Em dois anos, da maconha para a pedra


Fabiane Ziolla Menezes

Daniel*, que ficou internado durante poucas semanas na unidade masculina da Casa de Recuperação Água da Vida (Cravi), em Almirante Ta­man­daré, na região metropolitana de Curitiba, nem parece ter 15 anos. Começou a usar maconha aos 7 anos e crack aos 9. De estatura baixa e mãos pequenas, o menino de feições bonitas tem lembranças confusas. Fala ter repetido a 3.ª série “sete vezes”, como se fosse possível. Diz que experimentou o crack duas ou três vezes, mas, felizmente, não gostou. “Me deu dor de cabeça”. Não conta muito da família. Morava com a tia antes de ir para a comunidade terapêutica. Não vê a mãe, que também era usuária de maconha e crack, nem os irmãos, mas a tia o informa sobre todos. Segundo as psicólogas, a tia se culpa por ter trocado de turno no trabalho e deixado o menino mais tempo sozinho. Teria sido depois dessa troca que ele passou a ficar mais tempo na rua e acabou entrando em contato com as drogas.

Na semana passada, perturbado por causa de uma conversa com a tia, Daniel acabou largando o tratamento e fugiu para casa. A psicóloga Caroline Fer­nanda Rocha teme que ele volte para o mesmo nível de dependência de antes.

*nomes fictícios

Dez anos de vida, dois no vício do crack


Fabiane Ziolla Menezes

A vida de Fábio* é composta por flashes, momentos dos quais ele não lembra muito bem. No encontro com a reportagem, dias atrás, não soube informar a própria idade. Fernando Gois, coordenador da Chácara Meninos de 4 Pinheiros, onde Fábio está há quase um ano, teve de interromper a entrevistar e dizer: 10 anos. Há dois, o menino começou a usar maconha. Passou pela cola de sapateiro e pelo solvente e experimentou o crack ao fugir de casa. Uma casa que não era sua, mas sim de pais adotivos que eram traficantes. “Meu ‘pai’ me batia porque queria que eu vendesse droga pra ele”, conta.

Fábio não sabe explicar muito bem por que e nem quando foi parar nessa casa. Algo a ver com a mãe não ter dinheiro para cuidar dele. Só sabe que fugiu e foi viver na rua, com um amigo diferente todo dia e a droga para compartilhar. “Antes de vir para cá ele não parava em nenhum lugar. A FAS (Fundação de Ação Social) o recolhia, mas ele fugia no dia seguinte. Mesmo aqui, logo no início, chegou a fugir algumas vezes para a BR (116, caminho para Mandirituba)”, conta Gois.

Ao que tudo indica, Fábio está encontrando seu caminho. Frequenta a escola, apesar de ter sido afastado algumas vezes por causa do comportamento inquieto e, por vezes, agressivo – motivo pelo qual toma remédios e passou a entrevista inteira batendo com uma caneta na mesa e o olhar baixo, vago. Também está retomando o contato com a mãe biológica e o irmão que ficou em uma cadeira de rodas depois de levar seis tiros por causa do envolvimento com o tráfico.

*nomes fictícios

Família Desestruturada e Falta de Objetivos


Fabiane Ziolla Menezes - Colaborou Aline Peres

Nos casos de crianças acolhidas que contam com interferência da Justiça, o que se encontra são famílias desestruturadas. “Os pais perdem totalmente a noção de cuidados com os filhos, se largam em ‘mocós’ para fumar o crack e esquecem da vida”, relata a juíza da 1.ª Vara da Infância e Juventude de Curitiba, Lídia Munhoz Mattos Guedes. “No convívio com eles, crianças muito pequenas, de 3 ou 4 anos, nos contam como a droga é usada e a chamam pelo nome.”

Entre adolescentes, é cada vez maior o envolvimento com a droga. Meninas usuárias engravidam de namorados também usuários. Vão para hospitais sob efeito da droga, provocando o acolhimento institucional do bebê. “Atendi um caso assim na semana passada. Uma menina de 17 anos, com família estruturada, se envolveu com um namorado drogado. Perdeu a filha para o abrigamento, mas se recusa a procurar tratamento”, conta a juíza.

Desespero

Por dia, a chácara Meninos de 4 Pinheiros, em Mandirituba, na região metropolitana de Curitiba, recebe 20 ligações de pais querendo abrigar os filhos. “Uma parte é de famílias de classe média, mas minha prioridade são os mais pobres. Como não posso deixá-los desamparados, marco um encontro e converso com eles, passo uma orientação, que em famílias mais estruturadas tende a funcionar”, diz o coordenador da chácara, Fer­nando Gois.

Uma das primeiras iniciativas é o estímulo ao sonho.“Trabalho há 30 anos com moradores de rua (de 80 assistidos, 16 são moradores de rua) e a primeira coisa que percebo quando os meninos chegam é que eles não têm objetivo de vida algum”, conta Gois. “Na primeira conversa tentamos incentivá-los a pensar em uma profissão, uma meta.” Um painel pendurado no refeitório retrata desejos para o futuro. Em pequenos bilhetes, as mãos que manipularam a droga começam a formalizar metas através de palavras. “Todo dia pergunto para eles como vai o sonho. Isso faz com que eles tenham um objetivo a cada passo do dia”, diz Gois. O contato com a família também é importante. “Às vezes levamos vários meses para localizar um pai ou uma mãe”, revela o coordenador.

Para a juíza Lídia Guedes, o crack revela um grande problema: as pessoas não têm ideia do que é ter um filho e educá-lo. “Se eximem da responsabilidade dizendo que precisam trabalhar e depois pedem ao conselho tutelar e à Vara de Infância que cuidem de seus filhos.” Para ela, as crianças devem passar mais tempo na escola e os pais devem aprender o que é cuidar de um filho. “Não podem ensinar o que não aprenderam”, justifica.

Infância Esquecida


Problemas familiares e abandono fazem com que o crack avance entre as crianças. Centros de Atenção Psicossocial de Curitiba têm 67 pacientes em tratamento

Fabiane Ziolla Menezes

Os dados são escassos e os números do estado, ainda mais raros, porque os registros de atendimento são municipalizados. Mas um levantamento inédito de fichas, feito pela coordenadoria de Saúde Mental da Secretaria Municipal de Saúde de Curitiba a pedido da reportagem da Gazeta do Povo, dá uma ideia da ameaça que o crack representa para a infância. Na 1.ª Vara de Infância e Juventude de Curitiba, 60% dos casos de acolhimento institucional de crianças se deve ao uso de crack pelos pais. Nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) da capital há 67 pacientes com idade entre 11 e 15 anos em tratamento por causa da pedra – neste ano, um enquadrado na faixa de 8 a 10 anos deu entrada.

No Paraná, o único recorte possível é o dos 168 leitos psiquiátricos reservados ao internamento de meninos (90) e meninas (78). Segundo a Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), esses leitos são usados, em sua maioria, por adolescentes de 15 a 17 anos com dependência do crack. Um perfil mais apurado da ala psiquiátrica do Hospital Universitário do Oeste do Paraná, em Cascavel, que possui 17 leitos, indica que, ao menos, 11 pacientes entre 10 e 12 anos passaram pela instituição neste ano – entre março de 2007 e março de 2009 foram nove nessa faixa etária. O levantamento, feito pelo enfermeiro da ala Sérgio de Arruda Dias, a acadêmica de Enfermagem da Unioeste Ângela Gonçalves da Silva e a professora da universidade Nelsi Salete Tonini, apontou o crack como o motivo mais frequente de internação, seguido da maconha.

Fator de risco

Trauma aumenta predisposição

Uma convivência intensa com situações como a separação prolongada da mãe, a negligência e os maus-tratos seria suficiente para danificar a estrutura e o funcionamento cerebral, predispondo a criança ao uso de substâncias psicoativas. Essa relação é indicada por um estudo de 2002 do Departamento de Psiquiatria da Escola Médica de Harvard, nos Estados Unidos, intitulado “Neurobiologia do Desenvolvimento Infantil Exposto ao Estresse e ao Trauma”.

Os autores partem da hipótese de que a forma final do cérebro humano e seus padrões são esculpidos pela experiência e não vêm totalmente de uma fórmula genética pré-determinada. A exposição a situações traumáticas na infância, principalmente antes dos 5 anos, modificariam para sempre algumas regiões do órgão e fariam aumentar a vulnerabilidade a problemas como transtorno de estresse pós-traumático e depressão.

Em relação ao uso de substâncias psicoativas, os autores apontam a região do vermiscerebelar (parte do cerebelo). Quando tem um tamanho reduzido, esse ponto indica problemas como déficit de atenção e hiperatividade, fatores de risco para o uso de drogas. Essa situação também deixa o sistema límbico (relacionado com a regulação dos processos emocionais e do Sistema Nervoso Autônomo) mais irritável, outro fator para o uso de substâncias psicoativas.

Na Associação San Julian, em Piraquara, que atende Curitiba e região, a idade média é de 14 a 15 anos. O assistente social Wilsun José Gonçalves Araújo, coordenador da unidade de adolescentes, no entanto, diz que de 2009 para cá quatro pacientes de 12 anos passaram pela instituição. Segundo ele, o contato com a droga tem começado aos 7 anos. “Quando eles saem daqui, depois de uma internação que varia de 30 a 45 dias, têm dificuldade em dar seguimento ao tratamento e acabam voltando. São poucas cidades que têm o Caps 1, infantil (são três em Curitiba e sete em outras cidades grandes do estado) e nos outros centros (Caps 2 e AD, para dependentes químicos) não há equipes preparadas”, afirma.

Vício

Nas clínicas e abrigos, as histórias são semelhantes: alguém da família é usuário e/ou traficante, o que torna a droga algo comum na vida da criança. Além disso, a ausência do pai e da mãe pode levar a uma rotina livre de cobranças e disciplina. Crianças mais velhas às vezes traficam e chamam os mais novos, que na esquina de casa ou no campinho de futebol são surpreendidos pela fissura quase imediata proporcionada pelo cachimbo do crack. Duas vezes, em média, são suficientes para viciar. O cérebro, ainda em estruturação e maturação, absorve as consequências.

“Entre os 5 e 7 anos de idade, o esboço do cérebro está formado para uma maturação que acontecerá até os 21 anos, mas a massa encefálica, que é o filtro do órgão, ainda não está totalmente formada, deixando o cérebro mais vulnerável do que na adolescência e na vida adulta”, explica o psiquiatra Marcelo Ribeiro de Araújo, da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas do Departamento de Psi­quiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Bastam 5 segundos para o usuá­rio entrar em um estágio onde não há percepção do que está ao seu redor. Segundo o neurologista Maccleiton Gehlen, do Hospital Milton Muricy, a fuga do real transita para o quadro eufórico – com bem-estar e atenção –, mas dura muito pouco. Em 5 minutos, o usuário quer mais. Conforme Gehlen, não há relação necessária entre o tempo de uso e o vício. “Pode ser da primeira vez ou no prazo de semanas. Depende da suscetibilidade de cada pessoa.”

Gravidez na idade da pedra

Hedeson Alves/ Gazeta do Povo / Andressa (nome fictício) engravidou quando estava sob o efeito do crack. A filha mora com avós e ela luta contra o vício Andressa (nome fictício) engravidou quando estava sob o efeito do crack. A filha mora com avós e ela luta contra o vício Risco


Em seis meses, 52 usuárias de crack foram atendidas em três maternidades de Curitiba

Aline Peres e Fabiane Ziolla Menezes

O número de gestantes usuárias de crack é desconhecido. A informação não é um registro obrigatório nos hospitais; quando existe, fica no prontuário da paciente, com acesso restrito a ela e à família. De dez maternidades consultadas em Curitiba, só três repassaram dados sobre o assunto à Gazeta do Povo. No primeiro semestre deste ano, o Hospital Evangélico, o Hos­pital do Trabalhador e a Maternida­de Victor Ferreira do Amaral totalizaram 52 casos. Situação semelhante ocorreu em Porto Alegre em 2009, quando um levantamento em quatro das principais maternidades da cidade indicou 117 partos de usuárias de crack em cerca de um mês. É como se a cada três dias um bebê vítima da droga nascesse na capital gaúcha.

O coordenador de Gestão de Al­­to Risco do Hospital Presidente Var­­gas, em Porto Alegre, André Cam­­­­pos da Cunha, e a coordenado­ra da UTI Neonatal, Cristina Vi­­ves, dizem que os dados em relação ao uso e aos efeitos do crack na gestação são escassos. Mas, com base em estudos disponíveis no exterior, afir­­mam que em média 3% das mu­­lheres usam alguma droga ilícita durante a gravidez. Segundo eles, cerca de 30% das mulheres preferem suspender o uso no primeiro trimestre da gravidez e 93% durante o terceiro trimestre. De­­pois do parto, é grande o número de mulheres que voltam a usar a dro­­ga. Segundo o National House­hold Survey on Drug Abuse, dos Estados Unidos, a faixa etária mais jovem (de 18 a 30 anos), a au­­sência de um parceiro fixo e níveis de escolaridade baixos aumentam o risco de uso de drogas na gestação.

Luta difícil

Estatísticas

Falta de notificação ainda é comum

A ausência de estatísticas mostra despreocupação em relação aos problemas causados pelo crack. De dez hospitais maternidade de Curitiba procurados pela reportagem, só três fazem o registro de mães usuárias de drogas. A simples omissão da gestante em relação ao uso e a falta de um perfil de atendimento que motive a compilação dos números são os principais motivos desse vazio estatístico.

Segundo o ginecologista Gerson Riguetto Júnior, que atende na maternidade Milton Muricy e no Hospital do Trabalhador, na maioria das vezes a gestante usuária não faz pré-natal e procura o hospital só na hora do parto. Geralmente, a mãe não fala por vontade própria. Riguetto, porém, alerta que o médico deve colher informações ao perceber o estado do bebê ao nascer. Ele lembra ainda que a laqueadura poderia ser feita para evitar gestações de risco. “Legalmente, os médicos não estão amparados. Mas isso deveria ser feito para diminuir os casos. O Estado tem que ser responsável pelo controle, mas não o faz.”

Nos seis primeiros meses desse ano, o Hospital Evangélico de Curitiba atendeu 24 mulheres usuárias de drogas. No Hospital do Trabalhador, foram 12 casos no período. Segundo a enfermeira Thaís Antunes Betin, do Núcleo de Epidemiologia Hospitalar, na primeira entrevista as pacientes são perguntadas sobre o uso de drogas. Quando elas não informam, o médico não pode notificar. Na primeira semana de julho foram dois casos: uma jovem de 26 anos deixou o bebê para a adoção e uma grávida de 40 anos fugiu em meio a uma crise de abstinência.

Na Maternidade Victor Ferreira do Amaral, 16 atendimentos a gestantes usuárias de crack foram registrados nesse ano. O número representa 36% do total de notificações por uso de drogas e negligência em 2010. No ano passado foram 78 notificações por uso de crak. A assistente social Regiane Jarzinski diz que o aumento no total de gestações problemáticas de um ano para o outro (43,5%) aponta para uma perspectiva de alta no número de casos.

Depoimento

Suzana*, 24 anos, um filho

“Abandonei tudo quando vi seu rosto. E comecei uma nova história”

O filme “Eu, Christiane F. – 13 Anos, Drogada e Prostituída” serviu como uma forma de atração e não de prevenção para mim. Tinha 11 anos quando o vi na escola e pensei: quero ser igual a essa menina.

Aos 14 anos, mudei de escola e conheci uma menina que usava drogas. Nessa idade, a mistura do álcool com a maconha era comum e bombástica. Entrava em salas de bate-papo da internet e marcava encontro com os meninos. O grupo se reunia em frente ao Passeio Público e, certo dia, conheci um carrinheiro que fumava crack. Estava ali minha oportunidade de experimentar algo mais forte.

Nessa época, comecei a usar também o Benflogin, remédio anti-inflamatório que virava uma droga misturada ao álcool, tipo LSD genérico. Tive minha primeira internação pelo conjunto que usava. Fiquei um pouco mais de um mês, mas recaí três dias antes de completar um ano de abstinência.

Era Ano Novo e todos os amigos estavam na praia. Uma menina se aproximou e me ofereceu cocaína. Quando voltei, falei na clínica e eles me internaram mais dez dias. Se da primeira vez fiquei feliz por poder estar limpa e fazer parte dos 30% que se salvam, dessa segunda vez “larguei os betes”. A cada três meses eu recaía e voltava a procurar as drogas.

Foi nessa época que virei visitante de favela. Dos 17 aos 18 anos usei só crack. O pessoal que vendia drogas no Parolin e no Capanema me conhecia. No início, comprava a pedra e ia fumar em casa, na garagem. Depois, comecei a consumir lá mesmo.

Chegava à favela, fumava o que tinha de dinheiro e quando acabava ia pedir no sinaleiro. Cheguei a me prostituir. O máximo que fumei em 24 horas foram 30 pedras. Ficava sem dormir, alerta. Não tinha fome, sono e nem dor. Um dia minha mãe se cansou e me mandou embora. Fiquei um mês longe da família. Meu pé, de tanto andar, era uma bola. Mas eu não sentia dor. A droga era um anestésico da dor física e da dor moral.

Aos 22 anos queria engravidar porque achava que assim eu ia parar de vez. O meu namorado, também viciado, aceitou e em 15 dias o resultado do teste de gravidez deu positivo. No entanto, com dois meses de gestação, eu voltei para o mesmo mundo. Não conseguia passar mais do que duas semanas limpa e isso me fazia chorar e rezar, pedindo a Deus para que o bebê nascesse normal.

As meninas da favela que já eram mães me consolavam. “Os meus (filhos) são como touros. Fortes. O teu também vai ser”. Durante o período da gestação fiquei internada três vezes. No total, desde que comecei na vida das drogas, foram 12. O namorado sumiu quando eu estava no quarto mês. Tinha dias que o meu filho mexia muito. Outros em que ficava quietinho. A médica sabia de tudo e me avisava do perigo.

Para minha felicidade, ele nasceu perfeito e sem crise de abstinência. Minha mãe já tinha avisado que o tiraria de mim, mas não foi preciso. Abandonei tudo quando vi seu rosto. E comecei uma nova história.

* Nome fictício.

Nas clínicas e comunidades terapêuticas de Curitiba, as gestantes que usam crack são um público cada vez mais frequente, mas que procuram as instituições há pelo menos cinco anos. Na Casa de Re­­cuperação Água da Vida (Cravi), com atendimento particular e por convênios públicos, cerca de 20 gestantes deram entrada de 2009 para cá. “A maioria vem procurar ajuda depois, quando já fez o uso durante a gestação”, lamenta a psicóloga Rafaela Di Lascio Rosendo.

É o caso de Andressa*, 29 anos, que está internada há quatro me­­ses na unidade feminina depois de oito meses desaparecida. Há três anos, em um momento de uso da droga, ela engravidou. Não sabe quem é o pai e não lembra de co­­mo aconteceu. Constrangida, diz à família que não quer contar. Ten­tou se controlar durante a gestação, mas acabou cedendo. Geral­mente esses lapsos começavam com a ingestão de bebida alcoólica. “A bebida me puxava para o crack. Hoje tenho plena consciência dessa associação”, admite. A filha, ho­­je com 3 anos, vive com os avós. A voz de Andressa quase some quando fala da filha. “A culpa é um dos sentimentos mais fortes nessas mães. Boa parte delas acaba doando os bebês, que chamam de criança do crack”, diz Rafaela.

Negação

Ao contrário de Andressa, que está ciente da luta que tem pela frente, Sônia*, 40 anos, ainda está na fase da negação. É mãe de duas meninas, de 15 e 5 anos. A primeira foi gerada depois de ela usar cocaína, maconha e álcool. O pai também era usuário. A segunda, com o crack. Sônia diz que “deu sorte” e que as filhas são “normais”. Mas, se­­gundo as psicólogas da Cravi, a mais velha tem um cisto sobre o ner­­vo ótico que mantém a pálpebra de um dos olhos fechada o tempo todo – problema que pode ter sido causado pelo uso de drogas. A pequena, aparentemente, não tem nada. “Mas é cedo para dizer”, adverte a psicóloga Caroline Fer­­nanda Rocha.

Sônia está há pouco mais de um mês na instituição. Estava em tratamento no início do ano, mas fu­­giu no Dia das Mães. Brigou com o padrasto, agrediu a mãe e foi agressiva com a filha mais nova. Uma ordem judicial impede que Sônia se aproxime dela.

Tanto Andressa quanto Sônia estão tentando reatar os laços com a família e a vida social, mas quando deixarem o tratamento o básico continuará faltando: uma casa, um emprego e boas companhias. Fatores com os quais terão de lutar para se manterem longe do crack.

Cérebro e fígado do bebê são os mais afetados

Quando inalado pela gestante, o crack atinge o cérebro do feto e tende a matar os neurônios. Os detritos presentes na droga entram no pulmão e o que é absorvido pelo sangue percorre o corpo inteiro. Assim, o cérebro e o fígado são mais afetados. O cérebro recebe os estímulos e o fígado fica responsável por limpar as impurezas do sangue. “Com o acúmulo de detritos dá uma sobrecarga”, diz o psiquiatra José Leão de Carvalho Júnior, da Clínica Nova Esperança.

Tanto o peso quanto o comprimento do bebê são afetados pela cocaína, segundo estudo do psiquiatra Sandro Sendin Mitsuhiro, da Universidade Federal de São Paulo. Das mil gestantes entre 11 e 19 anos acompanhadas por Mitsuhiro em 2006, cerca de 6% fizeram uso de drogas na gravidez.

Aos 7 anos, as crianças apresentam duas vezes mais chances de ficar abaixo da porcentagem de 10% na curva de crescimento. Logo após o nascimento podem ser observados tremores, irritabilidade e agitação psicomotora. Nos três primeiros dias após o parto pode haver síndrome de abstinência. Os principais sintomas são sucção deficiente, irritabilidade, hipertonia, bocejos e espirros. O comprometimento neurológico, comportamental e de aprendizado aparece depois dos 3 anos. A pesquisa aponta que o uso médio de sete pedras por semana durante a gravidez provoca um risco maior de retardo mental aos 2 anos de idade.

Durante a gestação a cocaína inibe a recaptação de substâncias como dopamina, norepinefrina e serotonina, causando eu­­foria. A ação periférica cardiovascular (vasoconstrição, hipertensão e taquicardia) gera efeitos adversos durante a gestação e os primeiros dias após o nascimento.

A atividade da colinesterase, enzima que metaboliza a cocaína, é menor na gravidez. Isso aumenta o tempo em que a substância fica no corpo. O descolamento prematuro de placenta e o trabalho de parto prematuro são as consequên­cias mais comuns.

* Nomes fictícios.


Pedras de fabricação própria


Narcotraficantes brasileiros absorvem conhecimento e começam a processar matéria-prima vinda da Bolívia, do Peru e da Colômbia

Fabiane Ziolla Menezes e Aline Peres

Os narcotraficantes brasileiros estão se tornando empreendedores num ramo em que até então figuravam apenas como atravessadores. A expansão dos negócios, com uma carteira de clientes que só cresce, levou-os a investir no processamento da matéria-prima vinda da Bolívia, da Colômbia e do Peru. Até há pouco, apenas importavam o pro­­­duto já pronto, em pó ou pedra. A prática levou-os a perceber que o lu­­­cro é maior quando se importa a pasta-base de coca para eles próprios fazê-la render. Homens de visão, puseram o país num novo status e agora suas pedras levam o selo Made in Brazil.

A razão dessa tendência está, como em qualquer ramo, no custo-benefício. Um quilo de pasta-base rende entre 12 e 15 mil pedras de crack. Levar um quilo dela é mais fácil do que carregar um saco de pedras. Os números são elucidativos. O volume de pasta apreendida em 2009 no Brasil cresceu mais de três vezes em relação ao ano anterior. Saltou de 412 quilos para 1,4 tonelada. Já neste ano, o Narcodenúncia mostra aumento de 60% na apreensão dessa matéria-prima no Paraná. Desde 2003 foram confiscados 24,5 quilos por ano, em média. Mas só no último semestre a quantidade já chega a 32 quilos.

As polícias conseguem retirar de circulação apenas uma parte do que chega ao consumidor final. Ainda assim, os dados oficiais são preocupantes porque revelam a fabricação do pó e da pedra em território nacional, tendência confirmada com a descoberta de 11 laboratórios de refino no país entre março e maio deste ano, segundo a Agência Brasil. Um deles funcionava na Cidade Industrial de Curitiba. Nessa semana, a polícia do Paraná prendeu em Santa Catarina e em São Paulo dois dos maiores traficantes de Curitiba. Um deles mantinha um laboratório de refino de pó e pedra na capital paulista.

Os números podem ser ainda maiores se considerado que nem toda pasta-base apreendida é identificada como tal e acaba sendo registrada como cocaína. “A diferenciação entre pasta-base, crack e cloridrato (pó) é, muitas vezes, realizada de forma técnica, quando da elaboração do laudo pericial (depois da apreensão). Daí a distorção dos números. Muitas vezes se apreende pasta-base e, para fins estatísticos, entra no ‘bolo’ de apreensões de cocaína apenas”, explica o chefe da Delegacia de Repressão a Entorpecentes da Polícia Federal (PF) no Paraná, Rivaldo Venâncio.

Efeito é imediato e devastador

Inalado pelo pulmão, o crack tem um efeito bem mais devastador do que a cocaína, que chega ao organismo por outras vias. “A superfície de absorção do pulmão é grande e permite a entrada de uma quantidade muito maior da droga. Além disso, o acesso do pulmão ao cérebro é quase imediato”, diz o psiquiatra Félix Kessler, vice-diretor do Centro de Pesquisa em Álcool e Drogas do Hospital das Clínicas de Porto Alegre, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Segundo o Centro Brasi­­­­leiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), os efeitos do crack podem ser sentidos entre 5 e 15 segundos, enquanto os da cocaína cheirada ocorrem em 10 a 15 minutos, e o da injetável entre 3 e 5 minutos.

O perfil do usuário mudou nos últimos anos. Se antes a droga estava atrelada ao consumo pelas classes mais baixas (como D e E), hoje ela circula livremente em outras camadas sociais e em outros perfis. Na fissura do crack encontram-se pessoas de várias idades, embora o perfil majoritário seja de homens entre 18 e 35 anos de idade. O consumo na infância, pela mãe durante a gestação e amamentação, e na idade mais avançada, tornou-se mais frequente de cinco anos para cá. (FZM)

Leia entre amanhã e quinta-feira na Gazeta do Povo a continuidade desta série de reportagens sobre cada um desses perfis de usuários do crack.

Sujeira aumenta o volume

A composição química da coca (Erythroxylon coca) possui de 30% a 50% de alcalóides de cocaína. Na primeira fase de extração de cocaína, que acontece em laboratórios dos países fornecedores (Colômbia, Peru e Bolívia), as folhas são tratadas (prensadas) com um solvente orgânico, como querosene ou gasolina, e ácido sulfúrico, formando uma pasta de até 90% de sulfato de cocaína. Se a essa pasta for adicionada ácido clorídrico, produz o cloridrato de cocaína, o pó. Se a pasta e o cloridrato forem misturados, junto com bicarbonato de sódio (produto sem controle específico da Agência Nacional de Vigilância da Sanitária ou da PF, encontrado em farmácias para outros usos), e aquecidos várias vezes tem-se a cristalização do pó, o crack.

Em nome do lucro, traficantes aumentam os volumes de pó e pedra com substâncias absurdas. “Em média, a cocaína apreendida no país tem pureza de 30%, segundo perícias do Instituto Nacional de Criminalística. Os outros 70% são substâncias como pó de mármore, talco e vidro moído, só para dar volume”, explica o delegado licenciado e ex-secretário especial Antidrogas de Curitiba, Fernando Fran­­cischini. O pouco que sobra de cocaína na mistura, no entanto, já é suficiente para viciar. O comprometimento é tanto que, segundo avaliação do de­­le­­gado da PF Wagner Mesquita, se o usuário brasileiro usar a cocaína pura, ele pode morrer de overdose. (AP e FZM)

Operação

Líderes em Curitiba, presos em SP e SC


O Departamento Estadual de Narcóticos (Denarc), da Polícia Civil do Paraná, prendeu nessa semana na Operação Madrugada os dois maiores traficantes do Bairro Alto, em Curitiba: Maikon Rubens Bonete Alves, 25 anos, conhecido como Bauduco, e Carlos Roberto Oliveira, 44 anos, cozm o apelido de Baiano. Ao todo, a operação cumpriu 34 mandados de busca e apreensão e 24 mandados de prisão em cidades do Paraná (Curitiba, Pinhais e Araucária), Santa Catarina (Joinville) e São Paulo (capital, São Bernardo do Campo e Diadema), resultantes de uma investigação que começou há seis meses, a partir das atividades no bairro da região norte de Curitiba. Seis pessoas ainda estão foragidas.Só repressão não resolve

Na opinião do delegado do Departamento Estadual de Narcóticos (Denarc), Julio Reis, é preciso existir mais do que repressão, trabalho desenvolvido pela polícia. A prevenção e o tratamento também são pontos onde as ações devem melhorar. “Enquanto houver demanda, haverá tráfico”, diz. Em uma recente operação na região Oeste do estado, onde foram apreendidos 25 quilos de pasta-base, em Céu Azul, os traficantes presos comentaram que para cada quilo de pasta seriam fabricados 10 quilos de cocaína, que por sua vez, produziria 100 mil pedras.


Ainda em março, a Junta Inter­­­­na­­­cional de Fiscalização de Entorpecentes (Jife) tinha apontado que o aumento de apreensões se deve ao crescimento do cultivo e da produção de coca no Peru e, principalmente, na Bolívia, e na consequente queda no preço da matéria-prima. O Relatório Mundial de Drogas, divulgado em junho pelo Escritório sobre Drogas e Crime da Organização das Nações Unidas (ONU), repetiu o alerta. “Tem se tornado cada vez mais vantajoso adquirir a pasta, que depois se transforma em cocaína (pó) ou crack (pedra), do que traficar a cocaína pronta, muito mais volumosa e fácil de identificar”, diz o delegado licenciado da PF Fernando Fran­­cischini, ex-secretário especial Anti­­­dro­­­gas de Curitiba.

Contudo, Venâncio afirma que, via de regra, o crack entra pronto no país. “A exceção é a fabricação”, diz. Por quanto tempo, no entanto, não se sabe. “A quantidade de pasta-base apreendida pode parecer pequena, mas não é um dado a desconsiderar”, lembra o delegado da PF em Foz do Iguaçu, Rodrigo Perin Nardi.

Já em Guaíra, também na fronteira do Paraná com o Paraguai, onde se apreendeu quase 4 dos 17 quilos de pasta-base recolhidos em 2009 no estado, o delegado local da PF, Érico Ricardo Saconato, lembra que a fabricação do crack é muito simples e que o fechamento de um laboratório da droga não é tão frequente. “O crack é fabricado em casa. Tivemos um caso no ano em que o indivíduo estava fazendo a mistura em uma forma de bolo, na residência.”

Laboratório e refino

Laboratório é o local onde a folha da coca é transformada em pasta base ou cocaína e refino é onde a droga á batizada com mais produtos e cresce em volume, seja em forma de pó ou pedra. Segundo o delegado da PF Wag­­­ner Mesquita, o Brasil não teria laboratórios, mas apenas refinos. Os laboratórios não são de processamento. “O que é fechado no país é o local onde é feito o batismo da droga. Por exemplo, 100 quilos de pasta-base podem virar 500 quilos de cocaína”, explica.

Paraná é corredor do tráfico

A pasta de coca e seus derivados têm chegado ao Brasil principalmente da Bolívia, mas também do Peru e da Colômbia. Entram no Brasil pelo Acre; por Cáceres (MT) e Guajará-mirim (RO) rumo ao Nordeste; por Corumbá e Ponta Porã (MS); e por Guaíra e Foz do Iguaçu, via Paraguai, rumo a Curitiba e outras cidades do Sul e do Sudeste do país. Parte segue para Europa e África, via Brasil. De acordo com o chefe da Delegacia de Repressão a Entorpecentes da Polícia Federal no Paraná, Rivaldo Venâncio, as cidades de Entre Rios do Oeste, Pato Bragado e Santa Helena, no Oeste do Paraná, também são entradas da droga no estado.

Por aqui, as cargas chegam geralmente via carros de passeio e caminhões. As principais estradas usadas são a BR-271, de Guaíra, e a BR-277, segundo o che­­fe de Policiamento e Fiscaliza­ção da Polícia Rodoviária Federal do estado, inspetor Gilson Cor­tia­­­no. A corporação é a campeã nacional de apreensões de crack e com uma média considerável nas de cocaína. Do primeiro se­­mestre do ano passado para o mesmo período de 2010 houve aumento de 150% nas apreensões de cocaína (de 45,6 para 113,9 quilos) e o dobro nas de crack (118,9 para 240,6 quilos).

Em Guaíra, o delegado da PF Érico Ricardo Saconato diz que as apreensões de cocaína e derivados nos primeiros meses de 2010 já superam as do mesmo período do ano passado: de 24,4 para 52,8 quilos, aumento de 54%. As cargas de pasta e pedras são transportadas em pequenas quantidades. “O número de pessoas trabalhando para o tráfico aumentou, enquanto a quantidade diminuiu. A pasta vem em três ou quatro quilos”, diz. Saconato conta que o crack tem tomado conta da região Oeste e que foi verificado o uso da droga até mesmo no meio rural, entre cortadores de cana. “É uma droga tão barata que vem substituindo a maconha.”

Em ascensão

Em Foz do Iguaçu, a situação não é diferente. O delegado Rodrigo Perin Nardi lembra que a droga mais apreendida é a maconha (18 toneladas em 2009, contra 15 em 2008), mas a cocaína e seus derivados têm crescido. “Neste ano foram 3,1 quilos de pasta-base, 36 de cocaína em pó e 47 de crack, além de 64 quilos de lidocaína (uma das substâncias usadas para batizar e dobrar o volume da cocaína). No ano passado foram 280 quilos só de cocaína recolhidos pela delegacia de Guaíra”. Nardi explica que, enquanto o quilo da maconha é comercializado a R$ 50 no Paraguai, o da cocaína chega a R$ 9 mil. “Isso também explica as diferenças no tráfico, modo de transporte e quantidade de uma droga e outra.”

“Meu corpo não suporta mais”


Roberto*, 48 anos, usuário de crack há 13, internado há 50 dias


Antes do crack eu usei muita maconha, anfetamina e glicose na veia, desde os 15 anos. Aos 30 passei a usar cocaína. Experimentei o crack em 1997, com 35 anos, e larguei o resto. Uma pessoa me apresentou e me explicou como fazia. No começo eu mesmo fabricava, em casa, para fumar. Para você ter a mesma sensação que o crack dá na primeira fumada precisa cheirar várias carreiras de cocaína, que é mais cara.

Nos anos seguintes, entre 1998 e 1999, já comecei a achar para vender em algumas favelas. Era mais difícil de comprar do que agora. Hoje, em qualquer esquina você consegue. Principalmente no Centro, à noite. Se quiser de dia, é só ir na favela.

Foi com o crack que perdi a família (era casado e teve um filho com síndrome de Down, hoje com 23 anos). Só não perdi o trabalho porque tinha me acidentado de moto sob o efeito da droga. Tive traumatismo craniano e nesse período de recuperação fui interditado. Fiquei aqui na clínica [Nova Esperança] por um ano e seis meses – o período mais longo que já fiquei sem usar nada. Hoje sou aposentado e declarado incapaz. Nunca roubei ou assaltei, mas me afundei em dívidas. Comecei a prejudicar a minha família com a cocaína. Depois, pelo crack, fiz mais empréstimos. São uns R$ 60 mil de dívidas. Não tenho casa, carro, roupas, nada. Moro em uma pensão, sozinho, e como fiado.

Fui internado umas 15 vezes, mas sempre forçado. Nunca quis parar de usar. Essa é primeira vez que me trato por vontade própria. Vim pra cá porque não conseguia ficar mais de um dia sem usar a pedra. Quero parar. Meu corpo não suporta mais.

* Nome fictício

“Se tivesse, fumava na sua frente”


Alcides*, 58 anos, usuário de crack há 15 e em tratamento há 45 dias

Experimentei o crack em uma noite com mulheres, com 43 anos, depois de usar muita maconha, cocaína e outras drogas. O plano era usar ecstasy, mas acabou e elas tinham a pedra. Caí no crack por problema financeiro. O crack é a droga mais barata, mais fácil de encontrar. É só ver um cara mais novo, meio alucinado, numa esquina. É o “trafiquinho”, o cara que tem a pedra. Se você usar duas vezes, está perdido. Você esquece de tudo, se apaixona por aquela fumaça. O crack veio para arrebentar o povo – quem tem dinheiro usa cocaína e ecstasy.

Eu cheguei a roubar até comida e produtos de limpeza de casa para comprar crack. Na favela quem vende a droga são as famílias, tanto faz trocar por dinheiro ou um quilo de sabão em pó. Quando você quer fumar, manipula de todo jeito para conseguir. Fiquei algumas vezes preso, mas por pouco tempo. Minha família descobria onde estava, dizia que eu estava em tratamento e o delegado me liberava. Com a cocaína eu conseguia viver, mas o crack me deixa de joelhos. Cheguei a ficar seis meses morando na Praça Eufrásio Correia.

Minha vida não é normal. Fico cada dia na casa de um filho. É clínica, é hospital, é tratamento de várias sequelas. Tomo oito tipos de remédio todos os dias. Não peguei HIV por Deus mesmo. Não trabalho, mas recebo uma porcentagem da lanchonete da família. Se sair do tratamento, eles me mandam embora. Não ando com dinheiro para não correr o risco de comprar. Faço oficinas e curso de panificação, porque penso nisso o tempo todo. Nesses dias tive que usar cocaína duas vezes para não usar o crack.

* Nome fictício

Para o tráfico, idade não conta


Aline Peres

Apesar de menos frequente que os jovens, o envolvimento de pessoas mais velhas no tráfico também acontece. Nos últimos meses, a imprensa noticiou vários casos em Saramandaia, no interior da Bahia. Em março, Laudelina Maciel de Jesus, 77 anos, foi presa como traficante. Ela estava com mais de 100 pedras de crack no bolso e disse que precisava sustentar quatro filhos e 20 netos, além de reformar a casa onde mora. Em casa, os policiais encontraram mais 33 pedras. Para cada 60 pedras vendidas, ela ganhava entre R$ 20 e R$ 40. Ela disse em depoimento que não usava a droga, mas já tinha sido presa em duas ocasiões. Há 18 anos, por porte de maconha. Na segunda, foi abordada quando chegava em casa com uma sacola de pedras de crack.

No dia 18 de abril, um homem de 66 anos foi preso com 28 kg de crack na cidade de Japaratuba, no interior de Sergipe. A droga estava escondida em um fundo falso do porta-malas do carro conduzido por Ari Castelain. A apreensão partiu de uma denúncia. Além da posse da droga, Castelain respondia a 56 processos e tinha 13 mandados de prisão expedidos pela Justiça contra ele. Segundo o acusado, a droga seria levada para Alagoas.

Há dois meses, em Uberlândia (MG), Expedito Pereira da Silva, 63 anos, foi preso pela PM com 30 pedras de crack. O suspeito foi preso em um bairro da região norte da cidade. No local havia diversos usuários de drogas. O suspeito foi capturado depois de tentar se esconder em um matagal.

No fim da linha, o crack


Com mais de 50 anos, usuários de outras drogas migram para a pedra e aumentam os riscos. Tendência já foi verifidada nos Estados Unidos e no Brasil

Aline Peres e Fabiane Ziolla Menezes

Não é comum, mas mais pes­­soas na faixa dos 50 anos de idade têm começado a usar crack. O uso geralmente está ligado ao vício do álcool e outras drogas e muitas vezes a uma vida complicada, de morador de rua. Desde 2009, 24 pacientes com idade entre 51 e 57 anos e três entre 58 e 60 anos deram entrada nos Centros de Atenção Psicossocial de Curitiba (Caps). O levantamento, feito a pedido da reportagem da Gazeta do Povo, é o primeiro do gênero. Segundo a coordenadoria de Saúde Mental da Secretaria Municipal de Saúde, pacientes mais velhos não costumavam aparecer até 2008.

Em pouco mais de uma semana de buscas, a reportagem encontrou dois homens viciados em crack em Curitiba, um com 48 anos e outro com 58. Há mais pelas ruas, alguns frequentando a Fundação de Ação Social (FAS), da prefeitura de Curitiba, mas em números bem menos significativos que os do perfil majoritário, dos 18 aos 35 anos.

Para o tráfico, idade não conta

Apesar de menos frequente que os jovens, o envolvimento de pessoas mais velhas no tráfico também acontece. Nos últimos meses, a imprensa noticiou vários casos em Saramandaia, no interior da Bahia. Em março, Laudelina Maciel de Jesus, 77 anos, foi presa como traficante.

"Se tivesse, fumava na sua frente"

Experimentei o crack em uma noite com mulheres, com 43 anos, depois de usar muita maconha, cocaína e outras drogas. O plano era usar ecstasy, mas acabou e elas tinham a pedra. Caí no crack por problema financeiro.

"Meu corpo não suporta mais"

Antes do crack eu usei muita maconha, anfetamina e glicose na veia, desde os 15 anos. Aos 30 passei a usar cocaína. Experimentei o crack em 1997, com 35 anos, e larguei o resto. Uma pessoa me apresentou e me explicou como fazia.


Embora duas pessoas não sirvam como base para uma estatística, os casos indicam um fenômeno percebido recentemente nos Estados Unidos, onde pesquisadores têm verificado uma migração do álcool para o uso de drogas ilícitas. Segundo um estudo do epidemiologista norte-americano James Anthony, isso pode estar relacionado a um efeito cascata do uso da maconha, que ainda é considerada uma porta de entrada para outras drogas.

Anthony é autor de uma teoria da progressão do uso de entorpecentes: quem usa álcool teria três vezes mais chances de consumir maconha. Quem usa maconha, por sua vez, teria 11 vezes mais chances de passar para a cocaína, e assim por diante. Para o crack não há um cálculo, mas espera-se uma progressão semelhante.

No Brasil, o tema tem sido explorado por estudiosos como o psiquiatra Philip Ribeiro, do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria, do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP). “O uso dessa droga [maconha], que antes era feito aos 16 anos, agora está aparecendo aos 24 ou 25 anos, o que levaria também à cocaína e ao crack em idade mais avançada. Por que isso acontece, ainda não sabemos”, diz o psiquiatra.

Segundo Ribeiro, em São Paulo o número de usuários de crack mais velhos, com mais de 65 anos, também não é significativo, mas eles podem ser encontrados em locais como a Cracolândia, no centro da capital paulista.

O uso prolongado da droga entre alguns dos entrevistados pela Gazeta do Povo não o surpreende. “A sobrevida do jovem, da criança e do adolescente é muito pequena, mas mais por conta da violência, pelo envolvimento com o tráfico. Com o passar do tempo criou-se uma falácia de quem usa crack, independentemente da idade, morre cedo. Mas não é bem assim.”

Consequências

O consumo do crack na faixa dos 50 ou 60 anos é ainda mais perigoso por causa dos problemas típicos da idade, como os cardiovasculares, que potencializam os efeitos da pedra. Se considerados outros problemas adquiridos com o consumo de outras drogas ao longo da vida, os riscos são ainda maiores. “Se no jovem a causa da morte pode estar mais ligada ao tráfico, no idoso a conjunção de outras doenças, como a hipertensão, pode ter conseqüências fulminantes”, afirma o neurologista Maccleiton Gehlen. “Se ele já tem outras doenças, a tendência é piorar. Ele acaba tendo mais chances de ter um derrame, uma crise convulsiva um ou quadro demencial.”

Segundo o médico geriatra José Mário Tupiná Machado, o organismo de pessoas de idade mais avançada tem dificuldades para se adaptar a novas substâncias, o que pode dificultar o tratamento. “Quanto mais tempo se vive, menos capacidade de adaptação e tolerância a mudanças o organismo tem”, explica Machado. “O nome para isso é reserva funcional. Quanto mais tempo eu vivo, mais ela diminui. Qualquer mudança de ambiente ou introdução de nova medicação, por exemplo, fica mais difícil.”

Os homens ouvidos pela reportagem apresentaram dificuldade de concentração e de raciocínio durante as entrevistas. Além disso, listaram uma série de problemas de saúde, como hipertensão, dentição prejudicada e hepatite, entre outros. Atualmente eles não trabalham: um por invalidez, depois de sofrer um acidente de moto sob o efeito da droga; o outro recebe uma porcentagem da renda da lanchonete da família enquanto está em tratamento. A rotina de solidão, sem amigos ou familiares, que muitas vezes atinge os idosos, chegou mais cedo para esses personagens. Por enquanto, visualizar um futuro além da abstinência é difícil.

Filme é usado no combate à exploração sexual das brasileiras


"Cinderelas, Lobos e um Príncipe Encantado", filme de Joel Zito Araújo, mostra o sonho de cinderela de brasileiras que buscam encontrar um marido estrangeiro. O longa-metragem foi exibido para os participantes do curso de formação de multiplicadores do Projeto de Prevenção à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes nesta terça-feira (13).

Exploração sexual

O sonho das cinderelas brasileiras, via de regra, vira pesadelo.

De acordo Elisabeth Bahia, do Ministério do Turismo (MTur), promotor do curso, a exibição do documentário teve o objetivo de sensibilizar e promover a reflexão entre os participantes do curso. Ela lembra que em busca da concretização do sonho de cinderela, muitas mulheres acabam entrando no caminho da prostituição e das drogas. Algumas delas entram ainda meninas no universo da exploração sexual, buscando melhores condições de vida.

“Muitas vezes, o turismo é o meio utilizado para a exploração sexual de crianças e adolescentes. Nossa meta aqui é contribuir para que os estados tenham condições de elaborar e implementar ações para prevenir este tipo de crime dentro de hotéis, restaurantes, bares e outros estabelecimentos ligados ao setor”, destaca a coordenadora.

Para Maria Alice Araújo, representante do Conselho dos Direitos da Criança e do Adolescente do Estado de Tocantins, é importante levar adiante esse entendimento. “Sexo com alguém que tenha menos de 18 anos é crime, é exploração, não é simplesmente prostituição. A sociedade não pode aceitar como algo normal”, acrescenta.

O curso na Região Centro-Oeste, que teve início terça-feira (13), vai até a próxima sexta-feira (16), com a participação de cinco representantes de cada estado, todos de órgãos e empresas ligadas ao turismo. Na semana que vem, será a vez da Região Sul receber o curso.

Serviço:

A exploração sexual de crianças e jovens até 18 anos incompletos é crime. A legislação brasileira prevê punição para quem pratica ou facilita. Para denunciar os casos, ligue gratuitamente para o Disque 100 ou procure o Conselho Tutelar mais próximo.

Terapeutas Infantis apoiam lei contra violência infantil


A terapeuta infantil Daniella Freixo de Faria acredita e apóia a lei que coíbe bater nas crianças. Para ela, ao iniciar a violência contra os filhos pequenos, os pais ensinam muitas coisas. Quando castigada fisicamente, a criança logo entende a agressão como um comportamento válido e normal.

A força bruta passa a ser escolhida, ao invés do diálogo. “A experiência que a criança vive dentro de casa, literalmente mostra o quanto é abrupta, violenta e capaz de interromper qualquer situação. Poderá funcionar para ela quando precisar de forma cabível”, alerta Daniella.

Obviamente, como adultos, os pais são mais fortes, e essa imposição de temor, acompanha a criança por toda sua vida. E aí que mora o perigo. A especialista em terapia infantil analítica, afirma que talvez este pavor apareça futuramente em forma: de medo do chefe, aquela pessoa autoritária no ciclo de amizade, etc. Ao bater em um filho, o pai ou mãe demonstra um total descontrole emocional: “são um exemplo vivo de que na ausência de diálogo essa atitude é aceitável. E mais, os famosos “tapinhas” normalmente acontecem em busca de alguma retomada de controle, ou seja, é uma postura absolutamente paradoxal, oposta ao que se pretende”, diz.

Normalmente o tapa acontece no susto. A criança passa então a não ter noção exata do que está acontecendo com os pais. Por isso, nos momentos em que a violência acontece, os filhos não constroem a noção de causa e conseqüência. Não aprende portanto. As coisas começam a se modificar quando essa criança começa a bater em seus amigos na escola, quando a agressividade começa a aparecer de forma bastante visível e preocupante.

Com a lei que proíbe bater nos filhos gerou repercussão desde o seu início, entre pais e educadores. Mas para a terapeuta Daniella, “os filhos precisam e pedem reconhecimento, direcionamento com amor, exemplo e presença. Com isso, cada criança, cada indivíduo que se apresenta poderá SER quem realmente é. Uma relação de confiança, de respeito, da certeza do amor , da presença começa, passa e termina no absoluto cuidado pelo Ser do outro, que inclui o corpo físico, mental, emocional e espiritual. Lembre-se que cuidar do outro é cuidar de todos, de todos nós” finaliza.

Cineastas da favela criticam Cidade de Deus e Tropa


Os diretores dos cinco episódios do filme 5x Favela, Agora por Nós Mesmos criticaram, em debate durante o festival de cinema de Paulínia, produções que tratam de favelas, como Cidade de Deus e Tropa de Elite.

Comandado por Cacá Diegues, 5x Favela, Agora por Nós Mesmos custou R$ 4 milhões e traz cinco curtas-metragens escritos, dirigidos e interpretados por moradores de comunidades carentes do Rio de Janeiro. Retoma uma ideia original de 1962, em que cinco cineastas de classe média do Rio, entre eles Diegues, mostraram a vida dos moradores de favelas no clássico Cinco Vezes Favela.

Os diretores dos curtas disseram que não se vêem representados nos filmes de Fernando Meirelles e José Padilha. Por isso, produziram episódios em que moradores de comunidades cariocas são apresentados em uma perspectiva positiva.

"Cidade de Deus é um filme que o cara de fora [da favela] viu os traficantes e fez um filme sobre isso. Tropa de Elite foi um cara de fora [da favela] que viu a polícia e fez um filme sobre isso. Agora [5x Favela, Agora por Nós Mesmos] é um filme com a nossa visão", disse Luciano Vidigal, de 32 anos, cineasta morador do morro do Vidigal, diretor do episódio Concerto para Violino, o mais violento, trágico e pretensioso do filme, em que policiais e traficantes se unem para recuperar armas roubadas por bandidos.

Mais jovem dos diretores de 5x Favela, a estudante Manaíra Carneiro, 22 anos, diferencia o longa de Cidade de Deus e de Tropa de Elite. "A temática de 5x Favela não é a favela. É um filme que se passa na favela, mas acima de tudo um filme sobre solidariedade, esperança e ética, sobre pessoas que vivem em situações limite. Cidade de Deus é um filme de época, maniqueísta", afirmou.

Manaíra é codiretora de Fonte de Renda, o primeiro episódio, sobre um rapaz da favela que se vê forçado a vender drogas para os "playboys" da faculdade de direito em que estuda, para poder comprar livros. O jovem reluta muito em entrar para o crime e sai dele assim que consegue um emprego. E tem um final feliz, não é punido por se envolver com o tráfico, como provavelmente ocorreria se a história tivesse saído da cabeça de alguém de fora da favela.

O final feliz, à exceção de Concerto para Violino, marca todos os episódios. Segundo os diretores, isso foi proposital. Os cinco curtas foram escolhidos entre dezenas de argumentos desenvolvidos pelos jovens das comunidades em oficinas preparatórias para o filme.

"No processo de escolha dos argumentos, foi nítida essa necessidade de fazer um retrato positivo da favela", contou Cacau Amaral, 37, morador de Duque de Caxias, na periferia do Grande Rio, um dos diretores do programa Espelho, de Lázaro Ramos, no Canal Brasil.

Amaral, assina, em parceria com Rodrigo Felha, o episódio Arroz com Feijão, um dos mais divertidos, apesar da situação trágica. No curta, dois meninos lavam carro e catam cocô de cavalo para conseguir dinheiro e comprar uma galinha para que a mãe de um deles sirva um jantar digno para o pai, no dia do aniversário dele. Em uma das cenas mais "ideológicas" de todo o filme, os dois garotos são roubados por alunos do colégio mais elitista do Rio de Janeiro.

"Essa ideia da positividade foi de todo mundo. Tem desgraça na favela, mas decidimos mostrar a desgraça com humor. Pobre ri pra caramba, não só chora", disse Manaíra.

5x Favela, Agora por Nós Mesmos estreia nos cinemas de São Paulo e Rio em 27 de agosto. Veja abaivo o trailer do filme:




Ao que é bom, deve ser dada a palavra


Weber: Eu queria saber o que o 20 de novembro representa pra nós pretos.

GOG: A gente tem que tirar uma conclusão bem complexa disso né! Palmares existiu durante 100 anos e 1695 é a data da imortalidade de Zumbi. Acho que trás a ancestralidade da resistência. Então é sempre preciso resistir, ocupar espaços, ocupar mentes com o pensamento de Zumbi que era bem agregativo. Hoje é um dia bastante importante, e mais importante é a reflexão que a gente precisa ter da África, que hoje é aqui também.

Então, que Áfricas temos? O continente africano, os problemas, as doenças...e a gente precisa refletir também sobre a afro consciência hoje...É uma coisa prática. Ser um afro consciente hoje é trabalhar de forma bastante produtiva e incansável com perpectiva de melhores dias pro nosso povo....

Weber: E os movimentos sociais tem que estar nessa? Como você vê os movimentos sociais hoje, qual a importância do movimento negro nessa discussão...?

GOG: Eu acredito que tudo que é sério tem que ser ouvido, tem que ser dada a palavra. Acredito que o movimento hip hop tem que se integrar nos movimentos sociais com a literatura periférica. Você vê o que o hip hop conseguiu nessa entrada de século. Eu não acredito em muito acordo com a grande mídia, em nome de muita conversa, a gente tem que tratar as pessoas bem....o hip hop passou por um momento de expansão, mas que não pode ser feita com cooptação, não pode ser com negociação com o opressor, com o opressor não pode ter negociação.....

Mandela: 92 anos de universalidade

Nelson Mandela completa hoje 92 anos de vida e 67 anos dedicados à liberdade e paz. A história desse homem me emociona sempre, por sua coerência de convicções e energia que emana. Exibe uma ligação tão forte com o sentido de raiz, que provoca uma avalanche de sensações. Ver o lindo semblante iluminado e enrugado com as marcas da maturidade traduz sua trajetória, com muitas linhas incisivas e marcantes deixadas como exemplo nesse Planeta. Apesar do cansaço físico, ainda consegue contagiar o mundo com esperança, honra e o verdadeiro sentido positivo da persistência. É um exemplo de homem público que deve servir de inspiração em ano de Eleições, pois não é calcado em falácias.

Talvez eu esteja me excedendo em adjetivos, mas não consigo ficar inerte à importância desse cidadão. É uma pessoa que nos faz bem. Nossos políticos deveriam se espelhar na autenticidade e coerência desse homem sul-africano, que dedicou sua vida a lutar por uma nação sem apartheid e a um mundo fraterno. Os quase 30 anos que ficou detido devido a um regime de segregação só o fortificaram, e extrapolaram as paredes das celas, contagiando o planeta. Os resultados nas urnas ocorridos em seu país, em 1994, deflagraram essa verdade. Uma verdade de luta, solidariedade, igualdade racial, socioeconômica...da sustentabilidade.

Agora, dia 18 de julho é mais uma data instituída no calendário da Organização das Nações Unidas (ONU). Entretanto, com profundo sentido, que deve ser explicada às nossas crianças e adolescentes. Nesse dia nasceu um homem que faz a diferença nesse mundo tão desigual.

Violências contra a mulher




Escrito por Frei Betto

O hediondo crime que envolve o goleiro Bruno – a mulher, após ser assassinada, teve o corpo destroçado e devorado por cães, segundo denúncia – é a ponta do iceberg de um problema recorrente: a agressão masculina à mulher.

Entre 1997 e 2007, segundo o Mapa da Violência no Brasil/2010, 41.532 mulheres foram assassinadas no país. Um índice de 4,2 vítimas por cada grupo de 100 mil habitantes, bem acima da média internacional. O Espírito Santo apresenta o quadro mais grave: 10,3 assassinatos de mulheres/100 mil.

O Núcleo de Violência da Universidade de São Paulo identifica como assassinos maridos, ex-maridos e namorados inconformados com o fim da relação. Ao forte componente de misoginia (aversão à mulher), acresce-se a prepotência machista de quem se julga dono da parceira e, portanto, senhor absoluto sobre o destino dela.

A Central de Atendimento à Mulher (telefone 180) recebeu, nos primeiros cinco meses deste ano, 95% mais denúncias do que no mesmo período do ano passado. Mais de 50 mil mulheres denunciaram agressões verbais e físicas. A maioria é de mulheres negras, casadas, com idade entre 20 e 45 anos e nível médio de escolaridade. Os agressores são, em maioria, homens com idade entre 20 e 55 anos e nível médio de escolaridade.

Acredita-se que o aumento de denúncias se deve à Lei Maria da Penha, sancionada em 2006 pelo presidente Lula, e que aumenta o rigor da punição aos agressores. Apesar desse avanço, tudo indica que muitos lares brasileiros são verdadeiras casas dos horrores. A mulher é humilhada, destratada, surrada, por vezes vive em regime de encarceramento virtual e de semi-escravidão no trabalho doméstico. Sem contar os casos de pedofilia e agressão sexual de crianças e adolescentes por parte do próprio pai.

A violência contra a mulher decorre de vários fatores, a começar pela omissão das próprias vítimas que, dependentes emocional e financeiramente do agressor, ou em nome da preservação do núcleo familiar, ficam caladas ou dominadas pelo pavor frente aos efeitos de uma denúncia. Soma-se a isso a impunidade. Eliza Zamudio, ex-namorada do goleiro Bruno, teria recorrido à Delegacia de Defesa da Mulher, sem que sua queixa tivesse sido levada a sério. Raramente o poder público assegura proteção à vítima e é ágil na punição ao agressor.

A violência contra a mulher não ocorre apenas nas relações interpessoais. Ela é generalizada pela cultura mercantilizada em que vivemos. Basta observar a multiplicidade de anúncios televisivos que fazem da mulher isca pornográfica de consumo.

Pare diante de uma banca de revistas e confira a diversidade do "açougue" fotográfico! Preste atenção nos papéis femininos em programas humorísticos. Ora, se a mulher é reduzida às suas nádegas e atributos físicos, tratada como "gata" ou "avião", exposta como mero objeto de uso masculino, como esperar que seja respeitada?

Nossas escolas, de uns anos para cá, introduziram no currículo aulas que abordam o tema da sexualidade. Em geral se restringem a noções de higiene corporal para se evitarem doenças sexualmente transmissíveis. Não tratam do afeto, do amor, da alteridade entre parceiros, da família como projeto de vida, da irredutível dignidade do outro, incluídos os/as homossexuais.

Nas famílias, ainda há pais que conservam o tabu de não falar de sexo e afeto com os filhos ou julgam melhor o extremo oposto, o "liberou geral", a total falta de limites, o que favorece a erotização precoce de crianças e a promiscuidade de adolescentes, agravada pelos casos de gravidez inesperada e indesejada.

Onde andam os movimentos de mulheres? Onde a indignação frente às várias formas de violência contra elas?

Os clubes esportivos deveriam impor a seus atletas, como fazem empresas e denominações religiosas, um código de ética. Talvez assim a fama repentina e o dinheiro excessivo não virassem a cabeça de ídolos de pés de barro...

Frei Betto é escritor, autor de "Diário de Fernando – nos cárceres da ditadura militar brasileira" (Rocco), entre outros livros. www.freibetto.org – twitter:@freibetto

Mais do que atitude, Casa do Hip-Hop e escola de samba ensinam cidadania


MAYRA MALDJIAN
DE SÃO PAULO

João Brito/Folhapress
João Pedro, 14, frequentas as oficinas de DJ por hobby
João Pedro, 14, frequentas as oficinas de DJ por hobby

Quando o hip-hop nasceu, nos guetos norte-americanos da década de 70, deram a ele o sobrenome "atitude".

Cabelo black power, calça larga, tênis Nike, gíria na ponta da língua, pose de mano. O estilo natural de quem vivia essa cultura começou a ser copiado por quem se identificava com ela.

"É natural um jovem assistir a um videoclipe e querer se vestir como o artista. É uma forma de fazer parte daquela tribo", explica Nelson Triunfo, chefe de cultura da Casa do Hip-Hop de Diadema (SP) e um dos fundadores do movimento no Brasil.

Mas nada disso basta se a sua contribuição ao movimento for apenas visual.

"Acho "style" quem se veste assim, mas hip-hop é mais que isso", explica João Pedro, 14, aluno da oficina de DJ do centro cultural.

Fã de Racionais MCs, aprendeu a gostar de rap com os primos. "Mas eu também ouço Black Eyed Peas, David Guetta e Shakira", enumera, sem titubear.

"A ideia é abrir a mente do jovem. Ele pode curtir a Beyoncé, o Luiz Gonzaga... O importante é navegar pela diversidade cultural e não deixar que os outros carimbem você", explica Nelson.

Por isso, o quinto e mais prezado elemento do hip-hop é o conhecimento. Sem ele, dizem, a arte da discotecagem, da dança, da rima e do grafite se tornam vazias.

Há 11 anos, a Casa do Hip-Hop oferece oficinas gratuitas e ainda mantém um centro de estudos sobre essa cultura.

CASA DO HIP-HOP
Centro Cultural Canhema (r. 24 de Maio, 38, Diadema, SP)
Tel.: 0/xx/11/4075-3792
No dia 31 de julho, a Casa do Hip-Hop celebra 11 anos com uma festa em sua sede, com shows de Rappin´ Hood, Emicida e Doctor MCs, DJ Dandan nos toca-discos, Fernandinho Beat Box, batalha de MCs, batalha de break, palestra com King Nino Brown e Cassia Preta. A apresentação será do MC Cérebro. De graça, das 10h às 22h.

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João Brito/Folhapress
Jorge Raiol, 20, toca surdo na bateria principal da escola de  samba
Jorge Raiol, 20, toca surdo na bateria principal da escola

Jorge Raiol, 20, começou a tocar tamborim na Camisa Verde e Branco em 2002. Treinou, treinou, mas só foi para a avenida em 2004.
Hoje, toca surdo, instrumento que até então era restrito aos mais experientes da escola de samba paulistana.

Consciente de que teria de ralar muito, não se intimidou. Driblou seus limites técnicos e até ajudou a montar a bateria mirim da escola. "Quem tem atitudes como essa é visto com outros olhos pela velha guarda."

Interagir com os membros mais antigos é imprescindível para quem quer entrar para a "família". "Eu chegava na quadra e pedia a bênção. É uma forma de mostrar respeito", explica.

Quem está ali só de passagem no Carnaval também precisa se envolver. "Tem gente na bateria que gosta de rock, outros de Lady Gaga, mas, na hora do batuque, a atitude é a do samba."

"A escola é um espaço de sociabilidade, mas que preserva uma cultura de cem anos de idade", explica Tadeu Augusto Matheus, vice-presidente do Camisa.

Fundada em 1914, como Grupo Carnavalesco da Barra Funda, a instituição tem hoje um departamento jovem que cuida do resgate de seu legado cultural e de atividades como as oficinas gratuitas.

Além disso, a Camisa Verde e Branco tem convênio com universidades que oferecem bolsas de 25% a 75% aos filiados mais ativos. "Nosso papel não é apenas fazer carnaval, mas formar cidadãos", afirma Tadeu.

ESCOLA DE SAMBA CAMISA VERDE E BRANCO
Quadra (r. James Holand, 663, São Paulo)
Tel.: 0/xx/113392-1621
No dia 29 de agosto, a escola promove a terceira feijoada do departamento social, com roda de samba e Tarde das Musas. A partir do meio-dia, por R4 20.


Arte
arte folhateen

50 Cent faz show embolado em Belo Horizonte

Thiago Ventura / Portal Uai / DA Press

Pout-pourri. Comum principalmente na música popular, e também conhecido por medley, este termo é usado quando um artista emenda apenas trechos de músicas em uma única sequência. O termo também pode ser usado para resumir a apresentação do rapper 50 Cent em Belo Horizonte, no dia 16 de julho, que foi rápida, confusa e embolada.


Eram 22h50 quando 50 Cent subiu ao palco, acompanhado de dois backing vocals e um DJ. Enquanto as pessoas da pista normal se espremiam na grade para tentar ver mais de perto o cantor, um imenso espaço na pista vip deixava claro que é necessário repensar a divisão deste tipo de evento.

Mesmo com a separação, o público no Mineirinho estava diversificado e representou o encontro do pessoal do hip-hop da quadra do Vilarinho, de roupas largas, espalhafatosas e bonés de aba reta com as patricinhas de salto alto que se balançam ao som de rappers americanos na boate NaSala, o que mostra que o rap já foi assimilado pela indústria cultural e não está mais preso à um nicho.

O rapper não é exatamente um exemplo de carisma e conversou pouco com a plateia. Ao invés de falar, ele preferia jogar peças de roupa como bonés, jaquetas e toalhas, que eram disputadas à tapa na pista. Os objetos arremessados eram retribuidos com outros bonés, camisas e bandeiras do Brasil. Sua maior interação foi quando uma fã na primeira fila tirou o sutiã para jogar no palco. O rapper viu, parou o show e agachou até ela, para ter certeza de que pegaria o precioso troféu, que prendeu na calça e não largou mais.

Apesar disto, era vísivel a alegria de 50 Cent, que sorria o tempo inteiro e apontava para os fãs que se apertavam na frente do palco. O rapper mostrou que tem seus fãs na palma da mão, com cada movimento de seu braço imediatamente acompanhado pela plateia e cada deixa para o público cantar, respondida.

Porém, a falta de conversa com o público prejudicou também o entendimento do show. 50 Cent emendava uma música na outra, sem pausas. Sucessos como Pimp, Candy shop e In da club ficaram perdidos em meio à sequência e muitas vezes não se percebia que uma nova música havia começado. O público não se importava e cantou em uníssono, quando reconheceu, os hits do rapper.

Além do pout-pourri escolhido para apresentar as músicas, colaborou para criar uma massa sonora a notória e péssima acústica do Mineirinho. A impressão era de estar em uma obra. Não o inferninho, mas uma construção mesmo, com um barulho incompreensível e ensurdecedor e com o cantor se esforçando para ser ouvido em meio a isto tudo.

As pessoas pareciam ignorar a lei antifumo estadual, que proíbe o uso de cigarros em locais fechados de uso coletivo e fumavam livremente. Perguntado sobre a situação, um segurança disse que não havia nenhuma ordem específica sobre o assunto e, num rompante de sinceridade, especulou que "se bobear, tão fumando é coisa até pior".

Como uma deixa, no palco 50 Cent sai para trocar o figurino e deixa o comando com os cantores que o acompanham, que perguntam para a plateia quem fuma maconha, e emendam um trecho de uma música do Bob Marley com outra, cuja criativa letra dizia apenas "smoke weed" (fume maconha, em tradução livre).

Exatamente 1h10 e 33 músicas depois, 50 Cent agradeçe e sai do palco. A plateia fica esperando pelo bis, que não acontece. Fim de papo no Mineirinho de um show, que apesar de confuso e curto, deixou muita gente satisfeita na plateia apenas pela oportunidade de ver de perto o cantor e mesmo com todos os problemas, fica a expectativa de um retorno, para um apresentação mais coesa e em um lugar com o som melhor.

Dependência econômica impede que vítimas deixem parceiros violentos, diz estudo

Daniela Fernandes

De Paris para a BBC Brasil

Mulheres sofrem com falta de opção de moradia.

Mulheres sofrem com falta de opção de moradia.

Centenas de milhares de vítimas de violência doméstica na América Latina permanecem nos lugares onde sofrem maus tratos porque não têm opção de moradia, revela um estudo de uma ONG com sede em Genebra, na Suíça, divulgado nesta sexta-feira.

O relatório do Centro pelo Direito à Moradia contra Despejos (Cohre), intitulado “Um Lugar no Mundo”, analisa a questão da violência contra a mulher no Brasil, na Argentina e na Colômbia.

Nesses países, diz o estudo, "a falta de acesso a uma moradia adequada, incluindo refúgios para mulheres que sofrem maus tratos, impede que as vítimas possam escapar de seus agressores".

"A dependência econômica aparece como a primeira causa mencionada pelas mulheres dos três países como o principal obstáculo para romper uma relação violenta", diz o estudo.

A organização de direitos humanos entrevistou dezenas de mulheres que já foram vítimas – ou continuam sendo – de violência doméstica em cada um desses três países analisados.

"A partir dessas entrevistas, surge claramente que o importante para essas mulheres é saber para onde poderão ir quando decidem romper o círculo da violência doméstica."

Segundo a Cohre, "a falta de solução para o problema da moradia pode ser determinante para que elas decidam continuar ou não uma relação violenta".

Muitas das mulheres vítimas afirmaram à ONG ter a alternativa de se mudar para a casa de um amigo ou parente logo após sofrerem uma agressão.

"Mas, com o passar do tempo, e se sentido incapazes de assegurar uma solução permanente ou mesmo de transição para o problema de moradia, essas mulheres, frenquentemente, não têm outra saída a não ser voltar a viver com seu agressor", diz o estudo.

O estudo afirma que, apesar de a maioria dos países da América Latina ter altíssimas taxas de violência doméstica, entre 30% e 60% das mulheres da região, dependendo do país, as políticas públicas “quase nunca” levam em conta a questão do direito à moradia das mulheres.

A ONG afirma que esse problema afeta sobretudo as mulheres pobres que vivem em comunidades carentes.

Muitas mulheres, principalmente as das classes desfavorecidas, realizam trabalhos em setores informais da economia ou se dedicam às atividades do lar (podendo fazer ambos) e ficam sujeitas à renda do companheiro.

No caso das mulheres entrevistadas pela Cohre, boa parte cuida apenas das tarefas do lar: 27% no Brasil e quase 25% na Argentina e na Colômbia. Muitas relataram que não trabalham a pedido dos maridos.

Elas também afirmaram viver mais episódios de violência em épocas de crises econômicas ou de aperto no orçamento, quando são tratadas como "inúteis, gastadoras e más administradoras do dinheiro".

No Brasil, os números da violência doméstica compilados por organizações internacionais não são recentes.

Uma mulher em cada quatro já foi vítima de agressões por seu marido ou companheiro, segundo o informe nacional brasileiro ao Comitê para a Eliminação para a Discriminação contra as Mulheres (CEDAW, na sigla em inglês), que corresponde ao período de 2001 a 2005.

Depois da Copa

Escrito por D. Demétrio Valentini

Terminou a Copa do Mundo. Os campeões têm direito a festejar, pela proeza de terem chegado vitoriosos ao final.
Mas todos podemos ter motivos de alegria, pelos valores positivos que apresentou esta Copa do Mundo, a primeira a se realizar no continente africano. O mundo tem uma grande dívida com a África.
É muito provável que ela tenha sido o berço da humanidade. Já isto seria motivo de olhar com respeito para a África. Mas nos séculos recentes, a África foi terrivelmente explorada, sobretudo pelas nações européias, que dividiram entre si os territórios africanos, para subjugá-los como colônias, postas a serviço dos interesses dos países dominadores.
Ainda hoje a África paga o pesado preço de ter sido espoliada pela Europa. As próprias fronteiras entre os atuais países africanos, impostas pelo processo colonizador, muitas vezes não correspondem às divisas entre povos e culturas diferentes. Este fato estimulou muitos atritos, que às vezes degeneraram em guerras fratricidas. Tudo porque forçaram populações homogêneas a se separarem, obrigando-as a conviveram com outras de culturas diferentes.
E assim daria para lembrar tantas injustiças cometidas contra a África, da qual se procurou explorar a força humana pela imposição da escravidão, e roubar suas riquezas, deixando para trás rastros de pobreza e de miséria.
Neste sentido, valeu a realização da Copa do Mundo na África do Sul, palco de descriminação racial por longo tempo, cujas conseqüências ainda permanecem em grande parte.
Se houvesse um vencedor a ser designado pelos objetivos de reparação de injustiças e de reconhecimento da dignidade dos contendores, este vencedor seria, sem dúvida, o povo africano.
Independente do campeão, quem merece nossa admiração e nosso apoio é o povo sofrido da África, que tem todo o direito de definir sua vida e traçar o seu futuro.



Levantemos a taça, como brinde para o povo africano!



D. Demetrio Valentini é bispo da diocese de Jales.

Website: http://www.diocesedejales.org.br/

Copa: futebol, racismo e política

Vai chegando ao final a primeira Copa do Mundo de Futebol realizada na África. Talvez a frustração da torcida brasileira, combinada com uma destrambelhada cobertura midiática, - que exortou sentimentos racistas contra paraguaios e de hostilidade gratuita contra argentinos - não tenha permitido compreender que o simples fato da Copa ter sido na África do Sul é uma grande vitória contra o racismo internacional e contra as grandes potências capitalistas que tentaram boicotar ou desmoralizar os africanos. Mas, sobretudo, é a vitória de um país e de um povo que sequer participou da Copa. Cuba, que ao derrotar o exército racista sul-africano em Cuito Cuanavale, Angola, para onde enviou 400 mil soldados, deu o passo fundamental para a libertação da África do Sul. “A Batalha de Cuito Cuanavale foi o começo do fim do apartheid. E isto devemos a Cuba”, disse Mandela, após ser liberado de 27 anos de prisão. A torcida mundial deveria ser amplamente informada destas verdades.

Quando Lúcio, o aplicado capitão da seleção canarinho, leu mensagem condenando o racismo antes daquela fatídica partida contra a Holanda, talvez não pudesse medir o grande alcance de seu gesto, que nos obriga a recuperar um fase da história recente. Condenar ali mesmo o racismo era imperioso pois era respeitar aquele povo e também alertar para as novas expressões racistas que estão se projetando em outros países, inclusive países que estavam ali disputando o certame.

Sob o apartheid não haveria Copa na África do Sul

O certo é que a Copa do Mundo só estava se realizando ali em território sul-africano porque milhares de seres humanos deram suas vidas contra o animalesco regime do apartheid, que com o apoio de países como Estados Unidos e Inglaterra, principalmente, massacrou de maneira cruel a pátria de Mandela. A África do Sul racista, imperialista, ditatorial, que foi recebendo sanções internacionais quanto mais crescia a resistência popular em seu interior e mundo a fora, levando-a a receber algumas sanções internacionais, jamais poderia ser a sede de uma Copa do Mundo se estivesse sob o apartheid.

Queremos, portanto, estender a oração do capitão Lúcio para fazer justiça a um povo que não estava disputando a Copa, mas que foi fundamental para que a Copa ali se realizasse para alegria e orgulho da nova África do Sul. A declaração de Lúcio tem raízes na história da solidariedade revolucionária que Cuba ofereceu á África, a começar pelo envio de médicos para a apoiar a Revolução na Argélia, onde esteve trabalhando o próprio Che Guevara.

Enquanto Mandela ainda estava preso, Cuba já estava apoiando os vários processos de libertação em território africano. Libertação que veio a receber um grande impulso a partir da Revolução dos Cravos, em Portugal, liderada por jovens capitães, muitos deles egressos das então colônias portuguesas em território africano, onde aprenderam muitas lições de dignidade por parte daqueles povos a quem deveriam esmagar. Houve capitães que mais tarde relataram que em território angolano se convenceram que a razão da história estava com os guerrilheiros angolanos. Por isso mesmo, chegavam a organizar certas incursões pelas selvas, onde deixavam deliberadamente suas armas para serem recolhidas pelos soldados do Movimento Popular para a Libertação de Angola, simulando que haviam sido desarmados, quando estavam a dizer, com aquele gesto, que apoiavam a causa da libertação africana.

Estes gestos dos militares portugueses floresceram em Cravos Vermelhos pelas ruas de Lisboa, após soarem os primeiros acordes da canção “Grândola, Vila Morena”. A razão histórica venceu! Não sei se o capitão Lúcio, na sua juventude de uma vida dedicada ao futebol, teve oportunidade de informar-se sobre isto antes de ler aquela importante declaração contra o racismo, num gesto de grandeza da nossa seleção.

Cuito Cuanavale: começo do fim do apartheid

Quando Cuba atendeu ao chamado do presidente angolano, o médico, poeta e guerrilheiro Agostinho Neto, para que enviasse ajuda militar para assegurar a libertação de Angola, conquistada em 11 de novembro de 1975, com pronto reconhecimento de Brasil e óbvia contrariedade dos EUA, abria-se uma nova página na história da África, mas também da solidariedade internacional.

A hipocrisia e a malignidade intrínseca da mídia comercial não deu a conhecer aos milhões de torcedores do mundo inteiro de olhos magnetizados no televisor uma linha sequer desta luta heróica para derrotar o apartheid e permitir, afinal, não apenas a libertação de Angola e da Namília, mas também de Nelson Mandela e a erradicação total do regime racista, derrotado no campo militar em Cuito Cuanavale e, mais tarde, novamente derrotado pelos votos que elegeram Mandela seu primeiro presidente da república, o primeiro com legitimidade!

Não tínhamos nenhuma dúvida da bravura e da grandeza do gesto do povo cubano ao fazer a travessia do Atlântico no sentido contrário àquela rota feita pelos navios negreiros que vieram para o Brasil e também para o Caribe, nos unindo para sempre na dor, no sangue, na música, na cultura e também no compromisso de saldar esta imensa dívida que toda a humanidade tem para com os povos africanos. Porém, Cuba decidiu pagar antes de todos e para lá enviou 400 mil homens e mulheres, negros e brancos, inclusive a brancura da filha de Che Guevara, que também já havia lutado em Cabinda, enclave angolano próximo ao Congo. O médico brasileiro Davi Lerer estava exilado em Angola naquele período, ensandecido de solidariedade e de compromisso com a libertação angolana. Foi quando começou a perceber que alguns dos feridos de guerra por ele tratados, falavam espanhol. Era fruto da Rota do Atlântico feita no sentido contrário, no sentido da libertação. Todos devemos à Mama África. Mas, só Cuba teve a audácia de pagar esta dívida com armas nas mãos!

Armas nucleares contra Cuba

A nobreza do gesto provocou o instinto assassino das chamadas democracias imperialistas. Acaba de ser divulgado que Israel ofereceu armas nucleares à África do Sul para serem lançadas sobre as tropas cubanas no sul de Angola. Com o apoio dos aviões Migs de fabricação soviética, as tropas do exército racista da África do Sul foram enxotadas de território angolano, postas para correr também do território da Namíbia, cujas forças revolucionárias também formavam aquele formidável exército de libertação. Chegou-se a discutir nas forças de libertação a ida até Pretória!. Por isto os imperialistas cogitaram o uso de armas nucleares contra o exército cubano, pois o seu exemplo de internacionalismo proletário era por demais poderoso à humanidade! Tudo isto resultou no agravamento da crise do regime de Botha, na libertação de Mandela, no fim do apartheid, nas eleições diretas, e, por fim, na conquista da realização da Copa do Mundo, pela primeira vez, em território africano!. Vitória da humanidade, após tantas vitórias que abrilhantam a linda história de justiça da humanidade, unindo a Revolução Cubana à Revolução dos Cravos de Portugal! As armas nucleares na foram utilizadas daquela vez. Não se atreveram! Não se sabe se as utilizarão agora contra o Irã.

Racismo nos países imperialistas

A condenação ao racismo lida pelo nosso capitão, é atualíssima. Tem endereço. Depois da desclassificação das seleções dos EUA e da França, vimos pipocar novamente manifestações de racismo contra negros, imigrantes, árabes, hispânicos, sobretudo nestes dois países. Há os que considerem a França uma democracia exemplar, mas não querem prestar atenção nas declarações de Zidane, o craque da seleção francesa de origem argelina. Contrariando a tese dos acadêmicos pouco atentos, ele questiona a democracia francesa: “Eu posso ser campeão do mundo com a camisa da França, orgulho nacional, mas não posso eleger o presidente?” Agora o deselegante técnico da seleção francesa atira a culpa pelo fracasso aos jogadores de origem africana, à cultura dos bairros de periferia das grandes cidades francesas. Nenhum questionamento ao sistema político francês que é tão duramente combatido pelos jovens das periferias pobres na França, sem perspectiva de estudo ou de emprego!

Nos EUA não foi muito diferente. Buscam-se justificativas para a desclassificação, mas, as vozes racistas voltam a falar alto, sobretudo contra hispânicos, asiáticos e afro-descendentes. A gigantesca contradição política vivida pelos Eua só tende a se agravar, certamente de forma dramática, já que o presidente Obama tem sido pressionado pelo complexo militar-industrial a reforçar sua presença armada mundo afora. Já mandou mais 30 mil soldados para o Afeganistão, continua a ordenar bombardeios de povoados matando crianças e destruindo alvos civis naquele país empobrecido. Esqueceu-se das torturas de Guantânamo? Manda uma frota nuclear para as proximidades da costa do Irã. Multiplica o orçamento do Pentágono. O prêmio Nobel da Paz vai se revelando o Prêmio Nobel da Guerra e continua colecionando cadáveres e mais cadáveres!

Na linha inversa, o Brasil aprova o seu Estatuto da Igualdade Racial e cria a Universidade Lusoafricana Brasileira (Unilab), na cidade cearense de Redenção, a primeira em extinguir o escravagismo no Brasil. Lá teremos professores e studantes africanos, estudando gratuitamente. É a forma brasileira de também começar a apagar a enorme dívida que temos para com os povos africanos, como assinalou Lula. É verdade que estes dois gestos concretos nos chegam com 112 anos de atraso. Há muito ainda para caminhar, mas a linha é a de continuar a abrir espaços para que os negros sigam aumentando sua presença qualificada nas universidades, para que os Territórios dos Quilombos sejam definitivamente escriturados em nome dos remanescentes dos escravos, que as políticas públicas de habitação contemplem as necessidades da população negra, ainda alvo de desumana discriminação no mercado de trabalho, recebendo ainda os piores salários, ocupando as piores funções, e, ainda por cima, confinada à invisibilidade nos meios de comunicação, salvo as honrosas exceções da comunicação das tvs públicas e comunitárias, que registram alguma justiça racial televisiva.

Rivalidades exageradas são contra a cooperação

O mau exemplo vem exatamente das tvs comerciais. Ofendem gratuitamente ao povo paraguaio ou insuflam uma exagerada hostilidade contra argentinos, certamente, fazendo um tipo de jornalismo de desintegração, exatamente quando nós latino-americanos estamos a organizar e por em prática, por meio de vários governos, políticas públicas de integração econômica, energética, comercial, cultural educacional. Seguindo as orientações dos que querem impedir que sejamos solidários e cooperativos entre nós - por acaso, as mesmas nações imperiais que antes apoiaram o apartheid e recentemente tentaram boicotar a realização da Copa na África - cria-se um clima para uma rivalidade exacerbada, agressiva, verdadeira hostilidade, por exemplo contra argentinos e paraguaios.

Basta recordar o comportamento do capitão da seleção uruguaia, Obdúlio Varela, que ,em 1950, fez o Brasil todo chorar quando derrotarem a equipe canarinha em pleno Maracanã. Varela sentiu tanta segurança e confiança no caráter amistoso do povo brasileiro que foi comemorar a vitória uruguaia com brasileiros na noite carioca, sendo tratado com fraternidade e nobreza olímpicas pelos nosso povo. Diante de comportamento tão elevado dos brasileiros, certos narradorestelevisivos de hoje, apesar de frequência em certames internacionais, revelam-se verdadeiramente torpes e ineptos para alcançarem um padrão de jornalismo desportivo minimamente olímpico, tal como a Grécia Antiga - não a atual induzida á falência pela oligarquia financeira - legou à humanidade. Querem animalizar, embrutecer, despertar baixos instintos, estando portanto, em choque frontal com os princípios e valores que a Constituição pauta para os meios de comunicação, exigindo que sejam educativos, respeitosos aos mais nobres valores humanos e destinados à elevação cultural da sociedade.

As nações imperiais sabem perfeitamente da utilidade destas rivalidades fomentadas, muitas vezes artificialmente. Sobretudo contra povos que possuem grande potencial de cooperação entre si, como é o caso de Brasil e Argentina, cuja integração das bases produtivas poderia acelerar e encurtar sobremaneira os prazos históricos para a integração da América Latina. Por isto fazem o jornalismo da desintegração. Pela mesma razão, são incapazes, como meios de comunicação, de informar sobre o papel que Cuba desempenhou na história recente de libertação da África.

Jornalismo de integração

As nossas tvs públicas precisam fazer o contraponto. A diversificação e a pluralidade informativas, neste episódio, seriam extremamente válidas. Sobretudo se permitisse ao povo brasileiro conhecer quanta história existe por detrás da declaração contra o racismo que o capitão Lúcio fez naquele estádio repleto de sul-africanos libertos do regime do apartheid. E também conhecer quanta manipulação se faz do esporte, em nome de causas mesquinhas e anti-civilizatórias, como as que pretendem reviver o racismo e o impedimento ideológico da cooperação e da solidariedade entre os povos que tem um destino comum. O da unidade, da cooperação e da solidariedade.

(*) Beto Almeida é diretor de Telesur
Autor: Beto Almeida.
Fonte: Carta Maior

O Desarmamento e a Segurança dos Bandidos

(Archimedes Marques)

Vivemos em um país em que muitas vezes os valores se invertem e, nessa espécie de guerra urbana e social contra a violência diária, contra a marginalidade que cresce assustadoramente, contra a criminalidade que aumenta gradativamente a todo tempo em todo lugar, comprova-se que o Estado protetor mostra-se ineficiente para debelar tão afligente problemática e por isso teima em produzir programas emergentes que surgem e insurgem sem atingir os seus reais objetivos. Um deles, pelo menos até agora, ao invés de proteger a sociedade deu maior segurança aos bandidos, ou seja, inverteu os seus valores.
O projeto desarmamento estudado e executado pelo Governo Federal desde 2003, contra a vontade popular, demonstra ser no âmago do seu curso uma ação derrotada e inócua que age infrutuosamente na tentativa de reduzir a criminalidade no país e deixa cada vez mais a população órfã de proteção.
Enquanto a população brasileira foi literalmente desarmada por conta do Estatuto do Desarmamento, a bandidagem está cada vez mais armada. Enquanto foi tolhido o direito do cidadão de se defender do bandido com a proibição de sequer possuir uma arma de fogo em sua própria casa sem passar por extrema burocracia, o bandido por sua vez, facilmente consegue armas até mesmo com alto poder de fogo, para se defender da Polícia, atacar o povo e ferir a ordem do país.
É fato presente que o chamado crime organizado, pernicioso organismo que alimenta o tráfico de drogas, criminosos perigosos e contumazes, quadrilhas de assaltantes, consegue transitar e abastecer a marginalidade com armamento privativo das forças armadas, tais como: Metralhadoras, fuzis, bazucas, morteiros, granadas, ou mesmo outras mais usadas a exemplo das escopetas, pistolas e revolveres. Essas armas provindas de diversas nacionalidades ingressam pelas nossas gigantescas e mal guarnecidas fronteiras e chegam às mãos dos bandidos de maneira inexplicável.
Retirar as armas de fogo das pessoas de bem foi muito fácil, pois essas pessoas, não sendo marginais, logo cumpriram a Lei e depuseram suas armas com a esperança de que a violência fosse realmente estancada, contudo ainda não foi, muito pelo contrário, aumentou substancialmente, pois o desafio da Polícia em desarmar os bandidos parece ser intransponível. Quanto mais se prendem os marginais armados mais armas aparecem em poder de outros e até dos mesmos quando são postos em liberdade pela Justiça.
Os fatos violentos e corriqueiros ocorridos nos quatro cantos do país demonstram que os discursos e as noticias desarmamentistas para justificar o suposto sucesso do plano e iludir o povo parecem ser apenas meras cortinas de fumaça, tendo na linha de frente a diminuição dos homicídios eventuais por desavença ou domésticos, perpetrados nas comunidades por meio de arma de fogo a querer encobrir o recrudescimento da criminalidade dos outros tipos penais. Vale lembrar também que apesar de ter diminuído os índices de homicídios cometidos via arma de fogo nos casos citados, aumentou substancialmente os índices do mesmo crime perpetrados por arma branca ou outros meios, comprovando então, que o cidadão quando quer, mata o seu desafeto de qualquer jeito.
Assim, o povo vive acuado, desarmado e preso por grades, cercas elétricas, alarmes, nas suas próprias residências e, os diversos criminosos andam soltos nas ruas a caça das suas vítimas, aumentando de forma geométrica o número de latrocínios, roubos e sequestros em todos os lugares.
A Polícia por mais diligente que seja, em virtude da falta de contingente adequado, de uma maior estrutura, de uma melhor organização, de um verdadeiro incentivo com salários condizentes aos seus membros, não consegue romper tais obstáculos e sempre é considerada culpada erroneamente por inoperância pela nossa sociedade como se fosse a única responsável por tal situação.
Atacam-se carros blindados com armamento potente, derrubam-se helicóptero com tiros de fuzis ou metralhadoras antiaéreas, inúmeros assaltos se valem de armas de guerra no país inteiro, policiais são frequentemente mortos no labor das suas funções por criminosos possuidores de armas poderosas adquiridas no câmbio negro do crime organizado.
O cidadão nas ruas literalmente virou um alvo em determinados locais. Um alvo que tem que ser um maratonista, velocista, contorcionista, trapezista e até mágico para se esquivar das balas perdidas. Um alvo que tem que optar por dar apoio aos traficantes de drogas sob pena de morte. Um alvo no seu veículo ultrapassando os sinais de transito e recebendo multas para não ser seqüestrado ou assaltado e morto. Um alvo desarmado sem direito a defesa própria contra o marginal sempre bem armado. Um alvo que tem que contratar segurança particular para sobreviver. Um alvo que ainda tem que agradecer ao criminoso por apenas lhe levar seus bens materiais. Um alvo esperando sempre que apareça algum policial para lhe salvar.
O desarmamento veio para o seio da sociedade brasileira como uma ação insidiosa de tirar-lhe o direito de defesa própria e da sua família ao mesmo tempo em que deu total segurança ao bandido de fazer o que quiser com a sua vulnerável vítima.
O estatuto de Desarmamento não deu e não dará certo enquanto não tivermos uma séria e efetiva política de combate ao crime organizado, enquanto não colocarmos atrás das grades os grandes traficantes de armas e drogas, enquanto não prendermos as pessoas inescrupulosas que dão suporte e proteção aos traficantes e enriquecem sob o julgo desse crime, enquanto não consigamos enfim proteger as nossas fronteiras desses criminosos fazendo com que não mais entre armas no nosso país.
Enquanto isso não acontece, para concluir o texto, faço minha as sábias palavras do Ministro aposentado do Superior Tribunal Militar, FLÁVIO BIERREMBACH, hoje advogado e escritor:
“Desarmar as vítimas é dar segurança aos facínoras”...
"O cidadão de bem tem o direito de possuir uma arma para se defender dos criminosos"...
"Os bandidos já se sentem muito mais seguros para atacar os pobres, os trabalhadores e os homens de bem, porque sabem que provavelmente irão enfrentar pessoas desarmadas"...
“Uma sociedade em que apenas a polícia e os facínoras podem estar armados não é e nem será uma sociedade democrática"...

Autor: Archimedes Marques (delegado de Policia no Estado de Sergipe. Pós-Graduado em Gestão Estratégica de Segurança Pública pela Universidade Federal de Sergipe) archimedes-marques@bol.com.br