O pai do hip-hop brasileiro como ele é

Por Tatiane Ribeiro

Sem glamour nem holofotes, a mensagem é clara. “Se alguém disser que hip-hop é moda, então eu digo que é a moda mais longa do mundo, porque desde o início dos anos 80 o hip-hop já estava nas ruas”, dispara Nelson Triunfo.

Caminho pelas ruas e vielas do bairro da Penha, em São Paulo, em companhia de um dos precursores do hip-hop no país. Mas Nelson Gonçalves Campos Filho, 56, faz questão de frisar que não se sente a vontade com o título. “Eu sempre vi isso, de viver de arte, como ser guerreiro.”

Nelsão, como é conhecido, nasceu na cidade de Triunfo, no sertão de Pernambuco. No meio do baião de Luiz Gonzaga, ouviu também a batida forte das músicas de James Brown, através das ondas do rádio. Mesmo sem saber que estilo era aquele, deixou o cabelo crescer e começou a ler sobre Toni Tornado, que chegava do exterior com um novo jeito de dançar.

Com tanta personalidade, o homem que já viajou com a família em um pau de arara, durante 15 dias, para chegar ao Rio de Janeiro, persistiu no gosto e se tornou o “pai do hip-hop brasileiro”. Passou dificuldades na vida, apanhou da polícia e resistiu. Em 2006, representou o país na Copa da Cultura 2006, em Berlim, na Alemanha.

Atualmente, Nelsão coordena a Casa de Hip Hop de Diadema e ainda encontra fôlego para ter aulas de inglês. “Quero aprender mais outros dois idiomas.”

São tantas as suas histórias que o jornalista Gilberto Yoshinaga está escrevendo, desde 2009, sua biografia. “Nelson Triunfo – Do Sertão ao Hip-Hop”, produzido de forma independente com o apoio da Seppir (Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial), não tem data para ser lançado.

Enquanto o livro não sai, Nelsão conta um pouco da sua história para o Mural.

(Confesso: a conversa foi tão boa, que foi difícil cortar.)

Como foi o começo?

Costumo dizer que eu “sai me criando”. Na juventude, eu e meus amigos éramos considerados rebeldes por ouvir as músicas “gringas”. Havia muito preconceito. Gozavam do nosso cabelo grande, mas não dávamos atenção. Éramos o calo no sapato mesmo. Minha cabeça estava 20 ou 30 anos à frente daquela geração. Com 16 anos eu fui para Paulo Afonso, na Bahia, e lá ouvi pela primeira vez o vinil do Toni Tornado. Montei, com mais dois amigos, o primeiro grupo de dança soul, do nordeste brasileiro. Mas durou apenas dois anos, porque me mudei para Brasília, para estudar. Lembro de um professor que na frente dos outros 45 alunos disse que me daria um emprego de gerente se eu cortasse o cabelo. Eu agradeci, mas disse que não poderia ficar porque partiria para São Paulo. Eu tinha certeza absoluta que precisava ir.

O que aconteceu quando chegou a São Paulo?

Era a época do militarismo. Conheci Toni Tornado e outros artistas, mas tinha problemas com a lei por causa do cabelo “black Power”. Dançava na rua 24 de maio, no centro da cidade. Os policiais chegavam e batiam. Sentia raiva e vontade de fazer mais. Muita gente chegou a dizer que dançava por diversão e eu respondia que quem conhecia resistência devia saber o que significava. Porque apanhar e depois voltar para fazer a mesma coisa, não tem nada a ver com curtição. O que eles diziam ser vagabundagem, eu queria provar que era arte. E, em um país onde nem os bailarinos clássicos conseguiam sobreviver do seu trabalho, tudo era muito difícil. Pelo menos os bailarinos eram respeitados. Nós éramos chamados de palhaços. Mas enquanto pensavam que éramos apenas um monte de doidos reunidos, com cabelão e roupa colorida, nós articulávamos as ações.

Qual o motivo de tanto preconceito?

Toda sociedade reflete a sua educação. A nossa é uma educação europeia que foi muito boa para os europeus, mas agora nem para eles funciona mais. Fizeram acreditar que só pessoas de família nobre poderiam ter destaque na sociedade. Muitos nordestinos diziam para mim que nunca conseguiriam mudar de vida, porque eram negros. Conformaram-se com esse método, de forma inconsciente. Por exemplo, verbos como a palavra “denegrir” são preconceituosos e estão enraizados no vocabulário brasileiro. Tratavam tudo que vinha do povo de forma pejorativa. E como o hip-hop veio associado às favelas, quem estava em suas casas de luxo não queria saber o que estava acontecendo naquela realidade. Chamavam os artistas de drogados, que só sabiam falar mal da polícia. E, na verdade, fomos nós que levantamos questões hoje muito presentes, como a milícia no Rio de Janeiro. O hip-hop fez nos últimos anos o papel questionador que a MPB fez na ditadura.

Mudou muito atualmente?

Melhoramos bastante. Temos vários jovens que sobrevivem de oficinas culturais, que são microempresários, muitos que não conheciam nem o centro de São Paulo e hoje vivem viajando para Berlin, Copenhagen, Paris, Lisboa, Madri e até a Finlândia. Foi por meio da linguagem do hip-hop que conseguimos fazer uma educação paralela dentro dos bairros. A contribuição foi muito grande. Agora, na casa do hip-hop, tem até mães que levam seus filhos e ficam lá esperando eles dançarem.

Como é ser precursor do hip-hop?

Eu senti pesar os meus pés somente em um show no Sesc Itaquera, em 1999, quando o meu filho me perguntou o que eu sentia ao ver aquele lugar tão cheio. Mas eu fujo de títulos, porque vivo no presente, de forma simples. Penso em algo e faço tudo para dar certo. E depois parto para outra. Não me acomodei com as porradas que levei.

Como o hip-hop faz o trabalho de inserção social?

Atraímos os jovens pelo que eles mais gostam de fazer. Muitos chegam lá doidos para grafitar, dançar. Damos a oportunidade de fazer o que quiserem, mas mostramos que é preciso conhecer outras coisas. Funciona com uma troca: você abriu um espaço para ele e ele vai abrir o coração para você. Para quem quer pintar, pedimos para estudar sobre Picasso, Van Gogh. Para quem quer fazer rima, mostramos a embolada, questionamos o que entendem das letras de Jackson do Pandeiro. Fizemos um evento sobre Lima Barreto, Machado de Assis, Cruz e Souza e Luiz Gonzaga.

O hip-hop é contestador?

Sim, mas também é divertido, porque é alegre e dançante. Claro que a politização vem em primeiro lugar, mas não deixamos de fazer humor dentro disso. Com o hip-hop nasceu dentro da concepção do coletivo, ele é a favor da diversidade. Tem a letra do cara que nunca saiu da favela. Ele não vai falar de Romeu e Julieta ou da guerra em Bagdá, vai contar a realidade dele ali. Tem outro que mora na quebrada, mas já viajou por diversas capitais e vai misturar as referências. Tem o que desencanou desse mundo e acha que a religião é a saída, então fará uma letra gospel. Dentro da dança, tem o b-boy de Pernambuco que vai misturar o frevo, o da Bahia que prefere incluir os movimentos da capoeira. Estar aberto a outras manifestações é muito importante contra a alienação.

O que o hip-hop traz de bom para o jovem?

Primeiro é a sociabilização. Dentro de um espaço de hip-hop com cunho social, as pessoas se tratam como iguais. O jovem passa a se sentir inserido a partir do momento que os outros começam a se interessar pelo que ele faz. E não é a música ou a dança que são os pontos fortes, mas a conscientização. A partir dela, passam a ser politizados e isso é muito importante para que não ninguém seja feito de fantoche. A juventude sempre foi a mudança de um país. Quando alguém pensa que está tudo bem, isso é muito perigoso, porque assim começam a ser inseridos numa cultura de massa que não agrega nada.

Para acompanhar os bastidores da biografia em produção:

http://biografiadenelsontriunfo.blogspot.com/


Tatiane Ribeiro, 25, é correspondente comunitária da Bela Vista.
@TaTyaa
tatiribeiro.mural@gmail.com


Saiba mais sobre a ‘Oxi’, a droga mais poderosa que o crack

FALANDO A VERDADE

As marcas deixadas pelo oxi nos corpos dos usuários são visíveis. Assim como as reações no comportamento — os dependentes permanecem sempre nervosos e agitados durante e após o consumo da droga —, os efeitos em órgãos vitais como rim, pulmão e fígado são considerados devastadores, revela reportagem de Carolina Benevides e Marcelo Remígio, publicada neste domingo pelo GLOBO. Os usuários de oxi, logo nos primeiros dias de consumo, apresentam problemas no aparelho digestivo e complicações renais. As dores de cabeça e as náuseas passam a ser constantes, diárias, e há crises crônicas de vômito e diarreia, um quadro comum enfrentado por quem faz uso da droga.


Grupo de usuários de oxi fazem uso da droga em Rio Branco, no Acre - Crédito: Regiclay Alves Saady / O GLOBO Os usuários também apresentam dificuldade para respirar, e a pele passa a ter uma cor amarelada. Em poucas semanas, o dependente perde muito peso e tem início um rápido processo de envelhecimento. A morte por complicações de saúde pode chegar em prazos inferiores a dois anos. As reações do oxi nos usuários são semelhantes às do crack. No entanto, em função de o efeito da droga passar mais rapidamente, a vontade de consumir novamente é imediata.

— O efeito do oxi é muito rápido, a droga chega ao cérebro em poucos segundos. Seu efeito também passa mais rápido, por isso a necessidade de consumir cada vez mais e mais. É uma reação avassaladora. Diferentemente do crack, o usuário ainda sente a necessidade forte de mesclar o oxi com outras drogas, principalmente a própria cocaína em pó e o álcool — explica a psicóloga Maria Stella Cordovil Casotti, que trabalha há 14 anos com a recuperação de usuários de drogas e atua hoje no estado do Acre.

Perito criminal da Polícia Federal em Rio Branco, Ronaldo Carneiro da Silva Júnior explica que a característica do oxi de viciar mais rápido que o crack e as demais drogas está em sua composição. Enquanto a cocaína em pó, que é inalada, possui cerca de 10% de substância cocaína, o crack possui 40%. Já o oxi supera ambas as drogas. A substância cocaína chega a 80%, apesar de a pureza da droga ser baixa, decorrente da mistura de derivados de petróleo, cal, permanganato de potássio e solução líquida usada em bateria de carro.

RIO BRANCO – As ruas de Rio Branco são hoje um retrato da degradação provocada por uma nova droga, mais letal do que o crack, que está se espalhando pelo Brasil: o oxi, um subproduto da cocaína. A droga chegou ao país pelo Acre. Na capital, ao redor do Rio Acre, perto de prédios públicos, no Centro da cidade, nas periferias e em bairros de classe média alta, viciados em oxi perambulam pelas ruas e afirmam: "Não tem bairro onde não se encontre a pedra".

O oxi, abreviação de oxidado, é uma mistura de base livre de cocaína, querosene – ou gasolina, diesel e até solução de bateria -, cal e permanganato de potássio. Como o crack, o oxi é uma pedra, só que branca, e é fumado num cachimbo. A diferença é que é mais barato e mata mais rápido.


A pedra tem 80% de cocaína, enquanto o crack não passa de 40%. O oxi veio da Bolívia e do Peru e entrou no país pelo Acre, a partir dos municípios de Brasiléia e Epitaciolândia. Hoje está em todos os estados da Região Norte, em Goiânia e em Mato Grosso do Sul, no Distrito Federal, em alguns estados do Nordeste e acaba de chegar a São Paulo. No Rio, os primeiros relatos de que a pedra pode ser encontrada na capital também já começaram a aparecer. Mas a polícia ainda não registrou apreensões.

Estado que faz fronteira com o Peru e a Bolívia – os maiores produtores de cocaína do mundo – e ainda próximo à Colômbia, o Acre há tempos virou rota do tráfico internacional. De uns anos para cá, a facilidade com que a base livre de cocaína cruza as fronteiras fez com que o oxi tomasse conta da capital e de pequenos municípios. A pedra age rápido: viciados dizem que não leva 20 segundos para sentir um "barato" e que em cinco minutos a pessoa já está com vontade de usar de novo. Fumado, geralmente em latas de bebida ou em cachimbos como os que servem para o crack, o oxi tem potencial para viciar logo na primeira vez e é uma droga barata: é vendida em média por R$ 5 e até R$ 2.

- Quando a Bolívia se tornou produtora, o preço caiu e a cocaína se difundiu no Acre. A realidade é que o oxi é barato, está espalhado por Rio Branco e tem potencial para se espalhar por todo o Brasil, já que a base livre de cocaína está em todos os estados do país e já foi apreendida em todos os lugares. O oxi não precisa de laboratório para ser produzido, e isso facilita a expansão – diz Maurício Moscardi, delegado da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) da Polícia Federal no Acre, que em 2010 apreendeu no estado quase 300 quilos de base livre de cocaína.

X., de 14 anos, encosta num poste para se segurar em pé. Tem um cachimbo preso ao elástico da bermuda, está descalço, sujo e mal consegue balbuciar algumas palavras. Duas horas depois, um pouco mais composto, aborda um casal de senhores e pede dinheiro. Ganha um pacote de biscoito, mas não o abre. Usa o produto como escambo para ter direito a um trago do que ele nem sabe mais o que é. X. já ouviu falar do oxi, mas acredita que está viciado em crack. Ele não sabe a diferença, assim como os mais de 400 viciados que perambulam dia e noite pelas ruas quase abandonadas da cracolândia de São Paulo, na região central da cidade, uma das áreas onde a nova e devastadora droga pode estar sendo consumida sem que os usuários tenham a menor consciência disso.


O maior indício de que a droga já está circulando em São Paulo é o preço com que as supostas pedras de crack estão sendo vendidas ali. Aos berros, os traficantes oferecem o "crack" por R$ 2. No mercado do tráfico, porém, sabe-se que o preço dessa pedra é "tabelado" em R$ 10. Em dias de promoção, numa estratégia para arregimentar novos viciados, o valor pode cair um pouco, e chega a R$ 8. Abaixo desse valor, o que está chegando nas mãos do viciado muito provavelmente é o oxi.

- Essa pedra que eles vendem por R$ 2 não é crack. Já estamos ouvindo sobre esse oxi há muito tempo. Como é mais barato, provavelmente é o que já está circulando por aqui. Só que essas pessoas estão num estágio em que não têm condições psicológicas de diferenciar nada – diz um comerciante que $na região há 11 anos.

Oxi: nasce uma droga ainda mais barata e danosa que o crack


O grande receio dos especialistas é que haja a substituição das drogas

A matéria publicada na edição de ontem, 5a.feira (28/04) do O Povo tratando da circulação em algumas regiões do país de uma droga capaz de causar mais danos ao ser humano do que o crack é importante alerta às autoridades de saúde pública do Estado.

De acordo com a reportagem, o oxi, abreviação de oxidado, é a mistura de base de cocaína com querosene, cal e permanganato de potássio, que se inalada chega a atingir órgãos vitais como o pulmão.

As consequências seriam imediatas, com os consumidores apresentando os efeitos logo nos primeiros dias.

A droga estaria entrando no Brasil pelo Peru e pela Bolívia, já havendo relatos do seu uso em estados da Região Norte, além de Goiás, Mato Grosso do Sul, Distrito Federal, São Paulo, Maranhão e Piauí.

Como o oxi é mais acessível do que o crack em termos de preço, e o potencial de vício maior e mais rápido, o grande receio de especialistas é que haja a substituição das drogas. Por conta disso as consequências seriam desastrosas, em vista do que acontece hoje em relação ao crack.

No Ceará, por enquanto, ainda não há registros da presença do oxi, como atesta a Delegacia de Narcóticos, o que não quer dizer que não esteja sendo consumido. E é justamente essa falta de informação que deve servir de alerta e aumentar a preocupação dos que lidam com a questão, pois muitas pessoas podem estar consumindo sem saber.

Segundo Osmar Diógenes, do Instituto Volta a Vida, a droga pode estar sendo vendida como crack, ou oferecida como se o fosse, sob a alegativa de que estaria faltando o primeiro produto no mercado.

Essa estratégia de substituição da droga não é nova e muitos usuários de maconha se tornaram dependentes do crack sob o argumento dos traficantes de falta da erva no mercado.

Infelizmente, se estamos vivendo uma epidemia do consumo de crack no País com seus efeitos desestabilizadores em vários níveis, é fundamental que não se perca a oportunidade de abordar esse risco nos fóruns que se apresentam.

Somente com a informação e a correta abordagem sobre os riscos será possível o combate efetivo.

Fonte: O Povo

Oxi é o crack pirateado

Droga não arrebatou usuários, é vendida como um falso crack, e mata muito mais rápido do que o produto original

Lívia Machado, iG São Paulo


Foto: Divulgação

O crack é uma das drogas mais agressivas ao organismo

Feito a base de cocaína, combustível e cal virgem, o Oxi – uma versão ainda mais corrosiva do crack – começa a circular no sudeste do País após seguidas apreensões da droga. Mercadoria recém chegada à cracolândia, maior pólo de usuários de droga do Brasil, no centro da capital paulista, o oxi é considerado por especialistas em dependência química como a versão pirata do crack.

Até agora, 1% da clientela atendida pelo Centro de Referência de Álcool, Tabaco e outras drogas (Cratod), revelou ter consumido a droga sem consciência de que não usava a pedra tradicional, feita da mistura de pasta base de coca ou cocaína refinada com água e bicabornato de sódio.

Leia mais: O preço da vida: R$ 10

“Os usuários que atendemos acham que fumaram o oxi pelo gosto de gasolina que sentiram na boca após consumirem o que pensavam ser crack. Eles afirmam que foram enganados”, pontua Marta Ana Joezierski, diretora do Órgão.

A especialista explica que a droga não tem apelo ao consumidor do crack. Além de mais nocivo do que o produto ‘original’ o oxi queima a garganta e deixa como resquício o gosto de combustível muito forte na boca. Os efeitos alucinógenos são exatamente os mesmos provocados pelo crack. “Não é uma substância para consumo humano, é para máquinas", assevera Marta.

O oxi contém múltiplos resíduos, é mais agressivo ao sistema respiratório, além de ser um veneno para o fígado e rins. Carlos Salgado, presidente da Associação Brasileira de Estudo sobre Álcool e Drogas (Abead) e psiquiatra da Unidade de Dependência Química do Hospital Mãe de Deus, em Porto Alegre, endossa o baixo interesse dos dependentes químicos na suposta nova droga.

“Não há diferenças no efeito, na reação que o usuário busca na droga, por isso é difícil reconhecer quem está usando. É apenas um produto mais barato, grosseiro e ainda mais agressivo. A gasolina inalada pode inutilizar rins e fígado rapidamente.”

Fim da linha

Apreensivo com a versão mais tosca do crack, Ronaldo Laranjeira, psiquiatra da Univesidade Federal de São Paulo (Unifesp) e especialista no assunto, acredita que o efeito do oxi será ainda mais devastador nos usuários antigos, chamados de forma pejorativa de “craqueiros”.

“Nenhum usuário recente buscará pelo oxi. Ele é conhecido pelas pessoas que já estão bastante debilitadas pela droga original. Na falta do crack após uma longa noite de consumo, o oxi é a alternativa mais barata, e nem sempre uma escolha.”

Para Laranjeiras, a droga fresca no mercado, mesmo que não arrebate consumidores oficiais, retroalimentará a espiral de um problema crônico de saúde pública: o ineficaz programa do governo de combate às drogas.

“Precisamos de um tratamento estruturado, regionalizado. Eu defendo a idéia de não tolerar o uso público do crack. A repressão eliminaria a cracolândia, mas é preciso oferece um serviço eficaz de assistência social ao usuário, com internação, tratamento. Todos os países que permitiram o uso público se deram muito mal.”

Dados iniciais

Estima-se que a circulação do oxi no Brasil tenha começado em 2004, pelo norte do País. Índices isolados mostram que sua ação é ainda mais letal. Enquanto o usuário de crack vive de quatro a 15 anos, o oxi já matou 30 pessoas no Acre em apenas um ano de consumo.

“Talvez a gente tenha menos trabalho no atendimento, por que esses usuários morrerão antes de pedir ajuda”, prevê a diretora do Cratod.

Crack x Oxi

As duas drogas causam euforia, aumento da pressão arterial, elevam as chances de infarto e comprometem, a longo prazo, o sistema respiratório. O Oxi, por conter gasolina na composição, ainda é extreamente prejudicial ao fígado e rins, podendo provocar a falência de tais orgãos.

A coloração do crack é branca, enquanto o oxi pode ser encontrado nas versões amarela e roxa, conforme a concentração de gasolina e cal virgem, respectivamente.

"São drogas altamente destruidoras, principalmente por que os indivíduos fazem jornadas de uso sem hidratação ou alimentação. É uma exposição intensa e bombástica. Ficam emagrecidos, depauperados. Em muitos casos, o quadro é irreversível", alerta Carlos Salgado, presidente da Abead.

Comandante Negro das Matas



Paulo Fonteles Filho *

Dissera-me, certa vez, a castigada mulher de pés e mãos endurecidas pelo trabalho sol a sol com a mesma enxada de vários anos que, Osvaldão, havia, há muito, se transformado em lobo. E, mata adentro, uivando, buscava seus companheiros insurretos, esgueirando-se da onda de fogo dos fuzis inimigos.

Osvaldão adormece no fim da pista de pouso onde desciam os búfalos com generais, tropas, torturadores, funcionários das mineradoras e da CIA, em Xambioá. Há muitas lendas de como atuou, nas contendas araguaianas, o Comandante Negro das matas. Acerca de seu desaparecimento em meados de 1974 uma versão ganhou força ao longo dos anos: teria sido um sequaz do Major Curió, Arlindo Piauí?

Decerto que a versão oficial, celebrada pelas vozes da tortura, procurava dar a Arlindo Piauí os louros de matar a mais lendária figura da insubmissão araguaiana. Mas o Comandante Osvaldo fora morto por tiros de FAL, armamento utilizado apenas por militares de carreira. A versão Arlindo Piauí serviu para formar uma espécie de consciência de pistolagem que até os nossos dias continua em voga por todo o Sul do Pará.

O fato é que há muito, o famigerado Major Curió e seu círculo de pistoleiros fez crer, na região do Araguaia, que seu mais confiável bate-pau seria o responsável pelo tiro algoz em Osvaldão: credencial para a covardia do matador de dezenas de lavradores, na maioria composta por lideranças populares do Baixo – Araguaia.

O certo é que o Comandante Negro, filho da mais proletária de todas as raças lutou até apagar os olhos, com a Parabellum na mão, insubmisso, consciente da mata e dos caminhos da história.

Ocorreu em sua morte o mesmo ritual para quem, em regimes terroristas, defende e aspira a liberdade. O negro dos combates teve seu corpo içado por helicóptero e através de auto-falantes diziam ter "tirado a onça do pasto".

Sabe-se que no dia de sua morte os paraquedistas fizeram uma paranóica festa que ocasionou em sessões de tortura contra um soldado que prestava guarda. Esse mesmo soldado, como penitência, ainda teve que vigiar o corpo insepulto do combatente comunista. Falo isso porque ex-soldados assim me relataram.

Como Tiradentes, ficou exposto sobre a legenda do triunfo dos vencedores.

Tido também por Mineirão, angariou em poucos anos a confiança e a admiração das gentes simples e humildes, da Gameleira à Faveira, de Santa Cruz até Xambioá, de São Geraldo até Apinagés, de São João à São Domingos das Latas.

Conheceu as pedras pontiagudas e esverdeadas do Araguaia, garimpou na Serra das Andorinhas e em Porto Franco. Apreciando os minerais na lua metálica foi profundo como a terra silenciosa.

Foi regatão respeitado por praticar preços justos.

Mata adentro, procurou desvendar os segredos da floresta, ajudou a fazer partos e de sua boca primeira ecoou a poética do “Romanceiro da Libertação”.

Educou o povo e pelo povo fora educado, como o personagem de Lautaro, no poema de Neruda. Fez casas e roças. Teceu belas manhãs com estórias do Partido Comunista.

Fez amigos e namoradas. Caçou, amou, exortou a liberdade, foi justiceiro com aqueles que espoliavam o povo. Fez discursos à hora do crepúsculo, ensinou a arte-militar.

Foi político, mariscador, castanheiro e garimpeiro.

Filho fez também; segundo dizem, dois. Um de seus filhos, o mais novo, fora sequestrado por um militar e levado à Brasilia. Não sabemos, ainda, seu paradeiro. Ainda.

Ao pé da Serra evoluiu como vento. Mergulhou nos banzeiros minerais dos Martírios. Dormiu nas redes e se fez povo, povo da mata.

Não matarão Osvaldão porque seu feito decorre do feito de sua gente e de sua época.

O povo que lhe deu farinha e esperança, hoje lhe dá a vida nos versos e romances camponeses. A plena vida que o coração do homem ilumina.
* Pesquisador da Guerrilha do Araguaia

PF apura recrutamento de universitários em BH para buscar drogas sintéticas na Europa



Paula Sarapu


Estudantes de classe média de Belo Horizonte estão sendo recrutados para buscar drogas sintéticas da Europa e 13 envolvidos com o tráfico internacional já foram presos. Um dos identificados pela Delegacia de Repressão a Entorpecentes da Polícia Federal fez seis viagens seguidas. A venda é facilitada pelos contatos dos estudantes na internet.

Segundo a polícia, eles têm vida confortável em endereços nobres da capital, acesso à cultura e ao conhecimento em cursos do ensino superior, mas desafiam o risco de ser presos por tráfico internacional. O jovem que se envolve com este tipo de negócio, de acordo com a PF, costuma ser usuário de ecstasy e LSD e abusa das redes sociais na internet para ampliar seus contatos. Diante da prisão de 13 jovens que se envolveram com tráfico nos últimos seis meses, a Delegacia de Repressão a Entorpecentes traçou um perfil dessa garotada. Para o delegado Bruno Zampier, responsável pelas investigações, o conceito de mula, apelido de quem faz transporte de drogas, está superado e virou quase uma profissão.

O delegado informa que, no Brasil, muitos se movimentam com cargas de cocaína, como é o caso da estudante mineira de 21 anos presa semana passada em Recife. Na quarta-feira, um jovem de Florianópolis foi detido ao desembarcar no aeroporto de Confins com 33 mil comprimidos de ecstasy, um recorde na apreensão. Ele vinha de Bruxelas, na Bélgica, produtor de drogas sintéticas, como a Holanda. De acordo com Zampier, o jovem que se oferece para transportar drogas vê no tráfico oportunidade de obter vantagem financeira e de conseguir manter o próprio consumo, já que parte do pagamento é feita com comprimidos de ecastasy ou pontos de LSD.

“O perfil é de jovens entre 20 e 30 anos, filhos da classe média ou de famílias tradicionais, cooptados com a promessa de receber entre R$ 15 mil e R$ 20 mil por remessa de droga, o que na prática não ocorre. Como são usuários, eles têm acesso ao meio e muitos contatos, principalmente pela internet, nos sites de relacionamento e bate-papo. É a oportunidade de conseguir lucro fácil e drogas. Fazem por pura curtição, diferentemente do traficante do morro, que quer ascensão social e poder. Mula não é mais o coitadinho que se aventura para conseguir um dinheiro a mais. Os jovens que se envolvem fazem disso uma profissão. Chegam a fazer várias viagens como transportadores de drogas. Já identificamos um que fez seis viagens”, diz o delegado.

Haxixe

O delegado Bruno Zampier cita exemplos de jovens investigados que moravam nos bairros de Lourdes e Cidade Nova e no Conjunto Alphaville, em Itabirito. Um estudante de administração de 24 anos, do Bairro Funcionários, na Região Centro-Sul, foi preso em janeiro, no aeroporto de Confins, com 14,8 mil pontos de LSD. Ele é acusado de ser o distribuidor da droga, que vinha de Bruxelas. Outra prisão feita pela DRE foi a de um rapaz que morava com os pais num apartamento de luxo na Rua Tomé de Souza, na Savassi, e distribuía haxixe. Toda negociação era feita na porta de casa.

“São pessoas novas, inteligentes, com bom nível de cultura e até empreendedoras, embora criem negócios ilícitos. São verdadeiros Johnnys (referência ao ex-traficante João Guilherme Estrella, de classe médica alta do Rio, preso pela PF na década de 1990 e cuja história virou filme)”, lembra.

Segundo o delegado, não existe mais a figura de um grande distribuidor, pois o jovem usuário, que tem uma grande rede de contatos na internet, descobre o fornecedor e passa a fazer a distribuição em seu próprio negócio. “Muitos viajam de férias e trazem para vender em festas, aos amigos e na faculdade. Outros ganham as passagens e ficam duas semanas na Europa com tudo pago pelo fornecedor, à espera do contato e da bagagem, que já vem pronta com a droga escondida. Eles têm conhecimento e mais meios de ludibriar o trabalho da polícia”, conta o delegado federal.

Redes sociais monitoradas

Para tentar identificar os mulas, policiais da Delegacia de Repressão a Entorpecentes ensinaram técnicas de investigação aos funcionários da Receita Federal, o que resultou na enorme apreensão de ecstasy esta semana em Confins. Um grupo de agentes da delegacia trabalha exclusivamente no terminal, fazendo a triagem de passageiros. Cães farejadores são usados para fiscalizar bagagens. Há ainda policiais que se infiltram em festas e boates e monitoram redes sociais e sites de relacionamento em busca de informações sobre esses grupos.

“Observamos indícios e abordamos as pessoas. Na maioria das vezes, viajam sozinhas, compram passagens com dinheiro, pouco antes do embarque, saem por um aeroporto e voltam por outro e ficam nervosas diante dos agentes. Na rota do tráfico, que passa por todos os locais com voos internacionais, 100% do que chega é droga sintética; do que sai é cocaína.”

Zampier defende uma punição mais dura para o transportador da droga, a proibição das festas rave e ainda faz um alerta: “A sintética é a droga do momento. Vigora entre os jovens a falsa impressão de que o uso do produto não traz consequências para a saúde, o que é inverdade. Não causa dependência química, mas psíquica. A linha entre o traficante e o usuário é muito tênue”.

Estudiosa do assunto, a professora de pós-graduação do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) Regina Medeiros diz que o interesse dos jovens no tráfico está relacionado a uma característica especial da sociedade contemporânea: o desejo de consumo. Segundo ela, jovens de classe média, com mais instrução, são recrutados porque têm facilidades com outros idiomas e conhecem o funcionamento dos aeroportos. A especialista concorda que o acesso fácil à informação favorece as relações criadas na rede para este tipo de negócio.

“A classe alta quer ter mais dinheiro no banco, quer viajar mais e ter um carro melhor. E o público jovem, interessado na droga, acompanha o desejo de quanto mais se consome, mais ele acha que precisa. Isso é determinante para a escolha do caminho que seguem, mais arriscado e de ganho fácil. No campo das drogas, a internet garante ao sujeito confiabilidade para negociar com quem quiser. Ali, ele vende, compra, distribui. Não é um desvio de comportamento, é o estilo de vida da sociedade. O desvio está na ilegalidade da atividade. Acho que falta vontade política para discutir a questão e propor medidas”, avalia a professora.

Por dentro do hip hop


Por Mayara Penina

Ele tem sete livros publicados, é dono de uma livraria dedicada à literatura marginal, apresenta o quadro “Suburbano Convicto” no programa “Manos e Minas” da TV Cultura e dirigiu o filme "Profissão MC". Ele é Alessandro Buzo, vindo diretamente do Itaim Paulista, e também é conhecido como Suburbano Convicto.

Seu trabalho mais recente foi lançado há pouco, o livro “Hip Hop: Dentro do Movimento”, integrante da Coleção Tramas Urbanas da editora Aeroplano.

O Mural bateu um papo com ele sobre o projeto. Confira abaixo.

O nascimento do livro

“Eu tive a ideia de escrever o livro porque, apesar de existirem várias teses sobre hip hop, vários livros, é muita teoria. Precisávamos de um espaço para as pessoas deixarem suas percepções, mostrar como é por dentro o movimento. É muita gente envolvida, há os pessimistas, os otimistas, o pessoal da nova geração, da velha escola e todos têm muito o que contribuir para documentar esse cenário”, explica.

Dentre os quase 50 depoimentos colhidos há nomes como GOG, Thaíde, Negra Li, Dexter, Nina Fidelis, Rappin Hood, Paula Lima e Nelson Triunfo. O livro foi produzido em apenas cinco meses e, para Buzo, só foi possível porque ele conhecia muitos dos entrevistados.

Nenhuma metodologia ou linha de estudo teórico foi usada pelo escritor, tudo foi escrito de maneira muito livre. “É uma conversa de mano, um papo de botequim.”

As entrevistas foram divididas em grandes temas como mulheres no hip hop, polêmicas, origem do hip hop, grafite e mídia.

História, grande mídia e polêmica.

Alguns entrevistados falam do início do hip hop no Brasil. Dário, dono da extinta loja Porte Ilegal na Galeria do Rock (onde hoje funciona a 1 da Sul), conta como o movimento começou a se expandir em São Paulo. “Aquela loja era uma faculdade de rap. Se você ficasse um tempo lá, você aprendia muita coisa, porque aparecia rapper, DJ, grafiteiro”, diz Buzo.

"Nelson Triunfo e Thaíde contam com bastante fundamento sobre história do hip hop", complementa.

Sobre a cobertura da imprensa, Buzo afirma que “a grande mídia não sabe trabalhar o hip hop, às vezes eles acertam e às vezes erram, às vezes querem se aproximar e não conseguem. O hip hop veio da periferia, por isso quem entende essa linguagem são as pessoas da periferia e esse conhecimento as redações dos grandes jornais não tem. Há bons jornalistas, porém não sabem tratar o tema”.

Mas ressalta que também é importante estar nos grandes veículos: “Se não, vamos ficar falando para as mesmas pessoas. Só a rádio 105 FM vai tocar nossa música?”, questiona.

Segundo Buzo, estar nos grandes veículos possibilita atingir muitas pessoas, ainda que superficialmente. “Imagina você alcançar alguém que nunca nem ouviu falar de literatura marginal. Imagina como é receber ‘O Globo’ ou o ‘Estadão’ em casa e ver na primeira página do caderno de cultura um cara que escreve na periferia. É uma visibilidade que não pode ser desperdiçada”, explica.

Uma das entrevistas de maior repercussão foi a do produtor Celso Athayde. “Ele conta que entrou no hip hop pra ganhar dinheiro. Quem gosta de rap, mas só ouve Racionais MC e Rappin Hood, vai ler várias coisas surpreendentes e que vão mexer com a mente”, revela o autor.

E cadê o Mano Brown?

Alguns leitores sentiram falta de ícones do rap como Mano Brown, vocalista do Racionais MC, e questionaram o autor, que responde com o argumento que o livro está completo e tudo foi dito. “O Brown tem uma agenda muito cheia e não é muito acessível, então não o procurei. Eu cheguei em quem estava mais fácil.”

O papel social do hip hop

“Hip hop é vida. Quando um moleque dança break, por exemplo, ele é um grande beneficiado, mesmo não sendo famoso ou colecionador de prêmios, porque estando ali, ele fica longe do crime e das drogas. Eles têm uma postura diferente, são atletas e se preocupam com o corpo.

“O povo tem uma visão de que ‘os maluco é tudo doidão’, mas é todo mundo família. Hip hop é o que eu quero para o meu filho. E se eu quero para o meu filho, só pode ser bom.”

Mayara Penina, 20, é correspondente comunitária de Paraisópolis.
@emayara
mayarapenina.mural@gmail.com

Escrito por Blog Mural às 16h48

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05/04/2011

Além das memórias da Penha

Por Samantha Evangell

Lugar de manifestações culturais e religiosas, em uma pequenina e charmosa casa da década de 30, se encontra o Memorial Penha de França que mantém o acervo iconográfico do bairro mais antigo de São Paulo e encanta a qualquer pessoa que o visita.

O engenheiro Francisco Folco, que diz que não troca a Penha por nada, é quem administra, organiza o acervo e as visitações.

O memorial também é ponto de encontro entre pessoas que gostam de trocar idéias relacionadas a história, arte e entretenimento. Para quem quer aprender e ou aperfeiçoar seus talentos na área de fotografia e história da arte, no local também são ministrados alguns cursos livres muito acessíveis.

O memorial é estimado pela comunidade, tanto pelos mais novos moradores quanto pelos mais antigos. Promovendo ações de valorização do patrimônio histórico e cultural da Penha de França, o local não só guarda histórias, mas também constrói sua história na região.

Samantha Evangell, 23, é correspondente comunitária de Cidade Tiradentes.
@Sam_Evangell
Samantha.mural@gmail.com

Escrito por Blog Mural às 20h33

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04/04/2011

Dor crônica: não há heróis aqui

Por Leandro Machado

7h56: Cheguei cedo ao Hospital Regional de Ferraz Vasconcelos. Sei que, para ser atendido rapidamente no Sistema Único de Saúde (SUS), o melhor mesmo é ir antes das 10h. Tenho pedras nos rins: sinto dores de bomba atômica. Na entrada do hospital, pego a senha para preencher a ficha de pacientes. Para isso tenho de esperar até que meu número, o 439, seja anunciado no visor. O último paciente chamado quando cheguei era o 351. Há 88 pessoas à minha frente.

8h: Sento-me em uma das cadeiras da sala de espera. Não há muitas, aliás. Pelo menos não o bastante para que todos se acomodem. Por isso as pessoas mais velhas ou com mais dores são priorizadas. Como eu me encaixava no perfil, permaneci na cadeira. Vi uma mulher com conjuntivite (doença da moda!) se levantar para dar lugar a uma senhora com dores na barriga.

8h23: Uma mulher pede dinheiro aos outros pacientes. “Um real, por favor, não tenho dinheiro para comprar meu remédio”, diz ela. Ninguém dá (ou ninguém tem).

8h40: Sou chamado para preencher a ficha. A recepcionista me pergunta o nome, o endereço, o telefone etc. Em seguida sou encaminhado para o setor de triagem, onde medem minha pressão. Mas a coisa não é tão rápida: só entro na sala depois de enfrentar uma fila de 10 minutos.

9h10: Sinto que meus rins vão explodir. Tenho uma bomba dentro de mim e não sei bem o que fazer com ela. Chamo minhas pedras de “Rolling Stones”, pois elas migram de um rim ao outro. No ano passado, elas estavam no direito; agora, no esquerdo. Há pedras, mas não há caminho que não seja um Buscopan na veia.

9h30: Algumas pessoas se revoltam com o atendimento do hospital. Cria-se uma pequena confusão. Uma mulher diz que, mesmo chegando às 7h, ainda não tinha sido atendida, enquanto outros foram chamados em menos de 40 minutos. Um senhor reclama que sua ficha sumiu: chegou às 6h30. Pacientes e funcionários discutem em voz alta. Uma funcionária diz que as pessoas com conjuntivite serão priorizadas.

9h53: Depois da discussão, algumas mulheres vão à ouvidoria para reclamar. Apenas um médico faz o atendimento de, pelo menos, 150 pessoas. Para minimizar a demanda, o consultório permanece com as portas abertas. Realmente, abrir e fechar a porta toma muito o tempo do médico. Imagina, se ele fizer isso com todos os pacientes, a situação vai piorar: talvez todos morram de dor ou desespero.

10h12: A única coisa boa de hospital é descobrir que você não é o único doente do mundo. Há pessoas piores que você! Há dores piores que a sua. Olha essa gente morrendo nas cadeiras e você aqui reclamando de umas pedras no seu rim? Cadê a solidariedade, companheiro? Não se revolte, pense que o mundo está doente enquanto você exagera nessas páginas de bloquinho.

10h31: Levanto e vou ao banheiro. Qual é a surpresa? O banheiro está desativado. Se não há médicos, seria demais esperar que houvesse banheiro, né? Penso em explodir esse hospital com as bombas empedradas no meu rim. O José Alencar seria um herói se dependesse do SUS?

11h02: Sou chamado, três horas depois de chegar. Antes de entrar, enfrento mais um fila de pacientes. À minha frente, duas pessoas com a doença da moda. Meus olhos coçam ou será imaginação? Entro na sala e faço questão de fechar a porta. “Pode deixar aberta”, pede o médico. “Prefiro fechada”, digo. O atendimento dura três minutos, aproximadamente. Há um tempo a cumprir, uma papel a despachar... Não tem heróis aqui: vá embora e morra em casa, companheiro!

Ilustração: Daniela Araujo

Leandro Machado, 22, é correspondente comunitário de Ferraz de Vasconcelos.
@machadoleandro
lmachado.mural@gmail.com


Exclusiva com Emicida: da Cachoeira para a Califórnia


Por Indira Nascimento

“Os repórteres dizem que eu sou um fenômeno, eu amo! Mas as ruas sabem que sou só mais um mano...”

Fotos: JR Furlan

Leandro Roque Oliveira, 25, nasceu na Vila Zilda, zona norte de São Paulo, mas foi criado no bairro da Cachoeira. Ganhou fama nas disputadas batalhas de MCs São Paulo, onde permaneceu imbatível durante muito tempo. EMICIDA (que são as iniciais de “Enquanto Minha Imaginação Compor Insanidades Domino a Arte”), como ficou popularmente conhecido, já tem duas mixtapes gravadas e mais de 10 mil cópias vendidas.

O ano de 2010 foi sem dúvida um ano especial para o rapper. Além de ter lançado o segundo trabalho, fez shows por quase todo país, participou dos programas de entrevistas na TV, foi indicado a prêmios, gravou com NX Zero e se tornou pai da pequena Estela. O que já estava bom, parece que vai ficar ainda melhor.

Neste ano, Emicida foi convidado para participar do Coachella Festival programado para acontecer em abril na Califórnia. E é também presença garantida na próxima edição do Rock in Rio, em setembro, em Jacarepaguá.

Seu ar de “bom moço” conquista ainda mais os fãs, que lotam os shows cantando fielmente todas as músicas, verso a verso. Sua popularidade nas redes sociais também é espantosa. Seu primeiro vídeo clip, “Triunfo”, já tem mais de novecentas e cinqüenta mil visualizações no Youtube.

Emicida também ataca de repórter do programa “Manos e Minas”, da TV Cultura, e administra com seus parceiros sua própria empresa, a Laboratório Fantasma, de onde comandam toda sua “operação musical”.

Abaixo, trechos da entrevista com Emicida.

Leandro, você é um grande contador de histórias. Tanto na primeira como na segunda mixtape a gente consegue perceber isso. Quando você tomou consciência da sua missão, ou da sua responsabilidade em ser um contador de histórias?

Desde a escola eu tinha o hábito de desenhar, fazia histórias em quadrinhos fanzines, e comecei aprender a fazer roteiros. Acho que vem daí essa parada de contar histórias, de sempre ter um começo, meio e fim... Mas é sempre do meu jeito. Às vezes não é tão linear, às vezes não é tão didática, às vezes é confuso pra caramba. Gosto de encher de referências e tentar passar alguma sensação para as pessoas _as sensações são muito mais importantes que as informações. Acredito que é isso que mexe com as pessoas.

Os convites para participar do Coachella e do Rock in Rio foram uma surpresa?

Uma das coisas que deixam a gente mais feliz é isso mesmo, a reação de surpresa das pessoas, do tipo, “caramba, os caras tão nas paradas”...

Quem são as mentes pensantes do Laboratório Fantasma?

Então, agora trabalham aqui eu, Fióti, Mundico, Alex, Tiagão e Dj Niack. São seis cabeças aqui dentro todo dia. Isso aqui é nosso trampo! Eu acho até “da hora” poder falar disso por que as pessoas ficam escondidas atrás de “as coisas não dão certo, as coisas não são possíveis”... Mas não existe esse bagulho de sorte. Existe você trampar até fazer a coisa andar. Eu lembro quando eu falei para vários caras do rap: vou lançar a primeira mixtape, vou fazer na mão, 25 músicas pra vender a 2 reais... Ninguém acreditou. Fiz, lancei, passaram seis meses e eu nunca tinha visto tanto dinheiro na minha vida (risos)...

E hoje, a renda de vocês já vem toda da música?

É, a gente fez o CD, vendeu à beça, conseguimos abrir nossa empresa. A gente trabalha nela diariamente, a gente viaja, a gente toca, a gente gerencia tudo isso. Fióti vai comprar até um carro... (risos) O Tiagão fica aqui exclusivamente pra cuidar das questões contratuais, Mundiko e Alex também ajudam muito.

E essas são as pessoas que estão com você desde o começo?

Sim. Eu não preciso aqui dos melhores do marketing ou das vendas. Esses caras vão vir com uma cabeça que não se encaixa à minha realidade. Tudo que a gente tem feito aqui é para um mercado muito novo. Essas pessoas não conseguiriam compreender como é trabalhar na venda de CD de rap, diretamente para o público e potencializar isso de uma forma que traga as pessoas de fora para consumir também. Então, minha filosofia é pegar as pessoas pelo amor que elas têm por isso, e pela disposição que elas têm em trabalhar...

E a sua família, o que pensam de tudo isso?

Minha mãe vai aos lugares e as pessoas falam com ela, ela acha ótimo. No inicio ela até acreditava, mas não botava muita fé, por que meu pai era DJ e teve muitos problemas com bebida, ele morreu disso. Ela tinha medo de a gente seguir no mesmo caminho. E ela fala na maior simplicidade “ agora vocês vão pra Califórnia, né?”... Como se fosse pra Praia Grande...

Como está a expectativa de tocar no Coachella?

Tocar num festival grande lá fora é demais! Vários nomes grandes e a gente indo tocar com os caras. Tocar fora do Brasil é começar do zero, né? E ainda tem o adicional que eles não entendem uma palavra do que a gente canta, então...

E quais os planos pro resto do ano?

Filmar mais vídeos, o clip da rua Augusta foi uma experiência inacreditável! A gente gosta muito de fazer clip, embora seja muito caro e dê muito trabalho. Quero gravar também mais dois discos, um com Macaco Bong, que já está confirmado, e outro sozinho. Quero estudar mais também esse ano, fazer conservatório.


Mais informações:

www.laboratoriofantasma.com

Twitter @Emicida

Indira Nascimento, 22, é correspondente comunitária da Casa Verde.
@SantosIndira
indira.mural@gmail.com

Grafite por toda a parte


Por Daniela Araujo

A cena do hip hop em São Paulo é forte, e vem conquistando um dialogo e respeito muito grande na cidade, saindo das periferias e conquistando seus espaços no centro. Dentro desse movimento, existem as militâncias, que são representadas por cada “personagem”, como o grafite, o break, o MC e o Dj.

Um dos berços do movimento foi a Casa do Hip Hop em Diadema, que foi criada pela necessidade dos jovens se organizarem para obter espaços para ensaios, encontros, oficinas e workshops específicos. Foi, portando, um espaço conquistado por meio da organização da população. Esse movimento se espalhou e hoje paulistanos são referência do grafite brasileiro, o que atrai muitos artistas de outras cidades e países em busca de um muro para deixar a sua marca nessa grande metrópole.

A arte se espalha pela cidade, e na zona leste chegou com força total. A Mostra de Cultura Urbana, que aconteceu em São Miguel Paulista em novembro, trouxe grafite, skate, b.boys (de “breaker boy”) e b.girls (de “breaker girl”) para a zona leste da cidade de São Paulo. “Nossa idéia é incluir a arte onde ela não existe”, justifica João Paulo Alencar, 26, ou Todyone, como é conhecido um dos artistas idealizadores da mostra.

Durante o evento, 180 artistas preencheram 2,5km de muro da CPTM na rua Papiro do Egito, em São Miguel Paulista. A Suvinil, por meio do artista Rui Amaral, um dos parceiros, doou 2.500 latas de sprays e 80 latas de 18 litros de látex. “O legal foi incluir a comunidade na pintura, ou seja, não precisava ser grafiteiro para pintar, você pegava a tinta, os pinceis, os sprays e os rolos e pintava”, conta Todyone.


Confira a entrevista ao Mural do b.boy e grafiteiro Todyone:

Como iniciou seu trabalho com grafite e artes visuais?

Eu já desenhava desde cedo. Mas quando comecei a ver o desenho de uma outra forma, procurei uma oficina de grafite em Diadema, na Casa do Hip Hop, onde fiz oficina com o Chorão, do AVcrew, e comecei a pintar.

E como virou b.boy?

Como eu já era capoeirista, peguei o bonde de fazer oficina de break em 1999, com a Banks Back spin crew, fiz algumas aulas e aí comecei a treinar break e a grafitar. Em 2001, um trabalho meu foi parar na revista “Rap Brasil” e, em 2002, entrei para o grupo Estilo de Rua Crew STILO DE RUA CREW, onde fomos campeões de destaque do break (Prêmio Hutús de hip hop promovido pela Central Única das Favelas (Cufa) e prefeitura da cidade do Rio de Janeiro, em 2004 e 2007). Daí começaram os convites para participação em filmes, documentários e programas de TV.

E hoje, como você trabalha com esses dois elementos do hip hop, o break e o grafite?

Ministro oficinas dos dois, em vários locais da cidade. E sou professor de artes e break na ONG Centro Infanto Juvenil de Acolhida Santo Agostinho.

Daniela Araujo, 24, é correspondente comunitário de Interlagos.
@danidollskt
danielaaraujo.mural@gmail.com

Arte para morar


Por Mayara Penina

“Foram vendidas nove casinhas, o que já é quase suficiente para construirmos uma casa de verdade”, diz Mundano, grafiteiro e curador da exposição “Teto e Tinta, Pintando e Construindo Sonhos”. Aberta no início de novembro no bar Kabul, no bairro da Consolação (zona central de São Paulo), o evento é uma parceria entre a ONG “Um Teto para meu País” (UTPMP, presente em 15 países da América Latina) e artistas urbanos de São Paulo.

“É um verdadeiro exército de cidadãos que cansou de esperar as promessas de nossos governantes e quer colocar a mão na massa”, diz Mundano.

O objetivo da organização é mudar a situação de pobreza em que vivem milhões de pessoas por meio da construção de casas emergenciais e execução de planos de habitação social para estruturação de comunidades sustentáveis. No Brasil, desde 2006, já foram construídas mais de 380 casas. Os “voluntários-arquitetos” são recrutados nas universidades da cidade de São Paulo. Os recursos para construção provêm de parcerias com organizações públicas e privadas.

A mostra “Teto e Tinta, Pintando e Construindo Sonhos”, que termina nesta semana, reúne miniaturas inspiradas nos modelos das casas construídas pela ONG. As casinhas foram customizadas para poderem ser usadas como cofrinho e são vendidas entre R$ 50 e R$ 1.000. Toda a renda obtida será revertida para a compra de materiais para futuras construções da organização.

Segundo Joana Ricci, da UTPMP, “o conceito é unir diferentes públicos que possuem o mesmo interesse de ajudar as famílias que vivem em condições precárias”.

Para saber mais sobre o trabalho, visite:

www.umtetoparameupais.org.br

http://www.youtube.com/user/canalTETO

O cinema chega ao Capão


Por Cíntia Gomes

Na manhã do domingo passado (17/4), o Cine Araújo no Shopping Campo Limpo estava lotado para a pré-estreia realizada na periferia da zona sul de São Paulo. O filme era "Bróder", que relata a história de três amigos de infância que nasceram e cresceram na comunidade do Capão Redondo. Para assistir ao filme estavam presentes o elenco, produção e a imprensa, mas o que deixou a sala do cinema completa foi a presença dos convidados especiais, os moradores da comunidade.

Cena do filme "Bróder"


O bairro do Capão Redondo é uma área com alto índice de favelas, em que moradores de baixa renda não têm como oferecer acesso a lazer e cultura aos filhos. Ir ao cinema é complicado, pois pagar de R$ 12 a R$ 16 por pessoa representa tirar o dinheiro do alimento ou das contas para pagar _ o cinema acaba saindo muito caro ou inacessível.

O diretor de "Bróder", Jeferson De, estava com muita expectativa com essa pré-estreia. “Foi uma manhã especial. Muitos dos convidados eram moradores do Capão e estavam pela primeira vez indo ao cinema. Nós não sabíamos qual seria a reação da comunidade ao ver seu bairro, sua história no filme. Mas eles ficaram emocionados com a realidade que conseguimos passar no filme. Foi uma experiência coletiva e humana única, foi mágico”, contou.

Segundo Marcelo Alemão, 40, líder comunitário do Capão, a gravação do filme mostra o crescimento da comunidade, traz o sentimento de não ser esquecido. “A experiência para nós de estar no cinema no domingo, não foi apenas de assistir a um filme, e sim de ver passando ali na tela nossa vida, que não foca apenas na região violenta, mas fala a realidade de quem vive aqui”, disse.

Bastidores das filmagens no Capão



Após o término da sessão, o ator Caio Blat comentou que recebeu um depoimento que o marcou muito. “Uma mulher se aproximou toda sorridente e me pediu para tirar uma foto. Ele disse que a fiz chorar com minha entrega no filme, que havia perdido o filho há dois meses e que ela viu sua história ali. E, com o sorriso, tirou a foto. Aquele sorriso e aquele depoimento... vou levar comigo.”

A casa onde foi gravado o filme era da moradora Silvana Marques, 28. “Na minha casa foi criado um cenário, mas muita coisa ficou do jeito que era. O filme é importante porque as pessoas se acostumaram com o preconceito, de que são excluídas. Levar nossa história ao cinema foi grandioso para nós.”

Pre-estreia no Shopping Campo Limpo


Já dona Rosalina Pasinato de Oliveira, 77, é benzedeira e moradora do bairro há mais de 30 anos, e contou que quando chegou no bairro tinha muito mato, não tinha nem água e nem luz, tinham apenas uns 20 barracos, mas com o tempo foi aumentando. “Tanta coisa mudou, hoje está muito bom morar aqui.” Mais conhecida como dona Rosa, ela fez parte do elenco do filme como outra benzedeira, a dona Brisa. “Fiquei muito feliz de participar do filme, nunca fui ao cinema, meus filhos e netos sei que já foram, mas eu fui pela primeira vez na pré-estreia e adorei."

Para quem vive na periferia, o filme não traz nenhuma novidade, mas mostra muitos detalhes e assuntos que muitas vezes são deixados de lado.

O filme retrata muito bem nossa realidade. Na periferia há famílias, afeto, amizades, crianças que sonham em ter sucesso, em ter uma profissão. "Aborda diversos assuntos como gravidez na adolescência, drogas, preconceito, que também fazem parte do nosso cotidiano", afirma Paulo Magrão, 46, vice-presidente da ONG Capão Cidadão e que ajudou na produção do filme na comunidade.

Caio Blat e a garotada do Capão


“No crime, a pessoa tem dois caminhos: ou morre ou é preso. Então é um filme de reflexão. Acredito que é preciso investir em educação e assim diminuir ainda mais o índice de criminalidade. Falta estrutura para aprimorar, melhorar as oficinas, descobrir mais talentos do bairro e assim oferecer bons cursos para as crianças e jovens da periferia. Nosso maior retorno não é financeiro, e sim o sorriso e o agradecimento das crianças”, completa Magrão.

"Bróder" estreiou em circuito comercial nos cinemas de São Paulo ontem, dia 21/4.

O diretor Jefferson De (ao centro) e o elenco do filme


Cíntia Gomes, 27, é correspondente comunitária da Riviera Paulista.
@cintiamgomes
cintiagomes.mural@gmail.com

“Navio Negreiro” nas mãos de um rapper

Por Indira Nascimento

“Fiquei um bom tempo sem lançar nada, mas agora veio tudo de uma vez”, Slim.

O rapper Slim Rimografia, veterano da cultura hip-hop, iniciou sua carreira como b-boy, passou pelo grafite e, hoje, é um dos nomes mais lembrados e respeitados do freestyle brasileiro. Como MC tem três discos lançados: “Financeiramente Pobre” (2003), “Introspectivo” (2006) e “Mais que Existir” (2011), com Thiago Beats.

Após cinco anos sem lançar composições, o artista amadureceu e percebeu que a paixão pela música e a veia artística ainda pulsam forte em seu peito. Ritmo e poesia estão mais presentes do que nunca na vida e na carreira de Slim. “O convite para escrever o livro surgiu nesse período e foi um grande desafio”, conta.

Seu livro será lançado nesta sexta, 6/5: “Navio Negreiro”. Uma adaptação musicada do poema de Castro Alves, que marcou a história da literatura brasileira.

O Mural conversou com Slim sobre sua recente produção. Leia trechos abaixo.

Fotos de Luma di Paula

Como surgiu a ideia do livro?

Foi um convite da editora Panda Books, que surgiu em um dos saraus astronômicos lá no centro Cultural Vergueiro. A Tati [da editora] conheceu meu trabalho e as rimas e falou que tinha vontade de fazer alguma coisa.

E a música como surgiu?

A ideia da música surgiu depois, eu criei um refrão e modifiquei poucas coisas do poema original. Foi mais para ser um segundo material mesmo.

A música tem a participação de uma figura importante do sarau da Cooperifa, que é a dona Edite. Como aconteceu essa parceria?

Num pedaço da música tem um trecho do texto original do poema do Castro Alves, que quando eu comecei a escrever a composição já pensei na dona Edite. Eu queria alguém que conseguisse trazer a mesma energia, a mesma emoção. Daí eu a convidei e ela ficou super feliz. Ela já sabia esse poema de cor, foi muito legal!!!

E como os interessados podem ouvir a música?

A canção vai estar disponível no meu site e no site da editora. A ideia da música é que, assim como o livro, as pessoas possam guardar. Além disso, os dois materiais foram feitos para serem trabalhados em sala de aula, nas escolas.

Castro Alves quando escreveu o poema Navio Negreiro era um jovem assim como você. Qual a relação entre vocês?

Acho que a poesia transcende tudo, ela conecta pessoas, conecta o tempo. Eu acho que não existe idade para um poema, eu fico sempre pensando nisso. O poema pode ter 200 anos, mas para quem esta lendo é novo. Acredito que arte tem esse poder. Eu fico pensando o que será que motivou o cara a escrever aquilo e relaciono com o que me motivou a reescrever também. E pode ser que daqui a 100 anos alguém também faça uma releitura do meu poema. A pessoa pode comprar esse livro em algum sebo, e entender o que acontecia com a gente. Como a gente faz quando lê o poema do Castro Alves, e entende um pouco do que aconteceu naquele tempo.

http://www.4shared.com/audio/DcqZeLBi/Slim_Rimografia-_Navio_negreir.html

Polícia apreende 60 kg de nova droga

Polícia apreende 60 kg de nova droga


DA ENVIADA ESPECIAL A RIO BRANCO (AC)
DE SÃO PAULO

O Denarc (departamento de narcóticos), da Polícia Civil de SP, apreendeu neste ano cerca de 60 kg do oxi, um novo tipo de droga feita com a pasta base de cocaína em forma de pedra oxidada, mais barata e mais letal do que o crack, com traficantes que atuam na região da cracolândia, centro da capital.


Segundo o delegado Reinaldo Correa, a droga é facilmente confundida com o crack e, justamente por isso, hoje, os policiais do Denarc têm recebido treinamento para distinguir uma da outra.

"O oxi, quando queimado, deixa um resíduo de óleo. O crack não. Muitas vezes se apreende oxi e por ser uma droga ainda desconhecida, se pensa que é crack", afirma Correa.

A matéria-prima do oxi são folhas secas do arbusto Erythroxylum coca, cultivado na Bolívia, Peru e Colômbia. No preparo, os traficantes utilizam ácidos, querosene e oxidantes (daí o nome), que "empedram" a pasta base.

Além da capital, a polícia paulista também já apreendeu oxi em Santos, no litoral do Estado. Em São Paulo, a pedra de oxi chega a ser vendida por R$ 2.

O oxi já está se espalhando na Amazônia. No Acre, que faz fronteira com os países produtores, Peru e Bolívia, a droga é conhecida desde a década de 1980.

Nos últimos anos, porém, os usuários passaram a fumar o oxi em cachimbos como os usados com crack -antes, a droga era diluída e misturada à maconha.

Em 2005, pesquisa do Ministério da Saúde e da Aredacre (Associação Acreana de Redução de Dano) deu o alerta sobre a disseminação do oxi no Estado.

CIRCULAÇÃO LIVRE

Por dois dias, a Folha esteve em Rio Branco e encontrou traficantes oferecendo a pedra de oxi por R$ 5. O movimento de pessoas fumando a droga nas ruas é restrito. Há, no entanto, jovens de classe média entre elas.

Nos últimos dois anos, a Polícia Federal do Acre apreendeu 1,4 tonelada da droga. De acordo com o delegado Maurício Moscardi, a droga entra por cidades de fronteira como Brasiléia (com a Bolívia) e Cruzeiro do Sul (com o Peru).

ÍNDIOS

A Polícia Civil do Amazonas diz que o oxi chegou à região há menos de dois anos. Indígenas estão sendo usados por traficantes como "mulas" para transportar pequenas quantidades da droga que serão vendidas.

No mês passado, uma índia foi presa com 600 gramas de oxi em Humaitá (AM).

Profissionais de saúde atuam nas ruas de Manaus e Belém atrás de usuários de oxi. "Saímos à procura deles para evitar que se chegue a "oxilândias'", diz a psicóloga Ane Louise Michetti, que participa de ação do Ministério da Saúde com usuários.

p(tagline) KÁTIA BRASIL e ANDRÉ CARAMANTE