Tambor Mineiro de Gala

Tizumba faz hoje única apresentação com a Orquestra de Câmara Sesiminas, com repertório de temas da música popular brasileira
Mariana Peixoto
Eugênio Gurgel/Especial pra o EM
Maurício Tizumba vai mostrar canções próprias e composições de Sérgio Pererê e Vander Lee

Maurício Tizumba participa hoje de um concerto inédito com a Orquestra de Câmara Sesiminas. Juntos, o cantor, compositor e percussionista e a formação camerística vão apresentar no Teatro Sesiminas um repertório que privilegia a música popular brasileira. A regência e os arranjos são de Eliseu Barros. O convite surgiu do maestro, também violinista do grupo, que já apresentou projetos do gênero ao lado de Toninho Horta, Titane, Juarez Moreira e Nivaldo Ornellas. Ao fazer esta união, Barros acredita que consiga chamar a atenção do público leigo, pois “gente que nunca foi a um concerto vai ver que não é assim tão diferente”.

Tizumba vai se apresentar ao lado de duas integrantes do Tambor Mineiro, Danuza Menezes e Bete Leivas. Do repertório dele estarão presentes as canções A voz (Vander Lee), Velhos de coroa (Sérgio Pererê), Grande angangra muquiche e Devagar com o andor (ambas do próprio Tizumba). Além disso, serão interpretados choros e canções folclóricas. Estão previstas as participações do oboísta Alexandre Barros e do violoncelista João Cândido.

“Uma apresentação como esta é bem diferente para mim, uma coisa que tenho que ter um pouco mais de disciplina”, comenta Tizumba, que se considera “eternamente indisciplinado”. Para ele, se apresentar ao lado de uma orquestra é o sonho de todo mundo que trabalha com música popular. “Tive a oportunidade de tocar com a orquestra do Wagner Tiso, há dois anos, e o que sei é que a gente é transportado para um outro mundo”, completa ele, que não pretende parar por aí. “Como sou eu mesmo que ‘cavo’ as minhas coisas, pretendo oferecer este trabalho para outras pessoas, até para mostrar em regiões mais populares, lugares que não têm acesso à orquestra”, conclui Tizumba.

Criada em Belo Horizonte em 1986, a Orquestra de Câmara Sesiminas vem ampliando seu espaço musical na área da música popular e erudita brasileira, executando Tom Jobim, Pixinguinha, Villa-Lobos, Cláudio Santoro, entre outros. Com uma média de 40 concertos anuais, a orquestra tem buscado realizar apresentações em galpões, pátios de empresas, escolas e canteiros de obras.

ORQUESTRA DE CÂMARA SESIMINAS E MAURÍCIO TIZUMBA

Apresentação hoje, às 20h30, no Teatro Sesiminas, Rua Padre Marinho, 60, Santa Efigênia, (31) 3241-7132. Ingressos: R$ 5 e R$ 2,50 (meia).

O Exército e o Morro

"O padre Vieira, em sermão, disse que preferia ser julgado pelo demônio a ser acusado pelos homens"
Jarbas Passarinho, Ex-governador, ex-ministro, ex-senador
Baseada na tríade pátria, honra e dever, despertou, cedo, minha vocação pela carreira das armas, consolidada já no recrutamento de seus futuros oficiais mediante concurso universal, cujo critério é rigorosamente o do mérito, sem a menor possibilidade do nefasto pistolão, hoje substituído jocosamente pela expressão QI (quem indica). Ao ingressar na Escola Militar, entre 4 mil candidatos disputando 200 vagas, logrei conquistar uma delas, enquanto três filhos de generais foram reprovados. Não obstante isso, atribuem-nos casta privilegiada. Estranha casta cujos vencimentos eram os de classe média, que, progressivamente, têm sido igualados com o segmento inferior da classe média, o que não esmaece o amor pela carreira das armas. O então presidente Castello Branco, ao editar o AI-2, estabeleceu o princípio da paridade na remuneração dos servidores dos Três Poderes da República, o que já não consta da Constituição de 1967. Não colimou seu objetivo, numa gestão modernizadora do Brasil, com resultados que Roberto Campos descreveu em dezenas de páginas do seu A lanterna na popa. Hoje, um portador de grau universitário, aprovado para órgãos públicos civis por concurso, passa a vencer, inicialmente, perto de R$ 10 mil, o mesmo que um general recebe, depois de, no mínimo, 35 anos de serviço, transferências várias, das guarnições das fronteiras ao topo da carreira, e 11 anos de ensino desde a Escola Preparatória e de Cadetes até o fim da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, onde teve acesso por concurso.

País pacífico, que demarcou suas fronteiras por arbitragens ou tratados, só travou duas guerras, a da Tríplíce Aliança contra o invasor Paraguai e a dos aliados contra o nazifascismo, foi vitorioso em ambas. No 2º Império, Caxias foi o condestável da integridade territorial do Brasil, vencedor das sublevações que culminaram com a década dos farroupilhas, a mais difícil de todas, terminadas mais pela persuasão que pela desvantajosa correlação de forças. Ao pacificá-la, o capelão que prestava assistência religiosa às tropas do Império, lhe propôs um Te Deum comemorativo. Considerando-se um pacificador e não um general vitorioso, não aceitou a proposta, admirador dos bravos combatentes que enfrentara. Preferiu mandar rezar missa fúnebre, na qual se oraria pelos mortos que tombaram corajosamente, de ambos os lados. General invicto, não se espelhou nos que haviam lutado contra a colonização espanhola e logo se fizeram ditadores.

A República, Floriano Peixoto consolidou-a. Na Itália, a Força Expedicionária, apenas uma Divisão de Infantaria, integrou Corpo de Exército de norte-americanos, ingleses e franceses. Enfrentou, ao lado dos aliados, grandes unidades do Exército alemão, a mais poderosa máquina de guerra do mundo. Fez parte, honrosamente, dos vencedores quando aprisionou duas divisões alemãs e, em parte, uma italiana, suportando as agruras do inverno rigoroso e da “áspera campanha dos apeninos”, nas palavras do marechal Mascarenhas de Moraes, comandante da Força Expedicionária Brasileira (FEB), sem a mancha de pesquisas recentes inclusive do saque e dos estupros comuns a certos vencedores.

É este Exército, favorito nas pesquisas no julgamento do povo dentre os que lhe merecem confiança. O caso deplorável dos sargentos gays ganhou muitas páginas com entrevistas e fotografias e a exigência dos líderes da categoria, da mudança da legislação militar que considera a pederastia incompatível com o serviço militar. O presidente Bill Clinton, no seu primeiro mandato, autorizou o ingresso deles nas Forças Armadas. Não foi obedecido. Não se trata de valentia, para as missões dos combatentes. São em regra, destemidos, mas o perigo é de natureza moral. Sei de um caso doloroso de um sargento na guerra. Ele era enrustido, mas, à noite, sua barraca era freqüentada por combatentes que transpunham os limites da amizade. Foi voluntário de todas as missões mais perigosas. Tantas foram, que numa delas foi abatido mortalmente pelo inimigo. Mas àquele tempo não havia milhões de gays desfilando nas ruas de São Paulo, acompanhados de simpatizantes (cuja simpatia por vezes significa introversão) ou de políticos ávidos de votos como defensores das minorias, se é o caso de assegurar-se que ainda são minorias...

O Exército é solicitado para ações sociais devidas aos governos civis, incompetentes ou surpreendidos, por falta de planejamento, como no combate previsível das endemias, como a dengue. Já o foi para garantir a integridade física de chefes de Estado ou de governo, isolados, em visitas oficiais, ou em trabalho coletivo, para decisões polêmicas. Fê-los, em obediência devida ao presidente da República, mas, todas missões que não lhe cabiam, órgão de segurança pública que não é, nem pertinente ao estado de defesa, cuja atribuição é preservar ou prontamente restabelecer a paz social ameaçada por grave e iminente instabilidade institucional. A construção de um centro social, na favela dominada por narcotraficantes, e a proteção dos trabalhadores deu azo a um procedimento de um tenente que não honra a farda que veste. Tomaram-no, os críticos, pelo todo do Exército, como se a Igreja fosse toda de pedófilos e a magistratura de vendedores de sentença. O padre Vieira, em sermão, disse que preferia ser julgado pelo demônio a ser acusado pelos homens. Assim deveria querer o Exército, mas é querido do povo.

Distante Igualdade

Estudo conclui que houve redução da diferença entre os salários, mas renda ainda mal distribuída
Ao divulgar estudo sobre a evolução dos salários no Brasil, no período 2003/2007, o economistas Márcio Pochmann, presidente do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), órgão mantido pelo governo federal, procurou destacar a redução da diferença entre a renda dos que têm remuneração mais baixa, em relação aos que ganham salários mais altos. Essa diferença caiu 7% nos cinco anos analisados e contribuiu para uma redução no índice Gini brasileiro na renda do trabalho, que o intervalo entre a média dos 10% mais pobres da população e compara com os 10% mais ricos. O índice, que varia de 0 a 1, baixou de 0,543 para 0,505 (quanto mais perto de zero menor a desigualdade). Tomada isoladamente, essa redução é real. Mas ninguém deve se iludir. Inflar a sua importância é correr o risco de mascarar a realidade.

O levantamento do Ipea tomou por base os dados da pesquisa mensal de emprego do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), colhido nas seis principais regiões metropolitanas – Belo Horizonte incluída. Mostra que a parcela que, enquanto os salários da base da pirâmide tiveram elevação de 22%, o valor médio das remunerações mais altas avançou apenas 4,9% naquele período de cinco anos. Não é difícil perceber, portanto, que os trabalhadores da classe média alta tiveram um claro achatamento salarial, o que não é bom para a economia como um todo. Limita a idéia de renda aos salários e acaba punindo e desestimulando a parte melhor preparada do assalariado, tão necessária quanto qualquer outra para a competitividade do país. Mas isso não é tudo. Afinal, a economia não parou de crescer nesse período e o próprio Pochmann reconhece que a participação dos salários Produto Interno Bruto (PIB) ficou estável. Ou seja, o governo, via arrecadação de impostos, e as empresas, conforme a expansão de seus e incorporação de lucros, avançaram muito mais depressa do que o ganho das pessoas.

A verdade é que, mesmo com a queda do índice Gini, o Brasil ainda tem uma péssima distribuição da renda, como qualquer país posicionado acima de 0,40 naquele indicador. Apesar de todos os avanços, estamos muito longe de, segundo o próprio Pochmann, deixarmos a condição de país primitivo. Mesmo reconhecendo a importância da estabilidade econômica, o presidente do Ipea atribui os resultados positivos até aqui a políticas de transferência de renda, como o Bolsa-Família. Está aí mais uma perigosa inversão de prioridade. Ninguém nega o impacto positivo das bolsas sobre as famílias mais pobres. Mas é óbvio que isso nada tem a ver com o aumento da massa salarial e é mais um risco de distorção de qual deve ser o verdadeiro esforço do país para garantir o crescimento sem retrocesso da economia e impedir que a inflação derreta os salários. É por demais simplista querer resolver a questão da renda dos trabalhador pela via tributária, enquanto o mundo aumenta a exclusão dos menos competitivos. De nada vai adiantar se a economia brasileira não continuar a crescer e a criar empregos e se o país não gerenciar corretamente seus recursos para oferecer preparação adequada aos que se apresentam no mercado de trabalho.

Herança Maldita

Em todo o mundo, há 110 milhões de minas terrestres plantadas e outras 250 milhões estocadas
Otacílio Lage - Jornalista
No Brasil, a data passou em branco: 4 de abril foi o “Dia internacional para a conscientização contra as minas terrestres e de assistência à desminagem” – felizmente, o nosso país não é belicista. O Tratado de Ottawa proíbe o uso deses artefatos bélicos, sua produção, estocagem e transferência. Em 2007, o acordo foi assinado por 157 países, com 38 recusando-se a fazê-lo, entre os quais os Estados Unidos, Cuba, Rússia, Índia e China. Embora existam mais de 350 variedades de minas, elas podem ser reduzidas a duas categorias: antipessoal (AP) e antitanque (AT). A função básica das duas é a mesma, mas há algumas diferenças primordiais entre elas. As antitanques são geralmente maiores e contêm quantidade elevada de explosivo, que pode destruir um veículo militar ou um caminhão convencional, mas elas exigem uma pressão maior para ser detonada. A maioria dessas minas é encontrada em estradas, pontes e grandes áreas livres, por onde tanques podem transitar, e em terras boas para a produção de alimentos. O pior é que elas podem permanecer ativas por mais de 50 anos depois de serem plantadas no solo.

Em números, as minas terrestres assustam: US$ 33 bilhões – custo para remover todas elas mundo afora, se nenhuma outra for plantada a partir de agora; 250 milhões – estoque delas no planeta; 110 milhões – total plantado; 2,5 milhões – número de novas plantadas a cada ano; 1 milhão – pessoas mortas ou mutiladas, desde 1975; 100 mil – os norte-americanos mortos ou feridos no século 20; 26 mil – pessoas mortas ou mutiladas, anualmente; 350 é número mínimo de tipos; 70 – pessoas mortas ou feridas diariamente; 80 mil – número de mutilados em Angola, onde há 2,2 milhões de pessoas (20% da população) ainda expostas a mais de 8 milhões de minas plantadas; US$ 3 – preço do tipo mais barato.

A utilização de minas terrestres antipessoais durante os conflitos armados continua a provocar milhares de vítimas em todo o mundo. Militares, civis e crianças são mortos ou mutilados por esse cruel dispositivo bélico. As minas antipessoais condenam inocentes a uma vida de dificuldades. Acabar com esse flagelo é um desafio dos governantes mundiais de bom senso. Em 2006, 5.751 pessoas, em 68 países e regiões, foram vítimas de delas, explosivos remanescentes de guerra, segundo o relatório de 2007 da Landmine Monitor, uma organização não-governamental (ONG), divulgado pela Campanha Internacional para Banir as Minas – 1.367 morreram e 4.296 ficaram feridas. No entanto, o número real é certamente mais elevado, pois a coleta de dados é insuficiente ou inexistente em pelo menos 64 dos países onde se registaram explosões desses artefatos. No mesmo ano, e à semelhança de períodos anteriores, os civis perfazem 3/4 dos casos registados, e as crianças representam 34% dos incidentes. Em alguns casos, elas são as maiores vítimas dessa tormenta continuada. No Afeganistão, elas representam 59%; no Nepal, 53%; e na Somália, 66%. Meninos entre cinco e 14 anos, por se deslocarem mais que as meninas, são os mais atingidos, respondendo por 89% dos casos. Apenas 24% dos acidentes ocorrem com militares, graças, obviamente, ao treinamento que recebem, embora o maior objetivo das minas antipessoais seja evitar o avanço de carros de combate ou de tropas em área de guerra.

Na América do Sul, as minas terrestres poderiam estar distantes do mapa do subcontinente. Mas o infindável conflito entre as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) insere a América do Sul nessa tenebrosa estatística. Só em 2006, foram mais de 300 mortes causadas pela explosão de minas. Em 2007, dos episódios envolvendo militares em todo o mundo, 57% deles ocorreram no país vizinho – sem ele, apenas 12% afetariam militares. Outros fatores levaram a que se registrasse uma maior percentagem de baixas militares provocadas por minas terrestres: o crescente conflito no Paquistão, em Mianmar, na Índia, no Paquistão, no Chade e na Somália. No Líbano, o número de casos registrados em 2006 foi 10 vezes superior ao de 2005.

Forças militares utilizam diversos tipos de máquinas limpa-minas para separá-las ou detoná-las, algumas especialmente projetadas para a tarefa de limpeza de terreno, enquanto tanques também podem ser equipados com certos dispositivos para essa tarefa. Há diversos tipos: as novas são guiadas por controle remoto, o que minimiza o risco ao pessoal. Utilizam uma das três técnicas existentes: correntes que batem no solo, rolos para passar por cima, detonando-as, e ancinhos ou lâminas para sulcar a terra em campos minados, empurrando os artefatos para o lado. Hoje, as minas são colocadas a um ritmo 25 vezes mais rápido do que são removidas – a desativação de uma unidade custa US$ 1 mil. Novas tecnologias tornarão mais fácil sua localização, mas não podem evitar que sejam plantadas. Na Ásia, na África, na Colômbia, no Iraque ou no Oriente Médio, os estoques delas nos paióis militares de muitos países não pára de crescer, apesar dos apelos de nações pacíficas, da Organização das Nações Unidas (ONU) e de ONGs , à frente a Human Rights Watch.

A maioria desses países que têm minas terrestres instaladas em seu subsolo é pobre, com a população em franco crescimento, o que exige maior produção de alimentos. Mas suas melhores áreas cultiváveis estão minadas, como é o caso de Angola: de 10 milhões das minas instaladas durante os 27 anos da guerra civil (1975/2002), apenas 58 mil foram desativadas, em 10 anos. Lamentavelmente, é utópica a idéia de que a humanidade ficará livre dessa maldita herança, a curto e médio prazos. Certo é que a vida de soldados e civis nesses países belicistas continua valendo muito pouco, com a morte aguardando apenas que um deles dê o próximo passo.


JOVENS : Direitos e deveres precisam se equilibrar



Mauro José Teixeira Leite
- Belo Horizonte

“Como professor, muito me preocupa a formação que estamos dando às nossas crianças e jovens. A juventude atual incorporou de maneira acentuada a expressão ‘direito’, bem como suas conotações e implicações. Temos dado a eles o poder de reivindicar e clamar por seus direitos. Tem-se direito à escola, à alimentação, à socialização, a bons tratos, ao amor, carinho, compreensão. Uma lista que não acaba mais. Direitos necessários e imprescindíveis para o desenvolvimento de uma sociedade justa e igualitária. Uma sociedade realmente democrática onde cada pessoa tenha condições mínimas de inclusão para se tornar cidadão. E os deveres onde estão? Ficaram esquecidos ou melhor foram banidos como uma praga, como um mal que não deve assolar nossas crianças e jovens em formação. A nossa juventude pouco dever tem ou quase nenhum. Falar em dever é cobrança a algo maléfico. Mas como promover o crescimento sem o senso de responsabilidade, sem o compromisso, sem o retorno, sem o esforço a ser dado. Estamos promovendo a era do direito sem nos preocuparmos com a velha frase: ‘Para cada direito existe um dever’. Os processos educacionais ficam cada vez mais permissivos e abertos, levando os jovens a uma consciência analítica e crítica do saber, tentando promover o crescimento do ser intelectual, social, emocional e afetivo. Mas, contudo, este crescimento não atrelado ao senso de dever e de análise crítica de si próprio ganha asas de dragão, aterroriza, destrói, é pernicioso. O desenvolvimento do ser tem de estar sustentado no equilíbrio entre os direitos e deveres. Deveres demais sufocam, maltratam, marginalizam, desgastam, tolhem, enjaulam, tiram do indivíduo a oportunidade de voar, ser livre e poder criar. Direitos demais irresponsabilizam, negligenciam, confundem, desnorteiam, viciam, levam à perdição e à falta de compromisso. O desenvolvimento e a educação da juventude têm que ser equilibrados, proporcionando liberdade e caminhos para que os jovens possam criar asas, sair do casulo, desabrochar como as flores, serem parte integrante da sociedade, livres em atos e pensamentos, mas comprometidos com seus direitos e deveres para consigo mesmos e para com a humanidade.”

MV Bill e o Aglomerado da Serra

Marcos Vieira/EM/D.A Press -3/5/06
MV Bill: fã do Aglomerado da Serra

As favelas também têm sua lista. MV Bill apresentou sua relação, apontando em 5º lugar o Aglomerado da Serra, de Belo Horizonte. Já a boate Josefine está na lista do ex-BBB Jean Wyllis entre as 10 melhores boates GLS do Brasil.

Direito Ao Conforto

"Acesso à internet, telefone celular e TV é conquistaque o consumidor quer preservar"
A moderna cidadania vai além do direito aos serviços de educação, saúde e segurança, obrigações básicas do Estado. O acesso a bens que proporcionam conforto, informação e lazer não pode mais ser encarado como simples sonho de consumo e, por isso mesmo, deixou de ser privilégio de reduzidas camadas da população. Animados pelo emprego e turbinados pelo crédito farto, milhões de brasileiros incorporaram, nos últimos anos, produtos que vão muito além dos itens básicos da alimentação e do vestuário. A geladeira já é presença em mais de 89% dos lares brasileiros. A TV é ainda mais importante na vida das pessoas, pois já serve a 93% das famílias. O Brasil chegou muito rápido aos 130 milhões de telefones celulares e os microcomputadores com acesso à internet caminham em alta velocidade rumo ao dia-a-dia dos brasileiros. Não foi à toa. Não se trata de uma coleção de supérfluos e, sim, de instrumentos de inserção no mundo moderno e do conforto a que todos que trabalham e têm crédito passaram a ter direito. Políticos mais sensíveis já perceberam que retirar essas conquistas terá preço alto demais, e é isso o que a volta da inflação está ameaçando.

Surpreendidos com a disparada dos preços, milhões de brasileiros que tinham ascendido às classes D, C e B de renda estão demonstrando com clareza o peso que esse novo mundo de inserção e conforto significa para eles. Como constata reportagem do Estado de Minas, a determinação individual de manter essas conquistas está levando o consumidor a economizar na qualidade da comida, atitude impensável antes do aporte tecnológico à vida da maioria. Mas essa reprogramação dos orçamentos domésticos não pode se sustentar se a inflação for longe demais. O risco de desequilíbrio dessas contas pessoais é enorme, e maior ainda será a frustração da população menos abonada de ver tudo ir por água abaixo. Para a economia brasileira significará o fracasso de ter alçado apenas mais um vôo de galinha. Tudo isso só aumenta a responsabilidade do governo, que, nesta hora, não pode se dar ao luxo de experiências mágicas ou de medidas heterodóxicas, como costumam sugerir uma parte dos técnicos oficiais, especialmente os mais próximos do ministro da Fazenda, Guido Mantega, e da tradicional orientação do Partido dos Trabalhadores.

A boa notícia é que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva já compreendeu que não há cabo eleitoral mais eficiente do que o controle da inflação e todo aquele acesso ao consumo que alimentou a confiança e a alegria de milhões. Lula não é apenas um homem de sorte. Nas horas difíceis, ele tem sabido ouvir as pessoas certas. Manteve os fundamentos da economia, fortaleceu o Banco Central e descartou velhas bobagens como congelamento de preços e restrições diretas ao crédito. Sabe que aumentar a produção de alimentos ajuda a médio prazo, mas só resolve uma parte do problema. Só falta atacar a outra metade. As despesas correntes do governo têm crescido ao ritmo de 10% ao ano, ou seja, o dobro da economia. O máximo de esforço oferecido até agora é um pequeno aumento do superávit primário, que passará de 3,8% para 4,3% do PIB. É pouco. Lula ainda tem tempo para ir mais longe e fazer ajuste em regra das contas públicas. Como recompensa, pode chegar ao fim de seu mandato, em 2010, com aqueles milhões de brasileiros acondicionando comida de alta qualidade na geladeira nova.

Desejo de ser gente - A integração do negro na sociedade de classes

A integração do negro na sociedade de classes/Florestan Fernandes
Fruto de pesquisa empírica sobre as relações raciais em São Paulo, obra do sociólogo paulista estuda o processo de superação da ordem tradicional em direção à constituição de uma sociedade de classes
Rubens Goyatá Campante
Coleção Noel Pittman/AP
Desejo de ser gente

O menino, filho da empregada doméstica, era tão inteligente que sua madrinha – e patroa de sua mãe – colocou-o na mesma escola primária particular em que seus filhos estudavam. A mãe, Maria Fernandes, portuguesa que emigrara para São Paulo fugindo da pobreza e da falta de oportunidades, lhe dera o nome de Florestan, mas a madrinha não achava que aquilo fosse nome de pobre – tratava-o por Vicente. Aos 10 anos, porém, Vicente – ou melhor, Florestan – teve de largar a escola para trabalhar em tempo integral e ajudar a mãe. Mesmo assim, diria ele anos mais tarde, aqueles poucos anos no ensino primário foram cruciais para que se formassem os ideais civilizatórios de vida e de inconformismo face à condição subalterna que caracterizariam a personalidade de Florestan Fernandes, um dos maiores intelectuais que o Brasil já produziu.

Enquanto trabalhava nas mais diversas e mal-remuneradas ocupações, Florestan continuou estudando por si próprio, autodidata, procurando no mundo das letras um refúgio à dureza de sua condição. Mas não teria continuado sua trajetória de superação pessoal não fosse, mais uma vez, a proteção dos “de cima”, no caso, de professores que freqüentavam o bar em que o jovem trabalhava como garçom e impressionava a todos discorrendo sobre história do Brasil – eles lhe arranjaram um emprego de horário flexível, que lhe dava mais tempo para estudar, e conseguiram descontos nas mensalidades do curso de madureza no qual ele viria a concluir o segundo grau, e, a partir daí, ingressar no recém-formado curso de ciências sociais da Universidade de São Paulo (USP), onde enfrentaria aulas ministradas em francês pelos professores estrangeiros que vieram instituir o curso.

Ou seja, na formação de Florestan estão mesclados, como afirma a professora Maria Arminda do Nascimento Arruda, “traços das tradicionais relações pessoais de proteção a elementos da ordem liberal, como a iniciativa individual e a cultura letrada, expressando as complexas combinações entre o moderno e o tradicional”. É justamente a análise dessa combinação complexa, peculiar, que se estabelece no Brasil entre tradição e modernidade, que compõe o pano de fundo de A integração do negro na sociedade de classes, obra fundamental de Florestan Fernandes. O livro nasceu de uma ampla pesquisa empírica sobre as relações raciais na cidade de São Paulo que a Unesco encomendou a Florestan e seu antigo mestre, Roger Bastide. A pesquisa fazia parte de um grande projeto da instituição que colocava o Brasil como um laboratório de estudo das relações raciais, partindo da suposição de que nossa sociedade fosse “livre” do racismo. Os dados, coletados entre 1949 e 1951, formaram a base sobre a qual Florestan escreveria seu livro.

Embora o tema seja o das relações raciais, a análise de Florestan converte-se, “em um estudo de como o Povo emerge na história”. O dado fundamental dessa história é o processo de modernização, de superação de uma ordem social tradicional e de formação da sociedade de classes como uma “ordem social competitiva”. Nesse processo, a condição do negro e do mulato poderia ser generalizada para a de todo o povo brasileiro pelo fato de que eles tiveram “o pior ponto de partida”, as piores condições psicossociais de adaptação à dinâmica da modernização.

Vida à margem

A campanha abolicionista, apesar de sua faceta humanitária e de contar com expressiva participação dos próprios negros, esgotou-se em si mesma, com o fim oficial do cativeiro: “a cena histórica era insensível a reivindicações que não terminavam com a ‘liberdade da pessoa humana’, mas iam além dela, exigindo-a como mera condição preliminar”, afirma Florestan. Assim, logo após a abolição, o negro viu-se largado à própria sorte, despreparado, sem recursos de educação formal, sem acesso à terra a não ser na condição de parceiro, meeiro, agregado, ou numa parca e incerta agricultura de posse e subsistência, sem condições de competir como força de trabalho com o imigrante – viu-se obrigado a escolher entre a falta de perspectiva no campo ou a migração para cidades como São Paulo. Nestas, lugar privilegiado da modernização, os negros, em sua imensa maioria, viviam à margem, “sem participar de seu dinamismo”. As mulheres ainda encontravam mais oportunidades de ocupação, mas nas posições desvalorizadas de domésticas – cumprindo, não raro, além do papel de trabalhar, o de ter de satisfazer o apetite sexual do patrão e dos filhos – ou de prostitutas. Aos homens, porém, praticamente só lhes restava a opção de se tornarem “vagabundos”, “bêbados”, “desordeiros”, “parasitas”.

A deficiência educacional poderia explicar tanto deslocamento – mas apenas em parte. Os imigrantes, em geral, não apresentavam condições tão melhores que os negros nesse aspecto, mas muitos deles conseguiam conquistar posições sociais abertas na nova sociedade capitalista – tais posições não eram as mais altas, essas se mantiveram nas mãos da elite tradicional, mesmo assim havia espaços de ascensão social, que os negros e mulatos só em raríssimas exceções conseguiam ocupar. A questão fundamental, para Florestan, é que o capitalismo, ou seja, a sociedade de classes, demanda um determinado padrão psicossocial, um “estilo de vida”, uma certa predisposição de espírito, condição básica para que os indivíduos se adaptem a ele e possam agir de maneira a conquistar ganhos e recompensas nessa ordem social competitiva e individualista.

Era justamente isso que faltava aos antigos escravos. Bem ou mal, estavam adaptados à sociedade tradicional, escravocrata, como escravos ou como libertos e agregados que viviam das relações pessoais de favor. Assim, faltava-lhes senso de poupança e impulsos aquisitivos; faltava-lhes disposição em se ocupar com funções que, por lembrarem o passado, eram consideradas degradantes – dificuldade que os imigrantes não tinham, pois percebiam que, no contrato de trabalho, vendiam apenas sua força de trabalho, ao passo que, para os negros, a relação contratual era vista como se alienassem a própria pessoa, como se se vendessem, em parte ou totalmente, ao aceitar e praticar as estipulações do contrato. Enfrentavam o mercado de trabalho como se nele ainda imperasse o tráfico negreiro.

Família desorganizada

Mas havia, ainda, outra deficiência fundamental para os negros: seus padrões familiares disruptivos, outra herança trágica da escravidão, quando os senhores faziam de tudo para impedir a formação de famílias escravas, como forma de evitar e minar a solidariedade entre os cativos. Como sociólogo, Florestan sabia da importância da família como instância moral e social primária, que exerce a função de moldar a personalidade do indivíduo especialmente no controle de comportamentos egoísticos. As entrevistas realizadas por Florestan e Bastide demonstravam uma vida familiar desorganizada, com o pai muitas vezes ausente, na qual imperava uma ética de sobrevivência agreste, um código de conduta rudemente egoísta e violento em relação aos mais fracos, à mulher, à criança, que raramente era tratada como tal. Formava-se, através desse padrão familiar, um tipo de personalidade que obedecia e respeitava mais por medo que por consideração, que via a esperteza e a violência, e não a solidariedade, como os meios básicos de sobrevivência.

A anomia familiar juntava-se à pobreza, que se condicionavam e alimentavam mutuamente. O resultado era o que Florestan chamava de “demora cultural”: o desenraizamento, o deslocamento – mais até que cultural, existencial mesmo – dos negros na sociedade de classes. E a percepção desse deslocamento era o principal dado de suas vidas, o que mais desejavam era superá-lo, era participar das oportunidades da sociedade, de suas promessas. Nas entrevistas, a expressão dessa autopercepção e desse desejo: o que mais queriam? “Ser gente”. Em cidades como São Paulo, viam outros conseguindo, enquanto eles ficavam para trás. Julgavam-se pessoalmente responsáveis por esse fracasso. Os casos de comportamentos desviantes configuravam, então, para Florestan, uma espécie de desespero mudo, de protesto inarticulado, uma “escolha”, mesmo que irracional em seu conteúdo, por um modo desesperado de se afirmar a individualidade, de ser gente – para não fazer papel de “otário”, para não se submeter a “serviços de preto”, perigosos e humilhantes, os destinos de ladrão, vagabundo, bêbado, prostituta.

A partir de situação tão precária, a raça negra jamais representou, para os brancos, qualquer ameaça à sua posição social, nunca houve razões para que estes se sentissem ansiosos ou inquietos com a possibilidade de os negros competirem realmente com eles. Essa, garante Florestan, é a razão fundamental para o fato de não haver se desenvolvido, no Brasil, um racismo aberto, consciente, organizado, explícito. Mas isso, continua, está longe de configurar uma “democracia racial”, como o próprio projeto da Unesco supunha. Na verdade, preconceito existia, e muito, mas não propriamente – ou principalmente – contra a cor da pele. A pele escura era uma dificuldade adicional, o que contava mesmo era a aversão a um tipo de personalidade, um “tipo de gente” – deslocada, preguiçosa, imprevisível, mal-educada, perigosa – do qual os negros eram boa parte, mas que não se restringia a eles. Um tipo de gente cuja existência expressava a persistência, na sociedade moderna, de padrões sociais tradicionais, atrasados, e era marginalizada por isso.

Modernidade e atraso

As sociedades não se modernizam de forma abrupta, resquícios de elementos tradicionais prosseguem por bom tempo. Mas, para Florestan, no Brasil, o moderno não vai substituindo gradativamente o tradicional – ambos convivem de mãos dadas, ambos são constitutivos um do outro. Assim, Florestan não vê a sociedade moderna, de classes, no Brasil, cumprindo sua potencialidade de absorver e neutralizar diferenças raciais próprias de sociedades tradicionais, nem mesmo em São Paulo, seu centro urbano-industrial mais desenvolvido. Na verdade, essa simbiose modernidade/atraso é altamente proveitosa para a camada dominante, que aprendeu a tirar vantagens tanto do atrasado quanto do moderno. E a marginalidade, não só dos negros, mas dos pobres em geral, tem tudo a ver com isso.

Sobre essa marginalização, Florestan escreveu: “antes de estudar esse processo na pesquisa sobre o negro, vivi-o em todos os matizes e magnitudes”. Daí sua identificação com o drama do negro e do povo brasileiro, da qual não nasceu uma complacência paternalista, uma indulgência fácil, mas uma compreensão profunda – das fraquezas, mas também de qualidades nascidas em meio a tanta adversidade. Ao lembrar, em sua infância e adolescência, a reação negativa das pessoas de seu meio à insistência com que se apegava aos estudos (a começar da mãe, que temia que se o filho estudasse passaria a ter vergonha dela), Florestan aponta suas limitações, sua rusticidade, sua incompreensão trágica e profunda dos próprios interesses e necessidades. Mesmo assim, completa, foi com algumas daquelas pessoas que ele aprendeu “que a medida do homem não é dada pela ocupação, pela riqueza e pelo saber, mas pelo caráter, uma palavra que significava, para eles, pura e simplesmente, sofrer as humilhações da vida sem degradar-se”.

Rubens Goyatá Campante é cientista político.

Um não à descrença

Precisamos reavivar os valores carcomidos
Fátima Garcia Passos, Especialista em ciência das religiões, mestre em filosofia
Eu não acredito, como o antropólogo Lèvi-Strauss, que o mundo que começou com o homem acabará sem ele, pois este, as instituições e os costumes seriam uma floração passageira. Acredito, sim, que esse homem que hoje existe e que se perdeu no mundo das aparências construídas para maquiavelicamente dominar, esse sim, desaparecerá, e isso porque essas máscaras que surgiram para dissimular a belicosidade das guerras fratricidas da antigüidade e a ferocidade íntima de cada um se esvaecerão como brumas, colocando a público as mazelas dos sepulcros caiados de que fala o evangelho. Acredito mesmo que, pela própria lei de evolução, a palavra dita terá um significado só; dirá o que diz e não será usada de forma irregular, como a maquiar verdades veladas e escusas, essas que maculam as relações públicas e privadas.

Assistindo há meses ao programa da TVE Mesa de debates, vi a ex-primeira-dama Vanessa Loçasso falar de seu marido: “Porque o prefeito Alberto Bejani é muito transparente nos seus atos e muito correto no que faz”. Ao fazê-lo, ela assumiu gestos com penetrantes e repetiu a frase três vezes. Mas por que o fez? O agir correto e a dignidade de um ser precisa ser alardeada? E por que senti que uma inverdade estava sendo dita? Quantas e quantas vezes nos negamos a ouvir a voz da intuição. De fato é incômodo e cansativo desconfiar a todo instante do que se vê e do que se ouve. É mais fácil acreditar e relaxar. Mas até quando acreditaremos, por comodismo ou conveniência? Até quando seremos omissos enquanto cidadãos? Por quanto tempo imerso em nossas vidas delegaremos os outros o ato de questionar?

O conhecimento histórico e social alarga a compreensão do homem enquanto ser que constrói seu tempo. E a reflexão histórico-antropológica dos fatos sociais nos ajuda a compreender o que podemos ser e fazer em benefício de um mundo melhor. Mas, para garantir a nossa sobrevivência ou até a nossa imponência, nos desdobramos nos afazeres e negócios do cotidiano, esquecendo o social. Todavia, vivemos na polis e dela tiramos nosso sustento, portanto, indagar e questionar é função de todos.

Ao politizarmo-nos, escaneamos a veracidade do que se é falado, ajudamos no desvelamento da realidade e verificamos a autenticidade dos fatos. No período clássico grego, o homem se percebia, sobretudo, como membros da cidade na qual vivia. O seu agir era modelado pelas leis (nomos) e a virtude consistia em ser um bom cidadão. A política e a ética eram concebidas como intimamente vinculadas, e o governante um ser engajado com o bem comum. Contudo, no mundo hodierno em que vivemos, a descrença se fez entre nós; ouve uma degeneração do pacto social e indiferente a tudo cada um pensa somente em si. Todavia, há que se mudar permutar a descrença pela esperança, apostar nos novos tempos que surgem, reavivar os valores carcomidos, apostar num mundo melhor em que cada um, embora cuidando do que é seu, demande algum para cuidar do que é de todos.

Saúde mental: 30 anos em reforma

Manto da Apresentação do Artista Plático Artur Bispo do Rosário
Gilda Paoliello, Secretária Regional Sudeste da Associação Brasileira de Psiquiatria

A reforma da assistência em saúde mental, iniciada no estado há exatamente 30 anos, é um importante processo para a considerável parcela da população que sofre com as doenças mentais. Depois de anos de tratamento asilar em “depósitos de loucos” – alguns hospitais tinham até 4 mil pacientes –, os portadores de transtornos psiquiátricos poderão recuperar sua dignidade. Essa mudança ocorreu depois da intervenção de alguns profissionais de saúde mental, apoiados por familiares, pacientes e imprensa. O desenvolvimento de novos medicamentos, mais eficazes e com menos efeitos colaterais, contribuiu muito com o processo. Além disso, a interlocução da formação, ensino e assistência nos serviços públicos elevou o nível dos projetos terapêuticos.

Hoje, a ciência está mais próxima da vida real e pode contribuir com o aperfeiçoamento do sistema de saúde. Três décadas depois, os grandes manicômios foram fechados. Apesar disso, ainda não surgiram serviços que os substituam com qualidade e que aproximem o doente da sociedade, contribuindo na luta contra o preconceito que oprime os pacientes. Os centros de atenção psicossocial (CAPS), as unidades psiquiátricas em hospital geral, as residências protegidas e a inserção da saúde mental na atenção primária são essenciais para melhorar o tratamento e recuperar a dignidade de pacientes e profissionais de saúde. Por isso precisam ser incentivados.

Em Belo Horizonte, os leitos psiquiátricos não têm sido estabelecidos. Recentemente, a prefeitura negou o reconhecimento de 18 leitos já definidos para o Hospital das Clínicas da UFMG. Além disso, o único hospital-geral da cidade que conta com enfermaria psiquiátrica, o do Instituto de Previdência dos Servidores do Estado de Minas Gerais (Ipsemg), corre risco de perdê-la. A eletroconvulsoterapia, tratamento biológico de excelência, reconhecido cientificamente para casos de absoluta e reconhecida indicação, deixou o elenco de procedimentos do Sistema Único de Saúde (SUS). Com isso, os prognósticos pioram, os resultados são mais demorados e aumenta a taxa de suicídio.

Por falhas de gestão, leitos hospitalares de qualidade foram fechados antes mesmo da criação, em quantidade e qualidade adequadas, dos serviços que deveriam substituir os manicômios. Os Caps existem em número muito reduzido, quase não há opção para os pacientes que precisam de atendimento noturno e as redes de atendimento, que deveriam garantir assistência depois da alta, ou substituir a internação, têm buracos perigosos para a segurança dos pacientes. Nesse cenário, com o fechamento de grande número de ambulatórios, os casos leves também ficam sem opção de tratamento. Além disso, os novos antidepressivos ainda não são distribuídos na rede pública.

O tratamento da esquizofrenia é um bom exemplo. O Ministério da Saúde tem um programa de distribuição de medicamentos especiais para a doença. Os novos antipsicóticos são eficazes até em casos muito graves. Essas medicações têm efeitos colaterais ínfimos em relação às antigas, que deixavam o paciente sedado e enrijecido. Com elas, é possível aumentar bastante a adesão ao tratamento e possibilitar a inserção social de pessoas que há alguns anos teriam que ser mantidas em ambiente protegido e isoladas da família. Entretanto, a distribuição ainda é insuficiente e o acesso é demorado e complicado. Precisamos de mais psiquiatras na rede pública para facilitar a liberação desses remédios. Atualmente, o paciente só os recebe cerca de dois meses depois do início de uma crise, o que agrava em muito sua situação.

Em resumo, enfrentamos alguns problemas estruturais graves: os leitos hospitalares foram reduzidos; os hospitais públicos não são equipados com as medicações mais modernas e eficazes; os serviços alternativos à internação existem em número insuficiente e estão centralizados nas grandes cidades; o paciente menos grave não tem onde buscar ajuda e acaba com piora de prognóstico; e há falta de médicos psiquiatras nos serviços públicos, pois a remuneração é completamente defasada. Três décadas depois, estamos muito distantes dos antigos manicômios. Isso é uma conquista importante para pacientes, familiares e profissionais de saúde. Mas ainda precisamos nos aproximar de um modelo de assistência integral, que ofereça os diversos tipos de tratamento. Esse é o principal desafio da saúde mental nos próximos anos. (Com Maurício Leão Rezende, presidente da Associação Mineira de Psiquiatria, e Mercedes Jurema Oliveira Alves, presidente da Associação Acadêmica Psiquiátrica de Minas Gerais)

Presidente da OAB repudia uso do Exército como polícia



O presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Cezar Britto, voltou a defender hoje (20) que o Exército não pode atuar na segurança pública de maneira ostensiva. Britto afirmou que a competência da força não pode ser confundida com a da Polícia Civil ou Militar.


"Isso se confunde. O Exército é importante, mas não pode fazer papel de polícia". Britto falou ao entrar para uma reunião no Comando Militar do Leste, centro do Rio, junto com o ministro dos Direitos Humanos Paulo Vannuchi. Ele foram recebidos pelo general Jorge Armando de Almeida Ribeiro, comandante da 1ª Região Militar.


O presidente da OAB antecipou que finalidade do encontro é saber o andamento das investigações da morte de três moradores da Providência. "Vamos conversar sobre a participação de militares em conluio com o crime organizado e sobre a entrega de cidadãos para serem assassinados, a fim de que esses eventos não se repitam."


Ainda nesta amanhã o ministro do Direitos Humanos e o presidente da OAB vão se encontrar com o delegado Ricardo Dominguez, que conduz inquérito civil contra os militares, na 4º delegacia. Na noite de ontem (19), a Justiça Militar decretou a prisão de quatro envolvidos.


Agência Brasil

Exército 3 x 0 Providência


Nos últimos dias muito tem se falado sobre 1968, ano em que a juventude do mundo, sobretudo no Brasil, resolveu incendiar o planeta com a fúria e indignação contra o sistema vigente no universo. Armados de utopias e ao som de músicas de protesto, os jovens brasileiros foras às ruas exigirem o fim da ditadura e a volta da liberdade de expressão.


Mas o governo militar, para acabar com o suposto plano comunista de comandar o país, criou o Ato Institucional nº5, o terrível AI-5, baixado no dia 13 de dezembro de 1968, e que permaneceu forte durante 10 anos, os temíveis anos de chumbo da história brasileira.

Estão sendo programados vários eventos, livros e debates para lembrarem essa época em que a ditadura militar não admitia vozes contrárias ao seu governo. Enfim, quem tiver a fim de conhecer um pouco dessa história, sugiro várias leituras, mas principalmente o livro ''1968 o ano que não acabou'' do jornalista Zuenir Ventura, entre tantos outros sobre o tema.

Mas já que vários ex-carbonários resolveram lembrar esse tempo de luta, quarenta anos depois, o exército brasileiro também resolveu lembrar seus tempos áureos de baionetas em punho. Nesta semana que passou, onze deles, de sentinelas no morro da Providência/RJ prenderam três três jovens moradores da favela, por desacato à autoridade.

Como o superior não quis prendê-los, o oficial inferior desacatou às ordens oficiais e sequestrou os três insurgentes favelados, e conforme ele mesmo relatou, os jovens foram entregues de presente, aos traficantes do morro da Mineira (ADA), rivais do morro da Previdência (CV), e que por isso teriam sido executados. Sei não, essa história está meio camuflada.

Pois é, o exército brasileiro, quarenta anos depois resolveu dar as caras (ou armas), e terceirizou a tortura e o assassinato.

Não é a primeira vez que o EB atormenta o morro da Providência, lembram quando o quartel foi assaltado? E isso aí, orgulho ferido não se cura fácil meu compadre.
Quer sejam nos morros cariocas ou nas palafitas nordestinas, essas histórias de dor e sofrimento parecem que não têm fim na vida das pessoas simples do país.

Eu só queria entender, ''Por quê tanto ódio ao povo da periferia?''
Quarenta anos atrás muitos lutaram por liberdade de expressão, oras, então por quê não se expressam nesse momento?

Vamos fazer de conta que esses três jovens são brancos e da classe média. Vamos abraçar a Lagoa Rodrigo de Freitas. Chama a Hebe, a Ivete. Vamos para a Paulista. Vamos usar fitinha branca para pedir paz. Vamos criar um ONG para salvar a vidas dos pobres em extinção. Ué, cadê todo mundo porra?

''É né, quando morre pobre ninguém quer?!''
O Silêncio é mais covarde e violento do que bala de fuzil.
Sei que ninguém está me escutando, mas as favelas estão sangrando e as mães choram seus filhos mortos nas vielas, abandonados pelo descaso dessa elite que segura a baioneta, e finge que não vê, mesmo quando o sangue escorre sobre seus pés.

Não tenho tempo para orações, esse país, nem cristo salva.

*Obs. minha caneta está carregada até a boca.




*Especial Hip-Hop, Espaço para convidados especiais do Hip-Hop a lápis.

Qual a Medida do Crescimento

Madri / Economia – Quando falamos de desenvolvimento humano e de redução da pobreza, não devemos nos referir ao consumo desenfreado de mercadorias (desde automóveis, computadores ou celulares cada vez mais potentes até uma variedade praticamente ilimitada de qualquer produto), mas sim ao fato de que todos os seres humanos possam satisfazer suas necessidades básicas de alimentação, saúde, moradia, educação, por exemplo, assim como de dispor de tempo suficiente para desfrutar da cultura e das artes, ter relações sociais enriquecedoras, tornar realidade suas vocações legítimas em qualquer âmbito que elegerem e, igualmente, ter tempo livre para o descanso. Trata-se de uma concepção da riqueza humana e, por conseguinte, da pobreza, que vai muito mais além da esfera da economia e de sua avaliação monetária ou mercantil.

Em troca, o modelo de desenvolvimento que a atual mundialização do mercado está impondo não diminui a pobreza e acentua o produtivismo e o consumismo destruidores do meio ambiente e da coesão e solidariedade sociais, assim como do ser humano, reduzindo-o à uni-dimensionalidade que já denunciara Marcuse nos anos sessenta do século passado (1). O modelo capitalista de desenvolvimento que predomina na atualidade, em realidade, se trata do "desenvolvimento do subdesenvolvimento" (2), ou do "subdesenvolvimento do desenvolvimento" (3), na medida em que o desenvolvimento dos mais ricos implica no subdesenvolvimento dos mais pobres e que a atual mundialização do mercado não faz mais que aumentar a distância entre ambos, aumentando mais e mais as desigualdades econômicas e sociais assim como as relações de dependência e dominação. Em qualquer caso, bem poderíamos falar do fracasso do desenvolvimento, sobretudo no terceiro mundo e, principalmente, na África (4). Existem os que vão mais longe, pelo menos no semântico, ao não admitir o termo "desenvolvimento" por considerar que está irremediavelmente associado ao capitalismo, ou seja, à "ocidentalização do mundo" (5) ou a seu crescimento (6), que é o "desenvolvimento realmente existente". Neste sentido, os "anti-desenvolvimentistas" propõem uma "sociedade de decrescimento" para assim frear o produtivismo devastador que assola o planeta e poder reconstruir o mundo, recuperando suas raízes.

Igualmente existem autores que compartilham em grande parte as críticas dos anti-desenvolvimentistas, mas que assinalam que as alternativas ao desenvolvimento propostas por estes últimos se assemelham muito ao modelo de desenvolvimento alternativo promovido pelos partidários do desenvolvimento endógeno ou auto-centrado culturalmente (7). Estes últimos propõem um desenvolvimento alternativo ao "ocidentalizado" a partir da tradição, pois consideram que as metas mesmas do desenvolvimento, e não só seus meios, são os que não devem ser importados desde os países "desenvolvidos". Por esta razão, teria que buscar a meta do desenvolvimento adaptada a uma sociedade determinada dentro do dinamismo latente do sistema de valores de dita sociedade: suas crenças tradicionais, sistemas significativos, instituições locais e práticas populares. Neste sentido, as metas deste desenvolvimento alternativo devem se centrar em melhorar em tudo o possível a qualidade de vida e da sociedade, na forma que a própria comunidade o entende, e restabelecer de algum modo a harmonia com uma natureza seriamente prejudicada devido à depredação produzida por esta natureza artificial que é a tecnologia moderna.

Em qualquer caso, resulta arbitrário conceber o desenvolvimento, assim como a pobreza, em um sentido meramente economicista, tal e como estão fazendo os promotores da atual mundialização comercial e financeira, ou seja, sem levar em conta suas dimensões meio ambientais, culturais e políticas e, no marco do meramente econômico, ignorando sua dimensão redistribuitiva, com vistas a uma maior igualdade ou eqüidade social e, portanto, a erradicar a pobreza. Ao contrário, se deve entender o desenvolvimento das pessoas e dos povos como um processo que cria e favorece as condições que permitem o pleno desdobramento de suas faculdades físicas, culturais, políticas, econômicas e ecológicas (8).

O crescimento econômico não garante o desenvolvimento nem a diminuição da pobreza

Em muitos países o crescimento econômico não melhora a situação dos setores mais vulneráveis e desfavorecidos como que a empiora, utilizando importantes recursos na repressão daqueles que ousam protestar. Este é o caso de vários Estados africanos com importantes recursos minerais ou petrolíferos (Nigéria, Congo, Guiné Equatorial, etc.) ou diamantes (Libéria, Serra Leoa, etc.), os quais costumam estar imersos em graves conflitos internos que desembocam em sangrentas guerras civis, alimentadas precisamente pelo dinheiro obtido na exportação desses recursos de seu subsolo, o qual se dedica em grande parte na compra de armamento e treinamento de forças militares e paramilitares para a repressão e aniquilação de opositores (caso da Colômbia, na América Latina, por exemplo).

O desenvolvimento humano deve se caracterizar pela transparência, pela eqüidade e pela não discriminação, frente a outro tipo de processos nos quais se pretende um mero crescimento a todo custo, sem pensar em seu custo humano e ecológico e em se os benefícios vão ser eqüitativamente repartidos ou não. Segundo o especialista sobre o direito ao desenvolvimento das Nações Unidas, pode se produzir um aumento espetacular das indústrias de exportação com maior acesso aos mercados mundiais, mas sem integrar no processo de crescimento os setores econômicos mais atrasados e sem superar uma estrutura econômica dupla e, ademais, vir acompanhado de crescentes desigualdades ou disparidades e uma concentração cada vez maior de riqueza e influência econômica, sem melhoria alguma nos índices de desenvolvimento social, educação, saúde, igualdade de gênero e proteção ambiental (9).

Assim, pois, é necessário equilibrar o crescimento econômico com o desenvolvimento social e com o respeito e preservação do meio ambiente. Um autêntico desenvolvimento humano e sustentável não é possível se não se reconhecem e respeitam todos os direitos econômicos, sociais e políticos, pois somente assim se consegue o equilíbrio social necessário para conquistar uma convivência pacífica duradoura. Por esta razão, deve-se combater a crença intencionalmente promovida pelos poderes hegemônicos de que antes de tudo se deve potencializar o crescimento econômico, pressupondo que todo o restante virá depois automaticamente: nada mais incerto, pois como se demonstrou, não existe um nexo automático entre o crescimento econômico e o progresso em matéria de desenvolvimento e direitos humanos, assim como na diminuição da pobreza.

Em definitiva, um alto crescimento se pode traduzir em um escasso desenvolvimento, enquanto que um pequeno crescimento pode bastar, se for acompanhado de uma política redistribuitiva eqüitativa, para conseguir grandes avanços em matéria de desenvolvimento humano e de redução da pobreza. Além disso, o crescimento econômico não é tanto uma precondição do desenvolvimento e da diminuição da pobreza como pode ser uma divisão mais eqüitativa da riqueza. Isto é, a redistribuição da riqueza mediante políticas redistribuitivas eqüitativas por parte dos poderes públicos em favor dos grupos e indivíduos mais pobres, vulneráveis e desfavorecidos que é uma condição necessária para o desenvolvimento em seu sentido humano, social e sustentável e, por conseguinte, da redução da pobreza.

O crescimento econômico pode ser necessário na medida em que a construção de escolas, de centros de saúde ou de outros serviços sociais, adequadamente dotados, se traduz em crescimento econômico. O mesmo sucede se incluírem na contabilidade pública e privada os trabalhos denominados "invisíveis" por não estarem remunerados, como os trabalhos domésticos do lar e de assistência familiar e social, majoritariamente efetuados por mulheres. Em qualquer caso, se deve desmistificar o crescimento econômico como remédio indispensável, em particular no que se refere à erradicação da pobreza, pois como se disse, a atual mundialização financeira e comercial pode estimular o crescimento econômico, mas não só não está erradicando a pobreza, como que está provocando um enorme aumento das desigualdades econômicas e sociais. Igualmente, este modelo de mundialização continua destruindo a passos gigantescos os ecossistemas naturais e degradando o meio ambiente de maneira acelerada, sem levar em conta que os recursos naturais são limitados e que o aumento da exploração humana vai contra a dignidade e o desfrute de todos os direitos humanos por parte de todos, principalmente dos mais vulneráveis e desfavorecidos.

Além disso, o modelo produtivista e consumista dos países mais industrializados, na atualidade, é devastador e inexportável devido ao fato de que transbordaram os limites razoáveis, pois, se os países mais pobres consumissem e produzissem com a mesma intensidade que os mais ricos, precisaríamos de um planeta de dimensões muito superiores para que pudesse suportar. Em definitiva, partindo do fato de que os ecossistemas naturais têm uma capacidade limitada para reciclar, reabsorver ou se recuperar da pressão a que estão sendo submetidos pela atividade industrial e o consumo humanos e de que deles se pudesse medir a superfície terrestre necessária para suportar dito consumo, um cidadão dos Estados Unidos, requer para seu consumo cotidiano (o "american way of life") em média 9,6 hectares, um canadense 7,2 e um europeu 4,5, enquanto que o limite estimado na escala planetária se situa em 1,4 hectares. Atualmente, já se necessitaria de uma área equivalente à 120% da atual superfície terrestre (10). Se todo o planeta consumisse e produzisse como os Estados Unidos precisaríamos de um planeta quatro ou cinco vezes maior. Portanto, o atual modelo de crescimento econômico só pode favorecer a uns poucos privilegiados, em detrimento da maioria da população, incluídas as denominadas classes médias e, sobretudo, as mais pobres, fomentando assim uma sociedade cada vez mais desigual e injusta.

Os povos indígenas, assim como as populações de muitos países menos industrializados, acreditam que se pode viver dignamente sem cair no consumismo devastador do meio ambiente e da personalidade dos países altamente industrializados. Os direitos humanos, entre outras coisas, foram criados também para tornar possível estes modelos alternativos de conviver e se desenvolver como pessoas, com plena dignidade e bem-estar, sem agredir ao meio ambiente e à margem de um consumismo e de um modelo econômico que na versão dominante atual, de tipo neoliberal, não tolera a liberdade de viver de outra maneira, isto é, à margem do mercado contínuo, do cassino das bolsas, da super-exploração do trabalho e do saque da natureza.

A atual mundialização ou globalização econômica implica em uma extensão das relações de mercado não só em sua dimensão geográfica e demográfica como também nas esferas mais íntimas e internas do ser humano. Tudo é comercializável, até o genoma e a vida humana: o dinheiro é a liberdade e com dinheiro se pode fazer e conhecer o que um indivíduo deseja. Pelo contrário, sem dinheiro no mercado não se é ninguém. Porém, o pior de tudo seja, talvez, que a expansão do mercado por todos os confins da sociedade e do ser humano se realize à custa de negar toda possibilidade, ou seja, toda liberdade de se separar de dito mercado e dinheiro. Daí que povos, as culturas e as pessoas que, na atualidade, ainda optam por conservar costumes e modos de vida tradicionais, ancestrais ou particulares estejam situados onde ainda podem subsistir, agonizando lenta e irremediavelmente ante o inexorável avanço do mercado e do dinheiro, que nos conduz a uma sociedade cada vez mais caótica, imprevisível e desordenada em proveito de uma minoria privilegiada.

Em definitiva, o modelo de mundialização econômica que se está impondo por todos os cantos do planeta limita enormemente, para não dizer que anula quase completamente, a liberdade de cada povo de escolher o modelo de desenvolvimento que melhor se adapte a suas características particulares. As políticas de desenvolvimento e de redução da pobreza deveriam ser elaboradas principalmente pelas pessoas e grupos afetados porque ninguém melhor que eles para compreender quais são suas circunstâncias e suas necessidades específicas. Todos os povos e todas as culturas fazem parte da herança e do patrimônio comum da humanidade e merecem igual respeito e consideração na hora de preservá-los. Igualmente, deveriam levar em conta as considerações meio ambientais, pois os ecossistemas também são patrimônio comum da humanidade e dos povos que os habitam.

Nicolás Angulo Sánchez
Autor de El derecho humano al desenvolvimento frente a la mundialización del mercado, editorial Iepala, Madrid 2005 (http://www.revistafuturos.info/resenas/resenas13/derecho_desenvolvimento.htm).


(Fonte: www.miradaglobal.com)

Brasil - Tapando o Sol com as Grades

Marcos Passerini *

"Costuma-se dizer que ninguém conhece verdadeiramente uma nação até que tenha estado dentro de suas prisões". É o que afirmava Nelson Mandela, quase vinte anos atrás. Se o retrato do que acontece atrás das grades de uma prisão é o espelho de uma sociedade, o Brasil pode entender a barbárie da qual se queixa nas ruas. Dentro das cadeias é ainda pior.

Mais de 420 mil presos sobrevivem amontoados em porões, corredores, pátios e celas inseguras e fedorentas. Presídios denominados de "segurança máxima" onde de "máximo", só tem o absurdo do crime organizado por grupos bem aparelhados que, mesmo sob a custódia do Estado, continuam amedrontando a sociedade de dentro para fora. Armas, droga, celulares e muito dinheiro sempre encontram entrada franca e esconderijo seguro nessas masmorras, onde a lei do mais forte é a única lei e o dinheiro o melhor passaporte de entrada. As exceções são raras. Como raras são as possibilidades do sistema penitenciário ressocializar ou reeducar, como manda a Lei, aqueles que por tempo determinado foram privados de sua liberdade.

Bonito é o propósito da Lei de Execuções Penais e bonitas são as inúmeras Leis que garantem a todo brasileiro, sem distinção, cidadania e direitos iguais. Pelo menos no papel. Enquanto isso, conforme dados oficiais, 7 em cada 10 que são soltos por terem cumprido a pena, acabam voltando à prisão por novos delitos. "As pessoas cometem crimes e vão parar no sistema prisional, exatamente para que possam ser reeducadas ou ressocializadas, mas elas acabam saindo muito piores e muito mais violentas. Então, o sistema prisional acaba sendo um grande reprodutor, uma incubadora de violência que vai se refletir na sociedade." É a fria conclusão de Ariel de Castro Alves, coordenador do Movimento Nacional de Direitos Humanos.

Os próprios reincidentes explicam seu comportamento como decorrência das dificuldades que enfrentam ao serem soltos. Eles se queixam do preconceito que a sociedade, em particular os empregadores, têm contra os egressos do sistema prisional e do fato de não terem recebido treinamento profissional na cadeia para poder encontrar trabalho com maior facilidade, após o cumprimento da pena. E, nesse círculo vicioso, na melhor das hipóteses, o Brasil poderá contar daqui a um ano com uma população carcerária de mais de meio milhão.

Mais assustadoras sejam, talvez, as estatísticas que colocam além de 70% da população carcerária na faixa entre 18 a 27 anos. Diante disso já estão sendo planejados presídios exclusivos para jovens entre 18 e 24 anos. É o caso do Ceará onde foram liberados quase 20 milhões com essa finalidade.

O certo é que, para prender atrás das grades, dinheiro não falta. Quase 550 milhões é quanto o Governo Federal planejou investir em 2008 no sistema penitenciário. Aproximadamente 320 milhões para a construção de novos presídios e gerar assim 11.751 vagas. O triplo de quanto foi gasto no ano de 2007. O problema é que para dar conta do déficit de mais de 270 mil vagas seriam necessários pelo menos 6 bilhões. "E, ainda assim, daqui a 5 anos teríamos déficit de novo". As informações são do diretor-geral do Departamento Penitenciário Nacional, Maurício Keuhne.

Enquanto o Governo Federal derrama quantias fabulosas para manter em vida um sistema falido, o Legislativo tenta ludibriar a população mal informada e assustada pelo sensacionalismo de certa mídia, com algumas reformas na jurisprudência penal homologadas a toque de caixa pelo Executivo. O futuro bem próximo parece não ser ainda tão promissor. A não ser que haja quem pense que a segurança e tranqüilidade da sociedade dependem da quantidade de brasileiros atrás das grades.

Por fim, sem com isso criminalizar a pobreza, uma coisa é certa: segurança e tranqüilidade não podem ser tratadas como "caso de polícia". Nem tampouco a dependência química que arrasta nossa juventude pelos caminhos da delinqüência. E as políticas de educação e de emprego?

É público e notório que a ausência ou as falhas das políticas públicas de responsabilidade federal, estadual ou municipal, sempre serão terreno fértil para todo o tipo de violência que não se neutraliza simplesmente com a repressão policial. Já o combate efetivo ao tráfico de armas e droga ou, quem sabe, uma assepsia radical nas "bandas podres" de todos os poderes, isso sim deve ser tratado de imediato, como caso de polícia. E que, atrás das grades, esses bandidos do "colarinho branco" tenham a oportunidade de aprender o que não deu tempo de aprender nos bancos das faculdades.

* Coordenador da Pastoral Carcerária do Ceará -http://www.combonianosbne.org/


EM DEFESA DA UNIDADE SINDICAL E POPULAR

EM DEFESA DA UNIDADE SINDICAL E POPULAR

Dirigimo-nos aos sindicalistas combativos, aos militantes dos movimentos sociais, à vanguarda socialista nacional e internacional e aos lutadores do povo que, nas fileiras da resistência operária e popular, se opõe ao neoliberalismo, ao imperialismo e ao governo Lula e suas tentativas de pulverizar, cooptar e derrotar o movimento de reorganização dos trabalhadores brasileiros para fazer um alerta.
A última Plenária Nacional da Conlutas aprovou resoluções que, em nossa opinião, sepultaram as possibilidades de que ela possa atuar como o pólo mais progressivo na busca da unidade dos setores combativos socialistas e revolucionários que hoje se encontram fragmentados.
Coube ao PSTU, que detém a “maioria” da Coordenação Nacional da Conlutas, dar a última palavra: Todos os setores internos da Conlutas poderiam apresentar resoluções, mas se eles não tivessem acordo, as propostas seriam encaminhadas ao Congresso e submetidas à votação para que se aferisse o voto majoritário. O que aparentemente pode demonstrar democracia esconde a política da maioria artificial.
A Conlutas foi construída a partir de acordos entre os grupos que a compõem, uma estrutura aberta, transitória, que tem dentro de seus organismos e também com os setores com os quais discute a Unificação vários debates de caráter estratégico: o mais importante deles é o caráter da nova Central que queremos construir, e consequentemente, qual a base social real que sustentará esta nova estrutura.
O MTL defende, de forma pioneira, a unidade e a organização do conjunto dos trabalhadores nas condições atuais do MUNDO DO TRABALHO. Entendemos ser importantes os avanços que foram feitos na Conlutas, no sentido de se rumar para esta concepção, no entanto, este debate é um debate em curso, inicial e não podemos nos submeter ao voto de uma maioria artificial em um Congresso que será composto de 26,36% de sindicatos, 0,91% de Federações, Confederações e Sindicatos Nacionais; 24,16% de minorias e oposições; 8,83% de setores populares urbanos; 8,57% de movimentos do campo; 5,97% dos cortes de opressão e 25,19% de estudantes.
Na medida em que há um debate estratégico aberto, com posições distintas representativas na realidade da classe e no processo de reorganização em curso, não legitimaremos o PSTU a estabelecer maioria artificial a partir de um processo de eleição de delegados sem controle, a representação estudantil, por exemplo equivale a 25% da delegação do Congresso da Conlutas.
Somos daqueles que achamos fundamental construir alianças estratégicas e unidade nas lutas com o movimento estudantil e de juventude, compreendemos o papel histórico e conjuntural dos estudantes, é só observar as recentes ocupações de reitorias, que teve como simbólica a vitoriosa luta dos estudantes da UNB, para saber o papel deste setor nas lutas de resistência de nossa classe. Mas essa aliança não está concluída de fato na realidade, no cotidiano da Conlutas e nos nossos calendários de mobilização a presença e engajamento deste setor não referendam este nível de representação ORGÂNICA no Congresso, nem nos Fóruns da Coordenação Nacional da Conlutas em que uma pequena oposição a um Centro Acadêmico pode participar com o mesmo peso de voto de um Sindicato de 500 mil trabalhadores na base e que tenha 100 mil filiados. É UMA DISTORÇÃO PROPOSITAL CUJO OBJETIVO É INFLAR A REPRESENTAÇÃO DE CÍRCULOS PARTIDÁRIOS REDUZINDO A REPRESENTATIVIDADE DO MOVIMENTO SINDICAL E PARTICULARMENTE DO MUNDO DO TRABALHO, utilizando-se da legitimidade do movimento estudantil.
Mas nós do MTL já conhecíamos esta realidade e estas contradições na base da Conlutas, o que mudou? A DECLARAÇÃO FORMAL DO PSTU DE QUE A ÚNICA FORMA DE SE TRATAR AS DIFERENÇAS É NO BATE CRACHÁS DENTRO DO CONGRESSO, e a reafirmação desta declaração, consolidada na votação da resolução sobre o ELAC (Encontro latino-americano e caribenho), onde a Conlutas se transforma em protagonista e impulsionadora de um “espaço de organização” (nome que deram, temporariamente, como afirma a própria resolução, para substituir na forma, a Coordenadora de Lutas que pretendem construir), enclausurando-se numa articulação orgânica com a ultra-esquerda latino-americana, fechando suas portas à pluralidade de posições internacionais existentes em seu interior e fora dela.
Lembramos que mesmo a CUT, só se incorporou organicamente aos fóruns da social-democracia em seu terceiro Congresso, e condenamos o fato do PSTU querer dar esse curso a Conlutas, a revelia das opiniões internas contrárias, já no seu primeiro Congresso.
Os companheiros responderam a nosso chamado para que não efetivassem esta política, nos acusando de querer calar a Conlutas na sua avaliação sobre os Governos de Hugo Chaves na Venezuela, Evo Morales na Bolívia e Rafael Correa no Equador. Não é verdade, defendemos a liberdade e a autonomia da Conlutas em relação ao Estado, aos Governos e aos Partidos, não assinamos embaixo de qualquer medida, de qualquer Governo contra os trabalhadores, seus direitos e suas lutas. Mas opinamos que os processos políticos e eleitorais encabeçados por estes Governos se enfrentam com as oligarquias e com o Imperialismo defendendo na prática os interesses dos trabalhadores latino-americanos. Não colocamos um sinal de igual entre eles e os pró-imperialistas que os atacam. Mas em nenhum fórum propusemos apoio a estes governos, muito pelo contrário, estávamos entre aqueles que corretamente defendiam que a Conlutas por ser um organismo de frente única, não poderia fechar uma única posição sobre estes processos, e correr o mundo dando esta interpretação como se fosse a de toda a Entidade.
Outro ponto fundamental que nos impulsionou a optar pela saída da Conlutas foi o recuo que os companheiros do PSTU fizeram em relação ao processo de reorganização e a unificação orgânica com setores da Intersindical. Apresentaram uma Resolução, onde recuam da dinâmica anterior de dar prioridade a busca dessa unificação, dizendo que estamos vivendo um quadro de refluxo, que a reorganização se daria de forma mais lenta do que o pensado anteriormente, e que por isto a principal tarefa do Congresso para garantir a unificação seria a de Fortalecer e consolidar a Conlutas, apresentando como política, as tarefas de filiar e garantir os repasses financeiros dos sindicatos. A lógica prioritária para tratar o processo de reorganização foi substituída pela política de anexação e a de buscar a disputa fracional na base das correntes que compõem a Intersindical.
Essa crítica que fazemos aos companheiros do PSTU, no entanto, não pode significar também, concordância com a omissão da Intersindical até agora, de responder aos reiterados chamados que foram impulsionados por nós no interior da Conlutas e aprovados unitariamente, no sentido da reorganização de um Fórum Nacional de Lutas e da construção de espaços comuns, onde poderíamos fazer o debate de estratégia e realizar de fato este primeiro ato de unificação, que deverá buscar muitos outros importantes e diferentes setores que não estão nem na Conlutas, nem na Intersindical. Esta omissão e letargia permitiram ao PSTU priorizar a auto-afirmação orgânica de uma Nova Central Sindical, que na prática se contrapõe a Intersindical, desprezando a necessidade da unidade e fusão com ela e com outros setores sindicais de esquerda.
Colocamos ainda que a batalha por estas posições políticas no interior da Conlutas, não foram travadas apenas pelo MTL, como pode ser comprovado pelas assinaturas no Manifesto do Bloco interno da Conlutas, que foi publicizado ao movimento a cerca de um mês atrás, setores políticos como os companheiros do MAS (prestistas), CST, MÊS, FOS, Conspiração Socialista e outros independentes, representados através de sindicatos, oposições, movimentos sociais urbanos, trabalhadores do campo em 16 Estados, expressaram publicamente estas posições. Não foi um debate superestrutural, pelo contrário, elegemos nossos delegados fazendo este debate. Inclusive não apenas o MTL, mas também os companheiros do MÊS e do MAS já declararam sua ruptura com a Conlutas. Respeitamos a postura do restante dos companheiros do bloco em permanecer na Conlutas, mas nos surpreendemos com seu respaldo público a uma “Nota Oficial”, que contradiz em conteúdo muitos argumentos que foram usados por estes mesmos companheiros no Manifesto que assinaram. Mas esta contradição é dos companheiros e eles é que tem de responder aos setores sociais que representam.
O MTL segue apostando na unidade de todos nós, no entanto, opta por fazê-lo a partir de suas próprias trincheiras, o que não quer dizer que priorize a lógica da autoconstrução em detrimento da unidade. Não é verdade que nossa resolução de saída da Conlutas seja intempestiva e desavisada, declaramos em todos os fóruns da Conlutas que apesar de muito importante, não era estratégica e sim o pólo mais avançado para se fazer o debate da reorganização, isto está escrito em nossa tese ao Congresso a disposição de todos, sempre deixamos explicito no interior da Conlutas nossa posição, caso se cristalizasse em uma Central, sem os outros setores, que impusesse votações de maioria sem que fosse concluído o debate de estratégia e as definições de base social nós daríamos a batalha com independência.
Por tudo isto, o MOVIMENTO TERRA TRABALHO E LIBERDADE, vem a público declarar que não se submeterá a este caminho que consideramos sectário e autoproclamatório. Intensificaremos o combate em defesa da unidade orgânica de todos os lutadores do povo numa nova Central que organize todo o Mundo do Trabalho e que priorize a unidade e as alianças com o povo pobre, independente de onde ele esteja organizado. Queremos construir uma Central Sindical e Popular autônoma, independente, de lutas, democrática, aberta, plural e vocacionada para dialogar com as massas e disputar com a CUT, a Força Sindical e todas as outras centrais traidoras, a direção da Classe Trabalhadora Brasileira. Achamos que nós do MTL, a Conlutas, a Intersindical, setores progressistas da Igreja, o MST e muitos outros setores que organizam lutadores sociais tem a obrigação de encontrar o caminho da unidade para construir esta alternativa para a classe.
Lutar por terra, trabalho e liberdade unificando os socialistas e lutadores sociais na luta sindical e popular segue sendo nosso compromisso.

MTL - Movimento Terra Trabalho e Liberdade
17 de junho de 2008

Perplexidade no Morro da Providência



'Continuo sem engolir essa história de o Exército fazer obras e, inacreditável, deslocar um batalhão para o morro a fim de proteger não a população, mas os operários e engenheiros da tal obra'
Fábio Motta/AE
Ministro da Defesa, Nelson Jobim, esteve no morro e tentou amenizar a situação

De repente, a gente fica sabendo que um grupo de militares entregou três rapazes para os inimigos matarem. Aí, a gente fica sabendo que os tais homens estavam em uma favela do Rio protegendo trabalhadores – seus colegas de Exército – que estavam fazendo uma obra reivindicada por um candidato às eleições deste ano... Não é um samba do crioulo doido?.

Essa história do Morro da Providência no, Rio de Janeiro, é de nos deixar de queixo caído. Depois que os corpos dos três rapazes pobres foram encontrados em um aterro sanitário, o Exército viu-se obrigado a confessar que 11 de seus homens se desentenderam com as vítimas e decidiram seu futuro entregando-as a um grupo rival. Foram executadas.

Mais, o ministro da Defesa foi ao Morro da Providência pedir desculpas às famílias. O presidente da República considerou o episódio algo abominável, prometendo indenizar as famílias das vítimas.

Tudo isso é espantoso. Mas existem outros detalhes que são muito mais malucos. Primeiro essa história de o governo liberar dinheiro para projetos sociais numa favela a pedido de um candidato à prefeitura da cidade. Depois, continuo sem engolir essa história de o Exército fazer obras e, inacreditável, deslocar um batalhão para o morro a fim de proteger não a população, mas os operários e engenheiros da tal obra.

Quando acontece a lambança, o ministro da Justiça se isenta, o ministro da Defesa pede desculpas e uma juíza manda o Exército sair.

Olhem bem o que estão fazendo com nossas Forças Armadas, que contam com os maiores índices de credibilidade junto à população (em pesquisas recentes e antigas!).

46 Tiros Mataram os Meninos da Providência


Entregue por militares do Exército a traficantes do Morro da Mineira (zona norte do Rio) -de acordo com depoimentos de testemunhas e dos próprios militares-, Wellington Gonzaga Ferreira, 19, foi morto com 26 disparos de fuzis e pistolas. David Wilson da Silva, 24, seu companheiro na volta de um baile funk, foi baleado 18 vezes.


A terceira vítima, Marcos Paulo Campos, 17, levou dois tiros. Foi o primeiro a morrer, ao tentar escapar dos cerca de 20 traficantes que o levavam, e aos dois amigos do Morro da Providência (centro), para o alto da favela da Mineira. Ao esboçar uma corrida, foi atingido por balas de fuzil que destruíram parte de sua cabeça.

As 46 perfurações foram contabilizadas pelos médicos legistas do IML (Instituto Médico Legal) de Duque de Caxias (Baixada Fluminense). Eles examinaram os corpos dos três rapazes no fim de semana.

Os corpos foram achados no sábado no ''lixão'' de Gramacho, em Duque de Caxias. Chegaram ao depósito a céu aberto em um caminhão que, horas antes, recolhera os sacos de lixo e o entulho da Mineira.

Além das marcas de tiros, os corpos de Ferreira e de Silva tinham sinais de tortura. Os legistas encontraram ferimentos cortantes e fraturas. Os cadáveres apresentavam ainda marcas deixadas pelo triturador de lixo existente no caminhão.

Os três rapazes foram detidos na manhã de sábado na praça Américo Brum, no alto do morro da Providência, quando saíam do táxi que os levara do morro da Mangueira (zona norte). Tinham passado a noite e a madrugada em um baile funk, acompanhados de jovens vizinhos.

Os militares que patrulhavam a praça decidiram revistá-los. Houve tumulto. O tenente Vinícius Ghidetti de Moraes Andrade, chefe da equipe, resolveu levá-los ao quartel da Companhia de Comando, perto de um dos acessos à favela, sob a acusação de desacato.

Oficial à frente do quartel na manhã de sábado, o capitão Ferrari não concordou com a decisão do tenente e mandou liberar os jovens. O tenente o desobedeceu, segundo o próprio admitiu em depoimento. No comando de três sargentos e sete soldados, ele disse em depoimento que decidiu entregar os rapazes aos traficantes da Mineira, ligados à ADA (Amigos dos Amigos), facção inimiga do CV (Comando Vermelho), que atua na Providência.

As investigações da 4ª DP (Delegacia de Polícia) indicam que, depois de serem entregues, os rapazes foram levados sob pancada para o alto da Mineira. Desesperado, Campos, que era estudante, foi morto ali mesmo, ao tentar fugir.

Os traficantes, antes de dispararem, agrediram os outros dois rapazes com porretes de madeira e barras de ferro. Eles também foram cortados, possivelmente com facões, na cabeça e nos braços. Ao final da tortura, Ferreira e Silva foram alvejados, a curta distância. A maior parte das balas atingiu as cabeças das vítimas.

Segundo os investigadores, Ferreira foi identificado pela quadrilha da Mineira como integrante do tráfico da Providência. Decidiram, então, matá-lo e ao colega, que, embora não tenha sido reconhecido, foi considerado também traficante, pois acompanhava Ferreira.

Fonte: Folha Online