
No bairro Pompéia, em Belo Horizonte, há uma empresa responsável pela edição de livros que valorizam a cultura afro-brasileira e a produção intelectual afro-descendente. Chegando ao número 101 da Rua Bragança, um casarão de dois andares, fomos recebidos por uma senhora de 65 anos, franzina e serena. Trata-se de Maria Mazarello, responsável pela criação da Mazza Edições, editora dedicada ao crescente mercado étnico-cultural e que completou, em maio de 2006, 25 anos de atividade, com mais de 500 títulos publicados, entre livros de ensaios sociológicos e antropológicos, contos, poesia e obras didáticas.
O Começo
O desejo de divulgar a produção intelectual dos negros despertou em Maria Mazarrello numa época em que ela se encontrava fora do Brasil, na Europa. Ela conta que nos anos 60 começou a trabalhar na área de edição de livros, através da experiência de pequenas, mas importantes, editoras que existiram em Belo Horizonte. “Nesta época, quando ajudava na Livraria e Editora do Estudante, recordo-me que Chico Buarque lançou o ‘Pedro Pedreiro’. Ficava na rua Tupis, nº 85, e foi fechada pela ditadura. Tempos duros”, relata Maria Mazarello.
Após o fechamento da Livraria e Editora do Estudante, Mazza, como é chamada normalmente por todos, se juntou a um grupo de pessoas ligadas à universidade federal, sendo que muitos tinham sofrido com os rigores da ditadura. A nova proposta era abrir uma editora que veiculasse idéias novas, trabalhasse com material didático, principalmente na área universitária. Assim surgiu a editora Vega. “Vega é uma estrela em direção à qual o sistema solar caminha”, explica. “Quem criou a logomarca da Vega foi um cidadão que na época a gente chamava de Henriquinho, que tinha 18 anos, e que depois, Brasil afora, ficou conhecido como Henfil. O primeiro livro dele, ‘Hiroxima, Meu Humor’ quem publicou foi a gente”.
Segundo Mazza, a Vega lutou para sobreviver por cerca de dez anos, até 1978: “sempre inovando, contestando, com problemas com os militares, e por isso muito visada. Um dos mentores da editora foi Edgar da Mata Machado (advogado, jurista e deputado), que era pai de José Carlos da Mata Machado, morto pela ditadura militar. A gente tinha um material muito bom, mas não conseguia vender, pois nossos livros se encontravam no índex da censura do governo”, relembra Mazza

Em 1978, após a editora Vega ter sido passada para um grupo de pessoas que mais tarde teriam participação destacada na criação do Partido dos Trabalhadores, Mazza, com uma bolsa do MEC, foi fazer mestrado de Editoração e Comunicação Visual no exterior, dois meses após a morte de sua mãe. “Eu já vinha pleiteando a bolsa há muito tempo, queria fazer o mestrado na Espanha. Acabei cursando na França, por dois anos, na Universidade Paris 13, que era a única universidade socialista da França. Era uma universidade que ficava no subúrbio, estudávamos em horário integral”.
A partir daí, segundo ela, sua vida mudou. Para quem trabalhava desde os quatro anos de idade, olhando crianças e vendendo ovo e verdura na cidade natal, estudar na Europa era um privilégio reservado a poucos. “Minha cidade, Ponte Nova, era uma cidade escravocrata, onde se cultivava café, cana de açúcar e muito preconceito. Eu, de repente, com 38 anos, estava estudando em Paris, com uma bolsa do MEC de US$ 250. Outros bolsistas ganhavam U$ 500, US$ 800... Mas pra mim US$ 250 era uma benção, e eu estudava mesmo e observava”.
Nas férias, Mazza aproveitava para conhecer Alemanha, Espanha, Itália – e fazer pesquisa editorial. “Da Europa eu observava também melhor a cobertura política dos países do Terceiro Mundo. Aí comecei a sentir a explosão da questão da negritude no Brasil, comecei a acompanhar melhor os movimentos negros, principalmente a criação do MNU. Numa das minhas viagens na época, conheci o primeiro negro africano na minha vida, justamente na Europa. Fiquei impressionada. Eram negros de diversos países e etnias, intelectualizados demais, filhos de certa elite africana que iam estudar na Europa. Assim, tomei conhecimento com uma África que eu desconhecia no Brasil”.
Após fazer um breve estágio pela Unesco em Guiné-Bissau, Mazza decide que seu projeto de conclusão do mestrado seria a criação de uma coleção que fosse capaz de recontar com fidelidade a verdadeira história do negro no Brasil. “Nesta altura, eu tinha de voltar e havia alguns convites para trabalhar em editoras de São Paulo e Rio de Janeiro. Mas recusei e pensei que, entendendo de gráfica e de editora, poderia abrir um negócio no qual pudesse investir na edição de livros que tratassem de questões relacionadas aos negros.
Persistência e visão empresarial
Para montar a nova editora – no mesmo espaço onde atualmente funciona a Mazza Edições -, ela contou com a ajuda de alguns amigos para comprar uma máquina de composição e iniciar os trabalhos. “Estas pessoas não concordavam com as questões da Negritude, mas acreditavam e confiavam em mim”. Assim, com a máquina de composição e uma máquina de impressão bem desgastada, manual, comprada dos salesianos, estava pronta pra começar a coleção Essa História Eu Não Conhecia.
“Comecei a procurar os intelectuais negros para escreverem os textos dos livros. Foi aí que me dei mal, pois textos grandes eles não tinham problemas para escrever, mas um texto condensado, simplificado, um texto que qualquer pessoa compreendesse era difícil encontrar alguém capaz de redigir. Certo dia, alguém chegou com um texto mimeografado chamado ‘A Escravidão no Brasil’, de Maria Raimunda, uma professora de escola pública do Maranhão, que, diziam, com aquele livrinho fazia um furor e foi perseguida demais. Encontramos essa mulher, pedimos a autorização dela e lançamos o primeiro número”. Foram cinco edições. Depois dele, outros três seriam editados, incluindo um sobre a Mulher Negra e outro sobre Zumbi dos Palmares.

A partir daí, surgia em Belo Horizonte, em 1981, a Mazza Edições. Porém, as dificuldades de se prender a um ideal, sendo uma empreendedora independente, fizeram com que a editora se abrisse a outros tipos de publicação para poder manter-se no mercado. “Aos poucos, percebi que não poderia apenas publicar a Negritude, pois não conseguiria manter a editora. O próprio Movimento Negro falava que não podia pagar o meu trabalho. Eu brigava com todos eles, mas todos me respeitavam. E, muitas vezes, acabava o material sendo feito por mim. Para não fechar, tive de fazer outras coisas. Um dia, uma amiga minha da biblioteca comunitária me disse: ‘Ô, Mazza, tem um filho dum amigo que é poeta, o Álvaro Andrade Garcia. Ele ‘tá com um livro pronto, você não quer fazer o livro dele não? Ele pode pagar, fez um primeiro livro que não ficou bom’. Então, fiz o livro do Álvaro. A partir daí, a poetada toda passou a procurar a Mazza Edições para publicar. E eu salvei a editora e pude também continuar a publicar a Negritude”.
Com a editora assegurada, a consolidação no mercado era uma via natural, até quando começaram a chegar os autores que hoje são renomados. “Um dia, me telefona o Cuti, de São Paulo, antes da existência da Quilombhoje, encomendou uns folhetos para o movimento de lá. Depois apareceu o Edimilson (de Almeida Pereira) com a Núbia (Pereira de Magalhães Gomes) trazendo um livro que eles tinham feito, chamado ‘Assim se Benze em Minas Gerais’, mas que a Universidade de Juiz de Fora não deu conta de fazer. Foi aí que começou uma parceria com o Edimilson que, pra mim, é ad infinitum.”
Em 2003, o presidente Lula sancionou a Lei 10.639, que determina a inclusão da História e Cultura Africana e Afro-brasileira no ensino médio e fundamental, o que provocou uma correria muito grande de diversas editoras para lançar livros sobre a temática no mercado. Sendo uma exceção – positiva - no mercado editorial brasileiro, a Mazza Edições, com sua trajetória visionária e de resistência, passou a ter a possibilidade de atingir novos públicos. “Com a aprovação dessa lei, e a valorização e o resgate da memória africana e afro-brasileira, uma luta de que eu já participava há mais de 20 anos, é que a situação melhorou um pouco para a editora. Passamos a vender mais livros para as escolas. Conseguimos vender um livro para o Ministério da Educação. Dos 25 livros que apresentei, um foi escolhido pelo ministério. A situação melhorou tanto que pude até abrir uma fundação, onde hoje oferecemos para a comunidade um curso pré-vestibular e outro de informática”.
Considerando-se já cansada para prosseguir à frente da editora, Mazza tem a certeza de que seu trabalho não foi em vão e que os frutos estão amadurecendo, com crescente participação. “Acho que a verdadeira história do negro no Brasil tem de ser melhor conhecida, assimilada e conscientizada. É uma grande falha nossa, enquanto brasileiros, não termos consciência de que a África é muito do que somos e herdamos. Não temos consciência da resistência de diferentes povos para nos deixar um legado muito grande de herança, que não é só o futebol, o samba e o carnaval.
25 Anos com Novas Coleções
No ano em que completa um quarto de século de atuação no mercado editorial, a Mazza Edições lançou, durante a Semana Cultural do Senegal, em Belo Horizonte, no mês de maio, em evento promovido pela editora e pelo Centro Cultural Casa África, duas novas coleções: a Griot Mirim e Olerê. São livros destinados às crianças que estão no início da alfabetização. Da coleção Griot Mirim serão lançados os livros “Meninas Negras” e “Koumba e o Tambor Diambê”, de autoria de Madu Costa, e “Que Cor É a Minha Cor”, de Martha Rodrigues.
Já a Olerê é coordenada pelo escritor, poeta e antropólogo Edimilson de Almeida Pereira, que abre a coleção com o livro “O Congado para Crianças”. Desde 1988, Edimilson vem publicando grande parte de sua obra com a Mazza Edições, entre livros de ensaio, poesia e infantis. “O coração de minha obra circula a partir da Mazza Edições. Em termos de repercussão, eu tenho com a Mazza uma dívida impagável. O primeiro livro publicado foi o “Assim se Benze em Minas Gerais”, e ela apostou desde o início, e de lá para cá não paramos mais. A preocupação da editora nunca foi de fazer best seller, mas de publicar obras de estudos. A Mazza tem uma posição extraordinária, pelo fato de ser mulher, num mercado patriarcal. É uma editora que não só seleciona o material, mas preocupa-se em destacar os temas relacionados à cultura afro-brasileira. Assim, ela entendeu muito cedo que publicar a cultura afro-descendente no Brasil é publicar a cultura brasileira”, acredita Edimilson de Almeida Pereira.
Além destas coleções, para celebrar a data, a editora publica ainda os livros “Becos da Memória”, romance da mineira Conceição Evaristo”, o infantil “A Fuzarca de Noé”, de Ronaldo Simões Coelho, e o “Livro do Professor”, de Mara Catarina Evaristo.


Do ponto de vista legal não há o que se discutir quanto à afronta que esse tipo de proposta representa aos princípios constitucionais. De acordo com o entendimento de Flávia Piovesan, registrado em artigo de ampla circulação, a Constituição colocou entre as cláusulas pétreas as garantias e os direitos individuais, não podendo esse conjunto de salvaguardas ser objeto de modificação por meio de emendas. Sem dúvida, o direito à proteção especial conferida às crianças e adolescentes, que abrange a inimputabilidade penal dos menores de dezoito anos, está dentro da esfera das garantias, sendo vedada, portanto, qualquer tipo de alteração, constituindo ofensa grave inclusive a parâmetros internacionais.
E assim, mergulhado num sentimento de ameaça antigo que acompanha o sono de nossas elites, vamos mais uma vez arrastando nossas contradições para o futuro sem qualquer tipo de indignação mais conseqüente. O envolvimento de um adolescente na morte abrupta e prematura de uma criança de seis anos em nosso país não serve como sinal vermelho para questionarmos a estrutura social e racial que nos preside e a lacuna na rede de proteção que deveria acompanhá-lo. Ao contrário, esse é o sinal verde para que os processos de encarceramento sistemático da população negra, parte fundamental na produção do genocídio denunciado, ganhem novo fôlego. A escolha do sistema penal como o instrumento apto a intervir nessa realidade, com o viés centrado em práticas repressivas em detrimento das preventivas, é preciso ser dito, é a opção clara e consciente das elites pela morte, em detrimento da vida. O discurso enviesado amplamente difundido, que tem seu acento na conotação individual da violência, desconectado do terror de Estado que a promove e estimula, visa, em última instância, legitimar os processos de eliminação física que comprometem a existência do segmento negro do país. Trata-se, em suma, de recado direto e inequívoco de que o extravasamento da violência para fora de seu reduto patente não é tolerado sem reação, sendo essa mesma violência por demais estratégica na materialização da morte dos grupos excluídos para ser confrontada.
Proclamada a Independência e promulgada a primeira Constituição brasileira, entra em vigor o Código Criminal do Império, em 1830, que reduziu o limite de idade para 14 anos.
Páginas e mais páginas de histórias. Aos 60 anos e 40 deles dedicados à cultura negra, Asfilófio de Oliveira Filho - o produtor cultural Filó, contribuiu decisivamente para a criação dos bailes black nos anos 1970. Viu nascer a primeira roda de samba do Brasil, no Clube Renascença. E conviveu com grandes nomes da dramaturgia e da MPB: Elizete Cardoso, Roberto Ribeiro, Paulinho da Viola, Dona Ivone Lara, Zezé Motta, Zózimo Bulbul, Nei Lopes, Elis Regina, Belchior. Só pra citar alguns. Consciência negra, atitude, diversão e arte desviaram o caminho do jovem engenheiro. Dividia-se entre a administração da agência de automóveis da família e o agitado circuito Zona Norte-Zona Sul do Rio-e-Baixada Fluminense. Filó é figura histórica do showbusiness nacional. E tudo começou com a juventude reunida no clube negro Renascença. Embalou mais de um milhão de jovens do Rio de Janeiro no ritmo da Black Music. Ergueu a Soul Grand Prix. Disputou as paradas de sucesso e venda de LPs de Coletâneas de Soul, superando Roberto Carlos por semanas. Foi colunista do Jornal do Brasil e da Última Hora. Não escapou da repressão da ditadura, passou pelo DOPS. Virou alvo da grande mídia. Mas essa é mais uma das muitas revelações dessa entrevista ao Ìrohìn, que teve a participação de Carlos Alberto Medeiros (Coordenadoria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial do Rio de Janeiro) e Januário Garcia (excepcional fotógrafo e ativista) também personagens desse período que continuam na ativa.
Ìrohìn - Como começou seu envolvimento com a área cultural?
Ìrohìn - Como a dramaturgia entrou no clube? Qual o seu papel no grupo?
Ìrohìn - Os bailes do Renascença eram conhecidos como “Noite do Shaft”. Por que a escolha desse nome?
Ìrohìn - Havia repressão aos bailes?
Ìrohìn - E você, Filó, não pretende registrar em livro toda essa experiência?
Quem estava ali pode ser considerado sobrevivente, em vários sentidos. O encontro contou com a presença de uma geração com pelo menos 10 anos de estrada no hip-hop curitibano, quando o movimento despontou na cidade com um discurso forte sobre o “quinto elemento” do hip-hop, o trabalho social. Naquele momento, esta geração pautou a mídia corporativa, apresentando uma juventude excluída que os setores médios curitibanos julgavam inexistente. É o caso dos grupos Artivistas, Cre Rapper, Will Capa Preta, Aliados Linha de frente, todos se reencontrando.