Reação é diferente entre meninas e meninos

PATERNIDADE PRECOCE

Henrique Teixeira/Divulgação
Maria Nogueira incentiva os jovens a irem ao Centro de Saúde Cafezal

A reação diante da notícia de gravidez é bem distinta entre as meninas e os meninos. Conforme aponta a pesquisa de Maria Nogueira, enquanto elas ficam tranqüilas e passam a viver para a gestação, eles reagem de outra forma. “Algumas se dizem pressentir grávidas, destacam a sensação de felicidade de ter um filho e mais uma vez enfatizam a vontade de tê-lo”, afirma. Ao serem questionadas sobre a reação do pai do bebê ao ficar sabendo da novidade, as meninas faziam questão de frisar para a pesquisadora que ele havia ficado “muito alegre” com a notícia, depois da surpresa inicial.

O relato dos meninos, porém, difere um pouco em relação à boa aceitação das meninas. Segundo a pesquisa, costumam ficar descrentes diante da notícia e até duvidar se o filho de fato é deles. “Inicialmente, eles duvidam que a adolescente esteja grávida, chegando a não aceitar que o filho fosse realmente deles e atribuindo a ‘culpa’ pelo ocorrido somente à adolescente, colocando-se como vítima em toda a situação”, informa a pesquisadora.

Maria Nogueira destaca que, diferentemente das adolescentes, os jovens manifestam a sensação de impotência diante do fato. “Aí eu tipo zoei (caçoar) com a cara dela. Eu comecei a rir, falei assim: que brincadeira sem graça, pára com isso, você está ficando doida? Aí ela: eu acho que eu estou grávida mesmo. Aí eu fiquei meio nervoso e comecei a rir da cara dela. Falei: não, isso é mentira, isso é lero-lero seu. Aí eu peguei e subi, fui embora e ela ficou lá na casa dela”, afirmou um estudante de 17 anos, que não foi identificado para ser preservado.

FUTURO Foram entrevistados 17 jovens, sendo oito pais e nove mães, com idades entre 15 e 19 anos. Todos eram pertencentes a famílias de baixa renda (até três salários mínimos). Das meninas entrevistadas, oito já tinham tido os bebês e uma estava grávida de seis meses. Sete garotos já eram pais e um será em menos de dois meses.

O futuro de meninas e meninos é bem distinto. As meninas geralmente abandonam a escola, enquanto os meninos não se desvinculam. Dos entrevistados, apenas um adolescente interrompeu os estudos devido ao fato da gravidez. Das adolescentes, sete não freqüentavam a escola, sendo que seis haviam parado por causa da gravidez. A outra estava fora da escola quando engravidou.

Cresce proporção de jovens grávidas

PATERNIDADE PRECOCE

Henrique Teixeira/Divulgação
Foto da exposição Qualé papai?, que fica no Minas Shopping até 14 de setembro

A gravidez na adolescência é um problema médico-social grave, considerado de alto risco pela Organização Mundial de Saúde (OMS). De acordo com o obstetra e professor do Hospital das Clínicas da UFMG, Antônio Aleixo, os números dão a dimensão do problema que coloca em risco a vida de muitas jovens, bem como trazem impactos indesejáveis para as famílias. Por ano, são feitos, em média, 1 milhão de partos de casais adolescentes.

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad 2006) registrou um aumento na proporção de adolescentes grávidas que concluíram a gestação. Entre os anos de 1996 e 2006, a média entre as meninas de 15 a 17 anos subiu de 6,9% para 7,6%. O crescimento vegetativo da população brasileira tem caído nos últimos anos, no entanto, verifica-se o fenômeno de rejuvenescimento da maternidade. Enquanto as mulheres mais velhas e com maior tempo de escolaridade estão cada vez mais reduzindo o número de filhos, entre as jovens tem aumentado as taxas de fecundidade.

Henrique Teixeira/Divulgação
Foto da exposição Qualé papai?, que fica no Minas Shopping até 14 de setembro

Em termos mundiais, o país tem a quinta maior população jovem, com idades entre 10 e 24 anos: são aproximadamente 52 milhões de pessoas, 30% de toda a população brasileira. O banco de dados do Sistema Único de Saúde (DataSus) deste ano aponta que 13% das brasileiras de 15 a 19 anos têm pelo menos um filho, o que representa um total de 1,1 milhão de mulheres/mães. “Ao considerar as taxas específicas de fecundidade por idade, os estudos apontam para um maior aumento da participação da fecundidade jovem para a composição da Taxa de Fecundidade Total, demonstrando que uma proporção importante da fecundidade brasileira está situada, cada vez mais, na população jovem (15 a 24 anos)”, informa Maria Nogueira.

A gravidez na adolescência traz riscos médicos, como as doenças venéreas e complicações nos partos; e sociais, como o abandono da escola e da casa. A prática do aborto é outra ameaça para a saúde das mulheres, que contribui para as elevadas taxas de mortalidade materna na adolescência. Quando é a única solução para pôr fim a uma gravidez não planejada, as mulheres se expõem a riscos médicos.

Henrique Teixeira/Divulgação
Foto da exposição Qualé papai?, que fica no Minas Shopping até 14 de setembro

Em países em que o aborto é proibido, ou o acesso a ele é dificultado, a saída encontrada é o aborto clandestino, realizado, na maioria dos casos, em situações precárias de higiene e por profissionais pouco qualificados, o que resulta em agravos à saúde da mulher. Devido à ilegalidade do ato, a adolescente, em muitos casos, recorre a meios ilegais, o que implica sérios riscos de complicações associadas.

SOLUÇÕES Antônio Aleixo lista uma série de medidas que precisam ser adotadas para que o problema seja superado. Desde o aumento na escolarização dos jovens, como também melhorias no atendimento aos jovens nos centros de saúde. Segundo o especialista, há alguns aspectos que dificultam o interesse dos jovens por métodos contraceptivos. Um deles é a falta de profissionais especializados para lidar com esse público. “As farmácias populares, fontes baratas de anticoncepcionais, apresentam uma barreira para as adolescentes, que é a necessidade de CPF, além da receita médica. A grande maioria das adolescentes não tem CPF”, complementa.

Da adolescência para a vida adulta

PATERNIDADE PRECOCE

Gravidez precoce mistura deslumbramento e angústia, mas faz com que jovens exerçam senso de responsabilidade
Márcia Maria Cruz
Beto Magalhães/EM/D.A Press
Henrique de Souza Espanhol, de 4 anos, mora com a mãe, mas tem o apoio financeiro e afetivo do pai Wallison

David Douglas Gomes Pereira, de 16 anos, tem estatura e corpo de um adolescente e se comporta como tal: se envergonha das espinhas no rosto e sonha ser reconhecido pelo talento em armar jogadas no meio-de-campo. Ele espera ser, um dia, escolhido para compor a equipe de um grande time de futebol – desejo acalentado por muitos de sua idade. Espelha-se em ídolos como Kaká e Ronaldo Gaúcho, que jogam na posição centroavante. No meio dessa história e desses sonhos, surgiu a pequena Anni, fazendo com que ele tivesse uma outra postura diante da realidade. No lugar de crises existenciais típicas da idade, problemas concretos para cuidar da filha, como ter recurso para alimentá-la e educá-la.

Por essa inesperada, mas feliz surpresa, David marca o nascimento da filha Anni Vitória, de 1 ano e 7 meses, a partir do próprio aniversário. É preciso: “minha filha nasceu 19 dias antes de eu completar 15 anos.” A data que geralmente é encarada como um rito de passagem para a adolescência, representou um pulo na vida de David, como uma entrada precoce para a vida adulta. O mesmo ocorreu com a namorada, Ágda Line de Sousa, na época com 13 anos.

Milhões de razões podem ser indicadas para a gravidez na adolescência, mas todas elas se materializam no não uso de métodos contraceptivos. O jovem reconhece que, na época, não soube usar corretamente o preservativo. “Depois entrei no projeto, mas a Ágda já estava grávida de 4 meses. Então, comecei a aprender, mas era tarde demais”, diz, referindo-se ao projeto Amigos do Cafezal. Idealizada pela pesquisadora Maria Nogueira, o projeto discute sexualidade com os adolescentes e procura criar meios para que eles possam ir ao centro de saúde.

Diferentemente de muitos jovens, que em situações semelhantes abandonam as responsabilidades, David tem tentado estruturar a vida: continua estudando e trabalha na Associação Profissionalizante do Menor de Belo Horizonte (Assprom). “O salário é de R$ 340, mas com os descontos recebo R$ 280”, conta. Entre o trabalho e a escola, arranja tempo para buscar a filha na creche. “Eu vejo a Anni e penso: olha o que eu fiz”, afirma com um misto de responsabilidade e deslumbramento. À noite, quando a menina chora, ele toma conta dela, pois a namorada tem de acordar muito cedo para trabalhar, mas confessa que não é muito hábil em trocar fraldas.

David foi informalmente adotado pela tia da namorada, a agente de saúde Ilzivete Souza Conceição, de 30, que ajuda a cuidar da sobrinha, da sobrinha-neta e também dele, um genro emprestado. A ausência da figura paterna sempre foi um problema para David, que a vida toda ajudou a mãe a tomar conta dos irmãos mais novos. “Vi meu pai pela última vez, quando tinha 6 anos. Sentia muita falta dele no Dia dos Pais. Agora não sinto mais, porque tenho a Anni”, revela.

A surpresa de uma gravidez indesejada também ocorreu para Wallison Glauber, de 19, e a namorada Diana de Souza, de 21. O casal nem sempre usava preservativos nas relações sexuais e, em uma dessas inconstâncias, foi gerado o pequeno Henrique de Souza Espanhol, que está com 4 anos. O casal, embora mantenha o relacionamento, não mora junto. Wallison garante dar todo o apoio ao menino – afetivo e econômico –, dentro de suas possibilidades. Como servente de pedreiro, recebe mensalmente R$ 600. “Compro roupa, biscoito, iogurte… Esse tipo de coisa que criança gosta”, afirma.

Beto Magalhães/EM/D.A Press
David Douglas Gomes Pereira assumiu a paternidade aos 14 anos e adora a filha Anni
MATURIDADE
O jovem se orgulha do fato de a primeira palavra dita pelo menino ter sido “papai” e também da preferência que a criança tem por ele. “Meu maior sonho é ter minha casa e criar meu filho com a Diana.” Mas nem tudo são sorrisos e gargalhadas de criança, e Wallison sente a responsabilidade de ser pai, principalmente quando o filho está doente e ele precisa levá-lo ao centro de saúde. Com 19 anos, ele faz uma reflexão sobre maturidade. Em geral, os adolescentes que se tornam pais amadurecem, mesmo que de forma forçada. “Era jovem na época. Agora amadureci, porque antes era um meninão. A responsabilidade cresceu”, diz.

Jovens como David e Wallison não são maioria. “Quando as meninas engravidam, a maior parte dos meninos não assume, abandonando a mãe e a criança. Em muitos casos, eles assumem outras namoradas”, informa a enfermeira Judith Kelly Abras Lessa Freitas. A médica generalista Simone Teixeira, do Centro de Saúde Cafezal, alerta para a importância de políticas de atendimento aos adolescentes, que muitas vezes ficam esquecidos. O ideal são programas que possam falar sobre métodos contraceptivos, prevenção de doenças sexualmente transmissíveis e Aids, antes que o jovem comece a vida sexual.

GRAVIDEZ E JUVENTUDE

RISCOS MÉDICOS

Maior incidência de prematuros e recém-nascidos de baixo peso
Maior incidência de pré-eclampsia, de partos complicados
Maior incidência de doenças venéreas
Depressão

RISCOS SOCIAIS

Fuga de casa
Abandono da escola
Abuso de drogas e álcool

CAUSAS

Conflitos familiares e afetivos
Desagregação familiar, levando à omissão
Busca de identidade própria
Busca de segurança
Baixa escolaridade e baixa renda
Falta de perspectiva na vida
Dificuldade de acesso aos métodos anticoncepcionais
Desconhecimento dos métodos anticoncepcionais

SOLUÇÕES

Melhoria das condições socioeconômicas
Escolas em tempo integral
Adequação de toda a cadeia de atendimento para que as adolescentes possam ser tratadas de maneira diferenciada. Desde Programa Saúde da Família (PSF) aos postos de saúde
Capacitação de médicos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais para lidar com os adolescentes
Criação de espaços específicos nos centros de saúde para preservar a privacidade da adolescente. Garantia de confidencialidade
Facilidade de acesso aos anticoncepcionais

Fonte: Antônio Aleixo Neto, obstetra e professor do Hospital das Clínicas da UFMG

Vou ser pai. E agora?

PATERNIDADE PRECOCE

Paternidade precoce pode ser um entrave para a vida adulta, mas muitos jovens demonstram senso de responsabilidade
Márcia Maria Cruz
Henrique Teixeira/Divulgação

A paternidade pode ser um estado de graça, mas quando aparece na adolescência pode causar uma série de anseios e dúvidas. O que sente um pai adolescente ao ver seu filho pela primeira vez? O que muda em suas vidas? Como é a relação entre pais adolescentes e seus filhos? O momento costuma ser muito difícil, pois parece ser um contrasenso tornar-se pai, quando ainda se precisa de colo e de orientações.

É o que ocorre com o estudante David Douglas Gomes Pereira (foto), de 16 anos, que foi pai, aos 14, da menina Anni Vitória, de 1 ano e 7 meses. Ao mesmo tempo em que sonha em fazer teste para um grande time de futebol – desejo de muitos meninos de sua idade –, ele precisa lidar com demandas da filha, como educação e alimentação. No caso dele e de outros meninos, a paternidade resulta em uma entrada precoce e precária na vida adulta, quando ainda não se sabe muito bem qual rumo dar à história pessoal. Em geral, a gravidez nessa fase é associada às meninas e, quase nada, se fala em relação à figura do pai. “Geralmente, as políticas públicas são voltadas para as meninas. Não existe uma política voltada para os meninos”, afirma a médica generalista Simone Teixeira, do Centro de Saúde Cafezal, no Aglomerado da Serra, Região Centro-Sul de Belo Horizonte.

A falta de políticas públicas voltadas para os meninos despertou o interesse da pesquisadora da Fiocruz Minas Gerais Maria Nogueira, que em seu doutorado tentou entender o universo desses meninos. Conforme ela lembra, a imagem que se tem do pai adolescente está relacionada à negligência, mas nem sempre isso ocorre. Ela conclui que uma parcela tem despertado para a “paternagem” – o exercício da paternidade nas dimensões afetivas e econômicas. A gravidez na adolescência é um problema de saúde pública com implicações sociais e, sobretudo, riscos físicos para as mães, que não estão com o corpo preparado para a gestação. Para os meninos, podem ser enumerados os aspectos emocionais advindos de tamanha responsabilidade.

Em Minas Gerais, 22% dos nascidos vivos são filhos de mães adolescentes. Entre 10 e 14 anos, a taxa de fecundidade tem aumentado, seguindo uma trajetória contrária à de outras faixas em que está sendo verificada uma queda. Embora tenha maior visibilidade nas camadas da sociedade com menor poder aquisitivo, a gravidez na adolescência é um problema que também atinge a classe média. “Os índices de gravidez não são tão pequenos quanto parecem, pois o que ocorre é um ocultamento”, afirma a socióloga Maria Nogueira, que defendeu tese sobre sexo e sexualidade na adolescência. A pesquisa foi realizada com jovens pais, com idades entre 14 e 18 anos, da Vila Cafezal.

O estudo ainda se desdobrou no projeto Amigos do Cafezal, que teve como propósito trabalhar com os adolescentes temáticas como doenças sexualmente transmissíveis (DST/Aids), afetividade, sexo seguro, paternidade e maternidade responsáveis, entre outros. O resultado do trabalho virou o ensaio fotográfico Qualé papai!, que será aberto na próxima terça-feira, e fica até 14 de setembro, no Minas Shopping. As fotos documentam o sentimento de pais adolescentes diante da paternidade precoce.

Da picape à partitura

SEM PRECONCEITO

Luciana Gomes se dedica à música colonial e à discotecagem em espaços descolados de BH. Para ela, a cultura negra deu régua e compasso a Cassiano e Emerico Lobo de Mesquita
Janaina Cunha Melo
Jackson Romanelli/EM/D.A Press
Erudita ou popular, música preta brasileira inspira Luciana Gomes, a DJ Black Josie
Luciana Gomes descobriu a música depois dos 20 anos. Ela já cursava comunicação social, quando foi incentivada a estudar piano. Recebeu preparação privilegiada de Elvira Prates – a Léa Delba, do teatro de revista – e ingressou no extinto curso de percepção musical do Conservatório. Desde então, as descobertas são sucessivas: ela fundou a Cameratta Lusitana, com a qual se dedica ao repertório colonial, e agora traz à cena a DJ Black Josie – personagem que realiza performances de “música preta brasileira” em casas noturnas da capital. Para Luciana, a raiz africana tem sido o eixo de relações estéticas as mais inusitadas. Esse é o elo que funde José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita a Tim Maia.

“A música colonial foi criada e interpretada por negros. Pouco se fala sobre isso, mas todo aquele repertório magnífico veio dos escravos. Então, o que faço é música negra, mesmo a erudita”, argumenta a cantora, instrumentista e DJ. Desde a criação de Black Josie, ela tem sido convidada para festas e eventos. Discotecou no bar do Cenas curtas (projeto do Galpão Cine Horto), no Bar do Festival Internacional de Teatro de Bonecos, no Sambacanagroove e no projeto Cubanías. Tem apresentações confirmadas na Ioio Mercearia, em setembro, e vai participar do Festival Mundial de Circo, no próximo fim de semana, acompanhando o Sarah Assis Quarteto, responsável pela trilha sonora do espetáculo Variedades, que reúne artistas de diferentes estados.

A seleção de músicas se concentra nos anos 1970, de Cassiano a Jorge Ben Jor, passando por outros ícones que se inspiraram na black music norte-americana. “Estou no contexto da turma que ouvia James Brown. O movimento Black Rio, que começou no Rio de Janeiro e se difundiu por todo o país, é outra referência importante. Essa geração tem sido muito ouvida, principalmente nos bailes de periferia. Acho que a missão da Black Josie é fazer a ponte”, diz Luciana. Ela se surpreende com a reação do público aos sets que apresenta, o que confirma a atualidade dos clássicos de décadas atrás.

A música popular era hobby na rotina de canto erudito de Luciana. Como DJ, ela decidiu experimentar, investiu em equipamentos de última geração e incluiu outros instrumentos na lista de prioridades para os ensaios. “A Black Josie me trouxe essa surpresa. Quando me dei conta, já tinha comprado uma bateria, montei uma banda e passei a dar outro tipo de atenção ao repertório black”, conta. “A música popular sempre me chamou, mas nunca a assumi por achar que não era minha praia”, diz.

A cantora não pretende negligenciar o valioso trabalho de preservação e memória desenvolvido com o Cameratta Lusitana. Diretora artística e produtora do grupo, ela busca recursos para a terceira edição do projeto Estrada Real e prevê, para 2009, a realização da 3ª Mostra de Música Colonial Latino-Americana. Aos 35 anos, Luciana atribui à mãe, Lúcia Gomes, a versatilidade e o apreço pela boa música – de todos os gêneros. “Ela sempre me incentivou, estimulou o início de meus estudos. Foi com ela que aprendi a escutar ótimo repertório, no dia-a-dia, dentro de casa”, lembra.

Capitalismo castiga jovens brasileiros


Baixa escolaridade, desemprego e violência empurram juventude para uma existência vazia, marcada pela mercantilização

Baixa escolaridade, desemprego e violência empurram juventude para uma existência vazia, marcada pela mercantilização

Jonathan Constantino

de Niterói (RJ)


Ao lado da organização política, o outro eixo principal do 1º Encontro Nacional da Juventude do Campo e da Cidade (ENJCC) foi analisar a diminuição das perspectivas dos jovens dentro da sociedade capitalista. Segundo as discussões realizadas, isso pode ser verificado através de dados referentes à educação, emprego e criminalidade, além de uma compreensão de mercantilização da vida.


De acordo com estudo publicado pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), em abril, o Brasil possui cerca de 51 milhões de pessoas entre 15 e 29 anos. Dos jovens entre 15 e 17, apenas 48% estão cursando o ensino médio e 18% estão fora da escola. Dentre aqueles com 18 a 24 anos, a situação é ainda mais alarmante, pois apenas 13% estão no ensino superior e 66% não estudam.


Porém, no encontro, foi salientado que tais fatos não podem ser analisados de modo isolado. A renda familiar, a etnia e o local em que habita interferem no acesso do jovem à educação e na maneira como adquire informação. Esse acesso, por sua vez, influencia no modo como esses indivíduos serão inseridos no mercado de trabalho e atuarão no seu contexto social.


Com relação ao emprego, o Datafolha publicou, em julho, uma pesquisa apontando que 33% dos jovens entre 16 e 25 anos possuem anseios de realização profissional. No entanto, o número contrasta com a realidade do desemprego que, entre os jovens, é de 46%, segundo o Ipea. A pesquisa ainda aponta que 31% dos jovens são pobres e, destes, 70% são negros.


Violência

No que diz respeito à criminalidade, nas atividades do ENJCC chamou-se a atenção para o fato de que a juventude tem sido a principal vítima da violência. “A ONU declara que um país está em guerra civil quando 15 mil jovens por ano morrem violentamente. No Brasil, morrem cerca de 60 mil”, disse Tatiana Oliveira, da Escola Nacional Florestan Fernandes.


As maiores vítimas são os pobres e negros. As intervenções feitas durante o encontro revelaram tratar-se de um processo de criminalização da pobreza, que pode ser ilustrado com o trágico episódio que vitimou três jovens do Morro da Providência, no Rio de Janeiro, em junho.


A violência atinge em média 50% mais os jovens negros e estes são, ainda mais que os brancos, vitimizados por um contexto social que gera profundos impactos em seu cotidiano, visão de mundo e possibilidades concretas de construção de futuro, denuncia o Ipea.


Rafael Vilas-Boas, do setor de cultura do MST, lembra que o Brasil possui a segunda maior população negra do mundo, atrás apenas da Nigéria e acrescentou que “a teoria de esquerda no Brasil precisa rever certas pautas, como a questão racial. Se os movimentos sociais e partidos não atentarem para a questão do negro, perderão a sua legitimidade”.


Mercantilização da vida

Por fim, Gilmar Mauro, da coordenação nacional do MST, observa que a juventude, massificada por um conglomerado midiático que reproduz um pensamento autocrático burguês e consumista, tem sido atingida por um fenômeno de mercantilização da vida. “As nossas relações têm sido intermediadas por coisas”, completa.


Nesse sentido, não só o modo como as pessoas se relacionam, mas seus próprios anseios estão relacionados a coisas. Ao menos é o que aponta a pesquisa do Datafolha, na qual grande parte dos jovens anseia possuir um veículo próprio (40%), casa (36%), investe principalmente em vestuário e calçado (61%) e consideram-se muito consumistas (26%).


São dados importantes a serem analisados, porém Vilas-Boas alerta que “o gosto é uma construção ideológica”. Dessa forma, não há como transformar a situação da juventude sem modificar a estrutura social, enfrentar o neoliberalismo e modificar o modelo de desenvolvimento econômico. “Nossa luta tem de ser anti-sistêmica. Ou superamos o capital ou a humanidade não sobreviverá por muito tempo”, acrescentou Gilmar Mauro.

Deus no palanque


Alberto Dines

A disputa religiosa é a segunda maior causa de guerras na história da humanidade. A primeira é, obviamente, a conquista territorial para garantir a subsistência e a sobrevivência. Nesta questão primordial, o ser humano não se distingue das outras espécies animais que se engalfinham em busca do espaço vital para produzir alimento, agasalho e a preservação do grupo. Asseguradas as necessidades biológicas, os animais ditos racionais passam a guerrear-se para impor suas crenças.


Lamentável: a vantagem competitiva oferecida pela racionalidade em vez de pacificar os instintos só os exacerba. Em termos concretos significa que a busca da paz genuína compreende um esforço ostensivo dos envolvidos para retirar da pauta dos contenciosos todos os ingredientes capazes de fomentar o fervor religioso ou a ferocidade confessional.

Em outras palavras: é preciso tirar Deus da arena política. Há indícios de que isto está acontecendo na Europa - prova de que o Velho Mundo ainda é uma referência - porém na Ásia e na África religião é dinamite pura. No mitológico Novo Mundo, sempre associado à imagem de liberdade, a religião foi imposta a ferro e fogo. Na parte setentrional do continente, mais de cinco séculos depois da chegada de Colombo, encontramos uma situação não muito diferente daquela que existia em 1492, quando a Espanha expulsava os mouros e os judeus do seu território.

Hoje, nos EUA (segundo a “Economist” de 16/8, p.35) cerca de 90% dos cidadãos declaram-se religiosos, 63% acreditam que a Bíblia é a palavra divina e que religiosidade é prova de bom caráter. Apenas 42% dos norte-americanos afirmam que votariam num agnóstico ou ateu para a presidência enquanto 56% votariam num homossexual e 93% aceitariam um negro.

Esta exótica religiosidade numa comunidade tão diversificada e numa civilização tão materialista produz situações singulares como o primeiro encontro dos dois candidatos à Casa Branca, Barack Obama e John McCain, realizado no megatemplo do poderosíssimo pastor Rick Warren na Califórnia, semana passada. Obama veio para mudar, conseguiu ser pós-racial, pós-ideológico, mas não conseguiu ser pós-religioso. Sequer tentou.

Na Íbero-América, a conversão forçada dos nativos e a presença da onipotente, onisciente e implacável Inquisição criou um paraíso monolítico católico que agora começa a ruir diante do formidável avanço das seitas protestantes de variadas filiações. Sem o apoio das massas, certos grupos e ordens ligados ao Vaticano (como a Opus Dei), tentam barrar este avanço evangélico através de um grande empenho na área da comunicação social onde os evangélicos estão poderosamente inseridos.

As eleições de Outubro têm tudo para transformar-se no primeiro round de um confronto formal e ostensivo entre evangélicos e não-evangélicos graças à presença de Marcelo Crivella (PRB) como candidato à prefeitura carioca. Sua eleição anterior para o Senado foi apenas um ensaio: sua postulação a um cargo majoritário, numa cidade-vitrine como o Rio de Janeiro, dá outra dimensão a uma disputa que em outras circunstâncias seria no máximo partidária. Agora é mediática, aos pés do Redentor, portanto religiosa.

Na antiga Cidade Maravilhosa está a sede do poderoso Grupo Globo, cujo maior competidor é a TV Record, carro-chefe da Igreja Universal, de propriedade do bispo-empresário Edir Macedo, tio do candidato Crivella, por enquanto líder nas pesquisas.

Crivella tem o apoio do governo federal, seu partido é o mesmo do vice-presidente da República e do ministro Mangabeira Unger, que aposta numa reedição da história de sucesso da Coréia do Sul onde a opção pelo protestantismo foi estratégica.

Os desdobramentos de um eventual confronto são preocupantes. Embora administrada como empresa multinacional, a Igreja Universal adota um proselitismo agressivo. Seu poderio eleitoral, sobretudo nos segmentos menos favorecidos, pode potencializar conflitos subjacentes. Nas comunidades carentes do Rio onde atua, até a panfletagem precisa ser aprovada pela bandidagem ou pela mílicia (o que vem dar no mesmo).

Deus nos palanques tira Marx da jogada. Religião deixou de ser o “ópio do povo”, porém nada impede que se converta em “coração de um mundo sem coração e alma da condição desalmada”. Guerras religiosas são insaciáveis. Mais nocivas do que as produzidas pela fome.

Sob o olhar de Brás Cubas

Revolução tecnológica da comunicação gera implicações éticas e políticas sobre a questão da intimidade e do espaço privado. Informações tornadas perenes podem se voltar contra o cidadão
Virgílio Fernandes Almeida
Euler Júnior/EM/D.A Press - 30/4/08
Sala de monitoramento do programa Olho Vivo, em Belo Horizonte: os olhos gerados pela tecnologia se espalham pela cidade, gerando cenário digno de Orwell em 1984.



“A vida é uma lousa, em que o destino,
para escrever um novo caso, precisa apagar
o caso escrito. Obra de lápis e esponja.”

Machado de Assis, 1882


Tudo. Tudo pode ser filmado, gravado e fotografado. Indefinidamente registrado nas memórias eletrônicas. E mais. Tudo pode ser recuperado, relembrado, requentado, trazido de volta à luz dos interesses. Este é um traço ainda não compreendido do mundo de hoje, marcado pela confluência da natureza com algo que excede a própria natureza e a envolve de forma invisível. São as redes eletrônicas com seus bilhões de computadores e celulares, que coletivamente possibilitam novas relações entre os homens e as máquinas, entre o humano e o não-humano. A literatura abre espaço para capturarmos a dimensão das implicações e problemas desses novos tempos.

Em 2008, celebra-se a memória de Machado de Assis (1839-1908), que morreu há 100 anos. A releitura de sua obra é uma fonte de prazer, pela forma e elegância do texto, aberto a múltiplas possibilidades de leitura, dependendo do gosto e ofício do leitor. Nos romances, contos, crônicas e personagens, Machado de Assis extrai com destreza e economia o universal do cotidiano, o atemporal do dia-a-dia de sua época. “Com efeito, um dia de manhã, estando a passear na chácara, pendurou-se me uma idéia no trapézio que eu tinha no cérebro. Uma vez pendurada, entrou a bracejar, a pernear, a fazer as mais arrojadas cabriolas de volantim, que é possível crer. Súbito deu um grande salto, estendeu os braços e a pernas, até tomar a forma de X: decifra-me ou devoro-te.” É com esse espírito do trapézio, que precisamos entender os limites e as possibilidades dos novos tempos eletrônicos, em que a privacidade individual, a intimidade pessoal e a segurança da sociedade e do Estado são definitivamente alteradas pela transição das coisas concretas, como o papel, a distância geográfica e o contato presencial, para a quase imaterialidade dos meios eletrônicos.

Está em curso uma revolução da informação, cujas implicações estamos apenas começando a perceber. Novos termos e novas situações mostram como a vida moderna vai sendo enquadrada pela arquitetura e tecnologia dos sistemas de informação. Os jornais estampam freqüentemente essas mudanças em suas manchetes: “Juiz autoriza quebra do sigilio eletrônico de banqueiro”, “Pen-drive do bicho mostra planilha com pagamentos de propina”, “Câmeras reduzem criminalidade”, “Registro eletrônico mostra gastos com cartões corporativos”, “Justiça autoriza quebra de sigilo eletrônico da conta bancária do caseiro do ministro”, “E- mails vasculhados pelos procuradores”, “Vazamento do dossiê eletrônico de gastos de ex-presidente”, “Polícia apreende computadores dos acusados”.

A vida moderna não é mais a lousa descrita por Machado de Assis, onde a esponja do tempo apaga as coisas do passado. Nada desaparece. Anotações em pedaços de papel, cadernetas de contas, cadernos de negócios, agendas, cartas, bilhetes, fotos, diários e todas as outras maneiras de registrar o cotidiano e os negócios vão sendo substituídos pelos arquivos eletrônicos dos computadores. Máquinas que tudo guardam e nada esquecem. Surge então uma indagação fundamental: como conviver com a perenidade das informações, em que nada desaparece? E aí está o novo, em que a vida moderna começa a pregar suas peças. “Na vida, o olhar da opinião, o contraste dos interesses, a luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar os rasgões e os remendos, a não estender ao mundo as revelações que faz a consciência...” observou filosoficamente o finado Brás Cubas.

MEMÓRIA ELETRÔNICA Com a perenidade da informação, chegará o tempo em que seremos todos classificados, rotulados a partir de informações inferidas de nossos gastos, nossos gostos, nossas inclinações políticas, nossas crenças religiosas, nossa vida passada. Nos EUA, um homem relatou para uma reportagem sua experiência numa clínica de reabilitação para alcoólatras e viciados em drogas. Três anos mais tarde, já recuperada, essa pessoa teve dificuldades em conseguir emprego, pois as empresas, por meio de buscas na internet, encontravam a reportagem publicada pelo jornal. Tudo está invisivelmente registrado nas memórias eletrônicas, pronto para ser garimpado, pronto para ser interpretado de acordo com o freguês.

Câmeras de vídeo vigiam centros urbanos, edifícios, shoppings, estacionamentos, aeroportos e rodoviárias. Câmeras de satélites monitoram o desmatamento da floresta amazônica, as infrações ambientais no pantanal mato-grossense e fazem o rastreamento eletrônico de gado para exportação. Polícia e Justiça monitoram conversas do crime e da corrupção. Nada escapa aos ubíquos celulares, câmeras e computadores: “E tudo isso constituía uma verdadeira floresta de olheiros e escutas, por entre as quais tínhamos de resvalar com a tática e a maciez das cobras”, refletiu Brás Cubas em suas memórias póstumas. As redes eletrônicas ampliam dramaticamente as possibilidades de controle. “Chama-me Natureza ou Pandora; sou tua mãe e tua inimiga”, ouviu Brás Cubas em seu delírio.

Se por um lado há a possibilidade de aumentar a segurança, reduzir a criminalidade, controlar o meio ambiente, por outro sobressaem os sinais de invasão de privacidade e controle social que a tecnologia permite. Sinais que não se restringem apenas ao Brasil nem são exclusividade de governos. Aliás, no mundo inteiro, em especial na Europa, os jornais têm noticiado escândalos envolvendo vazamento de informações eletrônicas. Na Inglaterra, funcionários da receita perderam dois discos de computador contendo bases de dados com informações pessoais e bancárias referentes a 25 milhões de ingleses.

VIGÍLIA SEM FIM A maior empresa de telecomunicações da Alemanha, controlada pelo governo, admitiu ter usado técnicas sofisticadas de computação para monitorar, identificar e entender milhares de conversas telefônicas de integrantes da direção da empresa com jornalistas. Informações referentes à devolução do Imposto de Renda de 38 milhões de cidadãos italianos foram recentemente publicadas na internet. Uma lei aprovada pelo Congresso americano permite ao governo monitorar e vigiar maciçamente conversas telefônicas e mensagens de e-mails trocadas pelos norte-americanos com o exterior.

As tentações para criar ambientes orwellianos seguem par e par com o avanço das redes eletrônicas e a evolução da tecnologia da informação. Por meio da tecnologia, a ficção de George Orwell em 1984 deixa de ser coisa de livro e cinema, para se tornar possibilidade real. “Deus te livre, leitor, de uma idéia fixa; antes um argueiro, antes uma trave no olho”, refletiu Brás Cubas. Parafraseando Machado de Assis, poderíamos dizer alto e bom tom: Deus nos livre, leitor, de algo como o Big Brother.

Não se trata apenas de proteger a informação nestes tempos repletos de dados eletronicamente disponíveis. Trata-se de proteger a privacidade do cidadão, proteger o espaço pessoal representado pelas informações relacionadas e associadas ao indivíduo. A coleta e o uso de informações pessoais implica obrigações e responsabilidades. Tarefas para as quais ainda não existem nem mecanismos tecnológicos nem instrumentos legais devidamente apropriados.


Virgilio Fernandes Almeida é professor titular do Departamento de Ciência da Computação da UFMG.

ESPANCAMENTO

Violência Contra a Mulher
Região Noroeste lidera índice de agressões domésticas em Belo Horizonte, mas para combater o crime e dar melhor assistência a vítimas Polícia Militar treina 240 agentes
Ingrid Furtado
Jackson Romanelli/EM/D.A Press
Curso instruiu militares do 34º Batalhão da PM a dar tratamento especial aos desentendimentos conjugais

Chutes na barriga, socos no rosto e muitas cicatrizes no corpo e na alma. Para combater a violência doméstica, mulheres vítimas de agressões ganharam um aliado ainda mais preparado: o policial militar. Ontem, integrantes da Patrulha de Atendimento Comunitário (PAC) do 34º Batalhão da PM terminaram o curso de capacitação para assistência a ocorrências de violência conjugal. A iniciativa tem o objetivo sensibilizar os militares que estão na ponta do atendimento, melhorar o preenchimento dos registros e ampliar as formas de intervenção. Por dia, a Delegacia Especializada de Crimes contra a Mulher, no Barro Preto, Região Centro-Sul de Belo Horizonte, recebe 25 vítimas de lesão corporal e ameaça.

A prevenção e conscientização são fundamentais para quebrar o ciclo do sofrimento entre quatro paredes. De acordo com o promotor de Justiça da Promotoria de Combate à Violência Doméstica, Eduardo Machado, 25% das mulheres no mundo ocidental são vítimas de espancamento pelo marido. A proposta do curso, pela primeira vez aplicado na PM, é capacitar 240 militares do 34º BPM e expandir a iniciativa para as outras unidades da corporação. “Caímos no erro de pensar que a violência doméstica é um problema privado. Mas essa idéia deve ser rompida. A principal diferença desse tipo de crime é a intimidade entre as partes e, em razão disso, requer esforços extras para a prevenção”, diz o comandante do batalhão, tenente-coronel Cícero Nunes Moreira, idealizador do programa.

A abordagem aos envolvidos foi um dos pontos tratados. “Aparentemente, as ocorrências de violência conjugal podem ser simples. Mas isso não deve ser encarado como uma verdade. É preciso preparo e paciência durante a abordagem. Percebemos que a qualidade de resposta dos policiais para esse tipo de registro é muito ruim e precisamos melhorar”, acrescenta o oficial. Ele observa ainda que, geralmente, esse tipo de ocorrência é estimulada pelo uso de drogas e de bebidas alcoólicas.

O oficial adianta que, para facilitar o atendimento, está estudando uma forma de colocar no boletim de ocorrência um novo campo de preenchimento, justamente para detalhar os casos de agressão dentro de casa. “Temos que quebrar o ciclo da violência doméstica, principalmente aquela que se repete. O preparo de nossos policiais é fundamental”, diz o coronel. Em 2007 e no primeiro semestre de 2008, foram registrados 500 casos de espancamento na área do batalhão.

RETRATO Levantamento da Promotoria de Combate à Violência Doméstica revela que a Região Noroeste de Belo Horizonte é a que registra o maior índice de lesões corporais contra a mulher, com 21% dos casos. Venda Nova segue em segundo lugar, com 17%. A Centro-Sul registra 15% e as regiões do Barreiro e Nordeste estão empatadas com 12% dos casos de violência conjugal em BH. “É importante frisar que a agressão não ocorre somente na hora de um tapa ou soco. Ela começa no momento em que o homem manipula e controla a mulher, antes mesmo do embate físico. O marido manifesta quem manda na relação pela coerção psicológica”, afirma o promotor Eduardo Machado.

A chefe da Divisão de Polícia Especializada da Mulher, do Idoso e do Portador de Deficiência, delegada Olívia de Fátima Braga Melo, observa que o trato com a vítima deve ser o mais respeitoso possível. “Ouvimos relatos de mulheres que se sentem ainda mais humilhadas pela forma com que são tratadas pela polícia, que geralmente enxerga a violência doméstica como um crime menor. Não podemos continuar com a idéia de que mulher apanha porque quer”, diz.

Outra novidade do programa é a criação de uma equipe multidisciplinar, composta por psicólogos e assistentes sociais. “Eles vão analisar os boletins de ocorrências e fazer triagens, caso a caso. Os agressores ou vítimas poderão ser encaminhados a serviços de acompanhamento psicossocial e jurídico ou até mesmo convidados a participar de cursos de conscientização sobre a não violência doméstica”, explica a sargento Sílvia Adriana Silva.

CASOS EM BH

Noroeste: 21%
Venda Nova: 17%
Centro-Sul: 15%
Barreiro: 12%
Nordeste: 12%
Leste: 6%
Oeste: 9%
Norte: 7,9

SERVIÇO

Delegacia Especializada de Crimes contra a Mulher, Rua Aimorés, 3005, Barro Preto. Telefone: (31) 3337-6996

Retrato Radical

Retrato Radical lança CD domingo no Reciclo


Janaína Cunha Melo - EM Cultura
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Maria Tereza Correia/EM/D.A Press
O Retrato Radical mostra 13 faixas inéditas e músicas que o consagraram desde os anos 1980
Os veteranos do Retrato Radical lançam o CD Homem bomba domingo, no Reciclo Asmare Cultural. O show, edição especial da festa Instinto Louco de Expressão, é promovida no projeto Diversidade Urbana, e recebe convidados. Kontrast, A Profecia, Máfia NVS, os DJs Marco Túlio e DJ Spider passam pelo palco, antes do quarteto composto por Radical, Canela, Pool e Jaqueline. Eles mostram as inéditas do disco, composto por 13 faixas, e músicas que consagraram o grupo de rap, ativo desde os anos 1980.

Produzido pela Xeque Mate Produções, o disco começou a ser trabalhado em 2005. O Retrato Radical preserva a referência da soul music, que influencia os MCs desde a estréia no hip hop, mas marca o diálogo do grupo com vertentes da música popular brasileira. “James Brown é nosso ícone, a fonte mais importante para todo mundo do rap, mas descobrimos muita identificação com a nossa música, que é muito rica”, comenta Marcelo Luiz de Paula, o rapper Canela. Martinha, Roberto Carlos, Aguinaldo Timóteo, Nelson Ned, Tim Maia e Ney Matogrosso passaram a fazer parte da discoteca dos MCs. “Não tínhamos noção de como esse acervo musical é grande. Começamos a escutar e não paramos mais. Tem muito a ver com a gente”, diz.

Homem bomba, ele explica, trata do limite de cada um. Relata situações extremas, do cotidiano na periferia. Criminalidade, pobreza, desemprego, crítica social estão entre os temas, convertidos em rimas poéticas. “O menino que vende bala na rua e não consegue estudar, está no limite. A molecada que entra para o crime sem saber o que está fazendo, também”. Bike avião fala da iniciação das crianças no tráfico de drogas; 78 mostra o contraste, da infância que no passado desfrutava das brincadeiras de rua. “É uma homenagem a essa década, quando os meninos se divertiam com carrinho de rolimã, amarelinha, pique-esconde”, comenta Canela.

A festa, que conta ainda com lançamento dos clipes 78 (Retrato Radical), Mó sufoco (A Profecia) e participação do coletivo Nospegaefaz com a música Pra Maloca Pirar, presta homenagem ao rapper D.U.K.E., morto no Morro Alto no início do ano. O artista, que passou pelo Artigo 607 antes de se integrar ao Retrato Radical, tinha 29 anos de idade e era considerado referência de superação, que descobriu alternativa no hip hop. “Ele era exemplo pra muita gente. Tinha estilo, boa levada, expressão. Como artista, ele era testemunha dos relatos da periferia, e passou a ser réu da história que narrava. Foi uma grande perda”, lamenta.

Canela conta que o grupo investiu cerca de R$ 12 mil para a realização do novo disco, que chega ao mercado em tiragem de mil cópias. Apesar das dificuldades para captar recursos, o rapper acredita que o talento desta geração tem sido capaz de demonstrar o potencial do movimento. “O rap hoje é uma indústria. Apesar das dificuldades, temos cena forte, com grupos de expressão na música e também no grafite, além dos DJs e b.boys. Estamos passando por uma ótima situação, de amadurecimento”, afirma.

RETRATO RADICAL
Reciclo Asmare Cultural, Av. do Contorno, 10.564, Barro Preto, (31) 8442-5686. Domingo, 16h. Lançamento do CD Homem bomba.
R$ 5.

Duelo do bem

Evento espontâneo que reúne turma do hip hop no Centro de BH chega à 50ª edição
Janaina Cunha Melo
Marcos Vieira/EM/D.A Press
Toda sexta-feira tem encontro de música, dança e grafite em frente à Serraria Souza Pinto

A primeira edição do Duelo de MCs foi no ano passado, com cerca de 30 participantes, na Praça da Estação. O evento, transferido em pouco tempo para a praça em frente da Serraria Souza Pinto, no Centro da cidade, é realizado semanalmente, às sextas-feiras. Depois de quase 50 festas ininterruptas e da expressiva adesão do público, o lugar se tornou ponto de encontro e reúne artistas dos quatros elementos da cultura hip hop. MCs, grafiteiros, DJs e B.boys trocam trabalhos e idéias, no maior fenômeno espontâneo da cidade, que vem ganhando cada vez mais reconhecimento, inclusive de outras tribos urbanas e do poder público.

“Esse tipo de evento era pra ser cotidiano, deveria fazer parte da vida cultural da cidade. O melhor do duelo é que ocorre na rua, pra todo mundo, e aparece gente do reggae, do punk, do rap e de várias regiões”, comenta Luiz Gustavo Meza Silva, o rapper Gurila Mangani. Músico e produtor eclético, que transita entre o dub, hip hop e post rock, ele elogia a habilidade poética dos MCs que enfrentam a batalha. “Encaro o freestyle sozinho, mas não a batalha”, diz sobre o ritual que coloca frente a frente dois mestres de cerimônias (MCs). Eles têm que rimar a partir de um tema e conquistar o público. O mais aplaudido vence o duelo, e leva pra casa troféu estilizado e artesanal, criado exclusivamente para o evento.

O êxito dos encontros motivou os organizadores a criar a Associação Família de Rua, que quer agora aumentar a capacidade da produção e viabilizar captação de recursos para adquirir melhor infra-estrutura. O grupo também produz pocket shows, abre espaço para performances de DJs e divulga outros eventos durante a festa. A inspiração veio da Liga dos MCs, evento nacional que passou por Belo Horizonte ano passado e mobilizou a juventude. “Criamos um espaço para se tornar ponto de encontro para as pessoas trocarem experiências, conversar, mostrar o que estão fazendo. Realizar todas essas edições de forma ininterrupta é uma vitória. Quando começamos, não tínhamos nem o ponto de energia pra ligar os equipamentos”, conta Leonardo Cezário, integrante do coletivo de realizadores, que conta ainda com Felipe Tales, Pedro Valetin, Fernando Castilho, Mateus Lima e Daniel Tocha, entre outros. Segundo eles, a prefeitura já concedeu alvará, iluminação, limpeza e segurança, mas ainda faltam banheiro químico e outros itens indispensáveis para maior comodidade do público.

Presença cativa na platéia, mas ressentida no palco, as mulheres ainda não se dispuseram a levar rimas para o duelo. Para a MC Áurea Carolina, do grupo Dejavuh, elas são menos competitivas que o homens e não gostam do “esculacho”. “Não há regras e às vezes ocorre ofensa. Mesmo sendo de brincadeira, é preciso criar certos parâmetros”, observa. Graduada em ciências sociais, ela elogia a iniciativa. “O duelo é agregador, criou um evento político, de ocupação de espaço e de encontro”. Rapper do grupo Crime Verbal e do coletivo Nospegaefaz, Blitz acrescenta: “Somos uma cultura de rua e estes encontros ajudam a legitimar um espaço importante, que é para todos, e tem sido aproveitado com música e poesia, sem qualquer tipo de problema”, diz.

DUELO DE MCS
Em frente da Serraria Souza Pinto, Centro. Hoje, a partir da 20h. Aniversário
de um ano. Entrada franca.

PRISÕES


Polêmica sobre uso de algemas continua viva

Hélio Mantini da Cunha
- Belo Horizonte

“Ao proibir o uso de algemas (ferramenta de trabalho) aos policiais no cumprimento de suas árduas tarefas profissionais, a meu ver, não foi decisão infeliz do Supremo Tribunal Federal (STF). Certamente, essa regra está sendo implantada para proteger a imagem dos ‘bandidos de colarinho branco’, pois, com certeza, pessoas comuns jamais teriam influenciado a medida. Cabe aos políticos, antes de aprovar tal decisão, lembrarem-se de que o policial, quando efetua uma prisão ou transporta algum preso para ser ouvido, não tem condições de avaliar naquele momento o ‘estado de espírito’ e possíveis reações do conduzido e, portanto, sem algemas, estará arriscando sua integridade física e também de outras pessoas. A lei foi feita para todos, ricos e pobres, famosos e desconhecidos. Portanto, quem não quer ser algemado que não cometa delitos.”

Algemas do retrocesso

Sociedade não pode aceitar tentativa de restabelecer o estado policial
O fato de ter sido tomada em meio ao grande impacto que a prisão de um banqueiro, uma megainvestidor e um ex-prefeito de São Paulo, todos amplamente expostos pela mídia, a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de dar orientação ao uso mais civilizado de algemas, tem sido maldosamente usado por pessoas inescrupulosas. Ficou aparentemente fácil turvar a real importância e validade da posição da mais alta corte do país, sob o discurso tão inconsistente quanto calhorda de que “a Justiça se preocupou com o assunto porque pessoas ricas e de destaque na sociedade passaram a ser presas”. É um desserviço à inteligência jurídica do país e ao avanço institucional que a cidadania brasileira tem conseguido, desde a volta do estado de direito e das boas práticas republicanas. Por isso mesmo, não podem ser acolhidas iniciativas que, insensata ou equivocadamente, atiram contra a postura técnica e eticamente irretocável dos ministros do STF.

Na verdade, o STF determinou, na sessão plenária de 7 de agosto, que o uso de algemas não deve ser a regra e, sim, a exceção, ao julgar pedido de habeas corpus para a anular uma decisão judicial contra Antônio Sérgio da Silva, condenado a 13 anos de cadeia por homicídio triplamente qualificado. Sua defesa alegou que o fato de o réu ter ficado algemado durante o julgamento teria prejudicado sua defesa. Ao concluir que não pode usar algemas com o intuito de constranger, condenar moralmente ou espetacularizar o ato da prisão, o STF preparou uma súmula vinculante à qual aderiram todos os 11 ministros. Para a corte não restou dúvida de que o uso abusivo de algemas nos atos policiais fere princípios fundamentais estabelecidos na Constituição Federal e, portanto, deve se restringir aos casos de risco de fuga ou de perigo de morte dos agentes e cidadãos.

É, portanto, inaceitável a atitude de pessoas que, por sua posição e nível de conhecimentos, deveriam defender e valorizar os ganhos da cidadania, nada mais fazem do que produzir aberrações que lembram os tempos da ditadura e tentam impor um estado policial em nada compatível com a democracia e o respeito humano. É o caso do deputado Marcelo Itagiba (PMDB-RJ), delegado licenciado da Polícia Federal, que pretende bancar um projeto de lei que autoriza a autoridade policial cometer exatamente a barbaridade condenada pela Justiça. Quer simplesmente anular a súmula vinculante do STF e devolver à truculência policial seu antigo instrumento de auto-afimação com que praticava a humilhação e o constrangimento de qualquer um que, mesmo tendo rumo certo e sabido e nem prestado ainda depoimento, recebia tratamento que nem às feras se usa mais dispensar. A quem serve o senhor Itagiba ou a que propósitos se vincula seu inoportuno projeto não se sabe ao certo. O que a cidadania só pode esperar é que a maioria dos homens de bem, que só está nas bancadas do Parlamento graças à democracia que os elegeu, rejeite o estado policial e repudie a truculência, condenando ao lixo do esquecimento e do desprezo essa tentativa de retrocesso.

Ditadura da beleza


Exigência de que atores e cantores se enquadrem em padrões estéticos é cada vez maior. Não é privilégio da China, onde a intérprete mirim emprestou sua linda voz à garota bonita
Gracie Santos
Emmanuel Pinheiro/EM/D.A Press
Sylvia Klein: "Olham para mim e pensam: 'Agora vamos ver se ela canta!'"

Há quem diga que o palco transforma qualquer mortal em beldade. Ou quem peça desculpa aos feios, como o poeta, e sentencie: “Beleza é fundamental”. Da mesma forma que recordes e medalhas, um episódio chamou a atenção na abertura dos Jogos Olímpicos na China: o das meninas Yang Peiyi e Lin Miaoke. A primeira “emprestou” a bela voz à segunda, dona de belo rosto e sorriso. Juntas, espelharam a perfeição. Descoberta a “farsa”, muitos se sentiram traídos. Mas “esconder” o “feio” não é exatamente uma invenção chinesa. É algo mais que recorrente num mundo onde impera a ditadura do belo. E isso, claro, interfere diretamente na vida de profissionais do palco. De um lado estão os “privilegiados”, com traços harmoniosos e talento. De outro, os fora-do-padrão, que vencem preconceitos com muita competência e chegam ao Olimpo, ainda que não sejam nenhuma Afrodite.

Episódio recente marcou o meio do canto lírico em Minas, mais exatamente a montagem de O escravo, de Carlos Gomes, com produção e direção de Fernando Bicudo. Sylvia Klein, que interpretava a condessa (uma francesa jovem, bela e má), conta que eles tiveram dificuldades para encontrar uma cantora que se adequasse ao papel da escrava, no libreto uma mulher encantadora, que venceria a condessa em disputa amorosa. Foram forçados a contratar alguém muito diferente da personagem. E a soprano mineira lembra que, por isso, não conseguiram criar um clima na ópera: “O público não aceitava, considerava absurdo a francesa ser trocada por uma mulher bastante gorda, que não tinha as características da escrava”, recorda Sylvia, chamando a atenção, no caso, para a importância de a montagem ser convincente.

Bonita e talentosa, a soprano mineira admite que o fato de atender os padrões estéticos possa ter ajudado em algum momento de sua trajetória, mas avisa que sofre outro tipo de preconceito: “Olham para mim e pensam: ‘Agora vamos ver se ela canta!’” O caso das meninas de Pequim é considerado absurdo por Sylvia: “Não havia um personagem sendo interpretado. Certamente, todo mundo se encantaria pela criança que cantava tão bem. Não havia uma história. Qualquer um fica bonito no palco, não é questão de beleza, mas de como você se porta”, defende. A cantora acha que a ditadura da beleza tem sido cada vez mais cruel: “É assim em toda parte do mundo, e vai ficar pior. Essa exigência é uma tortura. As pessoas estão se padronizando esteticamente, ficando sem personalidade. Parece um filme de terror”, acusa. E revela que, atualmente, andam aconselhando os cantores excessivamente gordos (que sempre fizeram história no meio) que façam regime. Foi assim com uma amiga que fez testes na Europa. “Mandaram ela emagrecer”.

Beto Novaes/EM/D.A Press
Paulo Babreck superou preconceitos contra sua estatura, de 1,60m, para ser bailarino
FORA DOS PADRÕES
Atriz do Galpão que passou temporada no Cirque du Soleil, Teuda Bara conta que ficou frustrada quando soube que a menininha linda que a havia emocionado na abertura dos Jogos Olímpicos não cantava nada. Tudo em nome da beleza, “o que já está se tornando uma espécie de escravidão”, afirma, dizendo se preocupar com a menina excluída. E conta fato recente, ocorrido com uma sobrinha, que se formou em comunicação e foi convidada para teste de repórter em uma grande emissora de TV. “Ela é bonita, escreve bem, mas não conseguiu. Soube que o problema eram as cicatrizes de queimadura que tinha na mão”. Teuda acha que no Brasil a discriminação é pior que no exterior. “Até porque, há leis garantindo certos direitos fora daqui”.

Desde jovem Teuda teve seios muito grandes e sua mãe mandava que ela os prendesse (“amarrava apertado”). Tinha também uma cicatriz feia, que lhe rendeu o apelido de “perna podre”. “Se você der bola para essas coisas, enlouquece. Chutei o pau da barraca, fiz o que queria. Sempre fui atirada, subia em mangueira, nos telhados. Aos 25 anos, fui criticada por comprar um vestido (uma sobressaia que usava com botas). Disseram que eu estava velha para aquela roupa”, recorda. Mas Teuda perseguiu seu sonho e se tornou atriz. E no seu caso, o tipo físico fora dos padrões acabou sendo motivo de convite para trabalhar fora do Brasil, no Cirque du Soleil. “Viram-me fazendo a ama em Romeu e Julieta. Queriam alguém com meu tipo, mas com certeza o preconceito está em toda parte”, afirma.

Baixinho O bailarino Paulo Buarque “Babreck” sempre enfrentou problemas por ser baixinho. “Por causa da minha altura (1,60m), matava um leão todo dia no Balé Guaíra, em Curitiba”, garante. Babreck não tem dúvidas: “Um cara como eu só venceu porque tecnicamente era muito bom”. Ele diz que tinha todas as qualidades técnicas para a dança clássica, mas se colocassem uma bailarina de sua altura e eles tivessem que fazer um pas-de-deux, ela logo ficava mais alta. Babrek acha que no Guaíra contou também com a sorte. “Naquela época, era uma companhia diversificada, tinha gente de toda altura”. Com o tempo, o bailarino, hoje professor da Fundação Clóvis Salgado, foi encontrando seu lugar: “Passei a ser solista, fazer os papéis de caráter (personagens), inclusive cômicos”. No caso das meninas chinesas, Babreck acredita que o fato ocorrido tenha a ver com o fato de a China estar tentando incorporar conceitos do Ocidente. “Talvez na rotina eles nem ajam dessa forma ainda, queriam se mostrar grande potência. A garota cantava bem e eles colocaram a bonita para aparecer. Afinal, isso não é o mesmo que se faz no Brasil com carinhas lindas em novelas medíocres?”, questiona.

Divulgação/Cirque du Soleil
Teuda Bara foi convidada para o Cirque du Soleil por seu tipo físico fora dos padrões
O CAOS


A psicanalista Inez Lemos acredita que, se prevalecer “essa ideologia do belo, será o caos, o fim do mundo”. Ainda que a beleza sempre tenha sido louvada (“tanto que há na mitologia a deusa Afrodite e a da feiúra não existe”), ela acha que vivemos um retrocesso: “Podemos dizer que a sociedade regrediu e está outra vez tentando criar uma nova raça superior”. E o que mais estaria por trás dessa sacralização da beleza? “Uma questão de mercado, econômica. Pessoas vulneráveis e fúteis vão demandar objetos de consumo. E também uma questão política. Afinal essa é uma forma moderna de exclusão”, analisa. Para Inez, “a propaganda de padrões estéticos esconde estratégia de manutenção da insatisfação do sujeito, que vai ter que comprar o que lhe dá prazer”. E o que faz com que pessoas fora dos padrões vençam no palco ou na TV? “Elas são bem resolvidas, com história de superação de conflitos internos. Alguém saudável aceita suas limitações, as supera e avança”.

Aluno de baixa renda ganha espaço nas universidades


A Folha de S. Paulo publica nesta segunda-feira (18) que puxada pelo ProUni, pelo aumento de vagas e pelo alargamento da classe média, a participação de alunos de baixa renda no ensino superior do Brasil cresceu nos últimos anos. De 2004 a 2006, a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) registrou um aumento de 49% na proporção de universitários com renda familiar mensal de até três salários mínimos -de 10,1% para 15,1%, segundo dados tabulados pelo pesquisador Simon Schwartzman, do Iets (Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade).


Puxada pelo ProUni, pelo aumento de vagas e pelo alargamento da classe média, a participação de alunos de baixa renda no ensino superior do Brasil cresceu nos últimos anos.


De 2004 a 2006, a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) registrou um aumento de 49% na proporção de universitários com renda familiar mensal de até três salários mínimos -de 10,1% para 15,1%, segundo dados tabulados pelo pesquisador Simon Schwartzman, do Iets (Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade).


Na população em geral, a proporção de pessoas com essa faixa de renda subiu apenas 8%.


Embora tenha ganhado mais espaço, esse segmento ainda está subrepresentado no ensino superior, já que, em 2006, o total de brasileiros com renda de até três salários mínimos era muito maior -55,2%.


Considerando a baixa base de comparação, especialistas apontam que o ProUni tem impacto significativo no movimento de ingresso de alunos mais pobres no ensino superior: em 2006, entraram 360 mil alunos de baixa renda a mais do que em 2004; o programa do governo federal, que começou em 2005, ofereceu 204 mil bolsas no período.


Regina Vinhaes, da UnB (Universidade de Brasília) acrescenta que, nos últimos dez anos, a oferta de vagas no ensino superior mais do que quadruplicou, puxada principalmente pela rede particular.


Ryon Braga, da Hoper Consultoria, aponta ainda a ampliação do financiamento educacional e a queda dos preços cobrados por instituições privadas como explicações. Estudo feito por ele mostra que, em 1996, o valor médio da mensalidade era de R$ 840, em valores corrigidos. Hoje, é de R$ 427.


A médio e a longo prazo, porém, a sustentabilidade desse movimento de abertura do ensino superior à população de baixa renda ainda é incerta.


''Uma dificuldade para a expansão é que o ensino médio não está formando gente suficiente, e o ProUni já tem dificuldade de encontrar candidatos'', aponta Schwartzman. ''Além disso, vai depender da capacidade das pessoas de pagarem, o que vai depender, também, da economia'', afirma.


Desde 2000, o patamar de alunos que concluem o ensino médio está estacionado em cerca de 2 milhões. Já o ProUni tem alto índice de bolsas ociosas -39% na última seleção.


Responsável pelo programa, o secretário de Educação Superior do Ministério da Educação, Ronaldo Mota, argumenta que os jovens egressos do ensino médio são apenas parte do público que passou a entrar na universidade. ''Mais de 40% dos ingressantes vêm do mundo do trabalho, já se formaram há muito tempo e não tiveram oportunidade na época'', diz.


Líder de uma associação que reúne bolsistas do ProUni, Adriana Ferreira, 42, é um exemplo tanto do quadro traçado pelo secretário como das limitações do programa.


Ex-assistente administrativa em Minas, ela entrou na universidade 22 anos após se formar no ensino médio. Separada, mãe de três filhos e com renda de um salário mínimo, ela diz que, sem o ProUni, não conseguiria se manter por três semestres no curso de letras.

Por problemas de saúde, porém, parou de trabalhar, ficou inadimplente e perdeu a sua bolsa, que era parcial. Adriana lamenta -''eu ia ser a primeira pessoa a ter nível superior na minha família''-, mas diz que só tentará voltar à universidade se conseguir um salário melhor. ''Mesmo se eu tivesse bolsa integral, teria problemas para pagar a locomoção e a compra do material.''


Enade


O aumento do total de pessoas de baixa renda no ensino superior é corroborado pela comparação entre os questionários socioeconômicos respondidos nas edições de 2004 e de 2007 do Enade (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes), que avaliou as áreas de saúde, ciências agrárias e serviço social -USP e Unicamp não participam.


Nesses cursos, a proporção de calouros com renda de até três salários mínimos cresceu de 24% para 40%. O percentual é maior na rede privada do que na rede pública -37% contra 31%, respectivamente.


Se forem consideradas as áreas examinadas, medicina tem a maior proporção de alunos que cursaram todo o ensino médio na rede privada -80,9%.


Já no curso de serviço social, os estudantes oriundos da escola particular são minoria -apenas 15,4%.
''Em medicina, as universidades públicas oferecem muito poucas vagas, e as particulares são muito caras'', afirma Ryon Braga.


Fonte: Folha de S. Paulo



Conexão histórica


Acervo do escultor e colecionador português Acácio Videira, com importantes peças do povo lunda quioco, aguarda catalogação e interesse de museus ligados à arte e cultura africanas
Walter Sebastião
Fotos: Maria Tereza Corrreia/EM/D.A Press
O português Acácio Videira (1918-2008) morou em Angola por quase 30 anos. Na África, cuidou de adquirir peças dos nativos para o museu de uma companhia de diamantes. Em 1975, devido às guerras angolanas, transferiu-se para o Brasil e, a partir de 1986, morou em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Naturalizado brasileiro, recebeu o título de cidadão honorário da cidade.

Acácio criou elaboradas esculturas. As ricas referências da fonte que as inspirou – a arte do povo lunda quioco – extrapolam o estritamente artístico e sugerem um estudo etnográfico. Pouco conhecidas, as peças já foram apresentadas em discretos e esclarecedores eventos, que chamaram a atenção para o artista-pesquisador.

O acervo de Acácio – em poder do filho, José Manuel Primo Videira – guarda preciosas informações sobre a obra do homem que encantou Câmara Cascudo. Em carta, o importante pesquisador de cultura popular lhe ofereceu apoio. As criações artísticas somam mais de 200 exemplares, entre esculturas, guaches, aquarelas e projetos de ilustração para livros (sobre armadilhas, cestaria e motivos decorativos).

Ainda a ser inventariada, a coleção é extensa: são 350 peças africanas (máscaras, cestos de adivinhação, pentes, esculturas, cachimbos, facas, instrumentos musicais e adornos); cerca de 2 mil fotos (de festas, artistas, tatuagens, chefes de comunidades e figuras religiosas); um caderno com dezenas de desenhos feitos por Acácio, com pinturas, murais, sinais e símbolos. Há também um documentário em super-8. O acervo está guardado na casa de José Manuel Videira, no Bairro Havaí.

Esse material traduz meditada observação e o registro da vida e da cultura dos lunda quiocos. Os itens são acompanhados de fichas de identificação, com informações sobre escalas, autores, técnicas e materiais. Muitas delas foram empregadas na obra artística do próprio Acácio.

Emoção “Meu pai se apaixonou por um povo simples, humilde e sofredor, como os índios no Brasil. Ele se entregou a tudo isso por emoção”, conta José Manuel Videira, que sonha em reunir o acervo “em museu cultural, artístico, etnográfico e histórico”. Ele tem conversado com historiadores, sociólogos e críticos de arte. “Não gostaria de vender as peças isoladamente, nem gostaria de ser passado para trás”, afirma, defendendo negociações a partir da análise de especialistas.


José Manuel lembra a privação que o pai experimentou no Brasil. Não conseguiu se afirmar como artista, o que o levou à depressão. Mas não esconde a satisfação com as homenagens que Acácio vem recebendo. Belo Horizonte, graças ao crítico Márcio Sampaio, assistiu à exposição pioneira dele. Outra mostra, no Hospital Felício Rocho, realizada quando o pai estava prestes a morrer, foi emocionante. “Vi faxineiros, vigias, ajudantes de enfermagem e pessoas muito simples, que nunca tinham entrado numa exposição, com lágrimas nos olhos”, conta.

Artista e pesquisador Acácio Videira morreu em fevereiro, às vésperas de completar 90 anos. Ainda jovem, no Porto (Portugal), começou a cursar belas-artes, mas os estudos foram interrompidos quando o Exército o convocou para servir na Ilha de Açores. Lá ficou por 30 meses. Com o fim da 2ª Guerra Mundial, voltou para Portugal e conheceu Maria da Conceição. A família o enviou para Angola, para afastá-lo da moça, mas não adiantou. Os dois se casaram posteriormente.


Na África, começou a fotografar. Empregado de uma companhia de exploração de diamantes, ele trabalhou no museu etnográfico da empresa. Mais tarde, tornou-se responsável por visitar as tribos e adquirir peças. “Certa vez, pechinchando com povos que mal tinham visto um branco, propôs que o valor da peça fosse decidido por Deus. Com um truque de mágica, fez aparecer a nota em sua mão”, conta José Manuel.

Outra função de Acácio Videira era organizar festas com os nativos, por ocasião da visita de personalidades à companhia. Foi assim que conheceu os antropólogos brasileiros Gilberto Freyre e Câmara Cascudo. Câmara lhe fez uma recomendação: “Não leia nada sobre arte africana, escreva somente sobre o que você viu”. O conselho foi seguido à risca.

DELINQÜÊNCIA


Idéias para combater formação de gangues

Lélio Braga Calhau - Promotor de Justiça do Ministério Público do Estado de Minas Gerais
- Belo Horizonte

“O Brasil tem vivido sérios problemas na área de segurança urbana. O avanço da criminalidade violenta gerada pelos confrontos entre gangues e dessas com a força pública tem sido cada vez mais evidente. O que se vê, cada vez mais, são gangues ousadas e violentas na ‘defesa’ de seu território e na violência de seus ataques (ex: chacinas). Estudos criminológicos revelam a dificuldade de se diagnosticar e reprimir efetivamente as ações das gangues. O problema supera o enfoque da segurança pública, pois se inicia no seio das comunidades carentes. No Brasil, estudos criminológicos sobre o tema têm sido feitos, demonstrando que ainda temos muito que aprender sobre o tema. Cathy Ward, especialista-chefe de Pesquisa do Grupo de Desenvolvimento da Criança e da Família do Conselho de Pesquisa em Ciências Humanas da África do Sul, fez um recente alerta no site Comunidade Segura: ‘Não há nenhuma maneira cientificamente comprovada de resolver o problema das gangues. É mais fácil estudar uma, ou mesmo uma centena de crianças, do que estudar uma gangue’. No sistema de defesa social, trabalhamos com a expressão ‘monitorar a ação das gangues’, aliás, recorrente na mídia e utilizada por diversas autoridades. O problema de se monitorar a ação das gangues faz com ele seja atacado quando já existe, criando um abismo no diálogo entre os envolvidos. Precisamos, então, antecipar essa intervenção. O programa Fica Vivo busca romper, em várias cidades do estado, esses paradigmas unicamente repressivos. Quais são as origens dessas gangues? Como elas surgem no meio social e quais são os seus mecanismos de recrutamento? Como são substituídos os seus membros? Até que ponto a participação de uma pessoa numa gangue deixa de ser um ato anti-social para se tornar um crime? Temos muitas perguntas e queremos, todos, respostas. Muitas pessoas mantêm posturas claramente pessimistas quando afirmam que não há solução para as gangues. Talvez não exista quando pensamos apenas no foco da repressão penal. Ações como o Fica Vivo e centenas de outras em diversos países têm demonstrado que o resgate dessas pessoas é possível, provando que o problema das gangues pode ser equacionado.”

Violência doméstica

Vera Lúcia Nascimento Moreira - Psicóloga, mestranda em psicologia social (PUC Minas)
A Lei Maria da Penha (11.340/06), que cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher, entre outras providências, acaba de completar dois anos. Por todo o Brasil, as comemorações se espalharam, com manifestações de movimentos feministas, discurso da ministra Nicéia Freire, notícias em jornais e revistas etc. Na oportunidade, foi tornada pública uma pesquisa realizada pelo Ibope/Themis – essa última a ONG Assessoria Jurídica e Estudos de Gênero. O objetivo principal da pesquisa foi verificar se a sociedade tem consciência e percepção da magnitude do problema da violência doméstica e, segundo o estudo, 68% dos 2.002 entrevistados conhecem a lei e 83% acreditam que a legislação ajuda as mulheres que sofrem violência.

Na realidade, a Lei Maria da Penha representa grandes avanços na luta das mulheres contra a violência doméstica, tanto na tipificação dos crimes quanto nos procedimentos judiciais ou policiais. No entanto, as leis por si só não conseguem acabar com os problemas de violência doméstica, mas fortalecem e dão resposta a uma luta feminista e social para o enfrentamento da violência de gênero. Além da definição de violência doméstica, a lei trata, pela primeira vez em um texto legal, de forma detalhada, da definição de violência psicológica. O artigo 7º, inciso II, determina: “A violência psicológica, entendida como qualquer conduta que lhe cause dano emocional e diminuição da auto-estima ou que lhe prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento ou que vise degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, chantagem, ridicularização, exploração e limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que lhe cause prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação”. Esse tipo de violência não deixa marcas no corpo físico, pois suas cicatrizes são invisíveis a olho nu, mas fere a mulher na alma, destrói seus valores como pessoa humana e sua auto-estima. Viver com medo e aterrorizada prejudica a saúde mental da mulher, provoca doenças psicossomáticas, baixo rendimento no trabalho e pode levá-la ao suicídio.

As pesquisas apontam que, muitas vezes, o homem, antes de agredir fisicamente a mulher, precisa baixar a auto-estima feminina, de tal forma que ela tolere as agressões físicas. A pesquisadora Heleieth I. B. Saffioth afirma, por exemplo, que qualquer que seja a forma assumida pela agressão, a violência emocional está sempre presente, e cita como exemplos inaceitáveis para as mulheres o fato de os homens quebrarem objetos e rasgarem suas roupas, destruindo, de alguma maneira, sua identidade. Esse tipo de violência ocorre em diferentes níveis socioeconômicos, mas sabe-se que fatores como baixa renda e dificuldades financeiras favorecem variações na estabilidade do vínculo afetivo, assim como comportamentos agressivos variados. Os profissionais que lidam diretamente com mulheres, como médicos, assistentes sociais, psicólogos, seja na saúde, em delegacias ou em outros segmentos da sociedade, devem estar atentos, porque a identificação da violência psicológica pode estar diretamente ligada às medidas preventivas de enfrentamento da violência contra a mulher.

É necessário tirar a invisibilidade da violência psicológica contra a mulher, trazendo-a para discussões mais abertas no âmbito público, no sentido de mostrar que esse tipo de agressão também causa males em todos os membros da família. Os filhos, com certa freqüência, assistem às agressões sofridas pelas mães e crescem em um ambiente conturbado e perturbador do ponto de vista de saúde psíquica. Sabe-se que crianças que crescem em ambientes desse tipo podem desenvolver atitudes semelhantes, quando na idade adulta, repetindo o ciclo de violência. Há muito se esperava uma legislação que reconhecesse a questão de gênero que está diretamente ligada à violência contra a mulher. A perpetuação da idéia socialmente construída de que homens são superiores às mulheres criou o pensamento da dominação destes sobre essas.