Anemia Falciforme: estigma de doença de negro, descaso, sofrimento e morte


Foto: Daniel Cardoso

Diony Maria, jornalista e especialista em Antropologia Social (RS)


Nos Estados Unidos e em Cuba, a média de vida das pessoas com Anemia Falciforme é de 56 anos. Em Cuba, não há registros de mortalidade infantil por causa da doença. Na Jamaica, um estudo realizado em 1997, apontou que 80% dos jovens de até 21 anos e doentes falciformes já haviam completado o ensino médio. Nesses países, as políticas públicas eficazes de tratamento da doença tiveram início há quase três décadas.

No Brasil, ainda não foi implantado, de fato, um programa nacional para a Anemia Falciforme. Os dados garimpados por profissionais da área da saúde dedicados ao estudo da doença são dramáticos: as taxas de mortalidade de crianças falcêmicas menores de cinco anos são altíssimas; a expectativa de vida dos doentes oscila de 18 a 21 anos; dos que sobrevivem e heroicamente ultrapassam esta faixa etária, apenas 8,5% conseguem completar o ensino médio.

A  Associação Gaúcha de Doença Falciforme reùne portadores da anemina  falciforme, médicos e familiares numa mesma luta. Foto: Paulo RicardoA Anemia Falciforme é uma doença genética, hereditária e incurável que afeta a hemoglobina fazendo com que os glóbulos vermelhos percam sua elasticidade, tornando-se rígidos e com formato de foice. Dessa maneira, estes glóbulos agregam-se e obstruem a passagem do sangue nos pequenos vasos, causando microenfartos em diferentes partes do corpo. Entre os sinais e sintomas, destacam-se as crises dolorosas nos ossos, músculos e articulações, o cansaço, a icterícia (amarelão) e as úlceras (feridas) nas pernas. Em bebês, pode haver inchaço muito doloroso nas mãos e pés.

Este tipo de anemia incide em pessoas afro-descendentes não importando se, pela aparência (fenótipo), elas se considerem negras (pretas ou pardas) ou não negras (brancas).

Há anos, o discurso de ativistas da área da saúde, em especial da saúde da população negra, soa como um mantra: a Anemia Falciforme é uma questão de saúde pública. Certamente, os governos que entram e saem já sabem disso. O que prova que, também neste caso, o racismo anda de mãos dadas com o descaso e a falta de uma efetiva vontade política.

Programas para inglês ver
Em meados de agosto do ano passado, o ministro da Saúde, Humberto Costa, esteve no Rio Grande do Sul para participar do I Seminário Nacional sobre Anemia Falciforme e lançar oficialmente o Programa de Políticas Nacionais para o Combate à Anemia Falciforme. Participaram deste seminário, entre outros, secretários estaduais e municipais de saúde, representantes do Congresso Nacional (Senado Federal e Câmara dos Deputados), da Assembléia Legislativa (RS), da Câmara de Vereadores de Porto Alegre, da Sociedade Brasileira de Pediatria, da Sociedade Brasileira de Hematologia, da Associação Gaúcha de Doença Falciforme (Agafal) e do Ministério Público.

Celina Rosa dos Santos. Foto: Paulo RicardoAté agora, o máximo que o evento conseguiu render foi a produção de uma cartilha publicada “para informar a população sobre a Anemia Falciforme”. A cartilha, produzida pela Comissão de Participação Legislativa Popular, da Assembléia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul, foi lançada em novembro do ano passado, dentro das atividades da Semana da Consciência Negra.

Também em 2004, o Ministério da Saúde organizou várias reuniões em Porto Alegre e convidou profissionais da área da saúde, incluindo médicos hematologistas dos principais hospitais da capital gaúcha, representantes de organizações não governamentais que atuam na área da saúde, portadores de Anemia Falciforme e familiares destes.

Consta na ata da Agafal que o objetivo dessas reuniões era alicerçar projeto piloto do Programa Nacional de Atenção Integral aos Pacientes Portadores de Hemoglobinopatias – Anemia Falciforme e Talassemia, pelo qual os novos casos de Anemia Falciforme seriam tratados nos hemocentros, significando a centralização do atendimento e da distribuição de medicamentos. Professor João Ricardo Friedrisch. Foto: Paulo Ricardo

Ainda segundo a ata, “o objetivo [do programa] é promover uma mudança na história natural das hemoglobinopatias no Brasil, reduzindo a morbidade em concordância com a portaria do MS 822 de junho de 2001.” O projeto piloto contempla seis capitais do país: Belém, Belo Horizonte, Campo Grande, Porto Alegre, Recife e Salvador.

“A última reunião aconteceu no dia 19 de outubro de 2004. Já se passaram seis meses e nunca mais se ouviu nada sobre o assunto”, sintetiza a diretora da Agafal, Neusa Maria da Rocha Carvalho, que, semanalmente, se reúne com os médicos que também integram a diretoria da Agafal e chefiam o Serviço de Hematologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, um dos centros de referência de tratamento de pacientes portadores de Anemia Falciforme no Rio Grande do Sul.

Inusitadamente, até o final do mês de abril, os integrantes da Agafal ainda não haviam sido informados de que o projeto piloto que contempla Porto Alegre foi lançado oficialmente pelo Ministério da Saúde, no último dia 21 de março. Aliás, neste dia, a coordenadora do Programa Nacional de Atenção Integral aos Pacientes Portadores de Hemoglobinopatias – Anemia Falciforme e Talassemia, Joice Aragão, declarou à Agência Brasil: “o projeto tenta levar a questão de uma política de atenção integral ao paciente. Vamos organizar uma rede de assistência para que o atendimento fique mais próximo. Vamos ver o perfil dos funcionários que vão atender esses pacientes, qual atenção deve ser dada a eles. A idéia é a gente trabalhar integralmente com esses pacientes dentro das estruturas locais.”

Cinco Maracanãs versus toda a cidade de São Paulo
A apresentação dos números e as comparações concretas dispensam maiores comentários. No final de 2004, relatório divulgado pelo Unaids, programa das Nações Unidas de Combate à AIDS, informou que o Brasil tinha 600 mil pessoas infectadas pelo HIV ou 0,34 da população total do país. Segundo o mesmo relatório, 150 mil portadores do vírus já desenvolveram a doença e estão em tratamento.

Fica mais fácil visualizar o que significam estes números, se levarmos em conta a capacidade oficial e o recorde de público do Maracanã, respectivamente, 122.268 pessoas e 183.341 pessoas (no jogo Brasil 1 x Paraguai 0, em 1969). Os portadores do HIV lotariam cinco Maracanãs, sendo que os doentes que já desenvolveram a doença estariam num número menor do que o recorde de público do estádio. Sem dúvida, um quadro dramático.

A AIDS, como também o câncer, recebem do Ministério da Saúde a classificação de doença com tratamento de alta complexidade. O que significa, entre outras atenções, o pronto abastecimento do estoque dos medicamentos gratuitos fornecidos pelas farmácias do Sistema Único de Saúde (SUS).

Onze milhões - O gene da Anemia Falciforme (HbS) afeta 6% da população brasileira ou pouco mais de 11 milhões de pessoas. (É isso mesmo, onze milhões.) Quando se consideram apenas os negros (pretos e pardos), esse percentual pode atingir 10% desta população ou pouco mais de oito milhões de pessoas. Assim, na comparação, o HbS corresponderia ao número total da população da cidade de São Paulo ou, se preferir, ao público suficiente para lotar aproximadamente cem (100) Maracanãs.

A diferença fundamental entre o vírus HIV e gene HbS é que o primeiro, sendo um vírus, pode entrar no organismo de qualquer pessoa a qualquer momento. Já o segundo, sendo um gene, só poderá causar efetivamente a doença falciforme se encontrar outro gene igual na concepção. Ou seja, os filhos de uma pessoa que possua um gene normal e outro alterado (Traço Falciforme) com outra pessoa que também possua um gene normal e outro alterado (Traço Falciforme) podem nascer com os dois genes alterados (Anemia Falciforme). Matematicamente, se existem 11 milhões de brasileiros portadores do Traço Falciforme é bastante provável que muitos deles possam se encontrar e possam gerar filhos com Anemia Falciforme. Como não existe no país um rastreamento da incidência do Traço Falciforme, as pessoas só sabem da carga genética quando o traço ou a doença se manifestam.

A Anemia Falciforme é uma doença grave, mas se diagnosticada em tenra idade e tratada corretamente pode permitir que os doentes tenham um padrão de qualidade de vida razoável. É o que atestam os já citados números dos EUA, de Cuba e da Jamaica. Tal tratamento exige uma atenção integral ao paciente durante toda a sua vida, uma vez que toda a saúde fica comprometida.

Remédios caros - No Brasil, os preços dos remédios utilizados no tratamento da Anemia Falciforme são proibitivos. Em Porto Alegre, por exemplo, uma caixa com cem compridos de Hidroxiuréia dura um mês e custa em torno de R$ 250,00. (Isso mesmo, duzentos e cinqüenta reais). A Hidroxiuréia é fundamental no tratamento porque penetra dentro dos glóbulos vermelhos e consegue amolecer a hemoglobina endurecida.

Uma caixa com dez ampolas de Desferal, que evita o acúmulo de ferro no sangue, sai por R$ 200. A bomba de infusão de uso caseiro, equipamento que fica acoplado ao corpo do paciente durante aproximadamente oito horas para retirar o excesso de ferro já acumulado no organismo, custa aproximadamente R$ 2 mil e 600 (dois mil e seiscentos reais). Já a bomba de uso hospitalar custa em torno de R$ 6 mil (seis mil reais). A vantagem é que esta leva somente uma hora para retirar o excesso de ferro e, evidentemente, poderá ser utilizada por várias pessoas em um mesmo dia.

Para as feridas crônicas, que normalmente aparecem nos tornozelos dos doentes, uma bisnaga com 50 gramas da pomada Iruxol custa por volta de R$ 54,00 e dura somente uma semana. A rede pública fornece a pomada Nebacetin que não faz a limpeza necessária e não é eficaz na cicatrização. Na prática, os postos de saúde costumam disponibilizar somente o curativo Bota de Ulna (feito com óxido de zinco). Os profissionais de saúde dizem que este curativo produz uma melhora, mas está longe de ser o ideal.

Os pacientes ainda precisam tomar diariamente vitaminas do Complexo B. Receber doses de penicilina mensalmente. Vacinar-se regularmente. A Anemia Falciforme ainda não foi incluída pelo Ministério da Saúde do Brasil no rol das doenças de tratamento de alta complexidade..

Muros que separam favelas e vias são realidade na cidade do Rio de Janeiro


Segundo o prefeito Eduardo Paes (PMDB), placas diminuem riscos de atropelamentos e isolam as comunidades do barulho dos carros. Mas, para a população das favelas, é mais uma forma de discriminação

Aline Scarso,

Radioagência NP




Começaram as polêmicas obras de instalações de muros que devem isolar treze favelas na zona sul da cidade do Rio de Janeiro (RJ) das Linhas Vermelha e Amarela, as principais vias expressas do estado. Segundo o prefeito Eduardo Paes (PMDB), as placas diminuem os riscos de atropelamentos nas vias e isolam as favelas do barulho dos carros. Mas, para a população das favelas, esta é mais uma forma de discriminação.

O presidente da Federação de Favelas do estado do Rio de Janeiro (Faferj), Rossino Castro, afirma que a obra atende aos interesses dos organizadores das Olimpíadas, prevista para acontecer na cidade em 2016.

“Porque o governo [estadual e municipal] vende uma imagem de que as favelas são urbanizadas e organizadas. O [ex-] prefeito César Maia (DEM) pegou muito dinheiro para fazer as favelas-bairro, [ou seja] para transformar as favelas em bairro, e não fez isso. Então, estão fazendo os muros para esconder as favelas dos turistas porque eles irão passar muito pelas linhas Amarela e Vermelha.”

O projeto já foi questionado pela Organização das Nações Unidas (ONU), que pediu explicações ao governo do estado. Na época foi dito que o objetivo era impedir o avanço das favelas sobre a mata atlântica, preservando assim o bioma.

“Essa de separar a favela do asfalto é discriminação. Enquanto tratar a cidade como cidade partida, a tendência da violência é crescer dia-a-dia.“

Internacionalmente, os muros já foram comparados ao antigo muro de Berlim e às barreiras que separam Palestina e Israel.

Desvendar o mito por trás da polêmica das cotas raciais





Escrito por Luciana Araujo

O Supremo Tribunal Federal reacendeu a discussão sobre a justeza da reserva de vagas nas universidades brasileiras para estudantes negros, afro-descendentes ou indígenas - as chamadas cotas raciais – ao realizar, na primeira semana deste mês, audiência pública prévia ao julgamento da ação impetrada pelo DEM contra a Universidade de Brasília.

O evento serviu ao menos para pôr a nu as reais motivações e objetivos dos DEMOcratas (ex-Arena e ex-PFL). Especialmente esclarecedora foi a declaração do senador Demóstenes Torres, digna de um senhor de engenho. Para ele, as políticas de reparação não se justificam porque a "exportação" de pessoas para o mercado negreiro teria incentivado a economia africana – logo, a escravidão seria responsabilidade dos negros. O senador goiano foi além e acusou as mulheres escravizadas de serem coniventes e permissivas com os estupros sofridos.

A advogada dos DEMOcratas, Roberta Kauffmann, ex-pupila do presidente do STF, o ministro Gilmar Mendes – que foi seu orientador durante o mestrado sobre as políticas afirmativas na universidade brasileira - alegou ainda que não se pode estabelecer um processo de "racialização do país, com a segregação de direitos com base na cor da pele".

A postura dos dois senhores acima mencionados evidencia o grau de reacionarismo e o forte racismo ainda arraigado na sociedade brasileira. É o que explica porque, mais de um século após o 13 de maio de 1888, no Brasil ainda se contrata pessoas pelo critério da "boa aparência". Ou porque os negros recebem até 90% menos que os trabalhadores brancos para desenvolver a mesma função e são 73% dos 10% mais pobres do país. Ou, ainda, porque um jovem negro em nosso país tem quatro vezes mais chances de morrer assassinado que um menino branco. E porque nas universidades públicas brasileiras apenas 23% dos estudantes são negros (na USP, esse percentual cai para 2%).

Os dados jogam por terra o mito da "democracia racial". Basta voltar os olhos para as favelas e periferias de nosso país – carentes de quaisquer políticas de garantia de infra-estrutura e onde o único braço do Estado que chega é o da repressão - para perceber que a pobreza no Brasil tem cor.

Essa realidade é resultado dos 358 anos de regime escravocrata no país e pela forma como se deu a abolição até hoje inconclusa. No longínquo 13 de maio, milhares de homens, mulheres, jovens e crianças foram jogados à própria sorte como se o Estado não tivesse nenhuma responsabilidade pelo fato de eles terem sido seqüestrados de sua terra natal e mantidos confinados como animais durante quase meio século.

O descompromisso histórico do Estado brasileiro com os negros e as negras no país é também uma forma de perpetuação do preconceito e do racismo. Desde os tempos do regime escravista, direitos básicos são negados aos negros – assim como aos indígenas – em nosso país. É da responsabilidade desse Estado reparar a distinção incentivada e patrocinada pelas instituições que fundaram as bases sócio-econômicas e políticas de nosso país.

As ações afirmativas por si só não asseguram o fim da discriminação racial, mas são um elemento concreto de reconhecimento da responsabilidade do Estado pela realidade em que vivemos. O racismo continuará existindo enquanto vivermos sob a égide do capital – que a tudo mercantiliza e se utiliza da opressão, especialmente de gênero e etnia – para legitimar a propriedade e potencializar os lucros de uns poucos ao custo das vidas de milhares. É um subproduto e uma necessidade do capital.

Mas essa realidade não anula o fato de que é devida a nós negros a reparação pela chaga escravista de quase quatro séculos da história brasileira. Enquanto isso não ocorrer, o "não racismo" nacional continuará reservando aos negros a triste representação recentemente exibida na novela ‘Viver a Vida’, da Rede Globo. Na trama, uma mulher negra até galgou o posto de protagonista, mas o enredo a fez submeter-se a ajoelhar diante de outra mulher, branca, para receber uma bofetada e ainda pedir desculpas.

Não foi à toa também que o Estatuto da Igualdade Racial recentemente aprovado no Congresso Nacional foi mitigado, retirando-se do texto as reivindicações mais profundas dos movimentos sociais que lutam contra o racismo.

E também não é uma coincidência que foram os mesmos DEMOcratas que pediram a instauração da CPMI no Congresso Nacional para criminalizar o MST. Esses são exemplos da ação organizada da burguesia brasileira, de uma elite branca e racista que controla o país e impõe, pela via da força quando necessário, sua visão de mundo. E, a julgar pela composição da mais alta corte do país – que ao longo de seus 120 anos de existência sempre atendeu aos anseios da elite que a instituiu – o processo de reparação pelos efeitos da escravidão está ameaçado de um novo retrocesso.

É fundamental a ampliação deste debate para o conjunto da sociedade brasileira e a organização de uma grande campanha em defesa das cotas raciais, bem como para que sejam assegurados os investimentos necessários à ampliação de vagas nas instituições públicas de ensino superior, para efetivar o direito de ingresso de filhos da classe trabalhadora nas universidades brasileiras. As cotas não são uma benesse do Estado aos negros e indígenas, mas o início do pagamento de uma dívida que já dura 510 anos.

Luciana Araujo é jornalista.

Jovens levam arte aos becos de BH



Amanda Almeida - Estado de Minas


Uma bela inspiração para o grafite: as telas modernistas de Guignard (1896-1962). Na oitava edição do projeto Arte Favela nos Becos, oficinas de arte tiveram como foco a vida e a obra do pintor brasileiro. Trinta jovens de cinco comunidades diferentes de Belo Horizonte foram convidados a tornar-se artistas e, mais do que isso, multiplicar a cultura em suas vilas. "A ideia é formá-los, para que possam levar aos próprios guetos o que aprenderam. O resultado é emocionante. Eles se identificaram muito com o movimento modernista, porque há uma causa social", diz o coordenador do projeto, Hely Costa Aguiar. Ontem, as 30 telas grafitadas foram expostas no Beco Chafariz, na Vila Marçola, Região Centro-Sul da capital. A mostra circula em vilas de BH até o fim do mês

O projeto é beneficiado pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura. Nasceu em 2003, no Bairro Goiânia, na Região Nordeste. "Fazia caricaturas dos jovens nas ruas. Eles se interessaram e começaram a me procurar para aprender. Então, o movimento cresceu e decidi formalizar o projeto", conta Hely. Hoje, Vila Marçola, Cabana Pai Tomaz, Morro das Pedras e Barragem Santa Lúcia também participam do Arte Favela nos Becos. "É muito interessante, porque os jovens só viram a tela de cada comunidade agora. Mesmo trabalhando separados, todos conseguiram fazer a ligação com a obra de Guignard", relata o coordenador.

Os jovens artistas têm entre 14 e 29 anos e foram escolhidos pela atuação em suas comunidades. "São jovens que já têm um engajamento em causas sociais. O principal objetivo do projeto é que esses jovens levem a arte para seus bairros. Já nas exposições, percebemos que os moradores se envolvem com as telas, porque foram feitas dentro da própria comunidade", afirma Hely. As oficinas foram de desenho animado, rap com poesia, artes plásticas e grafite.

Reconhecimento

Ao som contagiante do hip-hop, os jovens da Vila Marçola, no Aglomerado da Serra, apresentavam orgulhosos as telas feitas em spray, tinta acrílica e caneta fosca. "Gostei da ideia de ver meu trabalho exposto aqui. Acho mais legal mostrar a nossa arte no meio de um beco do que em uma galeria de arte no Centro da cidade. As pessoas da favela precisam desse contato com a cultura e o reconhecimento dos amigos também é muito importante para nós", diz Adenílson Rezende de Oliveira, de 17 anos, autor da tela Faces de Guignard.

A jovem Keila Ferreira, de 16, usou todo seu talento para preencher as telas com flores. "Elas sempre foram inspiração para o trabalho de Guignard, por isso, quis reproduzi-las nos meus quadros. Estudar a vida e a obra do pintor foi fascinante e aumentou ainda mais minha vontade de fazer artes plásticas. Vou batalhar pelo meu lugar na universidade e para ser uma artista reconhecida", planeja Keila.

Serviço

Roteiro itinerante

Hoje
Beco Epaminondas – Cabana do Pai Tomaz
Horário: 14h
Show: Grupo de Percussão Cabana

Dia 21
Beco Santa Inês – Barragem Santa Lúcia
Horário: 14h
Show: B. Boys – Fica Vivo (dança de rua)

Dia 28
Beco Principal, esquina com o Beco Nossa Senhora de Lourdes – Morro das Pedras
Horário: 14h
Show: Grupo Cultural Arautos do Gueto (percussão)

Idosos terão cartão para ônibus em B

Ministério Público marca data para que as empresas de transporte de BH implantem novo dispositivo para idosos

Sandra Kiefer - Estado de Minas



"Os assentos da frente do ônibus ficam ocupados por jovens, que não cedem o lugar de jeito nenhum", reclama a aposentada Nancy Celeste Pinto, de 68 anos

O Ministério Público de Minas Gerais já marcou data para acabar com a falta de dignidade imposta aos passageiros de ônibus com mais de 65 anos em Belo Horizonte que não pagam passagem. Em 20 dias, até a semana santa, a BHTrans e as quatro concessionárias do sistema municipal de transporte coletivo terão de apresentar o cartão dos idosos, previsto em lei municipal desde 2007. Com o plástico em mãos, cerca de 100 mil idosos da capital vão poder transpor a roleta sem precisar passar pelo constrangimento de precisar indiretamente revelar a idade ao motorista e aos outros passageiros, ao ser obrigados a apresentar a carteira de identidade. Com a medida, deixam também de ficar restritos ao “curral” da porta de entrada, reservado a gestantes, pessoas com deficiência ou mães com crianças no colo.

A aposentada Nancy Celeste Pinto, de 68 anos, viaja em pé no ônibus por mais de uma hora até a Região de Venda Nova, onde mora. Para entrar no veículo, ainda tem de apresentar a carteira de identidade. Para ela, a implantação do cartão do idoso já deveria ter acontecido há muito tempo. “Os assentos da frente do ônibus ficam ocupados por jovens, que não cedem o lugar de jeito nenhum”, reclama.

De início resistentes, os representantes das empresas de ônibus já estão gostando da ideia. Atualmente, sem o Cartão BHBus do Idoso, os idosos significam 15% da gratuidade total do sistema. Pelo menos 5% poderá ser economizado pelas empresas, que vão coibir as fraudes envolvendo a gratuidade dos idosos, já que o Estatuto do Idoso prevê reserva de 10% dos assentos para eles. Segundo o Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros de Belo Horizonte (Setra-BH), existem pessoas que se fazem passar por idosos para não pagar a passagem, usando de artifícios como tapar a foto da carteira de identidade com o dedo, falsificar a data do RG ou mesmo deixando de exibir comprovante de idade. “O idoso não é problema para o sistema de transporte público, desde que a gratuidade não seja desvirtuada com alguém querendo se fazer passar por idoso”, afirma um empresário do setor, que pede para ficar no anonimato.

CUSTOS

No total, a gratuidade atinge 20% dos custos do sistema municipal de transporte, incluindo acessos livres a carteiros, pessoas com deficiência, operadores do sistema (motoristas e trocadores), funcionários da Justiça do Trabalho e da Justiça Federal, auditores do trabalho e auditores fiscais. A reportagem do Estado de Minas tentou obter os dados do custo do transporte coletivo da capital junto a dois representantes das quatro concessionárias de BH, ao Setra e à BHTrans. Embora os dados devessem ser públicos, nenhum número a esse respeito havia sido informado até o fechamento desta edição.

“A lei municipal é de 2007. É inadmissível que, em três anos, o idoso ainda esteja submetido a essa situação degradante na capital. Ele só pode usufruir da parte dianteira superlotada do ônibus e não pode transpor a roleta para a parte de trás, onde há assentos livres”, afirma o promotor de Justiça de Defesa do Consumidor, José Antônio Baêta de Melo Cançado. Segundo ele, além de cobrar a apresentação do cartão no prazo determinado, o MP vai passar a fiscalizar o aumento do fluxo de idosos aos postos de inscrição.

“Se hoje há uma procura de 200 pessoas por dia pelo cartão, esse número deverá dobrar nos próximos dias”, exige. “A paciência dos idosos esgotou-se. Basta pegar um ônibus no horário de pico para ver como eles são tratados”, protesta Ana Paula Mendes Rodrigues, promotora e autora da ação.

RAIOS X DA LOTAÇÃO

Quantos são no sistema

- 1,253 milhão de cartões BHBus (*)
- 2.854 ônibus
- 310 linhas
- 41 empresas
- 1,5 milhão de usuários em dia útil

Número de idosos

- 100 mil

Custo da gratuidade dos idosos no sistema (em %)

- 15

Quem tem direito à gratuidade

- Idosos
- Pessoas com deficiência
- Carteiros
- Operadores do sistema (motoristas e trocadores)
- Funcionários da Justiça do Trabalho
- Funcionários da Justiça Federal
- Auditores do trabalho
- Auditores fiscais.

(*) considerando todos os públicos até 15 de fevereiro em circulação (**) estimativa
Fonte: BHTrans

A depressão e a incapacidade para o trabalho

A competitividade no mercado de trabalho aumentou significativamente nos últimos anos. Seus efeitos são rotinas extremamente estressantes e funcionários submetidos à pressão contínua na busca de resultados e melhora de desempenho. Estes são fatores que podem afetar diretamente a qualidade de vida e saúde do empregado, causando inclusive quadros de depressão.

Alguns dos primeiros sinais de um quadro depressivo são irritabilidade, insônia, dores sem causa clínica definida, cansaço excessivo, baixa produtividade e dificuldade para tomar decisões, que não passam mesmo após um período de férias, por exemplo. Além da pressão e do excesso de trabalho representarem complicadores, situações variadas podem atingir os indivíduos de forma diferente.

"As atribuições do cargo também devem ser consideradas fator de risco para a doença. Um executivo, por exemplo, que não gosta de falar em público, sentindo-se desconfortável e ansioso, mas precisa fazer apresentações a grupos ou dar palestras pode ser forte candidato a torna-se depressivo. Situações repetitivas de estresse psicológico como essa podem ser decisivas para desencadear a depressão", explica o psiquiatra e professor da Unifesp (Universidade Federal da Universidade de São Paulo, Acioly Lacerda.

Em longo prazo, quadros de depressão não tratados podem resultar no afastamento das atividades, elevando o absenteísmo nas empresas, ou até mesmo em demissão, já que a baixa produtividade e o desinteresse pela rotina podem afetar a avaliação da empresa sobre o funcionário. "É importante reconhecer os sintomas emocionais e físicos o quanto antes, procurar ajuda médica e seguir o tratamento corretamente, para a completa remissão da doença - ou seja, a ausência completa dos sintomas", afirma o psiquiatra.

Principais sintomas da depressão:
emocionais: tristeza, perda de interesse, ansiedade, angústia, desesperança, estresse, culpa, ideação suicida.

físicos: baixa energia, alterações no sono, dores inexplicáveis pelo corpo (sem causa clínica definida), dor de cabeça, dor no estomago, alterações no apetite, alterações gastrintestinais, alterações psicomotoras, entre outras.

A depressão, muitas vezes, se manifesta emocionalmente e fisicamente no paciente, causando diversas dores e incômodos. Para estes quadros, existem tratamentos que combatem ao mesmo tempo essas duas classes de sintomas, com perfil de tolerabilidade, aspecto importante para uma medicação que geralmente necessita ser utilizada por períodos longos. É o caso da duloxetina, uma moderna opção medicamentosa que age nos sintomas emocionais (tristeza, ansiedade, humor depressivo) e físicos (fadiga, dores vagas e difusas no corpo) da depressão.

Alguns números

Ao avaliar o número de afastamentos do trabalho, o Ministério da Previdência Social constatou que os transtornos mentais e comportamentais representaram mais de um terço dos casos entre 2000 e 2005 (percentual de 33,5%), ao lado dos distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho (DORT). As áreas profissionais mais afetadas pelos transtornos do humor são mercado financeiro, refino de petróleo, transporte ferroviário urbano e bancos comerciais.

Encomendada pela Federação Mundial para Saúde Mental, a pesquisa "Depressão, A Verdade Dolorosa" avaliou 377 adultos diagnosticados com depressão e 756 médicos (clínicos gerais e psiquiatras) do Brasil, Canadá, México, Alemanha e França. De acordo com o estudo, 64% das pessoas deprimidas relataram ausência no trabalho (uma média de 19 dias perdidos por ano) e 80% disseram ter a produtividade reduzida em cerca de 26%. A Organização Mundial de Saúde (OMS) alerta que até 2020 a depressão passará da 4ª para a 2ª colocada entre as principais causas de incapacidade para o trabalho no mundo. No mundo, estima-se que 121 milhões de pessoas sofram com a depressão - 17 milhões delas somente no Brasil e, segundo dados da OMS, 75% dessas pessoas nunca receberam um tratamento adequado.

Sobre a depressão

A causa da doença ainda é desconhecida, mas uma das teorias mais aceitas é que a depressão é conseqüência de uma disfunção no sistema nervoso central, que diminui e desequilibra as concentrações de dois neurotransmissores (a serotonina e a noradrenalina). Estes neurotransmissores são responsáveis pelo aparecimento dos sintomas físicos e emocionais da depressão.

Apesar do difícil diagnóstico e da gravidade da doença, existem tratamentos eficazes atualmente. Os mais comuns envolvem psicoterapia e medicamentos. Entre os medicamentos, a duloxetina é um dos mais recentes e, de acordo com os laboratórios responsáveis pela sua produção (Boehringer Ingelheim e Eli Lilly), o antidepressivo tem dupla ação, aumentando e balanceando os níveis de serotonina e noradrenalina no cérebro.

O laboratório ressalta, no entanto, que o medicamento não deve ser utilizado sem prescrição e rigoroso acompanhamento médico e, além disso, alerta que os pacientes com depressão devem ser encorajados a modificar seus hábitos diários: realizar atividades físicas regulares, manter um período satisfatório de sono diário, ter uma boa alimentação e evitar o uso de substâncias como anorexígenos, álcool e tabaco.

Por Envolverde.

O negro como sujeito e não como substantivo


Por Camila Souza Ramos

Fórum - O tema dessa exposição é “Eu tenho um sonho”. Qual é esse sonho hoje?
Emanoel Araújo - “Eu tenho um sonho” é de um discurso de Martin Luther King, que fala do que ele sonha para os negros americanos, e esse também foi um tema usado pelo Barack Obama na campanha dele, o “We can”, ou “Nós podemos”. A exposição é feita para celebrar a data de 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, e nós pegamos esse tema primeiro por ser Obama o primeiro presidente declaradamente negro na história e isso reflete para toda essa grande sociedade feita a partir da escravidão desde que o negro entrou no novo mundo, na colonização.

Então, nada mais justo do que tomar um tema como esse em um momento em que existe uma série de debates sobre a questão do negro no Brasil. Discute-se a questão da historia da África ser ensinada nos colégios, das ações afirmativas, da igualdade racial, e sobretudo das cotas na universidade. São muito temas que, de uma certa forma, os Estados Unidos resolveram, primeiro porque a abolição americana foi muito cedo, 25 anos antes da do Brasil, e também porque ela foi feita de uma forma menos perversa do que a nossa. Ela estava localizada no sul dos EUA, e a Guerra da Secessão e a Guerra Civil, foram fundamentais para resolver as questões raciais. O que ficou como raiva no sul, de uma certa forma, está sendo resolvido. Coisas que aqui ainda não foram solucionadas, porque aqui se tem uma ideia absolutamente cínica da democracia racial. Essa democracia racial é mentirosa, ela não existe.

Existem todas as prerrogativas perversas de preconceito racial, social, econômico, etc. A exposição é uma alusão a um país que faz parte da diáspora negra e que resolveu essas questões. Resolve-se isso com uma política séria e com uma política do negro como sujeito, e não um substantivo. Desde a época em que o Abraham Lincoln assinou a abolição da escravatura, isso se resolveu inclusive com muitos dos escravos que já tinham fazenda, já tinham emprego, já tinha universidade negra.

Fórum - No Brasil, esse sonho está perto?
Araujo - Eu acho que não. Eu acho que esse sonho está muito longe, primeiro porque é um sonho de Estado, que não se resolve (de uma hora para outra). São políticas públicas que tinham que ser resolvidas. E sobretudo, tem uma comunidade negra que não se mobiliza para mudar tudo isso.

Fórum - Já se mobilizou mais no passado? Por quê?
Araujo - Não, acho que é a falta de orgulho.

Fórum - Por quê essa falta de orgulho?
Araujo - Ainda são resquícios da colonização. O Brasil foi capital do império, então todos estes resquícios permanecem de uma certa forma atuando na sociedade brasileira. A escravidão nunca foi resolvida como deveria ter sido resolvida. Não se resolveu e ficou latente em quem defende a chamada oligarquia brasileira, e fica perversamente perseguindo quem defende os que são afro-brasileiros.

Fórum - Como o museu procura buscar a cultura negra dentro dessa miscigenação cultural que é a cultura brasileira?
Araujo - O Museu AfroBrasil não é um museu de etnologia, nem de antropologia, nenhuma “gia”. É um museu de história, memória, de reflexão sobre a nossa vida, sobre os personagens, a atuação deles, suas vidas, a arte de artistas que foram negros ou não. O museu tem uma reflexão muito mais em cima da sociedade afro-brasileira, mas ele não analisa sob o ponto de vista da antropologia essa questão. A questão é deixar viva certas situações que passam e sirvam como espelho para futuras gerações, de auto-estima, para conhecimento e auto-conhecimento.

Fórum - O público negro vem para o museu? Como o museu faz para se aproximar desse público?
Araujo - O museu tem só cinco anos, é muito jovem. Aos poucos a gente espera que o museu atinja cada vez mais os afro-brasileiros. Muito embora, a gente sente que os afro-brasileiros tem um certo ressentimento com os museus, porque eles estiveram sempre fora deles. Então esse museu é o primeiro em que o negro é o personagem central, mas sob o ponto de vista da contribuição dele à história do Brasil e à identidade nacional. Ele não discute a racialidade de ninguém, ele discute a contribuição cultural dessas pessoas, que foi fundamental para o Brasil, e episódios históricos em que estiveram envolvidos, como a Guerra do Paraguai, a Revolução de 32, a exposição dos holandeses de 1645 de Pernambuco. E também a questão da abolição da escravatura, os artistas do século XVIII, do barroco, a Academia de Belas Artes.

Fórum - A própria cultura negra é muito diversa. Dá para separar hoje em uma cultura negra clássica, descendente direta da cultura africana, e uma cultura negra popular, dos guetos...?
Araujo - A questão é o seguinte: não é que exista diferenças na cultura negra. A cultura negra foi absorvida pela cultura brasileira branca, então às vezes a gente nem sabe que certos sinônimos, por exemplo, são africanos. A gente não sabe que a comida é de origem africana, a gente não sabe as frutas que são de origem africana e isso de tal maneira ficou enraizado na cultura nacional que essas coisas forma absorvidas. Por quê? Pelo simples fato de que perversamente essas coisas todas foram, no século XIX, banidas da expressão “afro-brasileira”. Elas foram absorvidas, mas de certo ponto banidas sob o ponto de vista de sua origem. Então, na cultura, você tem o samba, mas quem é o samba? Samba pode ser Cartola, Vinicius de Morais, Tom Jobim, Carlinhos de Jesus. Genericamente o samba é brasileiro, mas a origem dele é negra. O tango também tem origem negra, o fado também. Mas se você pergunta para o português se o fado é negro, ele vai responder: “não, o fado é português”. Do mesmo jeito se você disser para o argentino que o tango é negro, ele vai dizer que não, que é a milonga que é negra. Assim como aqui tem o samba, a salsa em Cuba. Onde houve essa sociedade negra, tiveram sua contribuição e foram absorvidas. Claro que ainda tem nas festas populares o Rei de Congo, a maculelê, a capoeira, o bumba-meu-boi do Maranhão, que são manifestações populares afro-brasileiras. Algumas, em princípio, eram portuguesas, mas foram absorvidas pela cultura negra, (como) o afroxé, o maracatu de Pernambuco, que é um parceiro do Rei de Congo. Isso é uma manifestação muito antiga, desde o séc XVII. Nesses casos você vê que está muito mais latente essa contribuição negra. Na parte da cultura mais elitista, mais clássica, tem o barroco, tem artistas do barroco que eram negros: escultores, pintores, literatos... A grande poesia brasileira também é negra; o grande escritor brasileiro também é negro, que é Machado de Assis. O primeiro editor brasileiro também é negro, que é o (Francisco de) Paula Britto e faz 200 anos agora. Então, o Brasil está inteiramente crivado por essa cultura negra, ou por personagens negros na história, e que, estranhamente, não estão em nenhum livro da história do Brasil.

Fórum - A história oficial não conta o lado do negro na história...
Araujo -Não conta. Essa é a prova de como o racismo é tão poderoso que consegue minimizar da história do Brasil toda essa contribuição. O museu tem essa função de alertar para essas coisas e guarda essa memória.

Fórum - Os personagens negros da história brasileira imprimiam a identidade negra em suas obras?
Araujo - Não, porque se você pensar que, assim como toda manifestação puramente africana foi banida, qualquer manifestação que tivesse essa (característica) também seria banida. Mas tem coisas muito interessantes. Por exemplo, um pintor negro como o (Mestre) Ataíde pitando uma madona negra no teto da igreja São Francisco de Ouro Preto, que é uma ordem religiosa absolutamente branca. Esta é uma sociedade permissiva, em que o branco pode se dar a esta licença de fazer no teto de uma igreja a imagem de sua mulher como a de Nossa Senhora, e os anjos ao lado, os seus filhos. Mas um negro jamais poderia fazer isso, primeiro porque ele não entraria numa igreja de São Francisco, segundo porque a igreja que o negro pertencia era definida pela Igreja Católica. Ela estabelecia os critério para cada um, então os mulatos eram de uma tal igreja, tal ordem religiosa, os pretos são da igreja dos pretos, os pardos... A sociedade não mesclava as atividades religiosas, muito embora todos os músicos fossem negros.

Fórum - O que é uma contradição muito grande, porque hoje as próprias religiões se cruzam. Tem católico que frequenta o candomblé, por exemplo...
Araujo - Mais ou menos. Hoje começa a ter uma situação muito desagradável de perseguição religiosa por parte dos protestantes.

Fórum - Que tipo de perseguição? O senhor já presenciou?
Araujo - Tem tido perseguição, como eventos na própria televisão que mostram um filho de santo recebendo o diabo. Toda uma encenação absolutamente perversa para recolher essa pessoa da sua religião. Porque não existe diabo de verdade ali, ninguém está possuído por ele. Na religião africana não existe o diabo, não existe o mau no sentido judaico-cristão, e também não existe o pecado, o auto-fragelo. Os orixás estão muito mais ligados à vida, à natureza, ao amor, os deuses tiveram filhos... São pessoas que viveram na terra, ou estão ligados à natureza. Na Bahia, tem uma história de transformar o acarajé, que é uma comida para Iençã, em um “bolinho de Jesus”. Isso já é muito antigo, porque já no século XVII, o Padre Antonio Vieira dizia para as negras: “tirem essas contas que trazeis nos peitos do Rosário”. Ele estava atribuindo um uso de um fetiche de um orixá a Nossa Senhora do Rosário.

Fórum - Ao mesmo tempo em que tem esse rechaço à cultura negra, também tem os brancos que passam a se comportar como negros, seja pela roupa, usando trancinha... por que esse desejo de parte da população branca em imitar os negros?
Araujo - Se você pensar que o Brasil é um país mestiço, é natural... sobretudo um país que, sendo mestiço, é muito fácil se tornar branco. Tem gente que tem avô negro e o netos já nasceu branco. Essa relação de cor ela é diferente dos EUA, onde até a oitava geração é negro. Essa racialidade os brasileiros tem, porque na realidade a ascensão social do Brasil se faz pela cor. Era uma tradição tipicamente brasileira em uma família mestiça, olhar se a criança tem na bunda marcas de Jenipapo, que é uma mancha, para ver o quanto ele tem de sangue negro no corpo.

Fórum - Existe algum aspecto dentro das manifestações cultuais dos negros que é mais sonegado?
Araujo -Em todas. Um país que vai ter em 2012 a maioria negra, veja como ainda não tem escolaridade, acesso à universidade, não tem professor negro na USP, o homem negro ganhando menos que o homem branco, nas novelas as empregadas sendo sempre negras. Quando não tem um personagem que não é empregado doméstico, o ator já sai a questão negra. Ainda são resquícios muito graves de uma escravidão que não foi resolvida. A pessoa diz que não é preconceituosa, mas a empregada é preta. E pergunte se a filha dele pode casar com um negro. A própria televisão já fez enquete: “qual atriz negra poderia beijar um ator branco”, ou qual ator negro poderia beijar uma atriz branca?”. Esse tipo de coisa, aparentemente não existe, mas está aí latente.

Fórum - O senhor fala que o racismo no Brasil está longe de ser resolvido, mas nos Estados Unidos isso já foi resolvido?
Araujo - Não é que já foi resolvido, isso não vai resolver nunca, porque há sempre uma diferença entre um ser humano e outro, mas a questão é das oportunidades e da igualdade. Ou seja, o maior salário da televisão americana é de uma negra, a Oprah (Winfrey). Os Estados Unidos é um país que investe no sucesso. Essa questão está resolvida de muito tempo. Lá tem universidades negras. O Sili College, que foi fundada pelos judeus, e que hoje é inteiramente negra. A Howart University é do século XIX, em plena escravidão já existia universidade. Já existia gente formada como doutores por Harward. Tinha escravos negros com salários, com suas fazendas. É diferente. Tinha um sul escravocrata e o norte não. Houve uma Guerra da Secessão que era para resolver a questão separatista e porque o sul queria continuar sendo escravocrata, porque precisava de alguém para tomar conta da lavoura de algodão. Essa questão do preconceito vai sempre existir, mas vai resolver com a universidade, a educação, com a possibilidade de emprego, e não por pessoas na periferia e nas favelas e com baixos salários.


Camila Souza Ramos

Apesar de menos lucrativo, tráfico ainda atrai jovens


Por Marina Lemle

Em tempos de crise econômica, o tráfico de drogas não dá mais aos seus "funcionários" o retorno financeiro que já deu. Então por que crianças e jovens continuam entrando para o crime?

Por sexo e poder, segundo a pesquisa "Meninos do Rio: jovens, violência armada e polícia nas favelas cariocas", promovida pelo Unicef e coordenada pela cientista social Silvia Ramos, do Centro de Estudos de Criminalidade e Cidadania (Cesec), da Universidade Candido Mendes. O estudo visa atualizar e aprofundar o conhecimento sobre as dinâmicas de atração, manutenção e saída de jovens na violência armada e fazer recomendações ao escritório do Unicef no Rio de Janeiro para subsidiar ações contra a violência.

Lançada nesta segunda-feira (21), a pesquisa encontra nas chamadas "marias fuzil" uma forte explicação para o fascínio que os grupos ilegais e as armas exercem sobre crianças, adolescentes e jovens. Questionados por que entram para o tráfico, os jovens alegaram "sensação de poder e mulher".

"Um rapaz disse que a arma chama atenção e que a mulherada gosta. Outro explicou que a questão é o poder que ela representa", afirma Silvia no relatório. As meninas, por sua vez, também disseram que se relacionar com traficantes dá "sensação de poder".

A pesquisa foi realizada entre maio e novembro de 2008 com jovens moradores e moradoras de favelas da cidade do Rio de Janeiro - estudantes universitários, ex-traficantes, traficantes, milicianos -, mães de jovens envolvidos com a criminalidade, lideranças comunitárias e culturais e técnicos de organizações da sociedade civil.

Ao todo, 104 pessoas participaram formalmente da pesquisa qualitativa, o que resultou em aproximadamente 400 páginas de transcrições e diários de campo. Sete grupos focais reuniram 87 jovens, técnicos e mães. Dezesseis lideranças e personagens foram entrevistadas e consultadas. Adicionalmente, uma pesquisa quantitativa foi realizada com a participação de 14 jovens que entrevistaram 241 rapazes e moças de 14 a 29 anos na zona Oeste da cidade.

Crise no varejo

O estudo identificou que, entre as principais mudanças ocorridas na dinâmica do tráfico de drogas nos últimos anos, está a redução dos rendimentos obtidos pela venda das drogas. Um ex-traficante, atualmente em uma cadeira de rodas, resumiu a situação econômica do tráfico: "Com certeza, eu trabalhando no sinal, ganho mais dinheiro do que vagabundo que trabalha no morro. Não só os novinhos não, tô falando de gerente."

A crise do mercado de varejo deve-se, em parte, ao fato de que compradores de classe média deixaram de ir às favelas por causa da violência dos próprios traficantes e da polícia. Outra razão seria o ingresso no mercado de drogas sintéticas, especialmente o ecstasy, que seriam importadas e chegariam aos consumidores sem passar pelas favelas.

Já a cocaína, segundo a pesquisa, droga altamente rentável para o mercado ilegal e consumida pela classe média, teria encerrado seu império, prejudicada pela intervenção da polícia, seja em operações de confronto, seja em extorsões. Mais um aspecto é a chegada às favelas cariocas do crack, que seria mais compatível com o pequeno poder aquisitivo dos consumidores da própria localidade, porém menos rentável para quem vende.

Com a crise, afirma o estudo, as bocas de fumo passaram a ser pontos de referência não só para a venda de drogas, mas também para outras atividades criminosas que dependem das armas, como roubos no asfalto. "Quando o tráfico já não dá mais dinheiro, ou dá muito pouco, é difícil aceitar que a perspectiva financeira seja a mais forte para explicar sua - ainda - enorme capacidade de atração sobre alguns", afirma Silvia Ramos.

Marias fuzil

E onde entra o sexo na história? Segundo a pesquisadora, o tema da sexualidade se impôs à pesquisa, mesmo não estando no roteiro prévio. "A informação mais repetida, confirmada, explicada e reassegurada - e ainda assim surpreendente e obscura - é a supremacia das armas para atrair mulheres, meninas bonitas, da favela, de fora e até de outra classe social. As chamadas "marias fuzil" estariam sempre presentes na vida da boca de fumo, especialmente durantes os bailes funk, e muitas vezes foram definidas como a maior razão para explicar o fascínio que os grupos ilegais e as armas exercem sobre crianças, adolescentes e jovens", explica.

O relatório explica que o baile funk é um momento em que jovens que moram na favela e não têm envolvimento com os grupos do tráfico podem conviver com aqueles que estão no tráfico, compartilhando um pouco da cultura do tráfico, cantando as mesmas músicas - os "proibidões" do funk - e assistindo ao desfile das armas.

O depoimento da mãe de um adolescente cumprindo medida complementa: "O menino não tem nada, onde cair morto, mas sabe quantas mulheres ele tem? Quantas ele quiser. Dependendo da arma, mais mulher tem."

O fenômeno é confirmado por um técnico de projeto em favela: "não tem mais essa remuneração, eles conseguem assim comprar um tênis, mas não arrumam mais do que isso. O que eles conseguem hoje é a atenção dessas meninas. Elas ficam loucas com arma e cordão de ouro."

Disputas interpessoais

No relatório, Silvia observa que nenhum estudo indicou ainda quais são exatamente as principais dinâmicas geradoras de violência letal entre jovens pobres e negros moradores das favelas e dos bairros pobres da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Mas o uso frequente de armas de fogo é forte indicação de que as mortes se associam, direta ou indiretamente, aos grupos armados ilegais que dominam áreas da cidade e que se opõem a outros grupos armados e/ou à polícia.

Entretanto, não se conhece a proporção de mortes que atingem os participantes diretos desses grupos ("traficantes", "milicianos", "policiais"), nem os indiretos (amigos, familiares, cônjuges, usuários de drogas etc) ou os contingentes (colegas, vizinhos, moradores de bairros próximos, pessoas presentes em um assalto em ônibus, passantes em uma via da cidade durante um tiroteio, envolvidos em uma briga de festa etc). Segundo Silvia, não se conhece as dinâmicas geradoras de letalidade nem mesmo dentro do recorte "mortes no tráfico".

"O impacto de um tiroteio numa guerra de facções ou num confronto com a polícia tende a nos levar a esquecer as incontáveis mortes efetuadas dentro dos grupos armados por acertos de contas ou diversas razões de trabalho, e também por disputas amorosas e familiares, por rixas e conflitos banais que encontram desfecho letal na onipresença das armas e de uma cultura masculina agressiva e explosiva", observa.

A pesquisadora frisa que a divisão clássica entre violência interpessoal de um lado (entre pessoas que se conhecem, sem fins lucrativos) e violência coletiva (ou crime organizado) de outro não se sustenta. "Na prática, o que observamos é que parte importante da violência letal ocorrida no contexto do chamado tráfico de drogas é resultante de conflitos e disputas interpessoais. As fronteiras entre naturezas criminais, no contexto de alta letalidade de jovens de favelas, se encontram indefinidas", diz.

Uns saem, outros...

Os pesquisadores perguntaram em todos os grupos focais e entrevistas por que alguns jovens entram para os grupos armados ilegais que dominam as favelas e outros não. Após considerações genéricas sobre as razões que contribuem para adolescentes buscarem o caminho do crime, imediatamente se seguiam histórias que contradiziam essas razões.

"É claro que em muitos casos adolescentes vão para o tráfico ou as milícias em busca de dinheiro, alternativa profissional, para fugir de famílias violentas, para escapar de pais ou mães alcoolizados e degradados, ou por outros motivos socioeconômicos clássicos. Mas é importante perceber que em muitos casos as trajetórias de vida não correspondem a essas razões mais óbvias ou frequentes", observa Silvia.

Segundo ela, é importante ter em mente que o apelo monetário que o crime pode exercer não é o motivo mais decisivo ou pelo menos não é mais tão decisivo quanto na época das grandes remunerações, o que obriga a reconhecer o limite dos projetos para jovens de favelas que baseiam sua existência na oferta de ajuda financeira (bolsas).

Vários técnicos mencionaram que precisam negociar dia a dia a manutenção de certos garotos em projetos que oferecem algum dinheiro, mas não oferecem algo que alguns talvez busquem ao entrar para o tráfico. Procurando fazer uma lista de situações e condições que mais levam os jovens a entrarem para o crime, além da necessidade financeira e do desejo de visibilidade, as razões mais frequentes surgidas nos grupos focais e entrevistas foram: ter vivido uma situação de injustiça (por parte da polícia, na escola, dos amigos ou de outros jovens); ter alguém da família envolvido no tráfico; família desestruturada, ausente; e não ter perspectiva de futuro.

A pesquisadora pondera, entretanto, que cada uma dessas razões deveria ser vista com bastante cautela. Realmente, a família parece ser um ponto-chave nas histórias de entrada, mas também - e principalmente - nas histórias de saída de jovens dos grupos armados ilegais. "Ouvimos muitas histórias em que, exatamente por vir de uma família em que um pai ou um irmão tinha ido para o tráfico, tudo tinha sido feito para que aquele jovem não entrasse. Ou seja, o que parecia ser o veneno revelou-se o antídoto", explica.

Milícias também seduzem

A pesquisa verificou que os grupos de milicianos também podem ser atrativas fontes de renda e emprego para os jovens, o que contraria a ideia de que milícias não empregam jovens e que são formadas apenas por pessoas mais velhas, profissionais de polícia. De acordo com a pesquisa, a crise do tráfico e a consequente redução dos ganhos ilegais, fizeram com que alguns policiais resolvessem obter lucros controlando diretamente territórios e não mais indiretamente, extorquindo traficantes que controlavam territórios.

Os depoimentos mostraram que, mesmo após a conclusão da CPI das Milícias, que identificou chefes, locais e modos de operar desses grupos, eles não só continuam fortes como parecem estar mais estruturados do que antes.

"As milícias hoje passam a ter estrutura e autonomia suficientes para sobreviver e prosperar mesmo com importantes lideranças na cadeia. Todas as políticas de redução da violência letal e as políticas voltadas para jovens de favelas e bairros populares terão de levar em conta que os grupos de milícias não só são uma realidade presente, geradora de letalidade em graus que ainda não se pode mensurar, como provavelmente persistirão pelos próximos anos", atesta o relatório.

A parcela da polícia

Em relação às histórias de injustiças que deflagraram a decisão de jovens de se associarem a grupos armados locais, diversas são ligadas a uma ação arbitrária da polícia que envolveu humilhação. Nos sete meses de estudo, os pesquisadores ouviram inúmeros casos de atuação vergonhosa de policiais.

"Não se trata apenas dos mais de mil mortos pelas forças policiais ano após ano, das evidências de corrupção generalizada em muitas áreas e da proliferação das milícias sob os olhos complacentes de comandantes e chefes de polícia. Trata-se de uma cultura policial arraigada que naturaliza o desrespeito a todos os moradores das áreas pobres da cidade, banaliza a brutalidade e de certa forma justifica a cada dia o próprio fracasso através da lógica da guerra contra o crime", afirma Silvia.

Para ela, a polícia é pelo menos parcialmente responsável por essa tragédia, mas isto não impede de compreender que ela também seja parte absolutamente fundamental da solução, já que se faz necessária para a desocupação dos territórios dominados por traficantes e milicianos e para a diminuição da presença de armas e munições nesses locais. Essa desocupação, segundo Silvia, só será bem sucedida se for realizada por policiais honestos e respeitosos em relação aos moradores das favelas. Ela também destaca a importância da retomada do debate sobre o desarmamento.

"Não se trata de operação policial, mas do estabelecimento de policiamento comunitário permanente, em quantidade suficiente, supervisionado por oficiais superiores que devem se encontrar nas favelas (e não dentro dos batalhões) e controlado pela mídia, por organizações locais e pelos moradores", recomenda.

Outras ações necessárias para reduzir a letalidade provocada pelo envolvimento de adolescentes em grupos armados são a melhoria das escolas, a criação de empregos, a ampliação de alternativas profissionais, programas de bolsas e iniciativas culturais para fortalecer a imagem do jovem de favela. Mas Silvia enfatiza o papel da polícia:

"Ações sociais, culturais e pressão política sobre governantes, por si sós, não são capazes de eliminar as armas e reduzir a violência letal. Em nenhum lugar e menos ainda no Rio de Janeiro. É na polícia, portanto, que parte de nossas energias tem que ser concentrada nos próximos anos."

O estudo é dedicado à memória da pesquisadora Ana Carolina Rodrigues da Silva Dreyfus, do Viva Rio, que trabalhou na pesquisa e faleceu aos 28 anos de idade no desastre do vôo AF 447, da Air France, em 31 de maio de 2009.

Com informações da Revista Viração.


Marina Lemle

Pesquisa revela que 90% dos jovens sofrem ou praticam violência nos relacionamentos



A violência entre casais no Brasil está mais precoce, menos unidirecional e assume também, nos dias atuais, um caráter mais virtual. Pesquisa recente, realizada pela Fundação Oswaldo Cruz em 10 capitais de todas as regiões do país, revelou que nove em cada 10 jovens na faixa etária entre 15 e 19 anos sofrem ou praticam variadas formas de violência – dentre as quais a exposição de fotos íntimas na internet como forma de humilhação.

Os dados coletados com 3,2 mil adolescentes expõem um elemento que se choca com o senso comum de que os homens são, geralmente, os agressores. Agressões verbais, como provocações, cenas de ciúmes e tom hostil, e investidas sexuais – como forçar o beijo ou tocar sexualmente o parceiro sem que este queira – fazem parte do arsenal de violência utilizado por ambos os sexos.

A pesquisadora do Centro Latino-Americano de Estudos de Violência e Saúde Jorge Careli (CLAVES/Fiocruz) Kathie Njaine, que coordenou a pesquisa “Violência entre namorados adolescentes: um estudo em dez capitais brasileiras”, destaca que o panorama deve ser refletido a partir de múltiplas causas. “A violência pode vir da família, da comunidade em que o jovem vive e da escola”, afirma.

Segundo o estudo, as garotas são, ao mesmo tempo, as maiores agressoras e vítimas de violência verbal. Por outro lado, em termos de violência sexual, os rapazes encabeçam as estatísticas como os maiores agressores. Enquanto 49% dos homens relatam praticar esse tipo de agressão, 32,8% das moças admitem o mesmo comportamento.

Na categoria das agressões físicas, que inclui tapa, puxão de cabelo, empurrão, soco e chute, os relatos revelam que os homens são mais vítimas do que as mulheres – 28,5% delas informam que agridem fisicamente o parceiro, enquanto 16,8% dos homens relataram o mesmo.

A violência manifestada em tom de ameaça – como provocar medo; ameaçar machucar; ou destruir algo de valor – já vitimou 24,2% de jovens, ao passo que 29,2% admitiram ter perpetrado este tipo de agressão. De acordo com os números, 33,3% das meninas assumem que ameaçam mais seus parceiros, e 22,6% destes confessam cometer o mesmo tipo de violência.

Uma das razões apontadas para a eclosão da violência entre os jovens casais é o machismo. A coordenadora da pesquisa afirma que nenhuma pessoa nasce machista, mas pode aprender e assumir esse papel dentro de um contexto cultural.

Ressaltando que o estudo teve como finalidade fazer um diagnóstico, e não buscar as causas, Kathie Njaine argumenta que a agressão cometida pelas meninas pode ser compreendida como uma maneira de reproduzir um modelo de comportamento que está no gênero masculino. “Em muitos momentos da pesquisa, havia meninas que falavam ‘se ele pode fazer, eu também posso’”, exemplifica, acrescentando que as agressões, neste caso, tornam-se uma moeda de revide.

A socióloga Bárbara Soares, pesquisadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC/UCAM) e ex-subsecretária de Segurança da Mulher do governo do Estado Rio de Janeiro, elogia o viés da pesquisa de jogar luz sobre a violência praticada por mulheres e por descartar o modelo esquemático que vilaniza apenas os homens e vitimiza as mulheres. Em geral, ela afirma, as pesquisas têm o hábito de ouvir muito pouco as pessoas que vivem e praticam violência. “Os técnicos e ideólogos definem o que é a violência e, a partir daí, imprimem esse discurso no outro que não é ouvido. A violência não é uma abstração na vida de quem sofre ou pratica. Ela é situada, significada, tem um sentido. Eu acho que é aí que você pode desconstruí-la”, diz a especialista.

De acordo com a pesquisadora do CESeC, é comum o pressuposto de que somente as mulheres apanham, mesmo que, pelas pesquisas nacionais e internacionais, elas sejam vítimas das violências mais graves. “Não quero dizer que não exista um componente de dominação. Ele existe, mas não é uma dominação do homem contra a mulher, é uma sociedade de dominação machista em que os homens também são dominados por essa lógica”, argumenta.

Violência virtual A eclosão precoce de violência entre os casais adolescentes revela que, desde cedo, as agressões ocupam papel importante no ambiente das relações afetivas. Nos dias atuais, é ponto pacífico que o aprimoramento das técnicas e dos meios de circulação das informações contribua decisivamente para a emergência de novos tipos de violência. A internet, nestas circunstâncias, adquire relevância e torna-se uma arma virtual nas relações entre os jovens.

Fatos e comportamentos que aconteceriam no mundo real, no dia-a-dia, acompanham essa tendência e são transportados para a rede virtual. Exposição de fotos e vídeos íntimos e publicação de hostilidades em sites e redes de relacionamento – como o orkut – são alguns dos métodos que compõem o quadro de violência existente na internet. Em conseqüência, os jovens tornam-se vulneráveis socialmente, uma vez que, por exemplo, sua relação com amigos ou a procura por empregos podem ser afetadas.

Kathie Njaine enfatiza que o relacionamento via tecnologia de informação é uma constante na vida dos jovens, o que potencializa o risco de agressões. “Na medida em que você publica uma notícia na internet, isso tem uma capacidade de se disseminar amplamente. O impacto de uma humilhação ou de uma fofoca é muito grande. O grau de exposição de uma situação é alto, não só em palavras como em imagens também”, afirma.

Para Bárbara Soares, isso exige novas respostas em termos de prevenção. “Todos os problemas vão se transformando na medida em que os meios de comunicação de relações interpessoais se transformam. Atualmente, muitos problemas se transferiram para a dimensão do espetáculo, da visibilidade, da exposição pública do crime mais banal até as relações íntimas. Então, acho que é preciso repensar em primeiro lugar a própria noção do que seja violência, atualizando o repertório que faz parte do nosso catálogo, e começar a refletir formas específicas de prevenir mais este tipo de violência”, explica a socióloga.

De acordo com ela, a exposição de imagens íntimas afeta mais as mulheres, porque envolve uma cultura de privacidade, pudor e do uso da pessoa como um objeto do prazer. Para os homens, em contraposição, predomina a valorização de sua potência sexual, vista como um troféu a ser exibido.

“O telefone celular e a internet são tecnologias que estão mudando a nossa sociabilidade, nossos comportamentos e pensamentos. Há uma noção de que você só existe se, de alguma forma, for visível. No entanto, há risco de que essa visibilidade seja mais um elemento de violência”, acrescenta Bárbara, reforçando que as campanhas de prevenção precisam ter um olhar mais amplo, menos maniqueísta e menos esquemático e que considerem a violência e suas múltiplas causas e linguagens.

Com informações do CLAM.

O Hip-Hop e a Igreja Cristã


No final dos anos 60, surgiu uma cultura que realmente iria fazer diferença no meio da população periférica. Na verdade surgia uma "expressão de arte no gueto", tanto na expressão corporal, na forma de dança quanto na musicalidade; tanto na rima quanto nas mixagens dos Dj's e sem esquecer nas mensagens gravadas na mente das pessoas através do graffiti.

O hip-hop dentro dos 4 elementos que fundamenta a cultura tem sua proposta de colaboração para o bem estar da sociedade. Desde sua criação, tem enfrentado fases e mudanças, tanto para crescimento quanto para retardamento, mas o que mais tem chamado atenção é o quanto se tem acrescentado adeptos na cultura e o quanto a cultura hip-hop tem influenciado uma geração da periferia no século XXI, pois desde seu surgimento tem se mantido viva e forte.

Em uma frase podemos decifrar o que realmente um dos elementos da cultura significa para a periferia brasileira hoje. "O rap é o jornal e a injeção de auto-estima do povo da periferia brasileira"...

Tanto o break dance, que tem se destacado como um dos elementos chamados geração saúde, quanto o rap, DJ e graffiti se tormam hoje uma ferramenta de evangelismo poderosíssima para trabalhar na periferia e na classe média na nossa sociedade e de maneira nenhuma pode ser ignorada pela Igreja de Cristo.

Dentro de um contexto marginalizado, corrompido e espiritualmente destruído entramos com uma arma que até o inferno tem usado para guerrear contra os belos propósitos de Deus para o homem, tem usado para matar, roubar e destruir, mas Deus nos deu essa arma como herança pra proclamar vida e vida com abundância.
A cultura hip hop tem si tornado um meio de comunicação para falar tanto do crime como de Cristo e é isso que temos feito falado de Cristo através da dança, da música, do graffiti e do Dj.

Realmente declarando e tomando posse daquilo que o próprio Deus criou! "Temos tentando resgatar como Comunidade Hip-Hop Sal da Terra o principio que o único crime que venhamos a cometer seja a arte, se a podemos chamar de crime"!

Independente que seje o seu dom ou talento se é hip hop ou metal, não interessa o que interessa é que você tem a oportunidade de usar suas habilidades para profetizar vida no lugar da morte.

Autor: Pr.Orlando Rodrigues

Por: Márcio Luiz

Jovens do tráfico: a vida por um fuzil e suas Marias


Em tempos de crise econômica, o tráfico de drogas não dá mais aos seus "funcionários" o retorno financeiro que já deu. Então por que crianças e jovens continuam entrando para o crime?

Por Marina Lemle, do Comunidade Segura

Por sexo e poder, segundo a pesquisa “Meninos do Rio: jovens, violência armada e polícia nas favelas cariocas”, promovida pelo Unicef e coordenada pela cientista social Silvia Ramos, do Centro de Estudos de Criminalidade e Cidadania (Cesec), da Universidade Candido Mendes. O estudo visa a atualizar e a aprofundar o conhecimento sobre as dinâmicas de atração, manutenção e saída de jovens da violência armada e fazer recomendações ao escritório do Unicef no Rio de Janeiro para subsidiar ações contra a violência.

Lançada na segunda-feira (21/2), a pesquisa encontra nas chamadas "marias fuzil" uma forte explicação para o fascínio que os grupos ilegais e as armas exercem sobre crianças, adolescentes e jovens. Questionados por que entram para o tráfico, os jovens alegaram "sensação de poder e mulher".

“Um rapaz disse que a arma chama atenção e que a mulherada gosta. Outro explicou que a questão é o poder que ela representa”, afirma Silvia no relatório. As meninas, por sua vez, também disseram que se relacionar com traficantes dá "sensação de poder".

A pesquisa foi realizada entre maio e novembro de 2008 com jovens moradores e moradoras de favelas da cidade do Rio de Janeiro – estudantes universitários, ex-traficantes, traficantes, milicianos –, mães de jovens envolvidos com a criminalidade, lideranças comunitárias e culturais e técnicos de organizações da sociedade civil.

Ao todo, 104 pessoas participaram formalmente da pesquisa qualitativa, o que resultou em aproximadamente 400 páginas de transcrições e diários de campo. Sete grupos focais reuniram 87 jovens, técnicos e mães. Dezesseis lideranças e personagens foram entrevistadas e consultadas. Adicionalmente, uma pesquisa quantitativa foi realizada com a participação de 14 jovens que entrevistaram 241 rapazes e moças de 14 a 29 anos na Zona Oeste da cidade.

Crise no varejo

O estudo identificou que, entre as principais mudanças ocorridas na dinâmica do tráfico de drogas nos últimos anos, está a redução dos rendimentos obtidos pela venda das drogas. Um ex-traficante, atualmente em uma cadeira de rodas, resumiu a situação econômica do tráfico: “Com certeza, eu trabalhando no sinal, ganho mais dinheiro do que vagabundo que trabalha no morro. Não só os novinhos não, tô falando de gerente.”

A crise do mercado de varejo deve-se, em parte, ao fato de que compradores de classe média deixaram de ir às favelas por causa da violência dos próprios traficantes e da polícia. Outra razão seria o ingresso no mercado de drogas sintéticas, especialmente o ecstasy, que seriam importadas e chegariam aos consumidores sem passar pelas favelas.

Já a cocaína, segundo a pesquisa, droga altamente rentável para o mercado ilegal e consumida pela classe média, teria encerrado seu império, prejudicada pela intervenção da polícia, seja em operações de confronto, seja em extorsões. Mais um aspecto é a chegada às favelas cariocas do crack, que seria mais compatível com o pequeno poder aquisitivo dos consumidores da própria localidade, porém menos rentável para quem vende.

Com a crise, afirma o estudo, as bocas de fumo passaram a ser pontos de referência não só para a venda de drogas, mas também para outras atividades criminosas que dependem das armas, como roubos no asfalto. "Quando o tráfico já não dá mais dinheiro, ou dá muito pouco, é difícil aceitar que a perspectiva financeira seja a mais forte para explicar sua – ainda – enorme capacidade de atração sobre alguns", afirma Silvia Ramos.

Marias fuzil

E onde entra o sexo na história? Segundo a pesquisadora, o tema da sexualidade se impôs à pesquisa, mesmo não estando no roteiro prévio. "A informação mais repetida, confirmada, explicada e reassegurada – e ainda assim surpreendente e obscura – é a supremacia das armas para atrair mulheres, meninas bonitas, da favela, de fora e até de outra classe social. As chamadas 'marias fuzil' estariam sempre presentes na vida da boca de fumo, especialmente durantes os bailes funk, e muitas vezes foram definidas como a maior razão para explicar o fascínio que os grupos ilegais e as armas exercem sobre crianças, adolescentes e jovens", explica.

O relatório explica que o baile funk é um momento em que jovens que moram na favela e não têm envolvimento com os grupos do tráfico podem conviver com aqueles que estão no tráfico, compartilhando um pouco da cultura do tráfico, cantando as mesmas músicas – os "proibidões" do funk - e assistindo ao desfile das armas.

O depoimento da mãe de um adolescente cumprindo medida complementa: “O menino não tem nada, onde cair morto, mas sabe quantas mulheres ele tem? Quantas ele quiser. Dependendo da arma, mais mulher tem.”

O fenômeno é confirmado por um técnico de projeto em favela: "não tem mais essa remuneração, eles conseguem assim comprar um tênis, mas não arrumam mais do que isso. O que eles conseguem hoje é a atenção dessas meninas. Elas ficam loucas com arma e cordão de ouro."

Disputas interpessoais

No relatório, Silvia observa que nenhum estudo indicou ainda quais são exatamente as principais dinâmicas geradoras de violência letal entre jovens pobres e negros moradores das favelas e dos bairros pobres da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Mas o uso frequente de armas de fogo é forte indicação de que as mortes se associam, direta ou indiretamente, aos grupos armados ilegais que dominam áreas da cidade e que se opõem a outros grupos armados e/ou à polícia.

Entretanto, não se conhece a proporção de mortes que atingem os participantes diretos desses grupos (“traficantes”, “milicianos”, “policiais”), nem os indiretos (amigos, familiares, cônjuges, usuários de drogas etc) ou os contingentes (colegas, vizinhos, moradores de bairros próximos, pessoas presentes em um assalto em ônibus, passantes em uma via da cidade durante um tiroteio, envolvidos em uma briga de festa etc). Segundo Silvia, não se conhece as dinâmicas geradoras de letalidade nem mesmo dentro do recorte “mortes no tráfico”.

“O impacto de um tiroteio numa guerra de facções ou num confronto com a polícia tende a nos levar a esquecer as incontáveis mortes efetuadas dentro dos grupos armados por acertos de contas ou diversas razões de trabalho, e também por disputas amorosas e familiares, por rixas e conflitos banais que encontram desfecho letal na onipresença das armas e de uma cultura masculina agressiva e explosiva”, observa.

A pesquisadora frisa que a divisão clássica entre violência interpessoal de um lado (entre pessoas que se conhecem, sem fins lucrativos) e violência coletiva (ou crime organizado) de outro não se sustenta. “Na prática, o que observamos é que parte importante da violência letal ocorrida no contexto do chamado tráfico de drogas é resultante de conflitos e disputas interpessoais. As fronteiras entre naturezas criminais, no contexto de alta letalidade de jovens de favelas, se encontram indefinidas”, diz.

Uns saem, outros...

Os pesquisadores perguntaram em todos os grupos focais e entrevistas por que alguns jovens entram para os grupos armados ilegais que dominam as favelas e outros não. Após considerações genéricas sobre as razões que contribuem para adolescentes buscarem o caminho do crime, imediatamente se seguiam histórias que contradiziam essas razões.

"É claro que em muitos casos adolescentes vão para o tráfico ou as milícias em busca de dinheiro, alternativa profissional, para fugir de famílias violentas, para escapar de pais ou mães alcoolizados e degradados, ou por outros motivos socioeconômicos clássicos. Mas é importante perceber que em muitos casos as trajetórias de vida não correspondem a essas razões mais óbvias ou frequentes”, observa Silvia.

Segundo ela, é importante ter em mente que o apelo monetário que o crime pode exercer não é o motivo mais decisivo ou pelo menos não é mais tão decisivo quanto na época das grandes remunerações, o que obriga a reconhecer o limite dos projetos para jovens de favelas que baseiam sua existência na oferta de ajuda financeira (bolsas).

Vários técnicos mencionaram que precisam negociar dia a dia a manutenção de certos garotos em projetos que oferecem algum dinheiro, mas não oferecem algo que alguns talvez busquem ao entrar para o tráfico. Procurando fazer uma lista de situações e condições que mais levam os jovens a entrarem para o crime, além da necessidade financeira e do desejo de visibilidade, as razões mais frequentes surgidas nos grupos focais e entrevistas foram: ter vivido uma situação de injustiça (por parte da polícia, na escola, dos amigos ou de outros jovens); ter alguém da família envolvido no tráfico; família desestruturada, ausente; e não ter perspectiva de futuro.

A pesquisadora pondera, entretanto, que cada uma dessas razões deveria ser vista com bastante cautela. Realmente, a família parece ser um ponto-chave nas histórias de entrada, mas também - e principalmente - nas histórias de saída de jovens dos grupos armados ilegais. "Ouvimos muitas histórias em que, exatamente por vir de uma família em que um pai ou um irmão tinha ido para o tráfico, tudo tinha sido feito para que aquele jovem não entrasse. Ou seja, o que parecia ser o veneno revelou-se o antídoto", explica.

Milícias também seduzem

A pesquisa verificou que os grupos de milicianos também podem ser atrativas fontes de renda e emprego para os jovens, o que contraria a ideia de que milícias não empregam jovens e que são formadas apenas por pessoas mais velhas, profissionais de polícia. De acordo com a pesquisa, a crise do tráfico e a consequente redução dos ganhos ilegais, fizeram com que alguns policiais resolvessem obter lucros controlando diretamente territórios e não mais indiretamente, extorquindo traficantes que controlavam territórios.

Os depoimentos mostraram que, mesmo após a conclusão da CPI das Milícias, que identificou chefes, locais e modos de operar desses grupos, eles não só continuam fortes como parecem estar mais estruturados do que antes.

"As milícias hoje passam a ter estrutura e autonomia suficientes para sobreviver e prosperar mesmo com importantes lideranças na cadeia. Todas as políticas de redução da violência letal e as políticas voltadas para jovens de favelas e bairros populares terão de levar em conta que os grupos de milícias não só são uma realidade presente, geradora de letalidade em graus que ainda não se pode mensurar, como provavelmente persistirão pelos próximos anos", atesta o relatório.

A parcela da polícia

Em relação às histórias de injustiças que deflagraram a decisão de jovens de se associarem a grupos armados locais, diversas são ligadas a uma ação arbitrária da polícia que envolveu humilhação. Nos sete meses de estudo, os pesquisadores ouviram inúmeros casos de atuação vergonhosa de policiais.

"Não se trata apenas dos mais de mil mortos pelas forças policiais ano após ano, das evidências de corrupção generalizada em muitas áreas e da proliferação das milícias sob os olhos complacentes de comandantes e chefes de polícia. Trata-se de uma cultura policial arraigada que naturaliza o desrespeito a todos os moradores das áreas pobres da cidade, banaliza a brutalidade e de certa forma justifica a cada dia o próprio fracasso através da lógica da guerra contra o crime", afirma Silvia.

Para ela, a polícia é pelo menos parcialmente responsável por essa tragédia, mas isto não impede de compreender que ela também seja parte absolutamente fundamental da solução, já que se faz necessária para a desocupação dos territórios dominados por traficantes e milicianos e para a diminuição da presença de armas e munições nesses locais. Essa desocupação, segundo Silvia, só será bem sucedida se for realizada por policiais honestos e respeitosos em relação aos moradores das favelas. Ela também destaca a importância da retomada do debate sobre o desarmamento.

"Não se trata de operação policial, mas do estabelecimento de policiamento comunitário permanente, em quantidade suficiente, supervisionado por oficiais superiores que devem se encontrar nas favelas (e não dentro dos batalhões) e controlado pela mídia, por organizações locais e pelos moradores", recomenda.

Outras ações necessárias para reduzir a letalidade provocada pelo envolvimento de adolescentes em grupos armados são a melhoria das escolas, a criação de empregos, a ampliação de alternativas profissionais, programas de bolsas e iniciativas culturais para fortalecer a imagem do jovem de favela. Mas Silvia enfatiza o papel da polícia:

"Ações sociais, culturais e pressão política sobre governantes, por si sós, não são capazes de eliminar as armas e reduzir a violência letal. Em nenhum lugar e menos ainda no Rio de Janeiro. É na polícia, portanto, que parte de nossas energias tem que ser concentrada nos próximos anos."

O estudo é dedicado à memória da pesquisadora Ana Carolina Rodrigues da Silva Dreyfus, do Viva Rio, que trabalhou na pesquisa e faleceu aos 28 anos de idade no desastre do vôo AF 447, da Air France, em 31 de maio de 2009.

Fonte: Envolverde

Projetos que valorizam identidade negra são premiados no Rio


Evento, com a presença do ministro da Igualdade Racial, marca lançamento de levantamento inédito sobre intituições que atuam no fortalecimento da auto-estima negra. o Prêmio da Igualdade Racial, promovido pelo Criar Brasil e pela Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir) será entregue na sexta-feira (5/3).

A luta contra o racismo e a valorização da cultura negra se espalham com intensidade pelo Brasil. No dia cinco de março, sexta-feira (5/3), às 18 horas, o Prêmio da Igualdade Racial, promovido pelo Criar Brasil e pela Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir) será entregue a cinco projetos sociais que trabalham pela redução das desigualdades raciais e desempenham importante papel de luta pela cidadania e por melhores condições de vida da população negra. O Ministro da Seppir, Edson Santos, entregará pessoalmente os prêmios às finalistas da seleção que contou com 75 inscrições de todo o Brasil.

Os premiados são:
1º lugar: Ori Inu – A cabeça de Dentro – Porto Alegre / RS; 2º lugar Centro Aplicado de Pesquisa em Educação Multiétnica – Capem – Duque de Caxias/ RJ; 3º lugar Projeto Criança Capoeira Esporte e Cultura – Arraias – TO; 4º lugar: Família Alcântara Coral – João Monlevade – MG e 5º lugar Pré –Vestibular Quilombola – Vitória da Conquista /BA.

Os finalistas do Prêmio da Igualdade Racial foram temas de cinco programas especiais de rádio e de um DVD multimídia. O material conta a história do trabalho desenvolvido por cada instituição, com depoimentos dos envolvidos no projeto. O evento marcará também o lançamento de um catálogo com mapeamento mais de 300 ações sociais relacionadas à temática afrodescendente. O levantamento revela a distribuição das iniciativas pelo país, as áreas de atuação e traz ainda o contato de cada uma delas.

A ideia é auxiliar na replicação de iniciativas que promovam uma cultura não-discriminatória através de atividades que assegurem à população, independente de sua cor, o exercício pleno de cidadania.

O júri do Prêmio da Igualdade Racial foi composto por personalidades ativas do movimento negro: Lúcia Xavier, Edialeda Salgado Nascimento e Walter Silvério. O grupo levou em conta iniciativas que valorizam ações culturais, educacionais, sociais e religiosas na promoção e preservação da cultura afro-brasileira. Vale lembrar que no evento também serão apresentados três projetos que mereceram uma menção honrosa, por também se destacarem na promoção da igualdade racial.

Serviço:
Prêmio da Igualdade Racial
Data: 05 de março de 2010
Local: Espaço Ideal Rua Santa Luzia, 760 – Centro, Rio de Janeiro
Horário: 18 h

Fonte: assessoria Criar Brasil

Filme com Depardieu no papel de escritor mulato causa polêmica

BBC Brasil

A escolha de Gerard Depardieu, um ator branco, para interpretar Alexandre Dumas, um celebrado escritor francês mulato do século 19, em um filme sobre sua vida, está causando polêmica na França.

Depardieu, que é loiro e tem olhos azuis, teve sua pele escurecida e precisou usar uma peruca com cachos para encarnar o autor de Os Três Mosqueteiros e O Conde de Monte Cristo em L'Autre Dumas (O Outro Dumas).

Dumas era neto de um ex-escravo do Haiti, e o pai dele, um general do Exército francês, era chamado na época de negro caribenho.

Durante toda a sua vida, o autor foi alvo de zombaria por causa de suas feições africanas e se referia a si mesmo como "um negro".

Atores negros e ativistas pelos direitos dos negros criticaram a escolha de um ator branco para interpretar um ídolo francês mestiço.

"Daqui a 150 anos, o papel de Barack Obama poderia ser interpretado em um filme por um ator branco com uma peruca de cabelos encaracolados?", perguntou Patrick Lozès, presidente do Conselho de Associações Negras da França, de acordo com o jornal britânico The Times. "Poderia Martin Luther King ser interpretado por um branco?"

Lozès disse que a decisão de escolher um ator branco para o papel é "um insulto".

"De certa forma estamos dizendo que não temos nenhum ator negro que tenha talento para interpretar Alexander Dumas - o que, claro, não é verdade."

O produtor do filme, Frank Le Wita, disse que Depardieu, um dos mais populares atores da França, foi escolhido por sua vivacidade que, segundo ele, lembra a do próprio Dumas.

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Coisas de um país não preconceituoso


Por Daniel Campos*

Juíza, Luislinda Dias Valois dos Santos

Em 2003, a juíza Luislinda Dias Valois dos Santos proferiu a primeira sentença brasileira baseada na Lei do Racismo.

Deu ganho de causa a uma negra acusada de ter roubado um frango e dois sabonetes da principal rede de supermercados da Bahia.

Declarada a sentença, Luislinda foi ameaçada de morte. Mas isso não era novidade na vida da primeira juíza negra do Brasil.

Negra, mulher, divorciada, nordestina e de origem pobre, ela costuma dizer que se for morta seu assassino será o racismo.


Tinha nove anos quando um professor lhe disse que seu lugar era na cozinha de uma branca.

Ao ser aprovada no concurso público para procuradora, uma Bahia comandada por coronéis brancos mandou-a para Curitiba.

Para regressar, passou no concurso da Justiça Estadual da Bahia e foi exilada em uma comarca sem luz, telefone e água encanada. De pronto, foi avisada de que, mais dia menos dia, seria morta.

Fez um curso de justiça célere na Austrália e, ao aplicar esse processo por aqui, quiseram saber o que ela ganhava julgando com rapidez.

Advogados já pediram cancelamento de audiência ao saber que a juíza não era branca. Muitos ainda se perguntam o que aquela mulher de rastafári vermelho faz sentada na cadeira do juiz.

Certo dia entrou em um banco e foi chamada e tratada como bandida pelos seguranças. Depois de alguns sustos, passou a ter cuidado com a água que bebe e com o percurso que faz diariamente.

Foram muitas as intimidações para que ela renunciasse à magistratura.

Como não conseguiram matá-la fisicamente, fecharam-lhe todas as portas do Judiciário. Sem se intimidar, passou a fazer audiências na periferia, nos alagados, nos quilombos.

De barco, ônibus ou a pé, a juíza tentou levar justiça à população mais carente.

Porém, foi duramente censurada. Até mesmo do premiado projeto Balcões de Cidadania, do qual foi idealizadora e coordenadora, foi afastada.

Mesmo ganhando diversos prêmios e homenagens, Luislinda é tida, dentro do meio, como uma juíza menor.

Ela tem certeza de que muito do problema do preconceito está dentro do Judiciário, ainda branco e machista.

No Brasil, pouco mais de 1% dos juízes se declaram negros e a maioria, principalmente nas instâncias superiores, é do sexo masculino.

Aos 67 anos, a filha de Iansã tem todos os requisitos necessários para se tornar desembargadora.

Só que Luislinda não precisa jogar búzios, ler cartas ou freqüentar o terreiro de mãe Bebé para saber que ninguém a quer como desembargadora. Como juíza, já incomoda muita gente.

*Daniel Campos é poeta, escritor, jornalista, pós-graduado em Comunicação Criativa pela ABJL e autor do portal de literatura e poesia www.danielcampos.biz

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Nós, escravocratas


Escravidão contemporânea é pela educaçãoHá exatos cem anos, saía da vida para a história um dos maiores brasileiros de todos os tempos: o pernambucano Joaquim Nabuco. Político que ousou pensar, intelectual que não se omitiu em agir, pensador e ativista com causa, principal artífice da abolição do regime escravocrata no Brasil. Apesar da vitória conquistada, Joaquim Nabuco reconhecia: “Acabar com a escravidão não basta. É preciso acabar com a obra da escravidão”, como lembrou na semana passada Marcos Vinicios Vilaça, em solenidade na Academia Brasileira de Letras.

Mas a obra da escravidão continua viva, sob a forma da exclusão social: pobres, especialmente negros, sem terra, sem emprego, sem casa, sem água, sem esgoto, muitos ainda sem comida; sobretudo sem acesso à educação de qualidade.

Ainda que não aceitemos vender, aprisionar e condenar seres humanos ao trabalho forçado pela escravidão – mesmo quando o trabalho escravo permanece em diversas partes do território brasileiro –, por falta de qualificação, condenamos milhões ao desemprego ou trabalho humilhante. Em 1888, libertamos 800 mil escravos, jogando-os na miséria. Em 2010, negamos alfabetização a 14 milhões de adultos, negamos Ensino Médio a 2/3 dos jovens. De 1888 até nossos dias, dezenas de milhões morreram adultos sem saber ler.

Cem anos depois da morte de Joaquim Nabuco, a obra da escravidão se mantém e continuamos escravocratas.

Somos escravocratas ao deixarmos que a escola seja tão diferenciada, conforme a renda da família de uma criança, quanto eram diferenciadas as vidas na Casa Grande ou na Senzala. Somos escravocratas porque, até hoje, não fizemos a distribuição do conhecimento: instrumento decisivo para a liberdade nos dias atuais. Somos escravocratas porque todos nós, que estudamos, escrevemos, lemos e obtemos empregos graças aos diplomas, beneficiamo-nos da exclusão dos que não estudaram. Como antes, os brasileiros livres se beneficiavam do trabalho dos escravos.

Somos escravocratas ao jogarmos, sobre os analfabetos, a culpa por não saberem ler, em vez de assumirmos nossa própria culpa pelas decisões tomadas ao longo de décadas. Privilegiamos investimentos econômicos no lugar de escolas e professores. Somos escravocratas, porque construímos universidades para nossos filhos, mas negamos a mesma chance aos jovens que foram deserdados do Ensino Médio completo com qualidade. Somos escravocratas de um novo tipo: a negação da educação é parte da obra deixada pelos séculos de escravidão.

A exclusão da educação substituiu o sequestro na África, o transporte até o Brasil, a prisão e o trabalho forçado. Somos escravocratas que não pagamos para ter escravos: nossa escravidão ficou mais barata e o dinheiro para comprar os escravos pode ser usado em benefício dos novos escravocratas. Como na escravidão, o trabalho braçal fica reservado para os novos escravos: os sem educação.

Negamo-nos a eliminar a obra da escravidão.

Somos escravocratas porque ainda achamos naturais as novas formas de escravidão; e nossos intelectuais e economistas comemoram minúscula distribuição de renda, como antes os senhores se vangloriavam da melhoria na alimentação de seus escravos, nos anos de alta no preço do açúcar. Continuamos escravocratas, comemorando gestos parciais. Antes, com a proibição do tráfico, a lei do ventre livre, a alforria dos sexagenários. Agora, com o bolsa família, o voto do analfabeto ou a aposentadoria rural. Medidas generosas, para inglês ver e sem a ousadia da abolição plena.

Somos escravocratas porque, como no século XIX, não percebemos a estupidez de não abolirmos a escravidão. Ficamos na mesquinhez dos nossos interesses imediatos negando fazer a revolução educacional que poderia completar a quase-abolição de 1888. Não ousamos romper as amarras que envergonham e impedem nosso salto para uma sociedade civilizada, como, por 350 anos, a escravidão nos envergonhava e amarrava nosso avanço.

Cem anos depois da morte de Joaquim Nabuco, a obra criada pela escravidão continua, porque continuamos escravocratas. E ao continuarmos escravocratas, não libertamos os escravos condenados à falta de educação.

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(*) Cristovam Buarque é Professor da Universidade de Brasília e Senador pelo PDT/DF. Visite o blog de Cristovam: http://cristovam.org.br/blog/

Cadernos e mochilas como objetos de desejo


Como quase tudo não é um conto de fadas, consumo incentivado pela publicidade acentua a desigualdade dentro da escola e faz as famílias gastarem mais

Raquel Júnia

do Rio de Janeiro (RJ)


Mochila das Princesas, borracha do Ben10, caderno do Homem Aranha. Se você já ouviu falar nestes personagens, é porque está por dentro dos desenhos animados que fazem parte do imaginário das crianças. E já que as férias terminaram, é o momento deles aparecerem não apenas na televisão, mas também nos materiais escolares. No Rio de Janeiro e em boa parte do país as férias já terminaram, e com o novo ano letivo, chega também a necessidade de material escolar para ser usado no cotidiano das escolas. No caso de muitos estudantes, é o momento de insistir para ganhar aquela mochila com o personagem preferido ou aquelas canetas que, além de escrever, soltam perfume.


As papelarias estão lotadas, muitas crianças acompanham os pais na maratona salgada da compra do material escolar no sol de 40º graus do verão carioca. As vitrines estão enfeitadas. “Tudo para você se divertir na volta às aulas”, convida uma grande loja de departamentos. O problema é que muitas famílias não têm verba suficiente para agradar os pequenos. E o material escolar que não é oferecido gratuitamente aos estudantes da rede pública de ensino – como deveria –, pelo menos não de maneira suficiente. O resultado já é conhecido: crianças frustradas por não comprar o que é visto na propaganda e diferenças sociais acentuadas na escola, até mesmo nas públicas.


Desigualdade

“A criança gosta de ter material novo, de mostrar para os colegas. Isso extrapola quando você começa a comprar junto com o material escolar objetos que não são necessários. Por exemplo, hidrocor é legal para cobrir um desenho, para treinar o controle motor, mas para que tantas cores? É para acentuar a diferença social?”, questiona a psicóloga Noeli Godoy, do Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro.


Noeli, que estuda a relação da mídia com o consumo, também lida com a questão em casa, já que é mãe de quatro filhos e três estão na escola. “Os fabricantes de caderno, borracha, lápis vão querer incrementar esse material. A Faber Castell lança, por exemplo, o lápis de cor das Princesas, as meninas vão ficar doidas, porque aquelas princesas viraram referência na infância. É aí que a publicidade consegue garantir a venda e se intensifica o capitalismo e a diferença social”, explica.