A Religiosidade

"Como entender a guerra entre religiões, cada uma matando em nome de seu Deus? É que lhes falta a religiosidade"
“Do ponto de vista do comportamento, qual o papel da religião de deus na vida das pessoas? Ela ajuda ou atrapalha a evolução do homem?”

Fábio, de Belo Horizonte

A religiosidade é fundamental, pois é a religação do homem com Deus, com o universo, com o cosmo, com o todo, com o outro e consigo mesmo. É uma tendência natural do ser humano. É um impulso básico para o infinito. Pessoas que têm uma ligação com o infinito, com o desconhecido, viverão com maior abundância, com mais amor ao próximo. A religião, por outro lado, é a posse de rituais e crenças religiosas. A religião é uma escolha e um caminho para a religiosidade, um meio para se entrar em contato com a divindade. Em si ela não é essencial e, sim, o impulso de ligação com Deus. A religião passa a ser importante à medida que facilita tal ligação. Todos os rituais, sons, palavras, mantras, cheiro de incenso e velas criam um clima propício para o contato com o eu interior e com o eu cósmico.

A falta de religiosidade tem trazido graves consequências nas relações pessoais e sociais. O grande dom espiritual são os valores encarnados por essa espiritualidade, tais como solidariedade, amor, alegria, celebração e esperança. À medida que falta essa espiritualidade, faltam também esses valores. Aí acaba prevalecendo nos relacionamentos os valores ditados por nossa sociedade, como competição, cobiça, esperteza, violência e ciúme. A violência aparece quando desrespeitamos o outro. Todo ato de violência é uma invasão ao espaço de alguém. É o não consentimento do outro como indivíduo, como alguém que é outro, que não eu. E isso tem a ver com os valores disseminados por uma cultura de competição que privilegia o prazer imediato acima de tudo.

– De repente quero dinheiro, então destruo alguém.
– Quero o carro do outro. Simplesmente tomo.
– Quero um filho, vou à maternidade e roubo um bebê.

O prazer em si é bonito e sagrado. Todos nós buscamos, mas não pode ser a qualquer preço. Há hora para adiar o prazer ou abrir mão dele em função da realidade. A verdadeira religiosidade nos ensina a conjugar o material com o espiritual, o imediato com o depois, o prazer com a realidade. E entre todos esses valores, o principal deles é o amor, com todos os seus ingredientes de alegria, encantamento, serenidade, paciência e paz.

Pessoas que se dizem religiosas e não são amorosas, na verdade, não o são. Ter uma religião é fácil. Basta entrar para uma delas, pagar o dízimo e frequentar os rituais. Ser religioso é mais difícil porque supõe um caminho de crescimento na tolerância, no respeito a todos os seres, na honestidade com a realidade, no amor real a Deus.

Como entender a guerra entre religiões, cada uma matando em nome de seu deus? É que lhes falta a religiosidade. Uma pessoa amorosa não mata em nome do amor. O apego excessivo aos sinais exteriores da religião às vezes atrapalha o crescimento espiritual, nos infantilizando na relação com Deus e nos tornando cada vez mais supersticiosos.

Uma forma infantilizada, por exemplo, de nos ligarmos a Deus é vê-lo apenas como protetor, a quem recorremos constantemente à espera do milagre. Deus só faz uma parte do milagre. A outra nós temos de completar. O maior milagre ele já fez: deu-nos a vida. A construção é nossa. Deus não nos substituirá. Se não, não precisaríamos existir. A idéia do milagre sem nossa participação é alienante e nos leva à acomodação. Pode ocorrer a intervenção direta de Deus, mas grande parte dos milagres tem de ter nosso esforço, nossa dedicação.

Estamos sempre pedindo coisas a Deus. Sempre querendo sua proteção. É uma forma quase supersticiosa, como um amuleto. Deus nos protegendo do mal como se ele estivesse fora de nós. Nossa relação com Deus deve também primar pelo amor. Algumas religiões têm, por prática, o agradecimento a Deus por todas as dádivas que ele nos dá, a começar pela vida. Ele nos deu o livre-arbítrio. Ele está mais interessado em nos fazer construtores de nosso mundo. Muitas vezes pensamos em Deus nos momentos de sofrimento. Na verdade, dois caminhos nos encaminham à realidade. O amor e a dor. Pessoas alegres, amorosas e celebrativas vão encontrar Deus necessariamente.

A solidariedade, a compreensão do outro e a compaixão nos colocam em sintonia com algo mais profundo. Um coração religioso é um coração com Deus dentro. A dor, a perda, a tristeza profunda também nos despertam, porque nos colocam em contato com os limites humanos, com a transitoriedade e esbarramos na necessidade da transcendência. Mas, para que a religião não se torne oca, sem sentido, e periférica, ela deve virar comportamento.

Religiosidade é uma forma de viver. A graça supõe a natureza. Há algum tempo, alguém me perguntou por que eu falava muito pouco de Deus em meus programas de televisão. Minha resposta, na qual acredito piamente, foi: “Deus não é para ser falado, mas para ser vivido”.

Valorização da mulher

É necessário dar às mulheres a oportunidade de trabalhar com salários justos, ter acesso a crédito e abrir negócios
Hillary Clinton - Secretária de Estado dos EUA
Há 11 anos, em viagem à China, encontrei mulheres ativistas que me relataram seus esforços para melhorar a situação da mulher no país. Elas me apresentaram um vívido retrato dos desafios enfrentados pelas mulheres: discriminação no emprego, assistência médica inadequada, violência doméstica, leis antiquadas que impediam o avanço das mulheres. Reencontrei algumas delas há poucas semanas, durante minha primeira viagem à Ásia, como secretária de Estado. Desta vez, ouvi progressos obtidos na década passada. Porém, mesmo após alguns avanços importantes, essas mulheres chinesas não deixaram dúvidas de que ainda existem obstáculos e injustiças, como ocorre em muitas partes do mundo.

Tenho ouvido histórias como as delas em todos os continentes, à medida que mulheres buscam oportunidades para participar de forma integral da vida política, econômica e cultural de seus países. E, hoje, ao comemorar o Dia Internacional da Mulher, temos a chance de avaliar tanto os avanços conquistados quanto os desafios remanescentes – e de pensar sobre o papel vital que as mulheres devem desempenhar na ajuda à solução dos complexos desafios globais deste século. Os problemas que enfrentamos hoje são demasiadamente grandes e complexos para serem resolvidos sem a plena participação das mulheres. Fortalecer os direitos das mulheres não é somente obrigação moral constante: é também uma necessidade, no momento em que enfrentamos uma crise econômica global, disseminação do terrorismo e das armas nucleares, conflitos regionais que ameaçam famílias e comunidades e mudanças climáticas com seus respectivos perigos para a saúde e a segurança mundiais.

Esses desafios exigem tudo o que temos. Não os resolveremos com meias medidas. No entanto, com demasiada frequência metade do mundo é deixada de fora destas questões e de muitas outras. Atualmente, mais mulheres chefiam governos, empresas e organizações não-governamentais (ONGs) do que nas gerações anteriores. Mas essa boa notícia tem outro lado. As mulheres ainda constituem a maioria dos pobres, desnutridos e não escolarizados do mundo. Ainda estão sujeitas a estupro como tática de guerra e ainda são exploradas em âmbito mundial por traficantes, em atividades criminosas que rendem bilhões de dólares.

Crimes em nome da honra, incapacitação e mutilação genital feminina, além de outras práticas violentas e degradantes cujo alvo são mulheres, continuam a ser tolerados atualmente em muitos lugares do mundo. Há apenas alguns meses, uma jovem do Afeganistão estava a caminho da escola quando um grupo de homens lhe jogou ácido no rosto, causando-lhe danos permanentes à visão, só porque se opunham à sua busca por instrução. A tentativa de aterrorizar a moça e sua família fracassou. Ela afirmou: “Meus pais me disseram para continuar a ir à escola, ainda que possa ser morta”.

Especialmente em meio a esta crise financeira, devemos lembrar o que um conjunto crescente de pesquisas nos diz: o apoio a mulheres é um investimento de alto retorno, que resulta em economias mais fortes, sociedades civis mais vigorosas, comunidades mais saudáveis e mais paz e estabilidade. E investir em mulheres é um modo de apoiar futuras gerações: as mulheres gastam a maior parte de sua renda em alimentos, remédios e escolas para os filhos. Mesmo em países desenvolvidos, o pleno poder econômico das mulheres está longe de ser alcançado. Mulheres de muitos países continuam a ganhar muito menos que os homens para fazer os mesmos serviços – uma lacuna contra a qual o presidente Barack Obama deu um passo adiante nos Estados Unidos este ano, ao assinar a Lei Lilly Ledbetter de Pagamento Justo, que fortalece a capacidade das mulheres de contestar salários desiguais.

É necessário dar às mulheres a oportunidade de trabalhar com salários justos, ter acesso a crédito e abrir negócios. Elas merecem igualdade na esfera política, com acesso igual à urna eleitoral, liberdade para apresentar reivindicações ao governo e candidatar-se a cargos públicos. Elas têm direito à assistência médica para si e suas famílias e o direito de enviar os filhos à escola - tanto filhos quanto filhas. E desempenham um papel vital no estabelecimento da paz e da estabilidade no mundo inteiro. Em regiões arrasadas pela guerra, são frequentemente mulheres que dão um jeito de superar diferenças e descobrir interesses comuns.

Ao viajar pelo mundo em minha nova função, não me esquecerei das mulheres que já encontrei em todos os continentes, mulheres que lutaram contra adversidades extraordinárias para mudar leis de modo a poder possuir bens, ter direitos no casamento, frequentar escola, apoiar a família e até atuar – trabalhando com meus pares de outras nações, assim como com ONGs, empresas e indivíduos – para continuar a promover o avanço dessas questões. Reconhecer o pleno potencial e o comprometimento de mulheres e meninas não é apenas questão de justiça. Trata-se de fortalecer a prosperidade, o progresso e a paz global para as próximas gerações.

Lya Luft : No paraíso da transgressão

"Vivemos feito bandos de ratos aflitos, recorrendo à droga, à bebida, ao delírio, à alienação e à indiferença, para aguentar uma realidade cada dia mais confusa"

A gente se acostuma a criticar os jovens por eles serem pouco educados, os homens por serem arrogantes, as mulheres por serem chatas, os governos por serem omissos ou incompetentes, quando não mal-intencionados. Políticos sendo acusados de corrupção é tão trivial que as exceções se vão tornando ícones, ralas esperanças nossas. Onde estão os homens honrados, os cidadãos ilustres e respeitados, que buscam o bem da pátria e do povo, independentemente de cargos, poder e vantagens?

Transgredir no mau sentido é natural entre nós. Ladrões e assassinos, mesmo estupradores, recebem penas ridículas ou aguardam o julgamento em liberdade; se condenados, conseguem indultos absurdos ou saem em ocasiões como o Natal, e boa parte deles naturalmente não volta. Crianças continuarão a ser estupradas, inocentes mortos, velhinhos roubados, mulheres trancadas em suas casas, porque a justiça é cega, porque as leis são insensatas e, quando prestam, raramente se cumprem.

Nesta nossa terra, muitos cidadãos destacados, líderes, são conhecidos como canalhas e desonestos, mas, ainda que réus confessos ou comprovados, inevitavelmente se safam. Continuam recebendo polpudos dinheiros. Depois de algum tempo na sombra, feito eminências pardas, voltam a ocupar importantes cargos de onde nos comandam. Assassinos ao volante nem são presos. Se presos, são soltos para o famoso "aguardar o julgamento em liberdade". Centenas e centenas de vidas cortadas de maneira brutal e o assassino, a não ser que acossado pela culpa moral, se tiver moral, logo voltará ao seu dia-a-dia, numa boa. Se invadir a casa de meu vizinho, fizer seus empregados de reféns, der pauladas na sua mulher ou na sua velha mãe e escrever nas paredes com excremento humano frases ameaçadoras, imagino que eu vá para a cadeia. Os bandos de pseudoagricultores (a maioria não sabe lidar na terra) fazem tudo isso e muito mais, e nada lhes acontece: no seu caso, bizarramente, não se aplica a lei.

Ilustração Atômica Studio


Se sobram muitas vagas nos exames vestibulares, em alguns casos simplesmente se fazem novas provas, provinhas mais fáceis. Leio (se me engano já me desculpo, nem tudo o que se lê é verdadeiro) que, como são poucos os aprovados nos exames da OAB, porque os estudantes saem despreparados demais das faculdades de direito que pululam pelo país, o exame se tornou mais simples: há que aprovar mais gente. Quantidade, não qualidade. Governantes, os bons e esforçados, viram objeto de ódio de adversários cujo interesse não é o bem da comunidade, estado ou país, mas o insulto, o desrespeito, a violência moral do pior nível. Aliás, nesses casos o nível não importa, o que importa é destruir.

Eis o paraíso dos transgressores: a lei é a da selva, a honradez foi para o brejo, a decência tem de ser procurada como fez há séculos um filósofo grego: ao lhe indagarem por que andava pela cidade com uma lanterna acesa em dia claro, declarou: "Procuro um homem honesto". O que devemos dizer nós? Temos pouca liderança positiva, raríssimo abrigo e norte, referências pífias, pobre conforto e estímulo zero, quase nenhuma orientação. A juventude é quem mais sofre, pois não sabe em que direção olhar, em que empreitadas empregar sua força e sua esperança, em quem acreditar nesse tumulto de ideias desencontradas. Vivemos feito bandos de ratos aflitos, recorrendo à droga, à bebida, ao delírio, à alienação e à indiferença, para aguentar uma realidade cada dia mais confusa: de um lado, os sensatos recomendando prudência e cautela; de outro, os irresponsáveis garantindo que não há nada de mais com a gigantesca crise atual, que não tem raízes financeiras, mas morais: a ganância, a mentira, a roubalheira, a omissão e a falta de vergonha. E a tudo isso, abafando nossa indignação, prestamos a homenagem do nosso desinteresse e fazemos a continência da nossa resignação. Meus pêsames, senhores. Espero que na hora de fechar a porta haja um homem honrado, para que se apague a luz de verdade, não com grandes palavras e reles mentiras.

Lya Luft é escritora

Dia Internacional da Mulher



Elizabeth Cezar Nunes* - bethcn851@gmail.com*

No momento em se comemora o Dia Internacional da Mulher, observa-se com preocupação a discriminação, o preconceito e o racismo que persiste em excluir e violar a dignidade da mulher negra no mercado de trabalho.

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE), demonstra que, em 2006, o rendimento médio real das mulheres não-negras era de R$ 524,6, enquanto o das negras era de R$ 367,2.(1)

De acordo com o Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que observa os dados da Pnad 2007, as mulheres negras estão mais presentes no trabalho doméstico - 21,4% contra 12,1% entre as mulheres brancas - na produção para subsistência e trabalho não remunerado. Estas mulheres também são o grupo com as menores proporções de carteira assinada (23,3%) e na posição de empregadoras (1,2%).(2)

O estudo do Ipea destaca que as taxas de desemprego apresenta indícios da maior precarização da situação das mulheres negras no mercado de trabalho. Enquanto elas apresentaram uma taxa de desocupação de 12,4% em 2007, as mulheres brancas registraram desemprego de 9,4%, os homens negros, 6,7% e os homens brancos, 5,5%.(3)

Como ensina Alice Monteiro de Barros,(4) a preocupação com a discriminação fundada em raça extrai-se da ação internacional, mais precisamente da Convenção Internacional da ONU sobre Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial.(5)

A Constituição Federal prevê em seu artigo 7º, inciso XX, que além de outros direitos que visem à melhoria da condição social dos trabalhadores em geral, a proteção do mercado de trabalho da mulher, tratando em especial da questão da discriminação da mulher na hora de sua contratação pelo empregador.

Ainda em relação à discriminação da mulher no âmbito do trabalho, Alice Monteiro, lembra que o constituinte brasileiro atento para a existência do racismo, encontrou preceito muito severo com a promulgação da Constituição Federal de 1988. E é em seu artigo 5º, inciso XLII, da Lei Maior que a prática do racismo esbarra na norma legal, pois esta a transformou em delito inafiançável, imprescritível, sujeitando o autor à pena de reclusão.

Agrega-se à Carta Maior o Decreto de 20 de agosto de 2004 que cria a Comissão Tripartite no Ministério do Trabalho, com o objetivo de promover políticas públicas de igualdade de oportunidades e tratamento, visando a combater as formas de discriminação de gênero e de raça. E finalmente, vem o Decreto n. 5.397, de março de 2005, instituir o Conselho Nacional de Combate à Discriminação.

A partir dessas instituições e das normais jurídicas vigente, é indispensável implementar políticas públicas de ações afirmativas que possam estabelecer a igualdade de condições e oportunidades de trabalho para todas as mulheres, independente da cor de sua pele.

Para isso, é fundamental que se amplie também o número de mulheres negras na esfera dos operadores do Direito e entre os que combatem a exclusão no mercado de trabalho. Esse espaço vem sendo reivindicado desde o século passado por meio de uma luta histórica, encampada por mulheres como Laudelina de Campos Melo e Maria Rita Soares da Andrade

Laudelina de Campos Melo, nasceu em Poços de Caldas, Minas Gerais, trabalhou como doméstica, tornando-se a primeira líder sindical de sua categoria no país. Diante das discriminações sofridas pelas mulheres no mercado de trabalho, integrou-se ao movimento negro, no qual participou da promoção de inúmeras atividades sociais e culturais, especialmente em defesa dos direitos trabalhistas.(6)

Maria Rita Soares de Andrade, natural de Aracaju, SE, diplomou-se em Direito pela Universidade Federal da Bahia, em 1926, sendo a única mulher da turma e a terceira a se formar no estado. Destacou-se na luta pelos direitos das mulheres, foi a primeira mulher a integrar o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, representando o estado da Guanabara. Em 1967, tornou-se a primeira juíza federal do país.(7)

Da luta iniciada no século passado para os dias de hoje muitas mulheres continuam rompendo barreiras, superando limites, lutando para mudarem o panorama no mercado de trabalho no Brasil.

Todos os anos as homenagens do Dia Internacional da Mulher reverenciam o conjunto das mulheres, conforme os termos do artigo 5º da Constituição Federal, caput, “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza...” Em nome desta igualdade, no entanto, uma representante se faz destacar, mais uma vez, não só por suas conquistas ao longo da vida, mas por percorrer um processo de muitos obstáculos até alcançar os postos mais altos da carreira profissional.

Obstáculos esses que fazem parte do caminho de muitas mulheres trabalhadoras, pobres e negras, e é dever do operador do Direito contribuir para o desenvolvimento de normas que estejam em harmonia com a realidade social e que impeçam a exclusão e a discriminação destas mulheres nomercado de trabalho.

Neuza Maria Alves da Silva - Foto: Ubirajara Machado - Revista RaçaNeuza Maria Alves da Silva,(8) mulher negra, que teve uma trajetória muito sofrida, pela dor da discriminação em relação à cor de sua pele, cursou Direito na Universidade Federal da Bahia e, desde aquele momento, sua carreira profissional tem sido permeada de conquistas, principalmente a partir de 1988, quando assumiu um cargo na magistratura federal. Em 2004, foi nomeada desembargadora do Tribunal Regional Federal, tornando-se a primeira mulher negra a ocupar esta função no Brasil.(9)

Diz Neuza Maria Alves à revista jurídica ‘Justiça e Cidadania’(10) publicada em abril de 2006, que jamais se deixou abater pelos fracassos: haveria de se recuperar e insistir, seria sempre forte. Ao encontrar uma barreira, deveria estudar formas de ultrapassá-la: iria, se necessário, contornar, escalar ou cavaria um túnel, mas nunca pisaria em ninguém e nem usaria pessoas como trampolim para atingir seus objetivos.

Vale ressaltar que, aos treze anos e meio, ficou frustrada por não conseguir sequer dançar numa simples quadrilha, “era a única negra do grupo”, mas não se abateu, decorou em pouco tempo um monólogo de várias lendas e abriu os festejos interpretando o texto, para seu deleite “fez a noite memorável!”

Superou muitos outros percalços, como quando já juíza federal deixou de ser convidada para comemorações particulares ou coletivas em residências de seus colegas.

Esta mulher, como tantas outras, recebeu do Estado uma educação de qualidade em escola pública, como comentou em entrevista à revista ‘Justiça e Cidadania’. Lamentou apenas não ter conseguido outros tipos de ajuda dos poderes constituídos àquela época, pois quem sabe poderia ter conseguido ir mais longe.

E o que mais chama a atenção nas revelações feita Neuza Maria Alves, além de suas atitudes com o ser humano, “é a sua convicção de que o reconhecimento da dignidade do negro não poderá nunca depender exclusivamente de ato seu, extraordinário ou heróico”.

Convoco todas as mulheres, neste dia em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, a reivindicarem seus direitos violados, a lutarem pela igualdade de condições de oportunidades de trabalho, independente da cor de sua pele.

Finalmente, como observa Neuza Alves, “que todos abracem a causa da abolição do racismo, sob qualquer forma, e que promovam a cidadania, a solidariedade entre os seres humanos e a justiça social”.

Bacharel em Direito pelo Centro Universitário de Brasília (UniCeub).*

Mulheres no século XXI





Escrito por Inês Buschel


"Pode-se graduar a civilização de um povo pela atenção,
decência e consideração com que as mulheres são educadas,
tratadas e protegidas".
Jane Austen (1775-1817)

Neste dia 8 de março de 2009, mais uma vez celebraremos o Dia Internacional da Mulher. Cabe a nós refletir e avaliar as perdas e os ganhos na longa caminhada de conquistas, bem como planejar nosso futuro a curto, médio e longo prazo. Tarefa bastante difícil.

A primeira questão que se coloca é saber de quais mulheres estaremos falando. Sim, porque somos muitos diferentes dentro da igualdade, a começar pelas distintas etnias e classes sociais a que pertencemos por nascimento. Somos mestiças, louras, indígenas, negras, enfim, de muitas cores; temos nenhuma, pouca ou muitas posses; freqüentamos boas escolas ou não tivemos sequer educação escolar; somos boas ou más, justas ou injustas; vivemos sozinhas ou em companhia da família; temos filhos ou não; trabalhamos no ambiente doméstico, no mercado fora de casa ou fazemos as duas coisas concomitantemente; temos desejos e idades diferentes; somos homo ou heterossexuais; camponesas ou citadinas; imigrantes ou nacionais; brasileiras do norte, sul, leste e oeste.

Enfim, a diversidade impera entre nós e por isso não poderemos tratar de conquistas de direitos e cumprimento de obrigações de uma maneira generalizada sob pena de cometermos injustiças. Teremos de utilizar a balança da eqüidade e sempre levarmos em conta a cultura do território domiciliar de cada grupo social.

Pois bem. Tentaremos encontrar um denominador comum à maioria de nós: vivemos, com raras exceções, em sociedades essencialmente patriarcais onde ainda quem manda são os homens, sejam eles nossos pais, maridos, companheiros ou irmãos. Apesar de algumas pesquisas sociais já indicarem que, a partir do final do século XX, o patriarcado dá mostras de pleno declínio, levará anos para que haja uma modificação cultural substancial nessa área. O nascimento de meninas ainda não é recebido com alegria pela maioria das famílias no mundo afora.

Entretanto, graças à luta de muitas mulheres corajosas, vimos conquistando alguns espaços significativos de liberdade e poder. O movimento feminista mundial foi bastante vitorioso em questões de direitos humanos das mulheres, mormente no campo dos direitos sexuais e reprodutivos, embora ainda não tenhamos obtido a despenalização do abortamento e esta luta continue. A educação escolar para as meninas e ensino superior para jovens mulheres já é realidade, assim como o direito ao voto e de ser votada, o divórcio legal. Houve avanços nos direitos da mulher trabalhadora etc. Todavia, estamos longe de nos igualarmos ao poder social mantido pelos homens.

Desde o final do século passado e neste início do século XXI, no Ocidente, estamos sendo vítimas de uma guerra publicitária que os homens escolheram para nos dominar. Eles determinaram um padrão de beleza feminino bastante desfocado da realidade – a sofisticação da magreza - e nos impõem esse figurino através da mídia, fazendo com que muitas meninas e jovens de todas as classes sociais sucumbam a essa régua masculina e adoeçam com bulimia ou anorexia. É ilusão crermos numa solitária e individual autonomia da vontade dos humanos. Somos seres gregários e sucumbimos às pressões sociais. Tanto homens como mulheres devem reagir, juntos, a essa imposição.

A posse do dinheiro, em geral, continua em mãos masculinas e, sem dinheiro, as mulheres pouco ou nada podem fazer no sistema capitalista. Sem dinheiro estamos condenadas a nos submeter ao mando patriarcal. A sociedade condena moralmente a prostituição e, no entanto, essa prática é determinada essencialmente pelo poder econômico dos homens, ou seja, pela falta de dinheiro e trabalho digno para as mulheres.

O abuso sexual de meninas, sejam elas filhas, enteadas, sobrinhas, vizinhas, é cometido por homens que, na maioria das vezes, integram suas famílias de uma forma ou outra. As mães dessas crianças se iludem amorosamente e, como que cegas pela submissão econômica, acham impossível que tais crimes ocorram em suas próprias casas. Muitas mães embrutecidas pela miséria chegam até mesmo a pensar que essas meninas são culpadas pelo mau comportamento masculino. A "pecaminosa" visão do corpo feminino – outra regra determinada por homens que dirigem igrejas – é geradora de conflitos internos que enlouquecem.

Entre os desafios que vislumbramos para o futuro está a conquista de políticas públicas eficientes para a educação infantil, com a universalização de boas creches. E, na outra ponta, tendo-se em conta o aumento da expectativa de vida, políticas públicas efetivas que contemplem a proteção das mulheres idosas que, em sua grande maioria, encontram-se sozinhas.

Há, neste início de século, o triste fenômeno da disseminação do vírus HIV nas mulheres idosas. Elas se descuidaram da saúde talvez por falta de informação (a mídia tem como foco os jovens adolescentes e adultos letrados e esquece-se dos idosos iletrados) ou, por outro lado, na esperança de afastarem a solidão ou manterem seus atuais companheiros, submetem-se aos encantos dos homens idosos que, graças aos avanços da indústria química, reconquistaram sua potência masculina e, muitos, tornaram-se eufóricos e promíscuos.

Para que haja paz social e, porque não dizer, conjugal e familiar também, será preciso que a sociedade avance mais e mais na distribuição da riqueza acumulada pelo trabalho incansável de homens e mulheres. O dinheiro precisa ser repartido com eqüidade, sempre tendo como ponto de partida as condições sociais dos grupos e a valorização do trabalho doméstico. Sim, porque são as mulheres com seu trabalho cotidiano que mantém a sociedade produtiva, gerando mão-de-obra tanto para a força militar, como também para as empresas privadas e públicas. São também elas (como regra e em qualquer sociedade) que cuidam das crianças, dos idosos e dos doentes. A implementação de uma renda mínima para todos poderá ser o caminho a ser trilhado.

Vale, para finalizar, lembrar às próprias mulheres que temos de desenvolver uma forma social de evitar a condenação moral umas das outras. O comportamento ético deve ser valorizado, mas regras morais são adotadas individualmente e, em geral, têm sentido religioso e não são universais. A solidariedade entre mulheres deve ser incentivada desde a infância. Lembrando, ainda, às mulheres mães - e também aos pais - de meninos, que devem educá-los no sentido de que nunca violentem alguém, em especial quando se trata de uma mulher, seja ela de qualquer classe social. Isto se faz necessário porque a natureza dotou os homens de grande força física.

Fica aqui nossa homenagem à senadora colombiana Piedad Córdoba, mulher de sensibilidade, beleza e muita coragem, que recentemente intermediou a soltura de seqüestrados pelas FARC.

Inês do Amaral Büschel, promotora de justiça de São Paulo, aposentada, é associada-fundadora do Movimento do Ministério Público Democrático. Website: http://www.mpd.org.br/



Mulheres negras sofrem duplo preconceito - por Jamyle Vanessa



Construído ao longo dos séculos, o conceito de democracia racial no Brasil se mostra, na verdade, uma grande mentira. O IBGE mostra isso de forma clara, e em Rondônia não poderia fugir a regra nacional.

Constatou-se que o preconceito está presente em vários aspectos do cotidiano, inclusive na saúde. Ele faz com que um grande número de mulheres negras nunca tenha feito o exame clínico de mama, capaz de identificar o câncer em estágios iniciais. O quantitativo de mulheres brancas que nunca tiveram acesso a essa medida profilática é bem menor.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística mostra que as desigualdades entre a população brasileira, referenciam questões de raça e gênero e permitem assim identificar uma hierarquia social que coloca os homens brancos no topo, seguidos por mulheres brancas, homens negros e mulheres negras, que sofrem dupla discriminação: de raça e gênero. A mulher negra continua na base desta pirâmide.

No mercado de trabalho, por exemplo, a situação de negros e mulheres brancas em praticamente todos os indicadores analisados piorou embora elas tenham, um ano a mais de estudo do que os homens. Os dados evidenciam ainda a dupla discriminação que atinge as mulheres negras. Vítimas do racismo e do sexismo, elas ocupam os piores postos de trabalho, recebem os menores rendimentos e sofrem com as relações informais (como a falta de carteira assinada).No caso as empregadas domésticas,pescadoras, as mulheres quebradeiras de coco e entre outras que trabalham na ilegalidades, mas que os ajuntamentos de sindicato, associações e cooperativas tragam um pouco de justiça social ao trabalho.

As desigualdades observadas são persistentes em todas as áreas ao longo dos anos e que, apesar do esforço do atual governo em promover a inclusão – com a criação de secretarias com status de ministério, por exemplo: mulheres e racial -, as mudanças ainda são muito lentas. “O Brasil é racista e o preconceito é velado. As ações de governo para acabar com isso, em forma de políticas públicas, são tímidas perto do que deve ser feito”, lamentável e a política, como vem sendo feita no país, não se mostra eficiente para incorporar uma justiça de gênero, raça e classe. Portanto ser mulher é tarefa difícil e ser mulher negra duplamente difícil. Portanto é necessário, que as mulheres e mulheres negras estejam organizadas e lutando por espaços e direitos. É importante, principalmente a articulação de mulheres negras, para reparar alguns dos efeitos da desigualdade de social, raça e gênero, que dificultam que elas exerçam plenamente os seus direitos.

Fonte: Rondonoticias
Autor: Militante do Movimento Negro-
UNEGRO, em Rondônia

Revista Mátria vai ''acender'' discussão de gênero nas escolas



O que tem a ver a escola com as questões de gênero e o comportamento sexual? Para a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) - que representa mais de dois milhões de professores -, tudo. Em comemoração ao Dia Internacional da Mulher, a entidade lança a sétima edição da Revista Mátria - A Emancipação da Mulher, direcionada a alunos e professores de escolas públicas de todo o país.



A revista tem encarte ''O que é ser mulher?''

Os avanços da luta pela igualdade de gênero no Brasil, a sexualidade, a situação da mulher na família e no trabalho e a qualidade do ensino são discutidos de forma a envolver a escola em uma educação não-sexista. Além de comemorativa ao dia 8 de março, a revista pode ser utilizada durante todo o ano. A publicação traz textos interativos com indicações de atividades em sala, leituras, filmes e calendário com várias datas relativas às lutas das mulheres, artigos e reportagens.


Para Raquel Guisoni, secretária de Relações de Gênero da CNTE e coordenadora da publicação, “a revista Mátria é um meio de comunicação que tem muita aceitação no meio acadêmico, feminista, no movimento sindical e social porque a luta emancipacionista é de todas e todos que reagem contra opressão e discriminação das mulheres na perspectiva de um mundo de igualdade e solidariedade.”


A novidade desta edição é a o encarte teórico “O que é ser mulher?” elaborado pelo psicólogo Milton B. de Almeida Filho. Segundo Raquel, a inclusão deste artigo objetiva um maior aprofundamento da concepção emancipacionista “com isso, também abrimos a participação de homens neste debate” destaca.


Conteúdo


A capa de 2009 é a escritora francesa Simone de Beauvoir, ícone feminista do século 20 e referência na longa jornada contra o preconceito sexista. Sua histórica teoria de vida inspirou a revista a rever temas como o casamento e a instabilidade dos sentimentos. Hoje, eles desafiam as relações e colocam em xeque o antigo núcleo familiar.


Como os educadores lidam com a sexualidade dentro de sala? Por que as escolas devem implementar políticas que esclareçam temas polêmicos como a relação homoafetiva - presente em todas as idades e classes sociais? Uma escola da cidade de Abreu e Lima (PE) reafirma sua linha editorial em prol de uma educação não-sexista ao mostrar o trabalho de professores que fizeram a diferença no tratamento desses temas em sala.


A opinião da escritora e ativista Clara Charf sobre os conflitos intermitentes no oriente médio e a luta pelos direitos humanos no Brasil e no mundo é outro destaque da última edição. A companheira do fundador da Aliança Libertadora Nacional (ALN), Carlos Marighella, avalia a atual situação política e social nos países e o engajamento das mulheres em movimentos sindicais.


Sobre a participação das mulheres na política, a revista revela um aumento da atuação delas no poder, mas o desequilíbrio com relação aos homens persiste. Outra reportagem mostra que a situação social da mulher tem melhorado no Brasil, mas elas aguardam projetos mais efetivos pela saúde pública. “Dados da Pesquisa Nacional por Amostragem por Domicílio revelam que, no Brasil, 36,4% das mulheres de 25 anos ou mais nunca fizeram exames clínicos de mamas”, cita a matéria.


A crise econômica tomou conta dos noticiários e arrefeceu os ânimos de trabalhadores e empresas de todo o mundo. E, de maneira particular, as mulheres também foram atingidas. Por isso, a revista discute os problemas conjunturais que agravam ainda mais a discriminação feminina no mercado de trabalho.


As lutas e os avanços revelam-se, também, em detalhes de personalidades, conhecidas ou anônimas, que transformam diariamente o país. Seja por meio da irreverência de Carmem Miranda, que enfrentou preconceitos ao afirmar o seu lugar na sociedade; das vitórias de esportistas, responsáveis por enaltecer o nome do país no exterior; ou da defesa da terra e do meio ambiente por centenas de mulheres, que, em pleno século 21, no Norte do país, vivem, por isso, sob a ameaça de morte.


Fonte: CNTE


Mídia tenta calar os movimentos sociais


Altamiro Borges

Numa operação que parece orquestrada, a mídia hegemônica desencadeou nos últimos dias uma brutal ofensiva contra os movimentos sociais brasileiros. Cada veículo escolheu um alvo e bateu pesado. A Folha de S.Paulo, que acha que a ditadura militar foi “branda”, atacou o sindicalismo, concluindo que ele está “despreparado”, “enferrujado” e “atrelado ao governo Lula”. O Correio Braziliense destilou veneno contra a UNE, questionando, sem qualquer consistência, os recursos públicos destinados legitimamente à entidade máxima dos estudantes universitários. E todos os meios privados se somaram no ataque aos líderes do Movimento dos Sem-Terra. “Eles invadem e também matam”, esbravejou a revista Veja, que trata o MST como “bando de delinqüentes”.

Altamiro Borges

Vários fatores explicam esta nova ofensiva da mídia. Como principal “partido do capital”, ela se mostra atordoada com a popularidade de Lula e teme que ele faça seu sucessor (ou sucessora) em 2010. A mídia, que já advogou o impeachment do presidente e tentou evitar a sua reeleição, não engole a idéia da continuidade do atual bloco de forças no poder. Ao criminalizar os movimentos sociais, ela visa fragilizar uma importante base de apoio, embora autônoma e crítica, do governo Lula. A ofensiva também tem caráter preventivo. A mídia teme que, com o agravamento da crise mundial capitalista, as lutas sociais se intensifiquem e empurrem o governo mais à esquerda.


Ódio à “estrutura sindical getulista”


Tanto isto é verdade que ela tenta, a todo custo, colocar uma cunha entre as organizações sociais e o governo Lula. No caso do sindicalismo, o motivo de toda sua gritaria é a conquista histórica da legalização das centrais e do direito a uma parcela da Contribuição Sindical – com recursos advindos do bolso do próprio trabalhador. Para os barões da mídia, tais conquistas “atrelam” o sindicalismo ao governo e agravam sua crise de representação. A Folha, que apoiou a ditadura quando esta interveio nos sindicatos, prendeu e matou seus dirigentes, agora prega a “autonomia sindical” e defende ações mais duras de combate ao governo. O canto de sereia é habilidoso!


Os editoriais do Estadão, Folha, Globo e de outros veículos privados revelam que a mídia nunca concordou com a legalização das centrais e nem aceitou que elas tenham recursos legítimos para investir nas suas ações. Para ela, é urgente desmontar a “estrutura sindical getulista”, liquidando a unicidade e todos os mecanismos de contribuição financeira. Quanto mais fraco e pulverizado o sindicalismo, melhor para o capital. Em especial, num momento de agravamento da crise do capitalismo, que tende a aguçar os conflitos de classe. Quanto à relação com o governo, a mídia prefere o cenário imposto por FHC, que tentou quebrar a “espinha dorsal” do sindicalismo.


Resposta certeira da UNE


O mesmo intento de desgastar os movimentos sociais e causar atritos na relação com o governo fica patente nas críticas ao movimento estudantil e ao MST. Na matéria intitulada “10 milhões para amansar a UNE”, o Correio Braziliense não esconde este objetivo maroto. Insinua que os recursos públicos são usados de forma irregular e sem transparência, mas não apresenta qualquer prova neste sentido. Ele questiona a autonomia e a legitimidade da UNE, mas não aborda as suas mobilizações e reivindicações. Deixa implícita a critica ao governo Lula por manter uma relação democrática com o movimento estudantil – talvez também saudosa dos tempos da ditadura.


Diante destes ataques gratuitos e maliciosos, a presidente da entidade, Lucia Stumpf, não vacilou em condenar a manipulação midiática. “O título da referida matéria não é justificado em nenhum fato concreto. A matéria não aponta nenhum caso em que a UNE tenha se calado e nem poderia, visto que tal comportamento não ocorreu em nenhum momento. A UNE preserva sua autonomia e independência frente a este ou a qualquer outro governo”. Após elencar as iniciativas culturais e sociais da entidade, Lucia enfrenta com coragem o debate matreiro sobre os recursos públicos e não cai na defensiva. “A UNE, assim como qualquer organização civil, tem toda a legitimidade para pleitear verbas públicas e o faz com toda responsabilidade e dentro dos parâmetros legais”.


O MST e os delinqüentes da Veja


Já no tocante ao MST, a cantilena midiática é antiga. Jornalões e emissoras de televisão insistem em pintar o movimento como ilegal, “criminoso”, que recebe verbas públicas do governo Lula. Neste coro reacionário, que despreza o papel civilizador do MST na luta pela reforma agrária, a mídia venal agora conta com o ativismo do presidente do Supremo Tribunal Federal, o ministro Gilmar Mendes. Exacerbando nas suas atribuições, ele declarou que “o financiamento público de movimentos que cometem ilícitos é ilegal, é ilegítimo” – para deleite dos veículos privados.


Excitada, a revista Veja foi ao ápice do seu reacionarismo e indagou: “Até quando esse bando de delinqüentes terá licença para afrontar a lei?”. Num artigo rancoroso e ideologizado, afirmou que a recente onda de ocupações de terras ociosas “obedece a calendário e motivo bem definidos. Às vésperas de um ano eleitoral, MST e os congêneres querem continuar a receber vultosos repasses governamentais – o que implica a permanência do PT no governo... Por meio do embrutecimento de seus métodos ou do puro e simples banditismo, os sem-terra tentam influenciar os rumos das eleições em seu favor”. O triste é saber que este pasquim direitista ainda tem publicidade oficial!


O Berlusconi da direita nativa


João Paulo Rodrigues, membro da direção nacional do MST, também não se intimidou diante da mídia e do presidente do STF. Rechaçou a notícia divulgada pela imprensa de que o movimento recebeu R$ 40 milhões dos cofres públicos, mas explicou que as organizações vinculadas à luta pela reforma agrária recebem recursos oficiais. “Isto é legítimo e legal”. Irônico, lembrou que a ONG Alfabetização Solidária, criada pela ex-primeira dama no governo FHC, recebeu mais de R$ 330 milhões do Estado, no mais caro programa educativo do planeta. Ele citou ainda recente reportagem da revista Carta Capital, que denúncia que o Instituto Brasiliense de Direito Público, ligado ao ministro Gilmar Mendes, recebeu 2,4 milhões de verbas públicas.


Sobre o presidente do STF, João Paulo foi incisivo. “O ministro Gilmar Mendes foi transformado no mais novo líder da direita brasileira. Ágil para defender o patrimônio, mas lento para defender as vidas. Ele ataca os povos indígenas, os quilombolas, os direitos dos trabalhadores e defende os militares da ditadura. Enfim, agora a direita tem seu Berlusconi tupiniquim. Ele opina sobre tudo e sobre todos. Aliás, ele deve à opinião pública uma explicação sobre a rapidez com que soltou o banqueiro corrupto Daniel Dantas, que financia muitas campanhas eleitorais e alicia grande parte da mídia... Como líder da direita, Mendes defende os interesses da burguesia e faz intenso ataque ideológico à esquerda e aos movimentos sociais, pavimentando a retomada eleitoral da direita em 2010. José Serra não precisa se preocupar, já tem um cabo eleitoral poderoso no STF”.


Altamiro Borges é jornalista


Fonte: Blog do Miro



Rapaz vive pesadelo para provar inocência

Gustavo Werneck
Jackson Romanelli/EM/D.A Press
Nome de Gilmar está na Justiça desde que outro homem foi preso em flagrante
Ontem fez exatamente cinco meses que a vida do auxiliar de sonorização Gilmar Rodrigues Salomão, de 27 anos, mudou para pior. Desde o primeiro turno das eleições para prefeito e vereador, em 5 de outubro, ele tem medo de ser confundido na rua, procura não viajar mais a trabalho, adquiriu um medo que até então não conhecia e viu desaparecer parte da sua cidadania. “É uma dor de cabeça constante”, diz o morador do Bairro Jardim Marrocos, em Contagem, na Grande BH, que, ao chegar à sua seção eleitoral, na capital, foi impedido de votar por ter contas a acertar com a Justiça, conforme lhe disse um mesário da 35ª Zona. A informação contida no terminal do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) foi, de imediato, um soco no direito sagrado do eleitor, que se sentiu o homem errado, na hora errada e no lugar errado.

Orientado a procurar o cartório eleitoral e a Justiça, Gilmar se assustou ainda mais ao saber da existência de um homônimo com a ficha suja na polícia, o qual estava preso por porte de arma e tráfico de droga na Penitenciária Nelson Hungria. “O pior de tudo é que a mãe dele, Maria Rodrigues Salomão, tem o mesmo nome da minha”, diz o auxiliar de sonorização, destacando algumas das diferenças brutais na documentação de ambos: “Ele é baiano, sou de Belo Horizonte, e os números do CPF e da carteira de identidade são outros”, afirma. Devido à confusão, Gilmar não pôde ir às urnas nem mesmo justificar o voto, ficando em débito com a Justiça Eleitoral.

Ainda no ano passado, ele compareceu ao fórum e foi informado, por uma juíza, de que o seu problema seria resolvido. “Mas, até agora, nada ocorreu”, diz Gilmar, que é casado e trabalha numa empresa no Bairro Alípio de Melo, na Região Noroeste de BH. “Ainda votava no Colégio Santos Dumont, no Bairro Santa Efigênia, em BH, e já estava me preparando para transferir o título para Contagem, onde resido há três anos, quando tudo ocorreu”, explica. “Com essa situação, parece que a gente vira bandido, fica receoso. Tenho evitado fazer sonorização de shows no interior do estado, o que é uma constante na minha vida profissional, para não ter novos problemas”, diz o frustrado eleitor. Além disso, teme que o homônimo condenado, ao sair da cadeia, queira acertar conta com ele e por isso nem permite fotografias do seu rosto. “É arriscado”, comenta.

Gilmar diz que nunca perdeu documentos, fato que pudesse ter levado à falsificação deles. Mas, puxando pela memória, recorda-se que, há algum tempo, foi comprar numa loja e soube que alguém, com o mesmo nome, tinha dado um cheque sem fundo. Ficou constrangido, mas explicou que não tinha nada a ver com aquilo.

Somente nesta semana o novelo dessa história começou a se desenrolar. De acordo com o Fórum Lafayette, tudo começou em abril de 2007 na 1ª Delegacia de Plantão do Departamento de Investigações. O baiano Gilmar, que está na cadeia e foi preso em flagrante, não portava carteira de identidade, informando apenas o seu nome, da sua mãe e a data de nascimento.

Quando esses dados foram para o sistema de identificação do estado, surgiram as informações do mineiro Gilmar. Diante dos nomes, o delegado não notou as diferentes datas de nascimento e o erro constou do inquérito, o qual foi enviado à Justiça. Por sorte, o verdadeiro réu foi preso em flagrante e permaneceu na Nelson Hungria durante o processo – caso contrário, o procurado seria o mineiro Gilmar.

IMPEDIMENTO
Segundo o TRE, o eleitor, ao ser informado pelo mesário de que está impedido de votar, deve ir ao seu cartório eleitoral para saber o motivo do impedimento e receber orientação. O cidadão pode estar impedido de votar por perda ou suspensão de direitos políticos, estar prestando o serviço militar obrigatório ou estar com o título eleitoral cancelado.

O cartório toma conhecimento da condenação ou interdição via comunicado do juiz que proferiu a sentença. Depois de submeter o caso à apreciação do juiz eleitoral, o cartório registra a suspensão de direitos políticos no Cadastro Nacional de Eleitores e o eleitor perde o direito de votar.

Em ano eleitoral, os registros têm uma data-limite para serem inseridos. Assim, os comunicados que chegam ao cartório depois do encerramento do prazo previsto são anotados manualmente nos cadernos com a expressão "impedido de votar" à frente de cada nome de eleitor suspenso.

Grafiteira de 11 anos faz sucesso na Grã-Bretanha


'Scare Cuts', de Solveig (Foto: Supersolveig/Divulgação)

'Scare Cuts' está entre os trabalhos preferidos de Solveig

Uma menina britânica de 11 anos está sendo chamada de "a jovem Picasso da arte de rua" por causa de seus trabalhos de graffiti.

Solveig, que mora na cidade litorânea de Brighton, começou a pintar muros perto de sua casa aos 8 anos.

"Eu já gostava de desenhar. Até que um dia vi um pessoal pintando, pedi para fazer também e adorei", disse ela à BBC Brasil.

Agora, ela é convidada por grafiteiros para participar de pinturas em Londres e outras grandes cidades britânicas. "Todo mundo nesse meio é adulto. Mas eles gostam de mim e me respeitam", afirmou. Ela chegou até a ser chamada para tatuar um personagem na perna de um fã.

Berlim e Brasil

Os graffitis de Solveig são caracterizados pelas cores fortes e os desenhos bem delineados. Muitos dos trabalhos consistem apenas no nome da artista. Outras vezes, apenas as letras "S", "O" e "L" aparecem.

Ela costuma assinar as obras e colocar a idade que tinha quando pintou.

A menina também costuma posar ao lado das pinturas e deixar as fotos em seu site na internet.

Entre seus trabalhos preferidos, está uma pintura em um trecho das ruínas do Muro de Berlim. "É uma sensação estranha pintar um muro onde as pessoas levavam tiros se tentassem pular para o outro lado", escreveu ela em seu site.

Há dois anos, Solveig e a família estiveram de férias em Natal (RN). "Eu tive vontade de pintar um muro lá, mas não encontramos tinta nem um local legal", contou ela à BBC Brasil.

"Sei que algumas pessoas pensam que o graffiti suja as ruas, mas eu não acho. Acho que fica bonito", disse.

Além do graffiti, Solveig diz que gosta de brincar com suas Barbies e colecionar figurinhas da série de TV britânica Doctor Who.

A atenção da mídia, no entanto, fez com que os pais decidissem "diminuir o ritmo" das atividades da menina, para que ela se dedique mais à escola.

Álcool na TV estimula consumo imediato de bebidas, diz estudo


Bebida (arquivo)

Participantes da pesquisa tinham cerveja, vinho e refrigerantes à disposição

Uma pesquisa liderada por cientistas da Universidade de Radboud, Holanda, sugere que as pessoas tendem a consumir álcool quando veem pessoas bebendo em filmes ou em comerciais enquanto assistem à TV.

Os pesquisadores monitoraram o comportamento de 80 jovens enquanto eles assistiam televisão e descobriram que os que viam mais referências a bebidas alcoólicas bebiam duas vezes mais do que os que não as viam.

"Nosso estudo mostra claramente que mostrar bebidas alcoólicas em filmes e propagandas não apenas afeta as atitudes das pessoas e as regras para bebida na sociedade, mas pode funcionar como uma sugestão que afeta o desejo e o subsequente consumo de bebida", afirmou o pesquisador que liderou o estudo Rutger Engels.

A pesquisa foi publicada na revista especializada Alcohol and Alcoholism.

Bebida na geladeira

A equipe de cientistas dividiu os 80 jovens, com idades entre 18 e 29 anos, em quatro grupos.

O primeiro grupo assistiu ao filme American Pie - A Primeira Vez é Inesquecível, um filme com muitas referências ao consumo de bebidas alcoólicas, e também assistiu às propagandas de bebidas que interrompiam o filme.

O segundo grupo assistiu ao mesmo longa sem interrupções de propagandas.

O terceiro grupo assistiu ao filme 40 Dias e 40 Noites, longa que tem menos referências a bebidas alcoólicas, interrompido por propagandas de bebidas.

O grupo final assistiu ao mesmo longa, mas sem as interrupções.

Durante a exibição os participantes tinham acesso a uma geladeira que continha cerveja, pequenas garrafas de vinho e refrigerantes.

Os que assistiram American Pie - A Primeira Vez é Inesquecível com as propagandas de bebidas consumiram quase três garrafas de bebidas alcoólicas, em comparação a 1,5 garrafa consumida por aqueles que assistiram 40 Dias e 40 Noites sem as propagandas de bebidas.

De acordo com o pesquisador Rutger Engels as descobertas da pesquisa sugerem que existem razões para restringir as propagandas e introduzir mensagens de alerta em filmes.

Mas Engels acrescentou que são necessários mais estudos para estabelecer as implicações das propagandas e referências a bebidas em filmes sobre o consumo de álcool a longo prazo.

O diretor-executivo da organização britânica Alcohol Concern, Don Shenker, disse que o estudo reforça a necessidade de se restringir ainda mais a propaganda de bebidas alcoólicas ou de se considerar sua proibição definitiva.

"Infelizmente a propaganda e promoção de bebidas alcoólicas em filmes e na televisão geralmente apresenta o ato de beber apenas como um ritual social positivo e não mostra os danos potenciais que a bebida pode causar", afirmou.

Normas da União Europeia determinam que os anúncios de bebidas veiculados nos países do bloco não podem promover o consumo usando crianças ou mostrar a bebida como uma ferramenta para sucesso social ou sexual.

A propaganda também não pode encorajar o excesso de bebida.

As doações irregulares

Cruzamento de dados revela milhares de doadores irregulares
Doar dinheiro para a campanha eleitoral de um candidato no qual se acredita, ou com o qual o leitor concorda não deveria causar espanto ou levantar suspeição. Pelo contrário, se bem disciplinada e claramente exercida, essa é uma prática perfeitamente natural nas democracias que aceitam e até estimulam o envolvimento direto do cidadão no pleito. Mas no Brasil, como ocorre com quase tudo que tem a ver com o mundo da política, essa tem se tornado uma matéria delicada. Afinal, é no exato momento da doação que nascem certos compromissos nada republicanos, nem sempre confessáveis. Sim, há doadores corretos e não faltam limites definidos pela legislação eleitoral. A questão original é simples: se a doação se processa dentro da lei e se é feita sem outro interesse que não o de defender ideias e propostas, por que tanto constrangimento em assumi-la? Sempre se soube de doações ocultas, mas não se sabia o tamanho do problema. Agora se sabe e a descoberta requer providências.

Uma pesquisa inédita, feita pela Receita Federal, a partir de dados da Justiça Eleitoral, revelou que pelo 18,3 mil doações feitas a candidatos às eleições de 2006 apresentam indícios de irregularidades e poderão ser processados. Nesse grupo estão 13,7 mil pessoas físicas e 4,6 mil jurídicas. Entre as físicas há doadores que tinham se declarado isentos do Imposto de Renda no ano anterior, por falta de rendimentos. Outros fizeram doações muito acima do limite de 10% da renda bruta e há os que nem declaração anual tinham feito em 2005. Já no grupo das empresas doadoras sob suspeição, há quantias acima do limite de 2% da receita anual bruta e até doações feitas por empresas que tinham se declarado inativas em 2005, além das que não entregaram declaração alguma. Essa foi a primeira a vez que a Receita Federal, a pedido do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) fez o cruzamento entre as doações registradas nos tribunais regionais eleitorais pelos candidatos e os cadastros do Fisco. Agora, o TSE vai enviar as listas para os juízes eleitorais do domicílio dos doadores, que serão chamados a dar explicações e estão sujeitos a multas.

A pergunta que imediatamente ocorre ao cidadão comum é por que esse cruzamento de dados já não vinha sendo feito há mais tempo? Afinal, tanto a Justiça Eleitoral como a Receita Federal dispõem de instrumentação e tecnologia há vários anos. A impunidade, como se sabe, é o maior incentivo à irregularidade e à criatividade dos que se empenham em burlar a lei. A notificação decorrente desse levantamento será educativa e, sem dúvida, poderosamente dissuasiva. Além disso, o resultado encontrado pelo levantamento expõe a necessidade de uma reflexão sobre essa questão que, a bem da verdade, ainda não foi enfrentada com a seriedade que o assunto reclama. Há um projeto de reforma política no Congresso Nacional e seria proveitoso aprová-lo a tempo das eleições de 2010. Se os legisladores tinham alguma dúvida quanto à necessidade de dotar o país de regulação mais rigorosa e mais atualizada do financiamento de campanhas, o cruzamento de dados agora revelado acaba de eliminá-la. Não há consenso fácil quanto às soluções, que incluem o polêmico financiamento público. Mas não há razão para deixar de enfrentar a questão. É para isso que os parlamentares foram eleitos.

Mulher livre numa sociedade livre



por Carlos Pompe*

A sociedade considera a mulher inferior ao homem ? a sociedade, pois inclusive muitas mulheres assim pensam e poucos, talvez pouquíssimos, homens pensam o contrário. É verdade que a maioria dos homens é mais forte e tem estatura maior do que as mulheres. Também é verdade que só as mulheres parem e amamentam crias. Isso não é característica apenas de mamíferos humanos, e no entanto não há nada que documente que a onça-macho se considere superior à onça-fêmea.


Naturalmente, durante a gestação e a amamentação a fêmea de qualquer mamífero vive situações de desvantagens em relação ao macho, tanto no que diz respeito à busca de alimentação quanto na autodefesa num ambiente hostil. Num escrito de 1969, Isaac Asimov, abordando o que seria a sociedade em 10 mil antes de Cristo, aventa que o sexo e algum tipo de status provavelmente levavam a que o caçador primitivo cuidasse da mulher, em especial nos períodos de gravidez e, depois, da mãe e do recém-nascido. E aponta que, já nesse período, a mulher ficava em desvantagem, pois trocar sexo por alimento era “um acordo terrivelmente injusto, pois uma das partes pode rompê-lo impunemente e a outra, não”. Daí ele argumenta que, por razões fisiológicas, “a união original entre homens e mulheres era estritamente desigual, com o homem no papel do amo e a mulher no papel da escrava.”

Quando a humanidade chega à história escrita, essa divisão estava consolidada. Mire o exemplo das mulheres de Atenas: eram inferiorizadas e sem direitos, como mostra a canção do Chico Buarque e Augusto Boal. Na Bíblia, não faltam exemplos de destrato da mulher pelo homem, inclusive no Novo Testamento. Note-se os modos de Jesus com a mãe, aos 12 anos, em Lucas 2: 41-52, quando, após três dias desaparecido, os pais o encontram conversando com doutores no Templo. A mãe pergunta-lhe por que fez sumiu sem avisar, e o pivete rebate: “Por que me procuravam? Não sabiam que eu devo estar na casa do meu Pai?” Os pais ficaram sem entender o que o garoto acabava de lhes dizer, registra o evangelista. Ou veja-se o desdém com que a trata, já na cruz: “Jesus viu a mãe e, ao lado dela, o discípulo que ele amava. Então disse à mãe: ‘Mulher, eis aí o seu filho”. Depois disse ao discípulo: ‘Eis aí a sua mãe’. (João 19: 25-27). Falasse eu assim com minha mãe (inclusive o descaso de chamá-la “mulher” e não “mãe”), e levaria um safanão – “Foi pra isso que te criei, filho ingrato?”, diria dona Anita.

A submissão da mulher ao homem também está na carta de Paulo aos Efésios, considerada pela Igreja Católica como “a carta do mistério da Igreja”. Assim está escrito: “Mulheres, sejam submissas a seus maridos, como ao Senhor. De fato, o marido é a cabeça da sua esposa, assim como Cristo, salvador do Corpo, é a cabeça da Igreja. E assim como a Igreja está submissa a Cristo, assim também as mulheres sejam submissas em tudo a seus maridos” (5: 22-24).

Coisas do passado? Nem tanto. É claro que as mulheres obtiveram avanços em coisas que, embora recentes, hoje, parecem triviais, como o direito de votar e se candidatar. E a violência contra elas, mesmo longe de ter acabado, tem sido inibida em vários países. No Brasil, temos a Lei Maria da Penha, que penaliza autores de brutalidades contra as mulheres, mas mesmo esta legislação ainda é contestada, inclusive por juízes. No início do passado mês de fevereiro, por apenas um voto de diferença, a Sexta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu que lesões corporais leves praticadas contra a mulher no âmbito familiar também constituem delito de ação penal pública incondicionada. Dois juízes não aceitaram essa interpretação, mas felizmente três votaram pela decisão.

As mulheres caminham para a igualdade? Os fatores físicos que, lá na pré-história, na visão de Asimov, teriam levado à supremacia masculina, continuam presentes. A maioria dos homens continua sendo mais forte e tendo estatura maior que as mulheres e estas mantêm a exclusividade da gestação. Porém, os avanços científicos permitiram que mesmo os trabalhos mais pesados já não exijam músculos, mas maquinarias, o que põe abaixo a primeira “vantagem” masculina. E apesar da reação conservadora e religiosa, já se desenha a possibilidade da gestação ocorrer fora do corpo da mulher. O sexo, em especial depois dos métodos anticonceptivos, foi desvinculado da procriação.

Ao mesmo tempo, o desenvolvimento social já colocou para a humanidade um problema que ela pode resolver: relações sociais e econômicas que sejam de cooperação, e não de exploração. Porque a sociedade dividida em classes – exploradoras e exploradas – existe há milênios, mas não é eterna e estão dadas as condições objetivas, de produtividade, para ser substituída por um mundo novo, sem burgueses e proletários e sem, também, as proletárias dos proletários. Como antecipam Karl Marx e Friedrich Engels, no Manifesto do Partido Comunista, em substituição à sociedade dividida “com as suas classes e os seus antagonismos de classe, surgirá uma associação em que o livre desenvolvimento de cada um será a condição do livre desenvolvimento de todos”. A luta emancipacionista de mulher integra e dá força à luta da humanidade por sua própria emancipação.




*Carlos Pompe, Jornalista e Curioso do mundo.


Gilberto Gil: "Pirataria é desobediência civil"



Gilberto Gil fez uma apaixonada defesa ética da pirataria – que "tem que ser vista como desobediência civil!" – em entrevista a Claudio Leal e Ceci Alves, do Terra Magazine. Com a língua afiada e a cabeça irreverente, chamou a pirataria a desafiar os interesses que os donos da indústria fonográfica interpretam como direitos. Otimista, apostando na "democratização" e criticando como "pré-Lula" a "leitura amesquinhada" que não enxerga "para onde aponta o vetor". Veja trechos


Gil em sua casa de Salvador: pelo Partido Pirata

O tema da pirataria entrou no debate a partir de um debate sobre a democratização do Carnaval baiano e a "dimensão social fantástica" dessa "coisa incrível" (a entrevista foi na segunda-feira de Carnaval, na casa baiana do compositor):

Gilberto Gil: Evidentemente, alguém há de dizer: "Mas essa é uma leitura generosa!". É... Não vou fazer a leitura amesquinhada. Não interessa. Posso até ter elementos pra sustentar uma leitura mesquinha: "o apartheid continua, a separação de território continua, a exclusão classista continua...". Claro, residualmente tudo continua! Porque não é uma coisa ideal. Vamos observar os processos. Vamos observar o sentido tendencial, pra onde as coisas estão caminhando. Qual é a melhor incidência de elementos determinantes dessa vetorialização? Pra onde é que aponta o vetor? O vetor não aponta para menos democracia, pelo contrário: aponta pra mais democracia. Não vejo de outra forma.

Terra Magazine: Essa leitura predominante, crítica do Carnaval, passa por uma visão histórica, no Brasil, de que a cultura é um bem secundário?

Gil: Essa leitura ainda interpreta isso dessa forma, ainda tributa a essa visão subalterna à lógica das elites, à lógica da classe dominante, ao eurocentrismo. É pré-Lula (risos) Lula já é presidente, pô! Já chegou lá, porra... (risos)

TM: Sim, é um pouco dessa cultura carnavalizada. Dentro de sua carreira, onde [o Banda Larga Cordel] está e pra onde aponta?

Gil: Começando pela carreira. Eu acho que é consequência, desdobramento natural de minha carreira. É Tropicalismo. Da mesma maneira, é Antropofagia. São esses conceitos com os quais a gente vem trabalhando desde sempre. Democratização, protagonismos, o popular, universalismo, autonomia da dimensão simbólica diante da questão da racionalidade produtiva, do sistema racional do trabalho e do controle. É sempre o "libertariolismo", digamos assim, que a gente defendeu, propagou, que está na base do trabalho de minha geração quase toda - em particular, com mais ênfase, no movimento que nós fizemos, o Tropicalismo.

TM: A indústia fonográfica cedeu a essa nova democracia?

Gilberto Gil: Sim. Se não cedeu ainda, parcialmente ou em alguns aspectos, é uma questão de tempo, não tem muito mais para resistir. Não sei em que base essa lógica de hegemonia e dominância do modelo industrial da cultura, seja lá por que for, em que base eles vão buscar sustentar uma visão de manutenção dos seus interesses intactos. Não sei. Não vejo.


Falo de democracia exatamente nesse sentido. Há um ímpeto. Tudo o que eles próprios criam, tudo o que é produzido pelo mundo hegemônico da dominância capitalista, é elemento de fortalecimento da base democrática. Você pega todas as novas tecnologias, tudo o que está na Bolsa da Nasdaq, os grandes empreendimentos da indústria de ponta no mundo... Eu estava falando de um computador de dez dólares! Vai estar aí o projeto da Índia e do Japão. Quando você fala de um computador de dez dólares, de qual exclusão digital você pode estar falando a médio prazo? No momento em que você tenha computadores espalhados por aí, como é que você vai evitar o MP3, o MP4 e etc. etc. etc.? Não vai.

Ainda pode haver uma RIA, a sociedade das indústrias fonográficas americanas, que faz lobby no Congresso, ainda pressiona a Suprema Corte americana pra não dar ganho de causa aos jovens... Ainda pode, por quê? Porque é a classe média americana, a sociedade americana que tem computador. Mas os grandes mercados mundiais da música ainda estão com eles, que ainda vendem discos, ainda vendem DVDs. No momento em que um menino lá da tribo de não sei onde, da periferia, tenha computador, e as lan-houses estejam em todas as casas, cada casa seja uma lan-house (risos), em todas as favelas... Como eles vão controlar o desenvolvimento? Não é o desdobramento natural dos produtos, das tecnologias, dos instrumentos, das ferramentas, que eles mesmos ofereceram?

TM: No Brasil, não dá pra fazer uma inversão? Grande parte dos artistas se acomodou muito mais à visão conservadora do que a própria indústria fonográfica. Porque a indústria sente no bolso.

Gil: Sente mais rápido porque os artistas recebem por último! (risos) Eles recebem as migalhas que a indústria quer deixar pra eles [...].

TM: Por que resistir?

Gil: Eles querem resistir. Porque isso é natural, eles são refratários, são acomodados, e são ciosos dos seus interesses, que eles tendem a interpretar como seus direitos. Acham que seus interesses têm que ser interpretados como seus direitos. Às vezes não são seus direitos, são só seus interesses, que não precisam ser respeitados como direitos. Não são direitos, não. A pirataria tem direito a desafiá-los. Pirataria é desobediência civil. Tem que ser vista assim, também. Não tem que ser vista só como criminalidade. Tem que ser vista como desobediência civil! Assim como os protestos das esquerdas, dos sindicatos...

TM: É resposta à exclusão cultural?

Gil: É resposta à exclusão, um desafio para a criação de novos modelos, um desafio para a abertura de espaços mais democráticos, de participação. Não à toa está sendo politizada. O Partido Pirata já tem 2% do eleitorado na Suécia. Já tá concorrendo, já tem candidatos concorrendo na Alemanha. Por exemplo, nós já temos o OPP, o POP, Partido da Organização Pirata, na Suécia...

TM: Tem que ser Pop mesmo...

Gil: É... No Brasil, devia ser Pop!

TM: O Brasil já teve a pirataria avant-première, com Tropa de Elite.

Gil: Pois é! Coisas desse tipo. São antecipações irrecusáveis, que precisam ser feitas, porque são experimentalistas, são feitas com a missão generosa de ampliar os espaços, forçar a elasticidade. Não são necessariamente só associação criminosa. Então, a criação dos partidos da pirataria... Estou falando de três ou quatro países que já os têm, como a Suécia, uma civilização, uma sociedade irrepreensível, pelos nossos próprios padrões de leitura. Tá lá o partido advogando as questões da pirataria, colocando em leitos mais seguros, em canalizações mais convenientes a discussão sobre o que é propriamente crime, o que não é crime, o que deve ser descriminalizado, através de novas legislações. Uma idéia de que, ainda que seja pirataria hoje, não deverá mais ser pirataria amanhã.

TM: Com sua obra, você abriu um flanco para a pirataria?

Gil: É evidente. Fiz propositalmente, pra dizer: nós precisamos ter bases experimentais para essa elasticidade, para essa visão nova, para essa nova formação de compartilhamentos. Fiz, fiz, porque fiz.

TM: Mas foram dois flancos: na sua obra e no Ministério da Cultura, abrindo o debate.

Gil: Porque o Estado tem esse papel, o Estado renovado... Na nossa conversa anterior à entrevista, falávamos no papel da próxima eleição no Brasil. O discurso eleitoral vai ter que incorporar essas questões todas. Aqueles que almejem à presidência vão ter que cuidar dessas coisas, vão precisar falar dessas coisas, vão precisar trabalhar essas questões de uma forma mais adequada, mais contemporânea. Não vão poder ignorar essas questões. Ali, como ministro, eu disse: na parte que me toca, esse ministério é da Cultura e uma das questões a reformar no país é a Cultura, a interpretação do papel do Estado, do papel da sociedade, da sociedade do direito, o que é o Direito, quais são os direitos difusos que vão aparecendo cada vez mais, a partir de novas configurações de sociabilidade. Fiz mesmo. Fiz com toda consciência.

TM: E o direito autoral? E a descentralização da cultura, que era uma das principais metas de sua gestão?

Gil: Claro, propriedade intelectual, direito autoral, patentes. O candidato (José) Serra, por exemplo, vai ser obrigado a colocar essas discussões fortemente na pauta dele. Porque ele, como ministro da Saúde, quebrou a patente (de medicamentos). Quer dizer, em função de interesses públicos. É isso! (risos) Vai ter que falar do assunto...

TM: Pronto, jogou na agenda de Serra!

Gil: Na agenda... O Partido Pirata já devia estar cobrando... (risos).


O direito de acesso às universidades

A referida norma infraconstitucional criou critérios objetivos tais para a seleção de contemplados pelo programa, que podem causar distorções da finalidade buscada pela norma legal, que é, justamente, possibilitar o acesso ao ensino superior de pessoas que, embora não se enquadrem nos critérios objetivos requisitados para a concessão da bolsa, são carentes
Simone Cristine Araújo Lopes
Advogada, professora, especialista em Direito Tributário e mestranda em Direito Público (Administrativo) pela PUC Minas.
O governo federal, dentro de uma perspectiva de democratizar o acesso à universidade pelas classes menos favorecidas economicamente, criou o Programa Universidade para Todos (Prouni), que nada mais é que uma bolsa, integral ou parcial, de estudos universitários, patrocinada pela União.

Tal medida não só beneficia o estudante carente e a sociedade com o aumento do número de bacharéis nas mais diversas áreas, mas, sobretudo, as instituições privadas de ensino que têm esse financiamento, ainda que indireto, do Estado, reduzindo sua margem de inadimplência, provocando a expansão das empresas do setor de ensino e, consequentemente, o número de vagas de trabalho no ramo.

Não obstante, como já dizia Carlos Drummond de Andrade, “os lírios não nascem da lei”. E, no caso do Prouni (Lei 11.096/05), efetivamente não fez nascer tantos lírios como poderia imaginar. De fato, a referida norma infraconstitucional criou critérios objetivos tais para a seleção de contemplados pelo programa, que podem causar distorções da finalidade buscada pela norma legal, que é, justamente, possibilitar o acesso ao ensino superior de pessoas que, embora não se enquadrem nos critérios objetivos requisitados para a concessão da bolsa, são carentes.

Nesse sentido, recentemente houve uma decisão de um juiz federal da 1ª Vara de Curitiba, Paraná, determinando a concessão da bolsa do Prouni, pela União, a uma estudante universitária de uma instituição particular que, embora tenha estudado em escola paga durante o ensino médio, sem a bolsa integral exigida pela lei, preenchia as condições de hipossuficiência para fazer jus ao beneficio governamental, imprescindível para a continuação de seus estudos.

Tal decisão não fere os objetivos da lei, se vista sob o prisma do princípio da razoabilidade. É que a estudante, já com 37 anos, é filha de um aposentado, que, para fazer frente às despesas da casa, teve que continuar trabalhando em um supermercado em troca de um salário mínimo. A mãe, costureira, está sem trabalho. Apesar de tudo, os pais fizeram todo um esforço para pagar a mensalidade de R$ 1.080, exigidos pela faculdade, complementando o restante pago pela filha com todo o salário recebido como atendente em uma farmácia, de R$ 500, sem falar no endividamento crescente em que toda a família estava exposta, mês a mês.

É o retrato de uma típica família brasileira, que, desejosa de ascender socialmente, faz todo o sacrifício para ter um filho “doutor”.

Detalhe: a referida escola particular onde fez parte do ensino médio, motivo da exclusão da candidata a uma bolsa do Prouni, embasado numa presunção legal (não absoluta, por óbvio) de que são melhores que as do ensino público, cobrava módicos R$ 52,79 de mensalidade. Era um supletivo e a estudante ainda relata que houve falhas graves no ensino, como a falta de professores.

O juiz, corretamente, afirmou que o Prouni é uma “política afirmativa para igualar oportunidades” e que “o princípio aqui é o republicano, constitucional, que visa promover o bem de todos, afastando a distinção entre nobres e plebeus, poderosos e humildes, ricos e pobres”. Logo, os critérios não podem ser tão rígidos como exigido pela lei, devendo obedecer a um “senso de razoabilidade”.

Além disso, tais programas, apesar de imbuídos de boa vontade e desejo de se fazer justiça, não atacam a base, que é garantir um ensino público de qualidade, tanto quanto qualquer particular, como é dever do Estado nos termos constitucionais. Há escolas públicas de tão alta qualidade que é necessário fazer um “vestibular de ensino médio”, que, é evidente, dão vantagem aos mais abastados, distorcendo toda a política governamental de cotas ou programas como o Prouni. É o caso, em Minas Gerais, do Colégio Universitário (Coluni), que, simplesmente, é um dos melhores no Brasil, com altíssimo índice de aprovação em vestibulares de seus ex-alunos.

Enquanto a administração pública não “acorda” para essas realidades e distorções, pessoas como a jovem paranaense não têm outro recurso senão recorrer ao Poder Judiciário, para, caso a caso, corrigir tais equívocos, que, apesar de obedecerem à lei, esquecem-se de observar as finalidades impostas pela Constituição da República de 1988, norma indiscutivelmente maior.

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Edson Lopes Cardoso
edsoncardoso@irohin.org.br
Os ruídos e tensões que acontecem em algumas cidades brasileiras, mas principalmente em Salvador, durante o carnaval, continuaram este ano, sem emitir sinais de que as instituições negras estejam avançando na direção da superação de manipulações e controles.

Talvez saibamos muito sobre o carnaval e pouco sobre nós mesmos. E por essa razão artigos e debates não conseguem alcançar uma perspectiva que permita discernir o que convém, neste momento, a uma população que precisa se organizar politicamente para enfrentar a exclusão e o racismo.

O tema da co-responsabilidade, ou seja, do equívoco de muitas de nossas práticas, mal aflora ainda nas discussões. Afinal, qual a nossa contribuição ao êxito de Zombalino, rei da Kizomba, personagem ‘incorporado’ por um grotesco palhaço fantasiado de africano, em cima do caminhão de conhecido bloco de trio?

O rei da Kizomba, em trajes africanos e empunhando um cetro, zombava impunemente da massa negra. O carnaval mostrou mais uma vez como somos débeis e impotentes para enfrentar a mentira, o escárnio e a força dos poderosos. A “homenagem” aos blocos afros em Salvador acabou se transformando numa expressão de sua dominação quase total.

Uma significativa doação governamental aos blocos afros e afoxés poderia reverter essa expressão ideológica da dominação racial? Não creio. Se nossa luta é por emancipação política, nenhuma doação governamental será suficiente para assegurar a coesão e nossa capacidade de ação, que é afinal o que decide no jogo político. Precisamos fazer a nossa parte. Que começa por não esquecermos que a questão racial é, antes de tudo, uma questão política.

Nossa atual perplexidade, no carnaval e fora dele, parece relacionada ao fato de que não compreendemos bem os termos em que se dá a luta política. Se um evento da magnitude do carnaval em Salvador pode ajudar a desnudar os mecanismos de dominação da população negra, porque os blocos afros e os afoxés, que reúnem milhares de filiados, não aprofundam esse debate político nos bairros populares?

O que nos impede de reunir forças suficientes para deslanchar o debate político e bloquear práticas desumanizadoras? Se essa mobilização não for ao menos tentada ao longo do ano, de que modo a massa negra vai poder diferenciar no carnaval a homenagem do escárnio? Por que aqueles que dominam iriam eximir-se do exercício de seu poder durante o carnaval? É em nome dessa coerência que os brancos (ou pardos que se vêem brancos, como é o caso de Durval Lélis e tantos outros) desfilam uma África às avessas. Não se pode deixar nenhum espaço à luta pela liberdade.