O Brasil, o aborto, as mulheres





Escrito por Cassiano Terra Rodrigues

Qual é o primeiro direito fundamental de uma pessoa? O direito à vida? À liberdade? À propriedade? Segundo John Locke, nenhum deles. O primeiro direito humano fundamental é o direito de cada indivíduo sobre sua própria pessoa: seu corpo, sua mente, seus nervos e músculos. Muito já se falou sobre os direitos humanos, mas muito mais ainda pode ser falado. Após mais de três séculos de experiência histórica, hoje em dia parece que a acusação de que os direitos humanos são direitos burgueses, conservadores e anti-sociais precisa ser matizada. Hoje em dia, é fundamental lembrar que no contexto de desigualdade social e privatização das relações no mundo globalizado, a defesa dos direitos humanos como direitos públicos é também uma defesa da justiça social.

Esse é um bom mote para falar do documentário O Aborto dos Outros, que estréia comercialmente no próximo dia 05/09. Ganhador de merecida menção honrosa do júri do festival É Tudo Verdade de 2008, o filme recoloca na pauta do dia a discussão sobre o aborto no Brasil; mas não apenas recomeça uma velha e espinhosa discussão, antes, ela é proposta em outros termos, isto é, em termos que nem sempre aparecem de maneira clara ao grande público.

Em primeiro lugar, é lamentável termos de comemorar que só recentemente nossos hospitais públicos começaram, com o Programa de Aborto Legal, a respeitar uma lei que data de 1940: o aborto é direito das mulheres em caso de estupro e risco de vida da gestante, além de judicialmente ser concedido em certos casos de má formação do feto. Todavia, a maioria dos abortos brasileiros ainda acontece na clandestinidade, nas casas ou em clínicas particulares, fazendo com que o aborto no Brasil exista de fato não só para os casos previstos em lei: são mais de 1 milhão de abortos por ano, para quem pode ou não pagar por bom atendimento médico. Contudo, para quem não pode pagar, as conseqüências de um aborto clandestino geralmente são trágicas.

Em segundo lugar, o filme desnaturaliza a idéia da maternidade, inserindo a discussão no contexto social da mulher brasileira. Nunca é demais lembrar que a maternidade não é simples fato natural, mas conseqüência de relações sociais: ninguém engravida simplesmente por ter nascido mulher. Ora, o filme deixa claro que a violência não se dá somente na forma de violência física (portanto, supostamente natural), mas também na forma de privação dos direitos civis: seja pela má-vontade, preconceito ou até mesmo ignorância dos funcionários da burocracia, seja pela condição de pobreza da maior parte da população, seja pelo machismo dominante. Ou por tudo isso junto.

Uma cena é reveladora: ao serem atendidas pela psicóloga num hospital público, mãe e filha vítima de estupro relatam que o escrivão da delegacia que registrou a queixa não lhes informou dos direitos civis (ou seja, garantidos em lei) da filha, mas, ao contrário, disse que "é difícil", que "não sei não", que "isso é complicado", "melhor desistir"... Ou coisa assim. Onde, então, mora a violência – só no bairro pobre onde vivem as duas? Quem é o violentador – só o estuprador?

Voltemos a Locke. A afirmação dos direitos fundamentais do indivíduo implica também um dever: a afirmação dos meus direitos como pessoa imediatamente exige dos outros que reconheçam minha condição humana fundamental, independentemente de crença ou pertença social, política ou religiosa. Lembrando disso, talvez o maior mérito do filme seja deixar as próprias mulheres falarem. Pois, no Brasil, o debate sobre o aborto é demasiadamente pautado pelos pontos de vista da religião, do Estado, ou da sociedade (por mais abstrato que isso seja); raramente a perspectiva das próprias mulheres é considerada, freqüentemente lhes é tolhida a possibilidade de expressar o que sentem, pensam, desejam; outros falam por elas, em vez delas.

Só revertendo nossa situação será possível garantir às mulheres aquilo que lhes pertence de direito, seja ele civil ou natural: o direito de serem ouvidas, tratadas e consideradas como pessoas que são, sujeitas de suas próprias vidas.

Cordiais saudações.

***

Nota 1: Mais informações sobre o filme, aborto, legislação, direitos humanos etc. no sítio virtual: [www.oabortodosoutros.com.br].

Cassiano Terra Rodrigues leciona filosofia na PUC-SP, apóia a descriminalização do aborto e sonha com o dia em que nenhum aborto mais será necessário.

Cartola ou a linguagem das rosas





Escrito por Maria Clara Lucchetti Bingemer

Tudo e todos fazem centenário neste mágico ano de 2008. Também Cartola, Agenor de Oliveira, carioca nascido em 1908 no bairro mais do que carioca do Catete e fundador da Estação Primeira de Mangueira, glória absoluta do carnaval carioca e do samba brasileiro. E, mais importante, autor de "As rosas não falam" e de inúmeros outros sambas de impressionante beleza.

Agenor pequeno ainda, a família pobre passou por dificuldades financeiras consideráveis e teve de se mudar para o que então era um começo de favela no morro da Mangueira. Ali, Cartola encontrou Carlos Cachaça, com quem trocava sambas quando não trabalhava de servente de pedreiro, usando um chapéu coco para proteger o cabelo do cimento que caía. E imediatamente veio o apelido: Cartola.

Em 1928, o bloco por ele reunido de amigos que encontrou no morro fundou a Estação Primeira de Mangueira, a verde-rosa, nome e cores escolhidos por Cartola, que compôs também o primeiro samba, "Chega de demanda". Começava verdadeiramente sua carreira de sambista, sob as cores da Estação Primeira, grande amor de sua vida. Nos anos 30, teve canções gravadas por nomes ilustres como Chico Alves, Mário Reis, Sílvio Caldas e Carmem Miranda.

Mas durante a década de 40 Cartola sumiu de circulação. Viúvo, teve depressão braba com a morte da mulher Deolinda. Combalido, pegou meningite e quase morreu. Foi encontrado lavando carros por Sérgio Porto, o imortal Lalau, que o resgatou e o devolveu à sua vocação. Levou-o ao rádio, incentivou-o a compor novos sambas e o colocou de novo nos ouvidos e coração dos brasileiros, como representante máximo do samba.

Foi aí que Cartola encontrou Dona Zica, viúva como ele e como ele amante do amor. Casaram e foram muito felizes. Sob a inspiração de Zica, compôs seus mais belos sambas, impregnados de uma poesia profunda e sofisticada. Para quem só tinha o curso primário, a poesia de Cartola é um fenômeno que ultrapassa a simples e direta compreensão.

Ah, senhores, é obstinada a musa, entrega-se a quem quer e só aos que elege. Assim foi com Cartola, Agenor de Oliveira, servente de pedreiro e pouco letrado. Foi-lhe dado conhecer os segredos da poesia e o enredo das palavras. Sob a inspiração de seu violão, falava tudo: homens, mulheres, natureza, cidade e rosas. Mas as rosas não falam, não é isso que Cartola disse em seu imortal samba?

Pois bem, se como dizia Gertrude Stein "uma rosa é uma rosa é uma rosa", a partir de Cartola as rosas falam, sim, senhor. Falam e dizem coisas das quais até Deus duvida. O ouvido de poeta de Cartola, banhado pelo amor de Dona Zica, escutou a linguagem das rosas. Linguagem não feita de palavras, mas de cheiro, de odor, de perfume roubado da amada, falando dela e só dela.

Linguagem maior se quer? Que linguagem? Que palavras? Se o próprio do poeta, mago das palavras e da linguagem, é decifrar segredos que ninguém conhece e decodificar linguagens para todos desconhecidas? Se o poeta, mais que tudo, entende de amor e as rosas só disso podem falar, pois beleza e amor são intimamente aparentados?

Pois perfume é linguagem sim, e das mais elaboradas e mais eloqüentes. E é isso que diz Cartola, contradizendo-se poeticamente, após afirmar que "as rosas não falam. Simplesmente as rosas exalam o perfume que roubam de ti." A escrita das rosas, a fala das rosas, é o perfume da amada que deixa rastro e a tudo faz cheirar bem. Perfume aparentado ao que a pecadora que invadiu o banquete do fariseu espargiu sobre os pés de Jesus de Nazaré.

Assim falam as rosas, como ensina mestre Cartola. Sem pedir licença, com a linguagem que bem desejam. Que pode não ser na forma de palavras, mas de perfume. Do outro lado da vida, Cartola não se queixa mais às rosas, pedindo-lhes explicação para a dor e o sentimento do mundo. Para ele, as rosas falarão eternamente e jamais se calarão. Amém!

Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio e autora de "Deus amor: graça que habita entre nós", e outras obras.


A quem interessa os massacres nas favelas?






A tristeza causada pelas vítimas inocentes na guerra que a Polícia trava com o crime organizado nas favelas do Rio de Janeiro bloqueia a análise da extraordinária gravidade do fenômeno, a partir de um ângulo essencial: a deterioração do Estado brasileiro.

Mas esta análise precisa ser feita, se se deseja, de fato, solucionar o problema do crime organizado.

Nas sociedades civilizadas, apenas o Estado pode exercer violência física contra as pessoas, desde que autorizado pela lei. Somente esse "monopólio da violência legal" - materialização da soberania do povo sobre todo o território nacional - assegura a prevenção e a repressão do crime.

É bem verdade que esse monopólio tem sido solapado pela existência aberta de seguranças particulares - uma anomalia que se instalou no país para garantir a segurança dos que têm meios para financiá-la.

Mas agora esse monopólio está seriamente ameaçado pelo poder de fogo dos grupos criminosos. Esse poder chegou a tal ponto que, na verdade, o crime organizado constitui o Estado em algumas partes do território nacional. Ele dá as ordens à população favelada e policiamento nesses lugares só por meio de operações militares.

Este problema não será resolvido nem ocultado com medidas de endurecimento da repressão ou aumento das prestações assistenciais à população das áreas sob controle do crime.

Somente uma transformação profunda na própria estrutura do Estado que fracassou no combate ao crime criará condições para extirpar o câncer.

As camadas sociais de rendas mais elevadas não querem nem ouvir falar em reestruturar o Estado que mantém seus privilégios e faz vista gorda para seus abusos. As camadas mais pobres não chegam a perceber a dimensão maior do problema e o mais que fazem - quando fazem - são protestos inócuos ou reivindicações de mais policiamento. Isto contribui apenas para prolongar a guerra.

A atual geração dos bem de vida - a que tem condições objetivas para gerar imediatamente um projeto de transformação desse Estado conivente com o crime - será cobrada pelo seu egoísmo e insensibilidade.

Tamanha insensibilidade nos leva a supor que uma batalha campal, como a que se travou nesta semana, não constitui uma ação destinada a acabar com o crime organizado, uma vez que nem sequer os policiais duvidam da impossibilidade de eliminá-lo dessa forma. Todos sabem que os doze traficantes mortos na batalha logo serão substituídos por outros.

Então por que se insiste?

A hipótese a ser analisada pelos que se dispõem a encarar o problema com seriedade é que essa extraordinária violência policial tem, na verdade, um conteúdo político: a sem cerimônia com que a Polícia mata inocentes nessas batalhas campais mostra aos favelados que eles serão massacrados se ousarem se rebelar contra a ordem estabelecida pelas camadas superiores da sociedade. A indiferença dessas camadas, cuja intervenção poderia por fim à impunidade dos policiais responsáveis por esses massacres, sanciona essa amedrontadora mensagem.

A guerra polícia-bandidagem não passa de uma forma primitiva e perversa de luta de classes e só por este ângulo poderá ser resolvida.

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A armadilha eleitoral










Com oito candidatos para escolher, o eleitor paulistano não tem por que reclamar de falta de alternativas para dar seu voto na eleição para prefeito de São Paulo. No Rio de Janeiro, em Porto Alegre, na maioria das cidades grandes e em grande número das médias e pequenas, os números são parecidos.

No entanto, uma análise rigorosa mostrará que, de fato, só existem duas propostas na praça: de um lado, as propostas dos "partidos da ordem", talhadas para não entrar em choque com os interesses do grande capital monopolista; de outro lado, as propostas dos partidos de esquerda, cujas soluções balizam-se pelos interesses da classe trabalhadora.

Contudo, o eleitor encontrará grande dificuldade para discernir entre umas e outras porque a burguesia dispõe de um aparato de mídia que dificulta a percepção das diferenças.

O formato dos programas de debates entre os candidatos faz com que o confronto entre as propostas dos candidatos gire exclusivamente em torno de soluções ditas "técnicas". O propósito evidente é fazer o eleitor crer que não pode haver soluções para seus problemas fora da ordem capitalista.

Presos nessa camisa de força e dispondo de um minuto para responder às questões, os candidatos da esquerda correm o risco de não se diferenciarem dos candidatos da direita.

Os primeiros debates demonstraram que, diante dessa dificuldade, alguns candidatos da esquerda preferiram concentrar-se no discurso-denúncia. Outros se dedicaram a expor propostas técnicas mais corretas. Eleitoralmente, esses discursos podem render algum resultado, porém não conseguem fazer com que o eleitor perceba o caráter alternativo da candidatura.

Enquanto não for eliminada a ordem econômica, social e política que oprime o povo, o combate à corrupção e as soluções "técnicas" pouco farão para melhorar a vida do povo. Por isso, se a questão central não for a substituição dessa ordem opressora por uma ordem que possibilite construir uma cidade compatível a uma sociedade de seres humanos livres, o objetivo de oferecer uma alternativa real aos eleitores frustra-se completamente.

As inserções no horário obrigatório também não facilitam a diferenciação entre os candidatos, pois mais de 90% do tempo é monopolizado pelos partidos da ordem.

Espremidos em frações de minuto, os candidatos da esquerda não têm a menor possibilidade de explicar as premissas em que se baseiam suas propostas, o que é essencial, pois se baseiam em uma lógica desconhecida pelo eleitor.

Os três partidos de esquerda precisam fazer um sério esforço para, sem cair no discurso doutrinário abstrato, livrar-se dessa camisa de força. Caso contrário, não conseguirão apresentar uma verdadeira alternativa aos eleitores - único objetivo que justifica sua participação nesta eleição.

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Estado Democrático ou Estado Policial?






No Congresso que a Ordem dos Advogados do Brasil realizou a semana passada em Natal (RN), um conferencista recebeu a seguinte pergunta: "Dada a violência policial contra a população dos morros, favelas e bairros periféricos, no Rio e em São Paulo; e dada a barbárie com que são tratados os presos, pode-se considerar que vivemos em um Estado Policial Terrorista?".

A resposta do conferencista foi: "depende de que lugar você olha a realidade. Se for do lugar dos 30% de rendas mais elevadas, a resposta deve ser negativa; se for do lugar dos 70% de rendas mais baixas, forçoso é reconhecer a existência de vários estados policiais terroristas em nosso território".

Por exemplo: os trabalhadores que moram nas favelas, morros e periferias do Rio de Janeiro e de São Paulo, quando saem para trabalhar, ficam sujeitos às leis do Estado brasileiro; quando voltam para casa estão submetidos à lei do bando que comanda o bairro, seja bandido, seja miliciano que vende proteção, seja ainda a tropa da polícia militar que atira a esmo e aterroriza a população com os "caveirões".

O fenômeno preocupante é a rápida multiplicação desses "bolsões" de estados policiais terroristas incrustrados em partes do nosso território: nas grandes cidades; nas regiões de fronteira; e até na crescente desenvoltura com que os policiais militares estaduais abusam da sua autoridade na repressão a movimentos populares ou no combate a bandos criminosos.

Na verdade, não poderia ser de outro modo em uma sociedade tirânica para 70% da sua população.

É urgente reunir as forças democráticas do país para deflagar um grande movimento nacional contra o avanço da barbárie. A OAB deu o primeiro toque de chamada. A resposta está com a CNBB, a ABI, os Colégios Profissionais, as Universidades, os movimentos sindicais e populares, os partidos democráticos.

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Oração Do Pai-nosso





Escrito por Versão de Frei Betto

Pai-nosso que estais no céu, e sois nossa Mãe na Terra, amorosa orgia trinitária, criador da aurora boreal e dos olhos enamorados que enternecem o coração, Senhor avesso ao moralismo desvirtuado e guia da trilha peregrina das formigas do meu jardim,

Santificado seja o vosso nome gravado nos girassóis de imensos olhos de ouro, no enlaço do abraço e no sorriso cúmplice, nas partículas elementares e na candura da avó ao servir sopa,

Venha a nós o vosso Reino para saciar-nos a fome de beleza e semear partilha onde há acúmulo, alegria onde irrompeu a dor, gosto de festa onde campeia desolação,

Seja feita a vossa vontade nas sendas desgovernadas de nossos passos, nos rios profundos de nossas intuições, no vôo suave das garças e no beijo voraz dos amantes, na respiração ofegante dos aflitos e na fúria dos ventos subvertidos em furacões,

Assim na Terra como no céu, e também no âmago da matéria escura e na garganta abissal dos buracos negros, no grito inaudível da mulher aguilhoada e no próximo encarado como dessemelhante, nos arsenais da hipocrisia e nos cárceres que congelam vidas.

O pão nosso de cada dia nos dai hoje, e também o vinho inebriante da mística alucinada, a coragem de dizer não ao próprio ego e o domínio vagabundo do tempo, o cuidado dos deserdados e o destemor dos profetas,

Perdoai as nossas ofensas e dívidas, a altivez da razão e a acidez da língua, a cobiça desmesurada e a máscara a encobrir-nos a identidade, a indiferença ofensiva e a reverencial bajulação, a cegueira perante o horizonte despido de futuro e a inércia que nos impede fazê-lo melhor,

Assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido e aos nossos devedores, aos que nos esgarçam o orgulho e imprimem inveja em nossa tristeza de não possuir o bem alheio, e a quem, alheio à nossa suposta importância, fecha-se à inconveniente intromissão,

E não nos deixeis cair em tentação frente ao porte suntuoso dos tigres de nossas cavernas interiores, às serpentes atentas às nossas indecisões, aos abutres predadores da ética,

Mas livrai-nos do mal, do desalento, da desesperança, do ego inflado e da vanglória insensata, da dessolidariedade e da flacidez do caráter, da noite desenluada de sonhos e da obesidade de convicções inconsúteis,

Amemos.

Frei Betto é escritor e assessor de movimentos sociais. Autor de 53 livros, editados no Brasil e no exterior, ganhou por duas vezes o prêmio Jabuti (1982, com "Batismo de Sangue", e 2005, com "Típicos Tipos – perfis literários"), o prêmio Juca Pato (1982, por sua obra "Fidel e a religião") e, em 1988, seu livro "A noite em que Jesus nasceu" recebeu o prêmio de "Melhor Obra Infanto-Juvenil".

Educação e crime


ROBERTO DELMANTO JUNIOR


Se a população com curso superior no Brasil é de quase 7%, a população carcerária com esse nível não chega a 0,4%. A diferença é gritante

AFIRMOU O ministro Gilmar Mendes, em campanha pela reintegração dos presos, que 96% ou 97% dos réus presos são pobres. Acrescentamos, pobres e, em sua grande maioria, analfabetos ou sem o ensino fundamental completo, acusados de furto qualificado, roubo e tráfico de drogas.
Segundo o Ministério da Justiça, no ano de 2008, 10,9% dos presos em Mato Grosso eram analfabetos e 40,1% não haviam terminado o ensino fundamental. Somente 0,39% tinha curso superior.
Dados oficiais da Bahia (2007) são similares: 13,2% dos presos em Salvador eram analfabetos; 45,9% não haviam completado o ensino fundamental; 4,7% com ensino médio. Com curso superior, 0,3%. A exceção é no interior, onde 79,6% dos presos nem concluíram o ensino fundamental! Em São Paulo, o nível de ensino é um pouco superior. Levantamento da Fundação Professor Manoel Pedro Pimentel, em 2004, revelou que 47% dos presos tinham grau de instrução de quinta a oitava séries e 11% haviam concluído o ensino médio.
Segundo o IBGE, em 2003, o índice de analfabetismo da população com mais de 15 anos era de 11,8%; mas o índice apresentou grande desigualdade: no interior do Nordeste, o analfabetismo da população a partir dessa faixa etária era de 39,1%, ao passo que na região Sul era de 5,8% e, na Sudeste, de 6,2%. Três em cada cinco estudantes matriculados no ensino fundamental, segundo o IBGE, abandonavam a escola entre os 15 e os 18 anos.
Em 2000, os índices eram piores.
Da população de 85 milhões de brasileiros com mais de 25 anos, cerca de 12 milhões de cidadãos (14%) não frequentaram um ano de escola sequer; 41 milhões (48%) não terminaram o ensino fundamental. Só 14 milhões (16,5%) tinham completado o ensino médio; graduados em faculdades, só 5,5 milhões (6,5%), e, com mestrado ou doutorado, 300 mil (0,35%).
Verifica-se, quanto à população analfabeta ou que não completou o primeiro grau, certa simetria entre os brasileiros em liberdade e os presos: de 40% a 50% da população fora e dentro da cadeia. Por outro lado, se a população com curso superior em nosso país é de quase 7%, a população carcerária de pessoas com esse nível educacional não chega a 0,4%. A diferença é gritante.
Isso se explica, em parte, pelo fato de a falta de educação estar vinculada à pobreza e à exclusão social, o que leva muitas pessoas nessas condições a delinquir. Boa parte delas, se tivessem tido melhores chances, jamais ingressariam na vida do crime.
Mas a parcela com alto nível educacional de nossa população não comete crimes? Claro que sim, e são vários os exemplos. Estão todos os dias na mídia. Dizia o penalista Manoel Pedro Pimentel: "Todos somos criminosos em potencial".
Isso porque as deformações de caráter atingem pessoas de todas as classes e níveis de instrução. Existem, ainda, aqueles que acabam delinquindo em razão de dependência química, sendo doentes que precisam de tratamento. Também os que praticam um ato ilícito em momentos de grande estresse, bem como de forma não intencional (por imprudência, imperícia ou negligência). Poderiam dizer que esses números indicam a impunidade da elite. Não penso assim. Atualmente, o direito penal tem sido muito rigoroso com os ditos "crimes de colarinho-branco".
Há, no Judiciário, especial atenção para eles, por vezes extrapolando-se, lamentavelmente, os limites da legalidade no afã de prová-los e punir os seus autores exemplarmente.
O fato é que muitos dos "crimes de colarinho-branco" são de difícil investigação, exigindo atualização e inteligência das polícias, ao contrário do que ocorre com delitos de furto, roubo e o pequeno tráfico de drogas -o das "mulas" e assim por diante.
De qualquer forma, e pensando nos mais necessitados, precisamos, urgentemente, de uma melhoria da educação, propiciando maior mobilidade social e integração, esperança ao jovem por uma vida melhor. A falta de ensino e oportunidades é um convite para que o jovem entre na vida do crime e dela nunca mais saia.
Com educação é que se desenvolve a autoestima, que se revela o potencial criativo, dando à juventude valiosos instrumentos para que possa lidar com suas frustrações, buscando respostas fora da violência e da dependência em drogas.
Com melhor educação, e não cadeia, é que iremos diminuir o grande número das pessoas que lotam as nossas desumanas prisões, que estão tornando as pessoas piores.
Verdadeiras universidades do crime dirigidas por organizações criminosas que se instalaram em nosso sistema carcerário.
Leva tempo e não há milagres, mas a responsabilidade é nossa.

ROBERTO DELMANTO JUNIOR, 40, é advogado criminalista, mestre e doutor em direito pela USP. É coautor do livro "Código Penal Comentado".

Da resistência à ofensiva



por Marcelo Buraco*

Tem situações que são únicas nas nossas vidas, pelo conjunto dos fatos colocados elas não mais se repetem na mesma proporção e valor de importância.

Podemos dizer que vivemos esta situação neste exato momento, pois nunca o movimento hip-hop se deparou com tal situação que comunga a nosso favor.



Vamos analisar o cenário de 2002 pra cá o movimento hip-hop vem ganhando as páginas dos principais diários, revistas, tablóides e noticiários. Isto porque soubemos aproveitar o momento e começamos a ocupar espaços nunca dantes pisados pelos pés da juventude da periferia.

Fomos recebidos no palácio do planalto pelo primeiro Presidente operário deste país, muitas conversas, projetos e sonhos foram discutidos, e saímos de lá com uma certeza: este presidente é dos nossos, alguma coisa pelo menos mudou.

Muita coisa esta mudando na verdade, a própria evolução do hip-hop demonstra isso, e podemos mostrar uma série de resultados e avanços.

Os vários pontos de cultura subsidiados pelo Ministério da Cultura coordenados pelas entidades nacionais de hip-hop, as casas de hip-hop que vem sendo criadas em várias cidades, além de projetos desenvolvidos pelas posses de hip-hop locais financiados pelas secretarias de educação nos municípios para trabalharem o hip-hop dentro das escolas, os projetos de esportes radicais incentivados pelo Ministério dos Esportes. Os milhares de manos e minas das periferias que entraram nas universidades através do PROUNI, e tantos outros que vem recebendo bolsas para fazerem cursos no Pró Jovem.

E no campo das idéias o hip-hop vem pautando a discussão sobre adolescência e juventude como no caso do documentário: “Falcão meninos do tráfico” da CUFAS, e nos vários debates sobre as FEBEM’s que a Nação Hip-Hop Brasil vem fazendo em São Paulo.

Muita coisa precisa ser feita, afinal de contas forma 502 anos de governos das elites, e os homens do capital financeiro insistem em retomar o espaço perdido com a eleição de Lula. É por isto que podemos afirmar que a bola esta quicando na marca do pênalti e não podemos vacilar, o momento é de ocupação dos espaços, de avançarmos as nossas lutas em prol da juventude da periferia.

Participarmos ativamente do processo eleitoral é fundamental e mais importante ainda é entendermos que existem apenas dois projetos em disputa. Um representa o avanço das forças populares e movimentos sociais organizados, que com a eleição de Lula em 2002 deram um passo à frente. O outro representa o retorno do poder governamental nas mãos daqueles que sempre governaram este país em favor daqueles que possuem o poder econômico.

Mais do que isto, é preciso nos identificarmos com os representantes nas Assembléias Legislativas, Senado e Câmara Federal que de fato lutam a favor dos projetos populares.

E aqui em São Paulo o divisor de águas é bem definido, de um lado estão aqueles deputados que representam o que há de mais conservador e que defendem mais represão policial, cadeias e febem’s, como é o caso dos: Afanasios, Contes Lopes, Edsons Ferrarinis, Erasmos Dias, Curiatis.

Do outro lado aqueles que nos apontam o caminho da mudança de rumo no Estado de São Paulo e propõem que o Governo invista no ser humano. Dentre estes destaco a candidatura para deputado estadual de um mano do próprio hip-hop o Aliado G do grupo de Rap Face da Morte.

Eleger Aliado é mais uma prova do avanço do movimento hip-hop que sugere os caminhos que a juventude da periferia precisa trilhar. É ocupar os lugares que nos foram sempre negados e que agora queremos conquistar com muita luta, é mostrar para aqueles que duvidam da nossa capacidade que nós podemos ir mais longe do que eles pensam.

Chegou à hora de partirmos da resistência pra ofensiva, temos um mundo a mudar, uma vida a ganhar e um país pra construir. Pela periferia, pela juventude e pelos nossos ancestrais que lutaram...

...Somos Todos Aliados.




*Marcelo Buraco, Membro-fundador da posse Negroatividade de Santo André


Chumbo grosso


Record investe R$ 500 mil por episódio de "A Lei e o Crime", de Marcílio Moraes, que estréia hoje; série reforça a tendência da televisão de explorar o filão "favela movie" e tematizar a periferia

Fotos Divulgação

O ator Ângelo Paes Leme (centro), que faz papel de um traficante, em cena de 'A Lei e o Crime'

LAURA MATTOS
DA REPORTAGEM LOCAL

Dias Gomes costumava dizer a colegas autores da Globo: "Nem adianta criar pobre, a Globo não sabe fazer. Você coloca um barraco no texto, e eles já transformam em mansão".
Marcílio Moraes, ex-novelista da Globo, hoje na Record, usa a história para ilustrar uma mudança na TV, que desde o sucesso do filme "Cidade de Deus" (2002), em sua opinião, percebeu que tematizar a periferia pode ser um bom negócio.
Entra no ar hoje, às 23h15, na Record, mais um produto derivado da onda "favela movie". Com um investimento alto para os padrões brasileiros, de R$ 500 mil para cada um de seus 16 episódios semanais -em média, o dobro do custo de um capítulo de novela na Globo-, o seriado "A Lei e o Crime", de Moraes, leva de novo os holofotes da TV a morros cariocas.
"A televisão teve de romper com a antiga estética global, em que era inconcebível mostrar a favela da forma realista. Quando aparecia, a periferia vinha com assepsia, clarinha, bonitinha", afirma o escritor.
Mas foi exatamente a Globo a primeira a "aprender a fazer pobre" na dramaturgia. A rede levou ao ar em 2000 o especial "Palace 2", de Fernando Meirelles, que serviu de teste para "Cidade de Deus", indicado a quatro Oscars. Depois veiculou um "filhote" do filme, a série "Cidade dos Homens", sobre a vida de dois garotos da favela carioca. Exibiu ainda "Antônia", também da produtora de Meirelles, a O2, com mulheres negras da periferia paulistana como protagonistas, e "O Paí, Ó", com personagens do cortiço do Pelourinho, em Salvador.
À Folha, em 2008, Meirelles falou sobre a tendência. "Antes havia o chavão de que "pobre não gosta de ver pobre". "Cidade de Deus" fez grande bilheteria, "Carandiru" o superou, "Tropa de Elite" virou esse fenômeno. Aí, caiu a ficha, né, "poin'!"
Enquanto na Globo a periferia era "experimentada" nos seriados, a Record e Marcílio Moraes foram pioneiros em colocar a favela no centro de uma telenovela -o que a Globo fez depois, com "Duas Caras". "Vidas Opostas" (2006/07), primeira trama do autor na Record, foi gravada em uma favela, a Tavares Bastos, e teve sucesso no Ibope ao mostrar cenas -especialmente as violentas- do cotidiano dos morros.
"Está havendo uma maior inserção das classes C,D e E no consumo. Como a TV é movida por publicidade, isso passou a influenciar empresários das redes, que se abriram a obras que mostrem a periferia", analisa.
Moraes e o diretor Alexandre Avancini voltam à Tavares Bastos no primeiro seriado da nova fase da dramaturgia na Record. "A Lei e o Crime" não só deriva do "favela movie" como segue a tendência de investimento em policiais, na rabeira do fenômeno "Tropa de Elite" -fora "9MM", exibido pela Fox, sobre a polícia de São Paulo, a Globo também tem um projeto nessa linha.
Um dos protagonistas de "A Lei e o Crime" é um policial interpretado por Caio Junqueira, astro de "Tropa de Elite". Ele quer se vingar do cunhado (Ângelo Paes Leme), que matou seu pai e virou traficante.
"O que quero mostrar agora é essa fronteira pouco clara entre a lei e o crime, que nos morros existem várias "leis" a partir da ausência da lei do Estado."
Moraes diz que sua série não é filhote de "Tropa" -cuja adaptação para uma série é o "sonho de consumo" da Globo e da Record. "No filme, o espectador se identifica com o capitão Nascimento e, logo, com a postura de que "bandido bom é bandido morto". Estou criando a história para que o público não se identifique nem com o traficante nem com o policial vingativo. Quero que sejam vistos de forma crítica."
Resta saber, a partir de hoje, se "A Lei..." dará ou não argumentos para José Padilha, diretor de "Tropa", rebatê-lo.

Rio tenta evitar expansão de favela com muro de 650 m


Líderes comunitários dizem que muralha significa uma forma de segregação

Morro Dona Marta vem sendo apontado pelo governo como a 1ª favela do Rio em que a polícia acabou com o tráfico de drogas

SERGIO TORRES
DA SUCURSAL DO RIO

O governo do Estado do Rio decidiu construir a partir deste mês um muro de quase 650 m de comprimento, com altura de 3 metros, em parte do morro Dona Marta (Botafogo, zona sul). De acordo com a explicação oficial, será uma forma de conter a expansão da favela. Para líderes comunitários, a muralha de concreto significa uma forma de segregação.
A ordem partiu do governador Sérgio Cabral Filho (PMDB), de acordo com o presidente da Emop (Empresa de Obras Públicas do Estado), Ícaro Moreno, para impedir a devastação da floresta vizinha.
O Dona Marta vem sendo apontado pelo governo como a primeira favela do Rio em que a polícia conseguiu acabar com o tráfico de drogas, desde a ocupação policial ocorrida em 19 de novembro. A floresta é tradicional rota de deslocamento dos criminosos.
Para o presidente da associação de moradores do morro, José Mário Hilário, a explicação oficial não convence. Ele disse que em nenhum momento os líderes comunitários, que representam cerca de 7.500 habitantes, foram consultados.
"Nós da comunidade, oficialmente, não sabemos de nada. Para nós, o muro não quer dizer nada. Aquele limite [com a floresta] sempre foi respeitado", disse Hilário, por telefone.

Cabral
A Folha tentou ouvir o governador sobre a muralha. Sua assessoria transmitiu por e-mail pronunciamento de Cabral Filho sobre a questão.
"Estamos investindo, como nunca antes no Rio, recursos do governo do Estado em parceria com o governo federal. Recursos esses que vão melhorar a vida do povo das favelas com escolas, habitação, saneamento, acessibilidade. Por outro lado, também estamos investindo na ordem pública, enfrentando o tráfico de drogas e as milícias, impondo limites ao crescimento desordenado. Os ecolimites vão ao encontro dessa política de investimentos sociais com ordem pública", diz a nota.
A presidente da Associação de Moradores de Botafogo, Regina Chiaradia, disse considerar a construção do muro inócua se os moradores não forem conscientizados da necessidade de preservar a floresta, que se espalha pela parte alta do morro, até o Corcovado.
"O ecolimite é positivo para a própria favela. Mas só vai haver efeito se for uma medida pactuada entre governo e comunidade. Não deve ser uma coisa imposta de cima para baixo. O ecolimite não pode ser nunca um muro de segregação, uma faixa de Gaza. Quando há pacto, pode ser uma cerca-viva."
A construção do muro, prevista para só uma das laterais da favela, está orçada pela Emop em R$ 980 mil. Na outra lateral, já há um plano inclinado e muros de propriedades particulares, o que, para o governo estadual, impede a expansão da comunidade.
O presidente da Emop anunciou que no próximo dia 5 serão abertos os envelopes da licitação. "A proposta é de proteção ao meio ambiente. Quando não há rochas ou outros protetores naturais, a comunidade avança na mata."

Celebração da vida

Com fé e alegria, cortejo de pastorinhas, anjos, ciganos, folia de reis e guardas desfila pelas ruas até Igreja de Santo Antônio, encenando auto e encerrando o ciclo natalino
Gustavo Werneck
Fotos: Beto Magalhães/EM/D.A Press
Antes de dançar e cantar diante do presépio, grupos reviveram tradição de décadas, saindo da centenária casa Chácara Maria Reis

Jaraguã - Região da Pampulha, BH

Tradição de sete décadas, com toda a força e beleza da cultura popular, se cumpriu mais uma vez no Bairro Jaraguá, na Região da Pampulha, em Belo Horizonte. Na noite de sábado, antes da chuva forte, um cortejo de rancho das pastorinhas, coro dos anjos, bando de ciganos, folia de reis e guarda de Herodes percorreu parte da Rua Boaventura, saindo da centenária Chácara Maria Reis em direção à Igreja de Santo Antônio. Ao fim da missa, celebrada pelo padre Gleiscion Adriano, o grupo encenou o auto de Natal, recriando, perto do presépio e diante do altar, o nascimento do Menino Jesus e antecipando as homenagens aos Reis Magos, que têm o seu dia comemorado amanhã.

Danças ritmadas, cânticos singelos e palavras bíblicas, num clima de fé, alegria e celebração da vida, entusiasmaram os presentes no templo católico. “É a pura manifestação da cultura popular, mostra as nossas raízes mineiras”, disse o engenheiro agrônomo Carlos Eugênio Moreira de Oliveira, de 38, que trabalha em Jaíba, no Norte de Minas, e veio à capital para os festejos de fim de ano e visita à família. Ao lado do filho Rafael, de 6, Carlos Eugênio aplaudiu a iniciativa realizada pela Ordem Templária da Cruz de Santo Antônio de Pádua, Chácara Maria Reis e Grupo da Terceira Idade Cantinho da Amizade, de Santa Luzia, na Grande BH.

“Todos os integrantes do nosso auto de Natal são pessoas da comunidade, não são atores”, destacou o presidente do Centro de Tradições do Rosário do Estado de Minas Gerais, advogado Manoel Fonseca dos Reis, responsável pela organização. Ele lembrou que as datas de dezembro e janeiro, assim como o Reinado do Rosário, em junho, são cultuadas desde 1938 pela sua família, que ergueu a primeira capela da região dedicada a Santo Antônio e mantém a mais antiga propriedade da Pampulha. “A Chácara Maria Reis é remanescente da Fazenda Pampulha, erguida em 1849, quando ainda existia o Arraial de Santo Antônio da Pampulha Velha”, afirmou Manoel.

São Pedro colaborou, afastou as nuvens pesadas e proporcionou um início de noite de sábado tranquilo para a saída do cortejo formado por 60 pessoas. Antes, Eva Domingos, do grupo de ciganas, e Vera Lúcia Alves da Silva, das pastoras, visitaram o presépio montado na capelinha da chácara, cantando, cada uma, um pequeno verso: “Ciganos, vamos adorar, de Jesus é o nascimento. Oh!, Glória divina, é o nosso contentamento” . E mais: “Boa noite, meus senhores todos. Boa noite, senhoras também. Somos pastoras, pastorinhas belas, e alegremente vamos a Belém” .

À frente do grupo, carregando a bandeira dos Reis Magos, Irene Rodrigues da Costa, de 43, moradora do Bairro São Tomaz, na Região Norte de BH, mostrava a sua emoção. “É maravilhoso fazer parte deste auto de Natal e carregar esta bandeira. Os reis magos levaram ouro, incenso e mirra para presentear Jesus, e eu tenho o privilégio de conduzir o estandarte”, disse com brilho nos olhos. Com um medalhão de pedra verde no peito e “sem ouro no dente”, o bem-humorado Jair Salvo, de 72, contou que, até pouco tempo, era o único homem no bando de ciganos. “Agora tem mais”, apontou para os demais colegas. Satisfeito, Jair revelou que ganhou alma nova ao entrar para o Cantinho da Amizade. “Eu estava triste, deprimido. Hoje sou outra pessoa”. Para atestar a mudança no semblante, pôs a carteira de identidade ao lado do rosto, no melhor estilo “antes e depois”.

CORES E DANÇAS Entusiasmados com a batida marcante da caixa congo, instrumento de percussão, os fiéis não se acanharam e bateram palmas. Alguns deles, a exemplo de Maria Helena Santos, moradora do Bairro Jaraguá, até ensaiaram alguns passos, acompanhando o movimentos das pastorinhas. “Está lindo!”, comentou animada. Atento a todos os detalhes, o agente de viagem Arilson Isoni, de 45, enalteceu a cultura mineira e a participação popular. Acompanhado da filha Maria Giulia, de 8, ele disse que as tradições se tornam um forte elemento para atrair visitantes.

Orgulhosa pela organização do evento, a cargo do seu filho Manoel, Maria Fonseca Reis, de 81, lembrou a importância da comemoração especialmente para as crianças e adolescentes: “Vivemos num tempo de violência, drogas e outros males, então precisamos levar a cultura para os jovens”. A celebração do Natal e do Dia de Reis mora no seu coração, “pois é uma época muito bonita, e as pastorinhas, com suas cores e danças, aumentam a emoção”. Às 20h, poucos minutos antes de a chuva chegar, o grupo se despediu cantando: “Pastoras, vamos embora, que a madrugada já vem, vamos ver as nossas cabanas, que lá não ficou ninguém”.

No próximo sábado, às 17h, a Chácara Maria Reis (Rua Boaventura, 2118), vai sediar o encontro de Folia de Reis, com a participação de grupos da capital e do distrito de Justinópolis, em Ribeirão das Neves, na Grande BH.

Comunidades Quilombolas

Sobe para 1.289 total de comunidades quilombolas

A Fundação Cultural Palmares publicou no Diário Oficial da União uma portaria que reconhece mais 37 comunidades - em dez Estados - como população remanescente de quilombos. Com isso sobe para 1.289 o total de comunidades já reconhecidas e em condições de reivindicar a posse legal das terras onde vivem e de cobrar programas especiais de assistência dos órgãos públicos. Mas, a julgar por outros indicadores, os dados mostram que se trata apenas do início de uma escalada.

Em 2004, quando os reconhecimentos começaram a ser feitos de maneira oficial e de acordo com o Decreto-Lei 4.887, assinado no ano anterior pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, foram formalizadas 114 comunidades. Hoje, como já se viu, são 1.289. Mas um mapeamento feito pela mesma Fundação Palmares, ligada ao Ministério da Cultura, aponta a existência de 3.524 comunidades. Outras fontes, ligadas a organizações não-governamentais, falam em 5 mil. O número pode impressionar.

Em 2008 o assunto provocou ácidas polêmicas entre os defensores dos quilombolas e os representantes dos ruralistas, que se sentem ameaçados pelo risco de perder terras - o que não é infundado. Se todas as 5 mil possíveis comunidades estimadas forem atendidas em suas reivindicações, o Brasil terá de encontrar para elas uma área de aproximadamente 240 mil quilômetros quadrados, segundo estimativas de técnicos do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) consultados pela reportagem. É uma área equivalente à do Estado de São Paulo. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.


http://www.atarde.com.br/brasil

Doze regras de redação da Grande Mídia

Internacional quando a noticia é do Oriente Médio

1) No Oriente Médio são sempre os árabes que atacam primeiro e sempre Israel que se defende. Esta defesa chama-se represália.

2) Os árabes, palestinos ou libaneses não tem o direito de matar civis. Isso se chama "terrorismo".

3) Israel tem o direito de matar civis. Isso se chama "legitima defesa".

4) Quando Israel mata civis em massa, as potencias ocidentais pedem que seja mais comedida. Isso se chama "Reação da Comunidade Internacional".

5) Os palestinos e os libaneses não tem o direito de capturar soldados de Israel dentro de instalações militares com sentinelas e postos de combate. Isto se chama "Sequestro de pessoas indefesas."

6) Israel tem o direito de seqüestrar a qualquer hora e em qualquer lugar quantos palestinos e libaneses desejar. Atualmente são mais de 10 mil, 300 dos quais são crianças e mil são mulheres. Não é necessária qualquer prova de culpabilidade. Israel tem o direito de manter seqüestrados presos indefinidamente, mesmo que sejam autoridades eleitas democraticamente pelos palestinos. Isto se chama "Prisão de terroristas".

7) Quando se menciona a palavra "Hezbollah", é obrigatória a mesma frase conter a expressão "apoiado e financiado pela Síria e pelo Irã".

8) Quando se menciona "Israel", é proibida qualquer menção à expressão "apoiada e financiada pelos EUA". Isto pode dar a impressão de que o conflito é desigual e que Israel não está em perigo de existência.

9) Quando se referir a Israel, são proibidas as expressões "Territórios ocupados", "Resoluções da ONU", "Violações dos Direitos Humanos" ou "Convenção de Genebra".

10) Tanto os palestinos quanto os libaneses são sempre "covardes", que se escondem entre a população civil, que "não os quer". Se eles dormem em suas casas, com suas famílias, a isso se dá o nome de "Covardia". Israel tem o direito de aniquilar com bombas e misseis os bairros onde eles estão dormindo. Isso se chama Ação Cirúrgica de Alta Precisão".

11) Os israelenses falam melhor o inglês, o francês, o espanhol e o português que os árabes. Por isso eles e os que os apóiam devem ser mais entrevistados e ter mais oportunidades do que os árabes para explicar as presentes Regras de Redação (de 1 a 10) ao grande público. Isso se chama "Neutralidade jornalística".

12) Todas as pessoas que não estão de acordo com as Regras de Redação acima expostas são "Terrotistras anti-semitas de Alta Periculosidade".

(Texto francês anônimo, enviado por leitor ao Blog da Carta Maior)

Nós na fita

Mônica Bergamo

bergamo@folhasp.com.br

Inspirado no livro-reportagem "As Meninas da Esquina", o longa "Sonhos Roubados" quebra a rotina dos moradores de Ramos, no Rio

Raquel, 16, está uma hora atrasada para assumir o turno da pequena loja de roupas onde trabalha, a Carmenato -"junção do nome da patroa com o nome do patrão". A vendedora e moradora da comunidade de Ramos, no Rio, queria, mas não pode entrar na loja porque lá está sendo rodada uma cena do filme "Sonhos Roubados", de Sandra Werneck. A garota está impaciente e não apenas porque é comissionada e está perdendo vendas. A colega que invadiu seu horário está fazendo uma pontinha como figurante. E vai ter fala e tudo. "Não pude ser figurante porque ninguém me chamou e não gosto de ser oferecida. Ah, e também me disseram que não tinha mais vaga", diz Raquel.



Sandra Werneck é a primeira diretora a levar um longa-metragem para aquela favela. Inspirada no livro-reportagem "As Meninas da Esquina", de Eliane Trindade, o filme conta a história de três adolescentes que usam a prostituição como um dos meios de sobrevivência.
Sandra finca seu tênis Diesel na areia suja da calçada, senta sobre a bolsa Prada, que esquece aberta com freqüência, e mantém a voz sempre doce, mesmo quando um figurante faz "jóia" para a câmera e estraga o que seria uma "cena perfeita". "Todo mundo está cooperando. Não tem risco, é só saber envolver os moradores, fazê-los vestir a camisa do filme. Contratamos pessoal daqui para fazer segurança pra gente", conta ela.
Ao ver um não-figurante cruzar a rua com uma gaiola de passarinhos, fica extasiada: "Eu quero o homem com o passarinho em cena! Chamem o homem com o passarinho".

A atriz Nanda Costa, 23, chega ao set. A protagonista já está caracterizada como Jéssica, uma típica adolescente briguenta e sexy da favela. Trocou o cabelo curto, que "num dia de TPM fui na frente do espelho e cortei", por um longo aplique afro. Botou no umbigo um piercing de pressão, incorporou o "sandalião de salto", passou a usar barriga de fora e roupas muito curtas. Ela também fuma cigarro de verdade em algumas cenas. "Não sou fumante, mas sei tragar sem tossir. Já tive a fase de ir fumar Gudang (cigarro mentolado) com os amigos, sabe? Cheguei a gravar 13 vezes uma cena em que fumava e terminei o dia com dor de cabeça e enjôo. Eca!"

Um rápido olhar para as figurantes que esperam ansiosas pelo grande momento de passar ao fundo da cena e fica fácil reconhecer nelas o mesmo figurino e o jeito displicente da protagonista. Gláucia dos Santos, 19, desempregada, usa um short curtíssimo, combinando com uma blusa que deixa as dobrinhas da barriga de fora. Ela conta que a produção pediu "roupa normal, do dia-a-dia. Aí botei essa combinação que é simples, do tipo que uso no fim de semana pra zoar com minhas amigas." Não é muito curto? "Tem gente que anda mais tapada, mas a moda aqui em Ramos é tudo bem curtinho."
Com cabelos amarelos recém-retocados na raiz, Gláucia vai ganhar R$ 30 a cada dia de figuração, "mais almoço e lanche".
"Sinceramente? Não foi pelo dinheiro não, viu? O filme vai passar no Brasil inteiro e vai sair no DVD. Claro que sonho que alguém me descubra, né? É o sonho de todo mundo."



"Mudar a realidade de uma favela não é a pretensão do filme, mas quero que essas pessoas sonhem pelo menos por um dia." Em 2006, Sandra lançou o documentário "Meninas", sobre adolescentes grávidas no Rio. "O que mudou na vida delas depois do lançamento foi que quase todas engravidaram de novo! Os objetivos de uma garota com esse tipo de oportunidade é comprar uma calça nova para ir ao baile funk, fazer sexo porque é gostoso, arrumar filho. As garotas de classe média, como minha filha, estudam, querem se estabelecer profissionalmente e só depois pensam em ter filhos. Minha filha está aí ralando atrás de patrocínio para o filme dela." A produtora de cinema Maíra Da-Rin é filha de Sandra com Silvio Da-Rin, secretário do Audiovisual, ligado ao Ministério da Cultura. "Eu, como sou ex-mulher há uns 20 anos, posso concorrer nos editais [do MinC], mas nossa filha é proibida."


Não há filmagem aos domingos em Ramos. "Não teríamos como controlar as mais variadas espécies de sons que a rua produz nesse dia. É churrasquinho na laje com um pagodão aqui, cultos da Assembléia de Deus ali, o funk que vem do carro passando, fica impossível."
No dia de descanso, Sandra procura ficar reclusa em casa, em silêncio, "digerindo as informações da semana". Ela se dá ao luxo, no máximo, de convocar uma manicure para cuidar das unhas e arrumar os cabelos. "Supermercado? TV? Não dá, tá doida? Eu falava para um ex-namorado: "Nas seis semanas de filmagens, me esqueça." Ele dizia: "Mas nem café da manhã?" Nem café."



Já é noite na favela. Aliás, os moradores corrigem: "O povo de fora fala favela, mas pra gente é comunidade". O jantar servido para a produção perto de uma quadra de esportes chama a atenção de Adriana 13, e de Luana,12. "Ô tia, pega uma gelatina lá pra nós", pedem. Luana está triste por não ter conseguido vaga na figuração, mas sabe tudo sobre o filme. "É que eu sou a maior fofoqueira e saio perguntando detalhes." Ela confidencia que se pudesse fazer uma promessa em Aparecida do Norte, interior de SP, "pediria para ser atriz". "Na verdade, pediria a minha mãe de volta, que morreu em agosto de Aids. Mas como não dá, pediria sim para ser atriz."


Reportagem DÉBORA BERGAMASCO

Histórias de Angenor

Arquivo EM/D.A Press
Livro relembra bons momentos do compositor Cartola
Ao ser convocado para escrever sobre o amigo Angenor de Oliveira, o jornalista Arley Pereira (1935-2007) preferiu recorrer à memória. Afinal de contas, teve o privilégio de conviver com o autor de As rosas não falam. Originalmente lançado em 1988, o livro Cartola: semente de amor seu que sou desde nascença ganhou edição revista e ampliada do Sesc/SP, com direito a novas fotografias e prefácio assinado pelo parceiro Elton Medeiros.

“De quem tanto ou, talvez, tudo já tenha sido dito, só restava tirar o coração do peito, transformá-lo em memória e transcrever as histórias que o próprio Divino me contou”, comentou Arley na publicação. Com capítulos batizados com títulos das principais canções do sambista, o livro traduz o ambiente vivido por Cartola, compartilhando com o leitor histórias pessoais que revelam a personalidade sedutora desse gênio da música popular brasileira.

Paralelamente, o selo musical do Sesc relança o CD Elton Medeiros e Márcia – Cartola, com arranjos de Théo de Barros. O disco foi gravado ao vivo em novembro de 1998, quando se comemoravam os 90 anos do nascimento do compositor carioca. Em 2008, o centenário de nascimento dele justificou os dois projetos, com direito a shows do trio Elton Medeiros, Márcia e Théo de Barros. O livro pode ser adquirido na loja virtual www.sescsp.or.br/loja.

Morre gaúcho idealizador do Dia da Consciência Negra



Oliveira Ferreira da Silveira tinha 67 anos e fez parte do Grupo Palmares

O professor, poeta e pesquisador gaúcho Oliveira Ferreira da Silveira morreu às 22h30min de quinta-feira, aos 67 anos, vítima de câncer. Ele foi um dos idealizadores do Dia da Consciência Negra (20 de novembro), cujas comemorações se iniciaram em 1971 com o Grupo Palmares em Porto Alegre — entidade que, durante o regime militar, evocou ícones negros como Luiz Gama e José do Patrocínio.

Silveira estava internado há 15 dias no Hospital Ernesto Dornelles, na Capital. Natural de Rosário do Sul, era formado em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com especialização em língua francesa, e professor aposentado da rede pública de ensino.

Silveira deixa filha e netos. Seu corpo será cremado nesta sexta-feira em Caxias do Sul, em cerimônia reservada. Não haverá velório.

ZEROHORA.COM

Saúde: brasileiro precisa criar hábito de usar camisinha



Apesar do recorde na distribuição de camisinhas em 2008 - um total de 406 milhões - o Ministério da Saúde considera que o número de unidades não é capaz de atender toda a população e alerta que o brasileiro ainda precisa criar o hábito de usar o preservativo.



O diretor-adjunto do Programa Nacional de DST/aids, Eduardo Barbosa, explicou que a distribuição feita pelo governo tem foco em grupos de risco específicos, mas que a orientação é que todos procurem se prevenir.


"Nossa distribuição é bem planejada até porque, mesmo com esses 406 milhões de unidades, a gente não atende toda a população brasileira. As atividades sexuais da população brasileira são bem maiores do que a disponibilização do ministério. As pessoas precisam criar o hábito de usar a camisinha e podem adquirir em farmácias populares, a preços mais baratos" disse Barbosa, em entrevista ao programa Revista Brasil, da Rádio Nacional.


De acordo com ele, a camisinha é, atualmente, o mecanismo mais eficiente para a prevenção de doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) e também para o planejamento familiar, mas não é 100% segura.


A orientação, segundo ele, é que durante o ato sexual, as pessoas prestem atenção nas características apresentadas pelo próprio preservativo. Barbosa destacou ainda o uso de gel lubrificante acompanhado da camisinha para impedir o rompimento.


"A camisinha é extremamente segura. Se as pessoas utilizarem e armazenarem bem, o risco de contaminação pelo HIV é muito insignificante. No final deste ano, um dos dados que mais chamou a atenção é que pessoas acima dos 50 anos continuam tendo suas atividades sexuais normalmente e estão bastante expostos ao HIV porque, durante toda a vida, não tiveram a prática do uso da camisinha. É mais fácil a gente fazer com que o jovem adote uma postura consistente do uso do preservativo do que fazer com que pessoas mais velhas revejam suas atitudes e práticas" disse.


Em relação à opção do preservativo feminino, ele explicou que há problemas, como a pouca produção, o alto custo e mesmo a dificuldade por parte das próprias mulheres em negociar o uso com os parceiros. Há ainda, segundo Barbosa, críticas de desconforto.


Em 2008, 4 milhões de unidades foram distribuídas pelo ministério - a maioria voltada para projetos e programas especiais onde havia monitoramento do uso. A previsão, para o próximo ano, é de 6 milhões de unidades.


Portal Terra

Sonhos e Sanidade

A sociedade deve mudar urgentemente seus paradigmas para permitir aos jovens descobrir o verdadeiro sentido da existência
Inez Lemos
Paulo Whitaker/Reuters - 21/10/08
Cena do enterro da garota Eloá Pimentel, de 15 anos, assassinada pelo ex-namorado Lindemberg Fernandes Alves, de 22, em São Paulo
"Avanços da ciência são alheios aos valores que regem o espírito humano.” Assim o escritor argentino Ernesto Sabato explicou por que abandonou a carreira de cientista. Ele denunciou os fetichistas do progresso de fazerem uma ciência amoral. “Sempre tive como preocupação o destino do ser humano, sua precária condição de carne e osso”, ressaltou. A imagem que podemos extrair dessa fala é de um pensador apavorado, tentando implorar à humanidade que mude o curso da história, o rumo equivocado que o mundo escolheu para trilhar. Isso nos leva a crer que seu objetivo é nos convencer de que, sem apostar na espiritualidade, sem abandonar o reinado da razão e do dinheiro, não há progresso. O avanço econômico não pode se divorciar do avanço humano. Enquanto a educação for concebida como técnica, a humanidade vai padecer. Lembramos Freud: “Felicidade é a realização adiada de um desejo pré-histórico. Por essa razão, a riqueza traz tão pouca felicidade. Só somos realmente felizes quando satisfazemos um desejo infantil”.

Como entender a dificuldade dos jovens em assimilar perdas e frustrações quando a menor contrariedade os atinge? Quando o namorado sequestra a namorada para dela extrair, arrancar a confissão de uma suposta traição usando de força e armas, desconfiamos da forma como estamos apresentando a vida a nossas crianças. A intolerância tem aumentado entre os jovens. Intolerância ao sofrimento, à capacidade de suportar a ausência do outro – perda de gratificação pulsional. Geralmente, o homem confunde virilidade com agressividade. Mitologicamente, ele se julga poderoso por portar o significante fálico (pênis), o que lhe confere a ilusão de completude. Contudo, se não for inserido na cultura, barrado em seus desejos, ele acaba por se julgar no direito de agredir e matar o outro que lhe nega algo. Ou se considerar dono do corpo do outro, demonstrando posse, machismo.

A sociedade permissiva estimula e incentiva atos insanos, aplaude e julga normal a vida sexual precoce. Quando os sonhos do progresso engendram monstros, o essencial da vida fica ausente. É quando convivemos com a representação da coisa como se fosse a coisa. Com isso, a vida se liquidifica, perde a consistência. É insuportável viver como ordem, sem transcender o cotidiano esburacado, fracassado. Onde encontrar uma novidade de espírito?

A vida do jovem moderno não é nada fácil. Ele tem que conviver com a falsa ideia de felicidade, como se todos estivessem desfrutando de um estado de euforia permanente. Essa tal felicidade é vaga, uma vez que devemos exigir mais da vida do que apenas querer ser feliz. Quando vivemos a lógica da felicidade perpétua, abolimos o sofrimento da condição humana. Esquecemos que ele é parte de nossa aventura existencial. “O sofrimento salva a existência”, diz Simone Weil.

CONSUMO

Consumir se tornou sinônimo de felicidade. Aposta-se no consumo como ascese, promessa de plenitude. A lógica que engendra esse ideal é enganadora; do contrário, a busca cessaria. Como manter a crença na vida como aquisição, quando tudo se torna mercadoria? Perder a namorada é como perder dinheiro na bolsa de valores, é ficar deficitário. Se os jovens estão despreparados para sublimar, para pôr algo no lugar da falta, surge a violência. Como simbolizar a dor? A vida encarnada no sonho industrializado, pautado por excesso e desperdício, implica riscos.

A estética do consumo é brochante, desumana. Habitamos espaços que nos deprimem. Os shoppings são um tédio, todos iguais – banheiros com o mesmo cheiro, comidas com os mesmos sabores. De onde extrair felicidade quando tudo é planejado para bloquear o poder de argumentar, discordar e reivindicar? “Todo bom raciocínio ofende, ensinou Stendhal. O pensamento que interessa aos mercadores nos chega dissociado do eixo da vida, dos sentimentos e dos sonhos. Sonhadores? Como sonhar a dor que nos move?

A violência surge quando se esgota a capacidade de argumentar, quando as palavras perdem valor. Quando um jovem prefere agredir, quando ele substitui a capacidade de pensar e convencer pela inteligência, age como frouxo – escolheu o caminho mais fácil e covarde. Como desafiar o futuro morto? Como resistir ao feirão que propagandeia o fim da amizade, da sinceridade, da culpa e do remorso? É o fim da era freudiana, do homem que se atormentava pelo outro. Entramos na era do eu sozinho, gozo narcísico, uno, bailando distante da alteridade.

Onde os jovens poderão construir suas instâncias fálicas se os espaços de “fantasmatização” estão sendo reduzidos? Que vida é possível sem incentivo à criatividade, sem transcender a realidade? Como superar a condição moderna em que o exílio de si é marca maior? Como desafiar o desalento, a descrença na vida como devir? Neste mundo marcado pela fragmentação e pelo apagar da fantasia, a fuga por meio da morte assume a função de proteção da angústia – um basta ao sofrimento. Muitos jovens se sentem estrangeiros em meio a tanta modernidade, alienados nesta sociedade hostil e sem sentido. “Na natureza tudo vira alma”, lembra Sabato em Antes do fim – ensaios que desmascaram a frivolidade e os sorrisos hipócritas dos tempos que correm.

“Sinto-me suspenso sobre um abismo e vejo o chão se abrir como cratera sob os pés.” Essas são as palavras de um jovem ao descrever sua angústia. Sua queixa é permeada pela falta de convicção, total descrença nas propostas civilizatórias de nosso mundo. Como demovê-lo do desejo de abandonar tudo e partir para o outro lado da vida? Acredito que a modernidade precisa resgatar, pela via do belo, o sentido da existência. A poética deve ser convocada em todas as instâncias e espaços. Não seria o belo um campo de reflexão e cultura, lugar por excelência de um novo tempo, da nova política? Sem paixão, dificilmente recuperaremos o desejo de viver, lutar, amar e trabalhar. Como dar destino diferente à pulsão, longe das opções mortíferas?

NOEL & CARTOLA

A razão moderna engessa a autoexpressão, contamina os trabalhos artísticos. Nela subjaz a lógica do custo/benefício – logo somos conduzidos pela expectativa de ganho financeiro. A boa arte nasceu de almas vadias perambulando pelos becos da vida. Nos morros e em gente como Noel Rosa e Cartola, que nada mais pedia senão o direito de rasgar o peito de madrugada e soltar o último poema em forma de samba. Todo poeta é um corajoso, aposta na força que vem de dentro.

“Sabemos que só se pode fazer grande arte em absoluta liberdade. O resto é submissão, arte convencional e, portanto, falsa. Sendo assim, não serve para o homem. Os sonhos são úteis porque são livres.” Eis o testemunho de Ernesto Sabato a Jorge Luis Borges no livro Borges/Sabato. No que toca à arte, eles nos ajudam a pensar sobre o papel da fama no mundo atual – como ela acaba por influenciar e entorpecer a liberdade.

Os sonhos são a matéria-prima das grandes obras, sem eles somos seres operacionais, executamos planos alheios. Como cobrar sanidade dos jovens se castramos seus impulsos criativos com o discurso da produtividade, da rentabilidade? Por que direcionamos tanto a vida em função do sucesso financeiro, se ele nunca garantiu o fim das crises econômicas e das guerras? Será que as crianças não preferem a companhia dos pais ao excesso de conforto material?

Psicopatas! Assim grande parte da mídia rotula os jovens envolvidos em crimes. Mais que o diagnóstico, importa debater o que os motiva a atuar com crueldade. Sanidade relacionada à capacidade de se reconhecer naquilo que se faz, em algo que diz do sujeito. A alegria de nos sentirmos reconhecidos remete a desejos de menino. Enlouquecedor é viver a vida que não é da gente. Cartola morreu pobre, mas são. Sua loucura foi não ter se rendido a apelos alheios. Os sonhos só servem se for para nos garantir liberdade.

Inez Lemos é psicanalista. E-mail: mils@gold.com.br

Toma Lá Dá Cá

Este espaço é seu. Participe! Mande suas sugestões para o e-mail nucleo.em@uai.com.br
SEM VIOLÊNCIA

Sara Rodrigues Dumont*

Meu nome é Sara, tenho 10 anos e sempre estudei nesta escola. Aprendi a ler no 2º período, aos 5 anos, graças aos esforços de minha família e meus professores. Sou uma criança tranquila, não gosto de brigas e confusões na escola e na rua. Curso a 4ª série e minha professora me incentiva muito. Ela é maravilhosa, amorosa, carinhosa e humana. Mesmo com minha mãe doente, tenho muito apoio de meu pai e meu irmão, que não me deixam ir à escola sozinha. Eles me levam e buscam, pois sabem dos perigos, já que moro numa região marcada pela violência. Meu pai sempre evitou falar em drogas, bebidas e cigarros e em nossa região o que mais ocorre é isso.

Com a chegada do professor Mendes, um policial competente, brincalhão e alegre, é que fui entender melhor as causas da violência no bairro. Ele nos ensinou a tomar decisões para ficarmos longe das drogas. O Programa Educacional de Resistência às Drogas (Proerd) me ajudou muito a entender a causa de tanta violência. Fiquei sabendo os horrores que uma pessoa drogada ou alcoolizada é capaz de fazer. O professor Mendes nos ensinou que não devemos ser agressivos e, se alguma pessoa nos oferecer algum tipo de droga, temos de dar um jeito para sairmos fora dela. Além da violência, as drogas prejudicam a saúde, destruindo o coração, fígado, pulmões, cérebro, causando doenças como o câncer, que ainda não tem cura em grande parte dos casos, e a pessoa acaba morrendo. Gente viciada e violenta só tem dois caminhos: a prisão ou a morte.

Com as aulas do Proerd, minha professora fazia algum comentário, reforçando o que tinha sido estudado com o professor Mendes. Um dia ela fez a seguinte pergunta: “Vocês conhecem algum bandido que está bem velhinho até hoje?”. Um colega levantou a mão e disse: “Meu avô. Foi uma risada geral na sala”. Isso porque ele não prestou atenção na pergunta. Gosto de ver TV, mas não vejo novelas porque sou evangélica e papai não deixa, mas acompanho reportagens e entrevistas, porque preciso para os meus trabalhos na escola.

Estou acompanhando o caso Isabella Nardoni e estou triste, pois até agora os culpados são o pai e a madrasta, nesse crime que chocou todo o país. Gostaria de fazer uma pergunta: “Será que o pai estava drogado?”. Para mim, uma pessoa normal não faria uma brutalidade dessas com uma filha de 5 anos. Agradeço ao professor Mendes tudo o que aprendi. Foi ele que me deu a oportunidade de conversar com meu pai sobre tudo o que já sei. Te amo, Mendes, você é mil!

*Aluna da Escola Estadual Engenheiro Prado Lopes, em Belo Horizonte

Ações para o início de 2009

Julio Gomes de Almeida, Professor de economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)
É importante sublinhar certas perspectivas abertas nesta virada de ano para que a política econômica tenha maior atuação, com o objetivo de suavizar os impactos negativos da crise internacional sobre a produção e emprego na economia brasileira. A crise nos atingiu tão fortemente no último trimestre do ano que é provável que o crescimento econômico seja negativo nesse período, devido ao fraco desempenho da indústria.

Esta vinha tendo uma evolução brilhante até o terceiro trimestre do ano, mas os seus segmentos líderes, especialmente automóveis e máquinas e equipamentos, foram muito sacrificados pela restrição do crédito e pelo colapso das decisões de investir dos empresários. Em parte, os setores de serviços e de comércio, que têm um grande peso na formação do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, devem ter sustentado algum dinamismo na economia, que, do contrário, teria tido uma queda vertiginosa no quarto trimestre de 2008.

A perspectiva quanto ao crescimento não é boa. O emprego que, já começara a dar sinais de declínio nos meses finais do ano passado, deve cair acentuadamente, transformando uma retração até então localizada no setor industrial em um problema geral. As expectativas empresariais e a confiança dos consumidores não param de cair. Essa menor confiança de empresários e consumidores deve aprofundar a redução dos investimentos e do consumo. Por isso, é muito provável que o primeiro trimestre de 2009, repetindo o último trimestre do ano passado, acuse retração do PIB, o que configuraria uma recessão na economia. A despeito deste quadro desfavorável, há um caminho a ser trilhado pela política econômica, que vem se notabilizando pela timidez, sobretudo na área monetária, o que concorreu para que a economia brasileira ficasse tão exposta à crise externa e dela absorvesse os efeitos mais negativos.

Mas alguns resultados recentes sobre a inflação e contas públicas autorizam uma atuação muito mais incisiva da política econômica, o que deve ser levado em conta como um fator contrário ao movimento depressivo da economia desenhado para o início deste ano. A inflação está dando mostras de um significativo recuo, devido à redução de preços de commodities no exterior e à própria retração da economia doméstica. Outro receio das autoridades monetárias caiu por terra com a divulgação do grau de utilização na indústria para dezembro: somente 79,9% de sua capacidade total de produção, contra 84% em novembro de 2008, o que sinaliza uma grande queda da demanda. Os crescentes índices de utilização registrados até agosto (86,3%) eram difundidos como justificativa para o aperto da política monetária, por indicarem aumento da demanda sem o correspondente crescimento da oferta, ensejando tendência de elevação futura de preços.

Esses fatos permitem que a política monetária promova rapidamente a redução de juros e contribua para recuperar o crédito. Na política fiscal, os resultados de novembro foram muito positivos. O balanço entre receitas e despesas não financeiras do setor público acumulou em 2008, até novembro, saldo recorde de 5,08% do PIB, resultado que confere margem muito maior de segurança para uma mais ousada ação de política fiscal. Em suma, o início de 2009 não deverá ser lembrado como um período favorável para a economia brasileira, mas nele o governo poderá agir como até agora não o fez para socorrer o crescimento e o emprego.