todos ali discutiram política, como fazer para elegermos nosso candidato, Nuno Mendes...

É a alma de nosso povo não é pequena.
E a pergunta qual era mesmo?
Há! Se vale a pena?
Como diria o poeta
Neste caso... “Tudo vale a pena...”




*Toni C., DJ e produtor. Autor do vídeo documentario "É Tudo Nosso! O Hip-Hop Fazendo História", organizador do livro "Hip-Hop a Lápis" e membro da Nação Hip-Hop Brasil e da equipe do Portal Vermelho.