Tommie Smith, ex-atleta e símbolo do 'black power


Poucos gestos significaram tanto no esporte. O protesto feito pelos norte-americanos Tommie Smith e John Carlos nos Jogos Olímpicos do México, em 1968, simbolizou a luta contra a segregação racial. Ainda que, como recorda 40 anos depois do ouro olímpico, ele tenha destruído algo mais que sua carreira.



No pódio histórico, Smith faz saudação dos Panteras Negras

Tommie Smith olha fixamente ao falar. Em seus olhos não há ódio. Mas sim uma mescla de tristeza e orgulho pelo que foi sua vida. Seu gesto no alto do pódio depois de ganhar o ouro nos 200 metros (19,83segundos) nos Jogos Olímpicos do México em 1968, com uma mão envolvida por uma luva negra em defesa da igualdade entre as raças, é um dos símbolos universais do esporte.

Aquela mão direita fechada (assim como a esquerda de John Carlos) representava a luta contra a segregação racial que sempre sofreu nos Estados Unidos. Era o black power (o poder negro) — a posição da saudação dos Panteras Negras, grupo que defendia os direitos de igualdade dos negros americanos nas décadas de 60 e 70.

A atitude, porém, rendeu a expulsão da dupla da delegação de atletismo americana. Também foi uma condenação para o resto de sua vida. Este texano de 64 anos, que na quarta-feira recebeu em Madri o primeiro prêmio dedicado aos valores universais do esporte do jornal As, ainda se emociona ao ver aquela imagem. É o que ele revela em entrevista ao diário espanhol El País. Confira.

O que o senhor se lembra da sua infância?
Sou o sétimo de 12 irmãos. Crescemos no campo. Meus pais eram sitiantes. Cultivávamos a terra de uns brancos no sítio deles e parte da colheita ficava para nós. Quando eu tinha seis anos, mudamos para a Califórnia e continuamos trabalhando no campo, mas já cobrando.

Lembro de uma boa ética de trabalho. Era uma vida muito religiosa. Íamos muito à missa. Os meninos brancos, é claro, zombavam de mim no colégio porque eu usava roupas de pobre.

Que tipo de marginalização sofriam?
Não podíamos fazer quase nada porque nos viam como pessoas de segunda categoria. Não podíamos andar na mesma calçada que os brancos. Se víssemos um branco, tínhamos que sair imediatamente da calçada. Também não podíamos compartilhar os mesmos serviços públicos. Havia banheiros para brancos, muito limpos, e para negros, mais sujos. Não havia igualdade em nenhum sentido.

O esporte era uma válvula de escape?
Era a única forma de diversão no colégio: correr, jogar beisebol... E se transformou em parte da minha vida. Eu não cresci aspirando ser um atleta olímpico. Mais tarde usei o esporte, a partir dos 15 anos, para nos fazer ouvir. Meus pais me disseram: ''Enquanto você ganhar corridas, não precisará trabalhar aos sábados''. Era fantástico para mim.

Comecei a ganhar e faltar ao trabalho. Claro que não tínhamos dinheiro nem para sapatos. Nós ganhávamos. Havia uma organização beneficente que nos dava roupas e sapatilhas. Eu não tinha nem agasalho, só uma calça curta e uma camiseta.

E assim o senhor se tornou, no México, o primeiro a fazer 200 metros em menos de 20 segundos, e seu recorde de 19,83 segundos se manteve durante 11 anos. Como o senhor se transformou em um dos melhores do mundo?
Com muito trabalho. Tinha a bênção de Deus para me dedicar ao atletismo: a estatura, o corpo, a velocidade. Fiquei forte assim, brigando com meus irmãos, trabalhando todas as horas no campo. Foi assim que pude me transformar em alguém. Não tínhamos nada, dessa forma não tive outra possibilidade na vida a não ser lutar. Não tinha nem sequer tempo para treinar. Eu não fui treinado como um atleta.

Minha preparação foi unicamente o trabalho no campo. Quando eu voltava para a escola no outono, os rapazes me perguntavam: “Como você é tão rápido? Fez musculação?”. Eu não entendia o que eles diziam. Eu só havia estado no campo. Usava umas botas muito pesadas e carregava todas as ferramentas, como pás, que pesavam muito. Até ir para o instituto não havia começado a trabalhar seriamente como atleta.

Ali o senhor uniu o esporte com a luta contra a segregação racial.
Vi tantas injustiças que não podia ficar sem fazer nada. Não fiz aquele gesto de 68 por moda, mas para transformar alguma coisa. Nós, atletas afro-americanos, organizamos o OPHR (Projeto Olímpico para os Direitos Humanos). Nossa idéia era boicotar os Jogos, mas não foi assim, e decidimos que cada um organizaria seu protesto como quisesse.

Minha vez chegou nos 200 metros. A corrida foi incrível. Eu me resguardei para a última reta, mas não tinha nem idéia do que poderia acontecer na cerimônia, como eu me sentiria no pódio, o que faria... Não soube até o último momento, até que John Carlos (bronze) me disse no túnel de saída.

Sua mulher já havia comprado umas luvas negras.
Sim, havia algo previsto, ainda que não soubéssemos muito bem o quê. Foi um gesto de um impacto mundial. Não era só o grito de dois negros pela cor de sua pele, mas fizemos isso pelos direitos da humanidade.

Vocês convenceram o australiano Peter Norman (prata) a usar o adesivo da OPHR.
Sim, mas eu não queria que um homem branco o usasse. O projeto era para todas as pessoas do mundo, negras ou brancas, e eu não queria que ninguém tivesse problemas por causa disso. A idéia de que Norman usasse o adesivo foi de John Carlos e ele também quis usá-lo sobre o escudo do comitê australiano.

Eu conhecia a história da Austrália sobre como eles haviam tratado os aborígenes. Sabia que isso podia ser um problema para ele porque seria interpretado como se ele estivesse do lado dos negros dos Estados Unidos. E foi isso que aconteceu. Assim como nós, ele foi expulso da Vila Olímpica, maltratado em seu país, segregado socialmente.

O senhor teve medo quando fechou e ergueu o punho?
Tive medo minha vida inteira. Não é uma coisa que se supera em dois ou três anos. Os jovens afro-americanos, ainda hoje, são alvo nos Estados Unidos, simples assim.

Nada mudou?
Claro que sim, muitas coisas. Nosso presidente-eleito, Barack Obama, é afro-americano. E isso não foi uma coisa que aconteceu em um dia. Lutamos por uma melhora e, como conseqüência dessa luta, agora há um presidente negro. Foi um processo muito lento. Isso não quer dizer que tudo vai bem. Mas, graças à forma que Obama pensa sobre a mudança social, a luta não terminou. Apenas acabou de começar.

Como sua vida mudou depois do gesto?
Tudo mudou para sempre. Recebemos ameaças de morte, cartas, telefonemas... Depois dos Jogos Olímpicos, todos os meus amigos desapareceram. Tinham medo de perder suas amizades brancas e seus empregos. Eu tinha 11 recordes mundiais, mais do que qualquer pessoa no mundo, e o único trabalho que encontrei foi lavando carros num estacionamento. E me mandaram embora porque meu chefe disse que não queria que ninguém trabalhasse comigo. Não queria que alguém que defendesse a igualdade de direitos estivesse em sua equipe.

Ninguém o ajudou?
Todo mundo tinha muito medo. Meus irmãos foram expulsos do colégio. Outros, que estavam na equipe de futebol da universidade, foram proibidos de competir por causa do que eu fiz.

Você chamou os membros do COI (Comitê Olímpico Internacional) de estúpidos. Ninguém lhe pediu desculpas?
Não, nunca. Em particular me dizem: ''Sinto muito pelo que lhe fizeram, foi uma pena...''. Mentira. Destruíram minha vida, a de John, a de Norman... A esposa de John se suicidou, eu me divorciei... Tudo por pedir que as pessoas sejam iguais. O COI permitiu tudo isso e o comitê norte-americano não fez nada para impedi-lo.

O senhor ainda vê racismo no esporte?
Enquanto o homem existir, haverá racismo. Temos um presidente negro e já avançamos muito, mas isso não quer dizer que tudo o que é negativo tenha sido eliminado.

Quando olha para trás, sente orgulho de sua vida?
Tenho muito orgulho. Meus pais lutaram muito para que fossemos adiante trabalhando. Minha força vem da minha origem. Minha força nasce da minha base pessoal e familiar. Nada pode destruir como eu me sinto.

O senhor ainda corre?
Sim, tenho uma academia na minha casa. Saio para correr no parque da Geórgia. Há muitos caminhos que antes eram locais de reunião da Ku Klux Klan. Os negros não podiam pisar nesses parques do sul dos Estados Unidos e hoje eu moro lá. Agora vivemos onde queremos e não onde nos colocam. E viajo pelo mundo inteiro para contar a minha vida.

O que significa a eleição de Obama?
Precisamos de uma mudança assim. Não porque ele seja negro, mas sim pelo que representa, a luta de toda a minha vida.

Do UOL Mídia Global, com agências


Arte em cena

Inauguração de centro cultural marca renascimento de espaço antigamente em ruínas e abre oportunidades de lazer para moradores de bairro que está na raiz da vocação boêmia da capital
Frederico Bottrel
Fotos: Cristina Horta/ EM/ D.A Press
Teatrinho de arena, auditório multiuso com camarim, além de biblioteca e barra para oficina de dança integram projeto

Salgado Filho - Região Oeste

Apontando para a grama verde, as paredes recém-pintadas e os ladrilhos coloridos, a atriz Meibe Rodrigues não conteve a emoção e abriu um farto sorriso. Depois de anos, ela estava de volta ao pátio que foi palco de suas primeiras “artes” adolescentes. Completamente modificado, o lugar agora vai ser de mais gente, apagando qualquer conotação pejorativa que queiram atrelar à palavra “arte”. As ruínas da escola municipal do Salgado Filho, na Região Oeste de Belo Horizonte, saíram de cena, o espaço foi reformado e deu lugar ao centro cultural que leva o mesmo nome do bairro. O novo protagonista foi inaugurado ontem, com direito a programação artística para comemorar. Essa, aliás, deve ser a tônica do espaço: um pólo de fomento às atividades culturais, que avançam, em ritmo intenso, por toda a semana, até sábado.

Se depender de gente como Meibe, vai ser assim mesmo. “Quero vir dar muitas oficinas de teatro aqui!”, avisa. Nascida e criada no bairro, Meibe se lembra bem dos tempos “do colegial”, em que ia a pé para a escola. Em vez de voltar para casa depois da aula, ficava jogando queimada nas ruas do Salgadão, até que a mãe descobrisse e a deixasse de castigo. É com saudosismo, também, que ela recorda a tranqüilidade de uma época em que “as crianças podiam andar sozinhas no bairro, pois não havia perigo”.

Assistiu, com tristeza, à decadência do prédio, que, segundo ela, “quase caiu aos pedaços” e o renascimento do espaço, com a inauguração do centro, ontem. Da velha escola, que hoje funciona no Bairro Havaí, ficaram apenas as lembranças. Agora o lugar tem bibilioteca com espaço próprio para o público infantil, adulto e sala de inclusão digital, auditório multiuso com camarim, espelho e barra para oficina de dança. A capacidade é para 100 pessoas assentadas.

TROPEIROS O bairro nasceu nos anos 1940, com a Vila Operária Fazenda do Mato da Lenha, loteamento aprovado por Juscelino Kubitscheck, prefeito de Belo Horizonte à época. Era ponto de parada de tropeiros e tropas que andavam por Minas Gerais. Foi batizado com o atual nome em 1950, em homenagem ao ministro da aeronáutica de Getúlio Vargas, Joaquim Pedro Salgado Filho. Muitos moradores também se orgulham do pioneirismo do bairro em garantir a presença maciça de bares e botecos (em alguns casos até mais de um em cada quarteirão). O projeto inspiraria vários outros bairros depois, criando uma aura boêmia, que seria absorvida por toda a cidade e exportada como característica marcante da Belo Horizonte, conhecida como “a capital nacional dos bares”.

Resgatar esses traços que marcaram a construção da imagem do Salgado Filho é um dos objetivos do centro cultural, que promete investir, além da difusão e formação culturais, na preservação da memória e identidade locais. “O projeto Senhores do Tempo, por exemplo, deve reunir idosos que moram no bairro e têm muitos casos para contar. A idéia é exatamente recuperar essa história, recontá-la e mantê-la viva”, explica Abilde Maria da Silva, diretora especial de equipamentos culturais da Fundação Municipal de Cultura. Outra proposta do centro é ser ativo na descentralização de grandes eventos culturais da cidade, como o Festival de Arte Negra (FAN) e Festival Internacional de Teatro Palco e Rua (FIT-BH).

A variedade de atrações é outra aposta, a partir da diversidade da produção, o que se refletiu logo na abertura do centro, com o lançamento da exposição de artes plásticas Lírica urbana, de Estêvão Machado. Os quadros de Estêvão Machado retratam gente comum em pontos de ônibus da cidade – a obra, inclusive, esteve exposta nas próprias ruas de BH, nos abrigos de transporte coletivo. Agora, à maneira dos personagens anônimos retratados, deve transitar pela cidade, em exposições como a que inaugura o Centro Cultural Salgado Filho. Oficina de música, banda da polícia militar, apresentação do Quilombo dos Luíses, do circo Malabares & Equilíbrio e de grupos de hip-hop e pop rock foram as outras atividades.

A técnica em enfermagem Renata Xavier morou a vida toda no bairro e nunca pôde ver uma apresentação circense nas redondezas. “Adoro circo, mas, quando era criança, tínhamos de ir longe para ver os palhaços e equilibristas. É superinteressante ter isso assim, tão perto de casa”, diz. Empolgada, levou os filhos Rafael, de 4 anos, e Bianca, de 8, para conferir as atrações. “Agora a gente vai voltar sempre”, garantiu a menina. Hoje, às 18h, tem apresentação das Meninas de Sinhá e, às 19h, o espetáculo de teatro Era uma vez uma menina. O Centro Cultural Salgado Filho fica na rua Nova Ponte, 22 (3277-9624).






A arte tem que dialogar com a realidade do país. Como o Brasil
é muito complexo, não dá para a arte ficar encastelada nas galerias.
É por isso que espaços como este ajudam a pensar uma
arte atrelada à nossa realidade

Estêvão Machado
, artista plástico










Quanto mais atividades existirem nos bairros, mais a criatividade
das pessoas é aguçada. É assim que aparecem novos artistas. A cultura
não deve ser vista como algo inútil. Ela faz parte do nosso dia-a-dia

Antônio Márcio Frois, músico









Por aqui falta banco, correio e sobra boteco. O centro
cultural deve dar uma agitada na vida de quem mora
por perto e viu a antiga escola ser reformada.
Estamos orgulhosos

Maria de Lourdes Alves, artesã









A comunidade se tornou muito violenta e isso aqui é a concretização de
um sonho. Cada atividade cultural é capaz de ocupar o tempo
de um jovem que poderia estar em um caminho errado

Maria Aparecida Bayão, diarista









Aqui nas redondezas há muitos jovens carentes de recursos
e é muito interessante que eles tenham algo com o
que se ocupar. Com o centro, vão vir cursos, oficinas,
teatro, música, dança
Renata Xavier, técnica em enfermagem









Estou maravilhada em ver esse centro cultural.
O espaço deixou de ser uma escola, mas vai continuar
atuando na formação e capacitação das pessoas.
Só que, dessa vez, por meio da arte
Meibe Rodrigues, atriz



Saber na prateleira


CIDADANIA
Morro das Pedras inaugura biblioteca comunitária e aposta na formação cultural para ajudar a prevenir criminalidade
Frederico Bottrel
Cristina Horta / EM/ D.A Press
Uma das organizadoras do espaço, Elaine Silva quer ver maior doação de livros de apoio a cursos superiores
Dom Casmurro, Dom Quixote e até Dom Pedro I já têm endereço certo no Morro das Pedras, na Região Oeste de Belo Horizonte. E tanta nobreza foi recebida com a devida pompa e circunstância. O aglomerado inaugurou ontem, com música e festa, sua biblioteca comunitária, que passa a funcionar na Praça do Sereno. O espaço cultural Fala bem morro! é pequeno, mas é fruto de um sonho grande: surgiu da demanda do cursinho pré-vestibular comunitário e tem apoio de diversas instituições que apostam na formação cultural para prevenir a criminalidade. O Morro das Pedras é uma das comunidades com altos índices de violência na capital.

“São vários os fatores que propiciam a criminalidade. Não adianta culpar só o tráfico de drogas, por exemplo”, acredita Ludmila Maia, técnica do programa de mediação de conflitos da superintendência de Prevenção à Criminalidade da Secretaria de Estado de Defesa Social, que acompanhou o desenvolvimento do espaço cultural. De acordo com ela, resolver questões como a desigualdade social, a falta de acesso ao lazer, à arte, ao conhecimento e à saúde são ações verdadeiramente preventivas, nesses casos.

É por isso que os dois mil livros nas prateleiras da biblioteca são tão significativos para a comunidade. Neles está o trabalho das organizadoras Elaine Silva, Rosimary Oliveira e Cristiane Ribeiro, todas nascidas e criadas no morro, depois de um ano mobilizando esforços para concretizar o espaço cultural. Tudo que está ali foi doado: as prateleiras, o computador, os livros.

A origem da biblioteca foi o cursinho pré-vestibular comunitário, que atende 25 alunos do aglomerado. O nome Fala bem morro! é emprestado de outro projeto que viabiliza a troca de cartas entre os moradores das sete diferentes vilas que compõem o Morro das Pedras. A idéia é integrar as comunidades, para além das fronteiras do tráfico. A biblioteca começou com apostilas relacionadas ao vestibular e logo veio a necessidade de expansão.

O porteiro João Marques, de 47 anos, não pensa em entrar em nenhuma faculdade, mas aprovou a inauguração. Passou mais de 30 minutos folheando vários livros e soltando exclamações como “Nossa, Guimarães Rosa é show!”. Marques defende que a leitura seja hábito incentivado em casa: “Meus filhos adolescentes preferem desenhos na televisão, mas também gostam de ler”. O autor favorito do porteiro é Paulo Coelho.

De acordo com Elaine, uma das organizadoras do espaço, o futuro é investir nas prateleiras dedicadas aos livros de ensino superior. Com 27 anos, ela cursa o 3º período de psicologia na PUCMinas e foi uma das fundadoras do cursinho comunitário. Acredita que uma vitória leva a outra: “Não adianta só dar a base, tem que ter continuidade. Porque existe uma galera boa que já precisa de apoio também na faculdade”. O Fala bem morro! já abriga títulos de administração, psicologia, direito e economia.

No Centro do Palco


Artistas da periferia de Belo Horizonte conquistam respeito do público e da crítica, além de prêmios de repercussão nacional. Democratização cultural avança na cidade
Sérgio Rodrigo Reis
Marcelo Sant'Anna/EM/D.A Press
O rapper Renegado sonha em reunir Zona Leste e Belvedere em seus shows
A arte que vem dos morros de Belo Horizonte não é apenas aquela tutelada por projetos de inclusão social. Tampouco algo que, até bem pouco tempo, chamava a atenção apenas por oferecer opção à falta de oportunidade de jovens às voltas com o crime. Os tempos são outros. A cultura da periferia ganhou discurso consistente, representantes de peso e, pouco a pouco, começa a romper barreiras históricas. A transformação é visível na dança, nas artes plásticas, no teatro e na produção audiovisual. Mas o exemplo mais forte vem da música, do trabalho de intérpretes e compositores como Renegado, a sambista Aline Calixto e de grupos como Meninas de Sinhá e Black Sonora, que conseguiram consolidar propostas estéticas criativas.

A última prova de fogo “batizou” o rapper Renegado, que acaba de vencer o maior festival de hip hop do país, o Hutúz, com a premiação do CD Do Oiapoque a Nova York e de seu site oficial. Nascido e criado na favela do Alto Vera Cruz, na Região Leste da capital, ele começou a cantar aos 11 anos, numa roda de capoeira. Conheceu o trabalho dos Racionais MCs e do DJ Thaíde aos 13, e, influenciado por eles, criou o Brother’s do Rap. O apelido de Flávio de Abreu surgiu quando ele ingressou na banda Anjos Negros. “Quem mora em comunidade é privado de quase tudo: saneamento básico, moradia, educação. Tive negadas e renegadas essas condições várias vezes. Não fui buscar o crime como resposta, mas a cultura e a arte. Renegado é uma sátira”, explica. Aos 26 anos, o cantor mora – e milita – no bairro de origem. Em 1997, com os amigos Dani Cris, Negro F e DJ Francis, criou o grupo que o projetou, o Negros da Unidade Consciente (NUC).

Renegado se distingue entre os rappers brasileiros não apenas pela história de superação. No CD solo de estréia – a convite do projeto Stereoteca –, ele surpreendeu. “Pensei em fazer uma fita diferente. O rap virou pop. Quis abrasileirar, e não nacionalizar o gênero, criando identidade para o meu som. Peguei ritmos como baião, black, maracatu e reggae, coloquei tudo na velocidade três do liqüidificador e cheguei às 13 canções.”

DIÁLOGO O rap é o fio condutor desse inspirado diálogo musical. “Assim, todas as tribos estão se encontrando nos meus shows”, orgulha-se o artista. “Eu tinha que andar contra o fluxo. Meu objetivo é o cara do barracão de lona do fundão da Zona Leste se interessar pelo meu disco, assim como o do Belvedere. Quero que todos se encontrem no meu show”, diz Renegado. Ele lança mão de letras politizadas, tratando poeticamente de problemas sociais. “Indiretamente, meu trabalho tem mostrado que há poder de escolha e que a cultura tem sido agente transformador no processo. Nossa missão é fazer com que essa possibilidade chegue a outras pessoas e ganhe proporção”, enfatiza.

O exemplo do jovem rapper é enaltecido por artistas de sua comunidade. Fundadora do grupo Meninas de Sinhá, a aposentada Valdete da Silva Coelho considera fundamental a vitória de Renegado, principalmente para a juventude. “A sociedade acha que na periferia só tem marginal. Estamos provando que ela é formada por marginalizados, mas também por muita cultura, solidariedade e alegria”, diz. Há 20 anos, Valdete resolveu convidar as mulheres que sofriam de depressão e de problemas familiares para conversar. “Comecei a perceber que elas não precisavam de antidepressivos, mas de alternativas para elevar a auto-estima”, conta. A solução veio da música. Há 12 anos, elas fundaram o Meninas de Sinhá.

Todas as semanas, o grupo formado por senhoras do Alto Vera Cruz passou a se reunir para recuperar antigas cantigas de roda. O trabalho gerou o disco Tá caindo fulô, que ganhou os prêmios TIM, Rival e Petrobras deste ano. “Nunca pensamos em concorrer a nada, em sucesso, nem em cantar fora de Minas. Mas deu certo. A entrega do prêmio TIM foi um sonho. Me senti uma rainha no meio dos artistas. A Ivete Sangalo e a Elba Ramalho nos procuraram e se ofereceram para participar do nosso primeiro DVD”, anuncia. Aos 70 anos, Valdete sente orgulho das 35 parceiras e do projeto. “Queremos trazer algo novo para o nosso bairro, mesmo com toda tristeza, dificuldades e violência”, diz.

A oportunidade mudou a vida da compositora oficial do Meninas de Sinhá, a aposentada Efigênia Romualda Lopes Teixeira, de 68 anos. Tímida, ela sentia enorme dificuldade de se expressar. “Tinha uma vida triste e o reencontro com Valdete me abriu essa possibilidade. O grupo transformou a vida de todas nós e a minha em especial. Já são umas 30 composições. Não crio por encomenda, mas inspirada pelas coisas incomuns a meu redor”. O reconhecimento é compensador. “Mesmo morando na periferia, somos respeitadas e estamos mais felizes, sem falar na auto-estima, que está lá em cima”, comemora Romualda.

DEMOCRACIA

Meninas de Sinhá fizeram festa para comemorar o Prêmio TIM

O produtor Gil Amâncio, que trabalha com alguns expoentes da cena artística da periferia de BH, chama a atenção para transformações da cena cultural da cidade: “Antes, só uma elite produzia. Hoje, vejo uma democratização que nos permite ouvir outras vozes. Há alguns anos, o discurso era de que rap não é música. Atualmente, Renegado é convidado para tocar com Toninho Horta e Lô Borges”.

O contato com os criadores “do asfalto”, segundo ele, tem aberto possibilidades importantes de diálogo. Mesmo com o reconhecimento da qualidade dos trabalhos, Gil percebe um abismo entre os dois mundos. “A turma da periferia foi excluída do processo de formação artística”, reclama. Apesar dos problemas, as trocas tendem a se ampliar. “Será melhor ainda quando os músicos do morro começarem a descer para os estúdios e passarem a ser protagonistas do processo”, diz. Pelo que se ouve pelos palcos de BH, o sonho de Gil Amâncio não está longe de virar realidade.

Hip Hop Zumbi

Festival Hip Hop Zumbi


Evento promove site interancional em Salvador

Neste sábado, 06 de dezembro, acontece na Senzala do Barro Preto o festival Hip Hop Zumbi, em comemoração ao lançamento do site internacional Mycypher.com. O evento contará com participação de grupos de Rap e DJs locais como Opanijé, Império Negro, Quatro Preto TGK, DJ Bandido e Clã Periférico, além atrações internacionais, a exemplo de Nobody Famous e DJ Boobito dos Estados Unidos que farão sua primeira apresentação em solo baiano. Além de música, o evento, que será gratuito, contará também com a participação dos grafiteiros Marcos Costa, Dennis Sena, Afro, entre outros.

O MyCypher. com é a primeira plataforma internacional de Hip Hop. Lançando em Novembro, nos Estados Unidos, o projeto visa reunir ativista de RAP de várias partes do mundo, como Estados Unidos, Brasil, África e até mesmo países asiáticos. A inicativa é fruto do trabalho de Curtis Jewell, um afro-americano que já percorreu diversos países, e exemplo de Brasil e Japão, pesquisando cultura e tecnologia. A idéia é que rappers possam, através do microfone do computador gravar suas músicas e mixar com outros cantores ao redor do mundo. O projeto foi lançado no final de novembro durante o evento Hutuz Hip Hop no estado de São Paulo.

Encantadores e Presidários

Rodrigo Albert/ Divulgação



As pessoas se emocionam, comparecem, elogiam, o
que nos satisfaz muito e demonstra a importância
do que fazemos

Rosana Mont’Alverne, contadora de histórias


Entre as pioneiras do gênero, Rosana Mont’Alverne também é a responsável pela criação dos Encantadores de Histórias, da Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (Apac), de Itaúna. O grupo reúne presidiários, que já se apresentam profissionalmente em várias regiões. “Esse grupo tem sido fonte de grande aprendizado para mim, e o trabalho com eles dá imenso prazer. Nunca fui tão feliz como sou realizando essas oficinas semanais com eles”, afirma a contadora, que há quatro anos dirige os Encantadores. Ela conta que muitos detentos e egressos encontraram alternativa na lida com a palavra. “Eles se identificam com a figura do herói, conseguem resignificar suas trajetórias. O projeto desencadeia sentimento de inclusão social e ajuda a humanizar pessoas que, ao contrário do que muitos pensam, não são feras”.

O acesso ao trabalho criativo também favorece o relacionamento dos presos com familiares, alimenta a auto-estima, estimula hábito de leitura e se oferece como incentivo para a retomada das salas de aula, segundo a diretora. “É uma caminhada bacana. Nem todos dão continuidade, ou se tornam contadores, mas a passagem pelo grupo sempre ajuda de alguma forma”, diz, lembrando recente lançamento do livro O segredo da caixa, escrito pelos Encantadores. Neste sábado, o Aletria também lança o livro Feira de histórias, na feira Tom Jobim, resultado de outro projeto regular da instituição.

O instituto, que conta com cerca de 50 alunos em formação, tem professores com histórias de vida que se assemelham às dos personagens. A professora Nina Quirino, fundadora do grupo Colar de Flor, está entre eles. A dona-de-casa, que não havia concluído sequer o ensino fundamental, voltou às salas de aula, à revelia da vontade do marido, mas motivada pelos filhos. Depois do supletivo, ingressou na escola de contação de histórias e vem acumulando prêmios, como o destaque recebido em concurso realizado pela Fundação Municipal de Cultura. Ele ficou em primeiro lugar, recebeu troféu no Encontro das Literaturas, e agora se prepara para receber novo reconhecimento, como talento da maturidade, no Recife. “O mundo precisa dos contadores que resgatam a presença física, a importância do olhar dado como um presente. Contar histórias é uma maneira de resistir numa sociedade cada vez mais pasteurizada”, afirma Rosana Mont’Alverne.

Artistas cobram apoio da Bienal à pichadora presa há 40 dias



Caroline Piveta da Mota, 23, entrou no prédio da Bienal de São Paulo, pintou com spray uma parede e está presa há 40 dias. Levada ao 36º Distrito Policial, na Rua Tutóia, três dias depois foi aprisionada na Penitenciária Feminina Sant’Ana, no Carandiru. As últimas palavras a caminho da viatura foram: "Eu sou pichadora. Viva a pichação". Isso aconteceu no primeiro dia do evento, que termina no próximo sábado (6) marcado por esse caso policial.


Seguranças flagram Caroline

Numa Bienal que tinha como lema "Em Contato Vivo" e prometia refletir sobre a arte contemporânea e o circuito artístico, a ação de Caroline no segundo andar do prédio (a "planta do vazio") causou polêmica. Foi classificada como "terrorismo poético" e "intervenção artística" por seus defensores. Mas também foi acusada de "vandalismo" e "atitude autoritária" pela declaração oficial da Bienal.

Fora essa declaração, de 27 de outubro, a curadoria da mostra não quis se manifestar sobre o assunto. Ivo Mesquita e Ana Paula Cohen alegaram, por meio da assessoria de imprensa, que não tinham espaço em suas agendas.

Já o artista José Roberto Aguilar classificou como “uma hipocrisia absurda” a prisão da pichadora. “Quem devia ser preso são os organizadores. O andar vazio era um convite à manifestação, à contravenção. O mínimo que a Bienal pode fazer é colocar seu advogado para liberar a moça", afirmou Aguilar.

Outro caso decorrente da pichação foi o de Rafael Vieira Camargo Martins, de 26 anos, amigo de Caroline. Ao levar os documentos dela ao DP, Martins foi reconhecido pelos presentes na delegacia e acabou detido por oito dias. "Fui à Bienal porque vi as mensagens pela internet falando da invasão. Mas não pichei nada. Fui só ver. Eles não conseguiram provar e me liberaram", contou.

Taxista na região do Ipiranga, ele afirmou que perdeu dias de trabalho e a auto-estima com a prisão. "Com que cara eu fico diante de meus passageiros, sabendo que eu estive na cadeia? Os policiais me zoaram, mas os companheiros de cela me ajudaram", conta Rafael, que participará nos próximos dias de uma manifestação pedindo a libertação da amiga.

Caroline e ele estão sendo processados por destruição do patrimônio público e podem pegar uma pena de três anos de reclusão. Aponta-se envolvimento em outras duas ações anteriores — no Centro Universitário de Belas Artes (Vila Mariana) e na galeria Choque Cultural (Vila Madalena).

O mentor

As três iniciativas teriam como mentor Rafael Guedes Augustaitiz, conhecido no meio como Pixobomb, e foram registradas em vídeos ou fotos. A pichação na Belas Artes foi proposta como trabalho de conclusão de curso (TCC). Augustaitiz foi reprovado, expulso da faculdade, fichado na delegacia com mais cinco amigos e processado por danos.

A segunda ação, na Choque Cultural, propunha atacar "uma bosta de galeria" que "abriga artistas do underground, então, é tudo nosso", nas palavras da carta de convocação. Esse protesto rachou em discussões e ameaças os pichadores e os grafiteiros que estão levando seus trabalhos para circuito.

A turma de Pixobomb se intitula PiXação — Arte Ataque Protesto. É formada por dezenas de jovens entre 15 e 30 anos da Grande São Paulo que se conheceram nas ruas. A garota presa é uma exceção: a gaúcha Caroline conheceu o grupo pela internet.

Outras intervenções clandestinas na mais tradicional exposição de São Paulo não tiveram desfecho tão drástico. O grupo Arac, por exemplo, colou adesivos nas pilastras e paredes do prédio e publicaram em blog um Manual para a Invasão da Bienal.

Já estudantes de publicidade promoveram um flash-mob (expressão inglesa que significa multidão instantânea) com suas camisetas formando a pergunta "Sem idéia?". A manifestação foi filmada para passar o vídeo na Web.

Mais apoio que recriminação

A pichação na Bienal inspirou o artista Eli Sudbrack a fazer uma série de peças de neon usando o grafismo exposto na galeria Casa Triângulo, que está instruída a não chamar a polícia caso os pichadores passarem para lá. "Achei a ação dos pichadores fantástica, de uma coragem inacreditável”, declarou Sudbrack.

“Não sei como os curadores não abraçaram o conceito. Deve haver alguma razão política. Só porque a garota não é do mesmo estrato social da elite artística." O artista também pede uma ação dos artistas para liberar Caroline. "Se a Bienal não tirar ela de lá, temos que fazer algo. Eu mesmo já colei stickers em exposições importantes nos Estados Unidos. É um absurdo o que está acontecendo. Ela não é uma criminosa.”

Na blogosfera, o apoio foi também maior que a recriminação. Vitor Ângelo, que mantém o blog Dus Infernus, relatou o caso do ponto de vista de alguém que estava naquele domingo 26 de outubro, às 19h30, na Bienal.

"Me deparo com a curadora Ana Cohen descabelada, chamando-gritando pelos seguranças, polícia. Vejo uma manada de jovens em uma coreografia que lembrava os animais livres da savana correndo e gritando por liberdade de expressão. Não resisti, aplaudi forte como muitas outras pessoas", escreveu Ângelo, para logo teorizar.

"A Bienal ao apagar os pixos assim como a grande maioria dos senhores envolvidos com a tal arte contemporânea estão situados e sitiados no terreno da cultura”, registrou. “Já os pichadores, eles estão no terreno da arte", completou, citando frase do cineasta francês Jean-Luc Godard ("Cultura é regra, arte é exceção").

Antes da abertura da Bienal, a organização afirmou que sabia da ação dos pichadores — mas só reforçou o policiamento, com revista de bolsas, após o incidente no primeiro dia da exposição. Na hora da confusão, os seguranças tentaram conter os protestantes até a chegada da polícia. A maioria escapou após quebrar um dos vidros do prédio.

Da Redação, com informações do UOL Notícias

Dia da luta contra a opressão cultural


Meninos canavieiros da Zona da Mata de PE, 1980
1824 - Dia da luta contra a opressão cultural
Lei complementar à Constituição imperial brasileira proíbe escravos e leprosos de freqüentarem a escola. Instruir a escravaria, classe trabalhadora fundamental da época, para os senhores legisladores é crime…

Lula defende aval a projeto para cota nacional na TV

Ao lançar no Rio plano de R$ 74 milhões para o audiovisual, presidente defende proposta que obriga os canais pagos a exibir programas produzidos no país


Novo fundo do MinC prevê investimentos na produção e também na distribuição de filmes, seriados e minisséries para cinema e televisão

CAIO JOBIM
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DO RIO

Durante a cerimônia de lançamento do Fundo Setorial do Audiovisual, ontem, no Rio, o presidente Lula prometeu que o governo vai se empenhar na aprovação do projeto de lei nº 29, de 2007, que prevê a entrada das teles no mercado de TV a cabo e a criação de um sistema de cotas para garantir conteúdo nacional nos canais pagos.
"A emenda 29 está pronta, ela está acordada, está acertada e nós já queremos colocá-la em votação na semana que vem", disse Lula em seu discurso.
Mas a aprovação só deve ocorrer após o recesso parlamentar, afirmou o presidente.
Lula criticou a programação dos canais pagos. "Eu confesso a vocês que, quando a gente perde o sono e liga a televisão na TV por assinatura, a gente vê tanto mequetrefe, tanto filme vagabundo. Acho que é uma daquelas coisas feitas em Hollywood que o cara jogou no lixo, alguém passou, pegou, vendeu, e nós assistimos aqui."
O Fundo Setorial do Audiovisual vai destinar R$ 74 milhões para produção e distribuição de obras nacionais para cinema e televisão. Os recursos serão aplicados em duas etapas: R$ 37 milhões estão disponíveis desde ontem e podem ser aplicados até o fim do primeiro semestre de 2009; no segundo semestre, será disponibilizado o restante. O aporte vem se somar aos já obtidos via leis de incentivo -em 2007, R$ 151,6 milhões foram captados.
"O objetivo geral [do fundo] é tornar compatível um sistema de apoio público consistente ao audiovisual, com a mobilização de recursos privados e o compromisso dos agentes econômicos", disse o ministro da Cultura, Juca Ferreira, em seu discurso de ontem.

Novo modelo
Para Ferreira, os motivos que estabeleceram um modelo de financiamento à cultura via leis de incentivo "envelheceram" e geraram resultados contraditórios, uma vez que os produtores recebem investimentos a fundo perdido, sem necessidade de contrapartidas.
Em entrevista à Folha, o diretor-presidente da Ancine, Manoel Rangel, destacou também que, com as quatro linhas de ação iniciais do fundo, o governo passa a atuar no conjunto da cadeia do audiovisual, e não apenas no estímulo à produção -como é a maioria dos casos com as leis de incentivo.
"Duas das linhas estão focadas em distribuição, visam o fortalecimento das empresas distribuidoras brasileiras. Uma terceira linha está focada em produção de obras para a televisão", ressaltou.
A outra é direcionada à produção de filmes de longa-metragem com orçamentos, segundo a Ancine, adequados às suas expectativas de retorno em renda de bilheteria e vendas no mercado externo.
O fundo chega em um momento de baixa do cinema nacional. Em 2003, 21% dos filmes assistidos no Brasil eram produções nacionais -cerca de 22 milhões de espectadores.
Em 2007, a fatia caiu para 11,6% (10,3 milhões), segundo dados da Ancine. Em 2003, foram lançados 28 filmes nacionais. Em 2007, 78.


Colaborou ITALO NOGUEIRA, da Sucursal do Rio

"Picho para o povo olhar e não gostar"


"Picho para o povo olhar e não gostar", diz jovem presa na Bienal
Na cadeia há 40 dias, a gaúcha Caroline Pivetta da Mota, 23, é acusada de destruição de patrimônio, cuja pena chega a 3 anos

"A gente não queria estragar as obras, mesmo porque não tinha obra. A obra, ali, nós que íamos fazer", afirma a garota

DIOGENES MUNIZ
EDITOR DE INFORMÁTICA DA FOLHA ONLINE

Atacada por todos os lados, a 28ª Bienal Internacional de São Paulo, que termina amanhã, recebeu em seus últimos dias um elogio improvável: veio de dentro de uma penitenciária.
"Acho interessante. Me identifico um pouco com o vazio", disse à reportagem a pichadora gaúcha Caroline Pivetta da Mota, 23 -ou Caroline Sustos, como assina seus autos de prisão.
Caroline foi uma das 40 pessoas que, em 26 de outubro, atacou com spray o prédio da Bienal, no parque Ibirapuera.
Ela está encarcerada há 40 dias.
Dependendo do julgamento, pode permanecer na Penitenciária Feminina de Santana, onde foi feita a entrevista, até a próxima Bienal, em 2010.
Na denúncia do Ministério Público, Caroline é acusada de se associar a "milicianos" com fins de "destruir as dependências do prédio". Ela faz parte da gangue Susto's. É a única garota, além de ser novata -foi convidada neste ano, mesmo com discordância de alguns líderes.
Enquadrada no artigo 62 da Lei do Meio Ambiente (destruição de patrimônio cultural), pode pegar de um a três anos de prisão. Caroline estava nos ataques à galeria Choque Cultural, em Pinheiros, e ao Centro Universitário Belas Artes -ela também responde processo por este último.
No entanto, seu primeiro problema sério envolvendo pichação ocorreu há cinco meses, após pintar um prédio da Polícia do Exército, no centro. Conseguiu um processo militar, sobre o qual pouco sabe. Na Bienal, não havia integrantes de apenas um grupo, segundo ela. "Cada um "colou" lá por um motivo." O dela? "Estava me manifestando contra os desfavorecidos, os que não têm acesso àquela coisa toda [a arte da Bienal]." E emenda: "Claro que eu não precisava me expor dessa forma. Fui lá pela manifestação, para acompanhar os meninos, não pelo Susto's. Se tivesse me privado daquilo, estaria hoje na rua fazendo o que gosto, que é pichar."
Ela diz que aprova a temática da Bienal, porque "todo mundo tem um vazio dentro de si".
"Tanto na Bienal, quanto na Belas Artes, fui só para ver o que ia rolar. Mas, quando percebi, a lata de spray já estava na minha mão", diz, rindo.
Na exposição, foi preso ainda o taxista Rafael Vieira Camargo Martins, 27, outro do Susto's.
Ele responderá ao processo em liberdade e alega ter apenas seguido o ato como espectador.

Meta de vida
"Tanto grafite quanto "picho" são underground, coisa do fundão. Não são feitos para exposição em galeria. A parada que faço é na rua, é para o povo olhar e não gostar. Uma agressão visual", diz Caroline, que ouve bandas de reggae e de Oi! (estilo musical derivado do punk-rock). Ela diz que já foi espancada por anarco-punks em Porto Alegre e um de seus melhores amigos foi morto em uma briga de rua.
A jovem estudou até o primeiro ano do ensino médio.
Largou a escola após tentar se suicidar, um dos poucos assuntos sobre o qual prefere não falar. Já trabalhou como atendente de telemarketing e, antes de tornar a pichação uma "meta na vida", vendia artesanato e camisetas na rua. Sua mãe, a artesã Rosemari Pivetta da Mota, viajou do Rio Grande do Sul a São Paulo nesta semana.
Na prisão, a pichadora está dividindo a cela com uma evangélica. "Tenho que ficar assistindo ao canal da igreja", brinca. Vegetariana, lamenta ter que comer carne, porque "tem dias que não tem como encarar esse arroz e feijão daqui".
Na semana passada, ganhou uma pichação no próprio corpo: tatuou Susto's no antebraço.

Pressão
Antes da Bienal e da galeria Choque Cultural, a jovem só havia entrado em uma exposição na vida, sobre o artista espanhol Joan Miró (1893-1983).
"Achei bem louco", diz.
Segundo a advogada de Caroline, Cristiane Sousa Carvalho, ela não conseguiu comprovar residência fixa, tampouco ocupação legal, por isso continua presa. Ela diz que fará mais um pedido à Justiça para que a jovem responda em liberdade.
A Bienal nega fazer pressão para mantê-la atrás das grades.
Os advogados da instituição dão como certa a condenação da dupla. Diversos artistas cobram a fundação para liberá-la.
"Coube à Fundação Bienal de São Paulo registrar boletim de ocorrência após a pichação. A fundação não possui qualquer ingerência sobre o caso, que é de responsabilidade única e exclusiva da Justiça", declarou a instituição, por meio de sua assessoria de imprensa.
"A gente não queria estragar as obras deles [da Bienal], mesmo porque não tinha obra. A obra, ali, nós que íamos fazer", diz a jovem. Embora seja chamada informalmente de Bienal do Vazio, o título oficial da mostra é "Em Vivo Contato".

Vida e Morte

JACOB PINHEIRO GOLDBERG


A noção de velhice associada à idéia de decadência e fealdade dificulta a cada um o seu próprio envelhecimento

JOÃO PEREIRA Coutinho escreveu um artigo ("Morte e vida", Ilustrada, 25/11) cuja síntese é: as pessoas podem viver com dignidade até os 74 anos, o resto é desperdício, nas suas considerações que refletem profunda tanatofobia.
Alinho reflexões que desenvolvi no trato com as gentes e as palavras.
Não havendo uma política específica para o velho em nosso país, qual o seu lugar e seu papel na sociedade? Da marginalização no mercado de trabalho, oscilando entre a figura acomodada que merece uma distinção de respeito formal e a condição desprezada de ser atípico, principalmente nas grandes metrópoles.
Realmente, o psiquismo social partiu da importação de estereótipos radicais, numa ótica aguda do chamado "choque de gerações": "Não confie em ninguém com mais de 30 anos", seqüela de um período de revolta juvenil que jogou num confuso cadinho -da "beat generation" a Marcuse, das drogas e Katmandu- o interesse pela comercialização e venda de calças jeans, a excêntrica onda dos gurus orientais, onda modista característica da sociedade de consumo, ondas das imagens das baladas e dos surfistas...
Sociedade esta que valoriza a força física e a aparência estética, que procura promover uma faixa etária endeusada -aquela que produz mais, conseqüentemente, perturba menos (embora, formalmente, conteste mais o poder gerontocrático), aplicando seu dinheiro em mercadorias supérfluas, sem senso crítico acabado-, a juventude, vítima fácil de mecanismos ansiolíticos de voracidade, eis que seres em formação.
A tentativa de sinonímia entre jovem, forte e belo, particularmente por uma TV ensandecida (pela exploração nos anúncios provocadores que raiam a pornografia e pela vacuidade na correspondência entre idoso, fraco e feio). Isso num tempo sem compostura ética, em que ser fraco e feio é quase uma patologia que deve ser corrigida pela eliminação física, lembrando o romance de Casares em que, numa Buenos Aires ficcional, os velhos são caçados e mortos nas ruas.
Essa noção do velho amaldiçoado por uma sociedade acelerada, em que os músculos e a grosseria adolescente são colhidos pela permissividade da família e das ideologias avacalhadas, é um reflexo da contrapartida do filicídio, o atentado e a discriminação contra as crianças. Pois, na verdade, a comunidade que desrespeita um de seus estamentos não respeita nenhum.
Diga-se de passagem, essa fenomenologia não é só do nosso tempo. Já os índios nhambiquaras tinham uma só palavra para designar jovem e belo e outra para velho e feio.
A noção de velhice associada à idéia de decadência e fealdade dificulta a cada um o seu próprio envelhecimento; a psicologia constata que velhos são os outros, nunca nós mesmos, paradoxo denunciado por Sartre.
Aliás, um de nossos dicionaristas arrola no verbete "velhice": "rabugice ou disparate próprio de velho"; e, em "velho": "desusado, antiquado, obsoleto". Esquecido que era, talvez, da sua própria velhice. Ah, as armadilhas ideológicas da lingüística...
O critério de velhice é muito relativo, dependente que é de fatores subjetivos e objetivos os mais diversos: para Hipócrates, aos 50 anos; para Aristóteles, que associava essa idade ao apogeu do indivíduo, aos 35 anos; e para Dante, aos 45. A menina casadoira acha-se "velha" aos 25 anos...
Sem que se faça a apologia do Matusalém bíblico, uma sociedade só merece a consagração humanística quando entende que "the answer, my friend, is blowin" in the wind", porque, na verdade, começamos a envelhecer a partir do nascimento. A função da vida é acomodar a pessoa ao presente em mudança. Com referência ao idoso, é bem-vinda a criação de uma legislação de amparo, simultânea a uma conscientização, privada e pública, do problema.
O destino se ri dos planos dos homens. Numa cultura narcísica, em que o ser se confunde com o prazer, o uso, o consumo, um presente sem passado e sem futuro, a morte é exilada. Contrariando Freud, o mal-estar não se origina na informação de que o homem é o único animal que sabe da morte. Na verdade, o ser humano é o único animal que sabe da eternidade, e o mal-estar se produz na incerteza, o estreito vagido entre o ir e o vir.
Grande desafio, o maior, paralisa a medicina, intriga a psicologia e provoca a teologia. Qual o sentido da falta de sentido aparente da morte? Qualquer tentativa de lógica nos remete a um raciocínio por semelhança. Qual o sentido ou a falta de sentido do nascimento? Biofilia e necrofilia, pólos opostos que imprimem as margens de nossa vida.
Viver é perigoso, filosofa Guimarães Rosa. Morrer deve ser uma tremenda aventura, diz Peter Pan, e se instaura a dialética do absurdo.

JACOB PINHEIRO GOLDBERG, 75, doutor em psicologia, advogado e escritor, é autor de "Psicologia em curta-metragem" e "Cultura da Agressividade".

Som mostra diversidade de influências

Fabiano Nascimento/Divulgação -
Filho de músicos, Ronaldinho Pio conviveu no meio desde cedo
O cantor e compositor Ronaldinho Pio se apresenta hoje, na Sala Juvenal Dias do Palácio das Artes. No show Afim ele vai estar acompanhado de Ronaldo Leon (violão de seis cordas), Toninho do Cavaco (violão de sete cordas e cavaquinho) e dos percussionistas Ricardo Acássio, Zanarth e Rafael Leite.

Filho de músicos, Pio na infância conviveu com grupos de chorinho, samba, congado e guardas de moçambique. Na adolescência, vivenciou a black music, a MPB e o pop. Todas essas influências foram essenciais para o desenvolvimento de sua música. Em um primeiro momento, ele integrou o grupo Acauã.

Pio mudou o rumo quando foi contratado pelo Centro Artístico Oba-Oba, em Nova York. Sob a direção do maestro José Roberto Branco, ele viajou pela América do Norte. De volta ao Brasil, foi um dos fundadores da Associação Cultural de Compositores e Músicos e ajudou a criar os projetos Sempre num bar e Artista cidadão, ambos apresentados em espaços culturais de Belo Horizonte. Desde então, ele lançou dois álbuns, Plural (1998) e Flerte (2003).

Aprovada lei que pune crimes sexuais contra meninos e meninas pela internet



Do clipping da ANDI

Foi sancionada em 25 de novembro, pelo presidente Lula, a lei Nº 11.829, que pune casos de abuso sexual contra crianças pela internet. O projeto de lei aprovado recentemente pelo Congresso Nacional foi proposto pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Pedofilia, que investigou o assunto entre 2002 e 2003.

A partir de agora, quem produzir, reproduzir, dirigir, fotografar, filmar ou registrar, por qualquer meio, cena de sexo explícito ou pornográfica envolvendo criança ou adolescente, poderá ser punido com pena de até oito anos de prisão. Lula defendeu a educação sexual como alternativa para enfrentar o problema.

"A educação sexual dentro de casa é tão importante quanto dar comida todo dia para a criança sobreviver. É preciso acabar com a hipocrisia religiosa de não permitir que um assunto importante como esse seja tratado à luz do dia", disse o Presidente.

De acordo com a subsecretária de Defesa e Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente, Carmen Oliveira, além dos desafios ligados à recuperação das crianças e adolescentes da situação de violência sexual, os estados sofrem para alcançar uma rede extremamente organizada e adiantada.

“Combatemos a exploração dentro de hotéis turísticos, ela migra para os flats. Agimos contra o uso da rede mundial de computadores, os aliciadores sacam os celulares e serviços de comunicação por meio de mensagens de texto”, revela.

Fonte: A matéria foi publicada nos principais veículos do País

I-letrados

Marcela Castilho - aluna do 8º período de letras da Universidade Federal de Ouro Preto
Arquivo pessoal
Hoje, eu e um amigo falávamos sobre o hábito de escrever cartas. São tantos e-mails e scraps que poucas pessoas ainda têm paciência para pegar uma folha de papel a fim de redigir algo. Lembrei-me de um autor, Luciano Martins, que escreveu um livro sobre a dificuldade que algumas pessoas têm para escrever...Quando essa “onda” de internet surgiu, algumas pessoas diziam categoricamente que a escrita ia desaparecer. Até jornais e revistas estavam fadados ao desaparecimento, tudo seria on-line e não mais impresso. Eu não consigo ter o mesmo prazer numa leitura virtual do que quando folheio cada página de um livro.

Bem; à época do início dessa revolução criada pelo advento da internet, um dirigente de uma das multibilionárias corporações que brotaram no novo cenário da comunicação virtual chegou a dizer que dentro de poucos anos não seria preciso alfabetizar as crianças. Seria preciso apenas ensiná-las a operar os programas de reconhecimento de voz dos computadores. Alguns sociólogos e teóricos da comunicação começaram a especular sobre o possível surgimento de uma nova categoria de cidadãos, os i-letrados, ou letrados da internet, aquelas pessoas capazes de vocalizar textos, mas que tecnicamente continuariam analfabetas. Jamais conseguiriam elaborar idéias e colocá-las no papel, em formato de texto. Não sei se chegaremos ao ponto de apenas ensinar às crianças como operar um ou outro programa, mas creio que os i-letrados já estão por aí.

Hoje, depois de mais de uma década da invenção que deixaria o povo ainda mais distante do domínio do idioma e da boa redação, a internet não pára de avançar. Os celulares são a bola da vez e a cada dia tornam-se mais sofisticados. Os pequenos de hoje ensinam aos pais todos os recursos que os aparelhos nos oferecem. Parece que já nascem sabendo os domínios da tecnologia. Nós, seres ainda analógicos quando no mundo intra-uterino, precisaremos de aulas para manejar os equipamentos cada vez mais lotados de recursos. Que vergonha!

O mundo hoje faz conta em caracteres e talvez por isso o português tem se transformado em algo praticamente ilegível. Quem visita o Orkut sabe muito bem do que estou falando. Eh Kda veis complikadu intende o q a mininada iskreve! Se antes da criação do MSN e do Orkut já era difícil mostrar aos estudantes todas as peripécias que a ortografia nos prega, agora o caso está ainda mais grave. Acentos foram praticamente abolidos e pontuação é algo que parece estar em extinção. Letras que antes eram raríssimas, agora se fazem tão presentes nas palavras como as vogais.

Talvez a escrita nunca desapareça como previram alguns estudiosos, mas sem sombra de dúvidas a geração de I-letrados começa a desabrochar e mostrar não só para os professores, mas para o resto do mundo, que escrever está ficando cada vez mais difícil e complicado. Talvez esteja aí um novo mercado: teremos que fazer um curso para que possamos entender a nova linguagem que, ao que tudo indica, veio para ficar. E quem era aluno poderá se tornar professor.

Eu gosto de caras + velhos


O QUE DIZ A LEI


// ENTRE 14 E 17
Com 14, 15, 16 e 17 anos, a lei diz que os(as) adolescentes têm capacidade de consentir com a transa. Portanto, se for consentido, o(a) adolescente pode transar mesmo que o(a) parceiro(a) seja maior de idade

// SÓ ELA MENOR DE 14
Até o dia em que completa 14 anos, a adolescente é considerada incapaz de consentir; transar com uma menina dessa idade é considerado estupro com violência presumida, um crime hediondo, mesmo que ela diga que transou porque quis

// SÓ ELE MENOR DE 14
Se a transa for com um menino menor de 14 anos (13 anos ou menos), a mulher é acusada de atentado violento ao pudor, outro crime hediondo, mesmo quando ele afirma que quis e consentiu

// AMBOS MENORES DE 14
De acordo com a lei, menores de 14 anos não são capazes de consentir com a relação sexual. Se condenados, eles não cumpririam pena na cadeia, e sim medidas sócioeducativas, como internação. Isso porque no Brasil, adolescentes (de 12 a 18 anos) não cometem crimes, mas atos equiparados a crimes, os chamados atos infracionais

// PUNIÇÃO AOS PAIS
Pais podem ser condenados se o filho ou a filha transar com um(a) menor de idade? Dependendo do caso, sim. Eles podem ser acusados de omissão ou co-autoria do estupro ou atentado violento ao pudor, se ficar provado que sabiam e não tentaram impedir que o(a) filho(a) transasse com um(a) jovem menor de 14 anos ou com idade entre 14 e 17 anos - nesse último caso, sem consentimento dele(a)

Fonte: Reinaldo Cintra Torres de Carvalho, juiz da Coordenadoria da Infância e Juventude do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo

Eu gosto de caras + velhos


Garotas menores de idade contam os prós e os contras de seus namoros com homens maiores; lei diz que acima de 14 anos, tudo bem

Eduardo Anizelli/Folha Imagem

Marina Raffani Santos, 18, descartou um cara de 30 porque ele não crescia; agora, namora Humberto Lima, 26

DÉBORA YURI
LUANA VILLAC

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

"Você abraça e sente um homem, não um menino", explica Paula*, 16.
"Ele já passou por tudo que eu tô passando", diz Luiza Cirne de Toledo, 17. "Eu me sinto segura. Preciso estar com alguém que tenha um plano", afirma Marina Raffani Santos, 18. As três fazem parte do mesmo grupo: o das adolescentes que se apaixonam e namoram homens mais velhos.
O grupo em questão deixou de ser assunto apenas nas rodas de porta de colégio na semana passada, quando a cantora Mallu Magalhães assumiu o romance com Marcelo Camelo, ex-Los Hermanos. Ele tem 30 anos; ela, 16.
Saiu da boca de Mallu uma sentença que já entrou para a antologia do "amor não tem idade": "Aquilo era amor transbordando do meu corpo. Era sentimento puro que havia entre nós naquele momento, e eu resolvi que não iria segurar, que tinha que deixar fluir. Estou loucamente apaixonada", disse (leia mais na coluna Escuta Aqui, na página 10).
Bia*, 17, estagiária, que namora há 12 meses o programador Eduardo*, 29, diz que 12 anos de diferença "não atrapalham". "Eu me dou bem com os amigos dele. Não é porque sou mais nova que estou por baixo", afirma ela, para quem "a idade só aparece nas brigas".
Os dois se conheceram no trabalho. Eduardo diz que algumas pessoas estranham seu namoro. "Para os meus pais, mentimos a idade dela, falamos que ela tem 18. Isso evita comentários toscos, como "toma cuidado, ela é menor de idade'", diz ele, que com os pais dela garante se dar "superbem".
Para Luiza Cirne de Toledo, 17, a idade não é problema, e sim fascínio. "Quando eu tinha 14 anos, namorei um cara de 18. Com 15, namorei outro de 22. Os homens mais velhos são atraentes. Eles têm muito mais coisa pra te mostrar", diz. "Meu namorado está no 4º ano de direito, trabalha, já passou por crise de ficar longe dos pais para fazer faculdade", ela lista.
Os pais de Luiza não gostavam de seus namorados mais velhos. "Eles achavam que eu ia pensar em sexo quando as minhas amigas pensariam em beijar na boca. Você acaba fazendo o que o seu namorado faz, mas ele nunca me influenciou em coisas como cigarro e bebida."
Para o psicólogo Miguel Perosa, professor de psicologia da adolescência da PUC-SP, o que define a qualidade de um namoro é a expectativa de cada parceiro. "O que uma menina de 16 anos busca num homem de 30? A segurança de um pai? A admiração a um ídolo? A experiência diante da insegurança da adolescência?", reflete.
Dependendo disso, continua, a relação se estabelecerá baseada em respeito ou submissão, liberdade ou posse, consideração às individualidades ou afirmação de um sobre o outro. "Um relacionamento saudável incentiva a realização dos sonhos pessoais de cada um."

"Não namore criança"
Depois de ficar quatro anos com um cara de 30 e terminar "porque ele não cresceu e não acompanhou", Marina Raffani Santos, 18, passou a namorar um aluno de direito de 26.
"Ele trabalha, sabe onde quer chegar. Idade faz diferença, nunca gostei de meninos da minha idade. Eles são inseguros, não sabem o que querem da vida, as mães controlam... Eu falo para as minhas amigas: "Não namore criança'", ela diz.
"Eles não acompanham, não dá para agüentar", concorda Marcela Casarini, 15, que namora o chef Henrique Maldonado, 21. "No começo, pensei que não daria certo", ele conta. "Meus amigos acham estranho, mas eu não ligo."
Apesar de lembrar que cada caso é um caso, Helio Deliberador, coordenador do curso de psicologia da PUC-SP, ressalta: "Há risco de a relação amorosa ficar calcada em uma segurança fictícia, que não existe. Além disso, cada etapa da vida significa determinada experiência consigo mesmo, com o outro, com seu corpo... Numa diferença acentuada, a convivência pode trazer instabilidade."
Thiago Koschtschak, 23, cuja namorada tem 18, confirma: "Eu tenho mais medo do momento, das fases que a gente está vivendo, que são diferentes". Embora ache que "idade não quer dizer muito, depende da cabeça", ele frisa que estipulou uma "idade limite". "Não namoro meninas com menos de 18. A gente começou quando ela tinha 17, mas já era quase 18..."

Vergonha
Para Helena*, 17, a experiência de namorar um cara mais velho não deixou saudade. "Eu tinha 16 e ele 23. As cabeças eram muito diferentes", diz. "Às vezes, ele ia me buscar na escola de terno, direto do trabalho, e eu tinha vergonha. Parecia um pai indo buscar a filha."
Ela não tem dúvidas de que a diferença de idade foi a causa do fim do caso, de três meses. "Namorar alguém da mesma idade é bem mais fácil: tem mais assunto, os dois estão na mesma página da vida, um ajuda o outro nos estudos", afirma. "Com ele, eu ficava meio sem ter o que fazer. Ele gostava de boates, mas eu não podia ir, acabávamos sempre indo para minha casa, já que minha mãe não me deixava ir à dele".
Ela terminou o namoro em junho. "Ele começou a ficar muito melosinho e sempre queria alguma coisa a mais... Eu não estava a fim. Hoje, prefiro alguém da minha idade", diz.
Programas são um problema, conta Daniela*, 16, cujo namorado, de 24, vai se formar em medicina neste ano. "A gente não vai muito pra balada. Quando vamos, eu entro com RG falso. Preferimos bares, que não pedem identidade."
Homens mais velhos exercem fascínio sobre as adolescentes? E as mulheres da idade deles?
"O problema maior são as garotas da faculdade dele. Elas são mais velhas, mais maduras...", suspira Daniela.


* Nomes trocados, a pedido das entrevistadas

Raça negra


Vocalista norte-americano do Sepultura fala sobre o racismo nos EUA e no Brasil

MARCO AURÉLIO CANÔNICO
DA REPORTAGEM LOCAL

Muito alto, muito forte e dono de uma voz gutural, o norte-americano Derrick Leon Green, 37, vocalista do Sepultura, é daquelas figuras que, como se diz, "impõem respeito".
Acontece que temor não é respeito, como Derrick aprendeu desde a infância. Criado num subúrbio multirracial dos EUA, ele não demorou a perceber que, para os negros como ele, ser respeitado como pessoa é uma tarefa mais complexa.
Vivendo em São Paulo desde 2001 (depois de morar em Nova York e em Amsterdã), Derrick conta que encontrou no Brasil um cenário bem diferente do paraíso da mistura racial de que tinha ouvido falar.

FOLHA - Sua infância em Cleveland (EUA) teve episódios de racismo?
DERRICK GREEN
- Minha primeira percepção sobre o racismo foi passada por meu pai, que nasceu na Georgia, no Sul dos EUA, na época em que ainda havia segregação oficial. Eu ficava chocado com o que ele contava porque cresci num bairro dentro de Cleveland, que é predominantemente negra, que misturava famílias de raças diferentes. Havia uma mistura de negros, asiáticos, judeus, cristãos. Era uma vizinhança muito boa, não se via preconceito.

FOLHA - Quando você sentiu-se vítima de racismo pela primeira vez?
GREEN
- Quando comecei a trabalhar num clube no centro da cidade e algumas pessoas que eram barradas gritavam comentários racistas, com raiva.

FOLHA - E como foi a adolescência em Nova York?
GREEN
- Sempre achei Nova York um lugar com muita gente diversificada, onde sua raça não importa. O racismo existe lá está alguns lugares específicos. O que acontecia, e ainda acontece, era ter dificuldade para pegar táxis, porque sou negro e alto. Muitos taxistas acham que vão ser roubados.

FOLHA - E o tempo na Europa?
GREEN
- As pessoas não são tão explícitas lá. O que eu vi mais foi uma xenofobia, comentários preconceituosos contra estrangeiros, imigrantes.

FOLHA - E qual a sua impressão ao se mudar para o Brasil?
GREEN
- Antes de vir para o Brasil, me diziam que o país era misturado racialmente, que não existia racismo como nos EUA. Mas, quando cheguei, vi que existe racismo aqui, só que as pessoas não admitem e, muitas vezes, nem se dão conta de que ele existe. Comecei a notar, cada vez que ia aos restaurantes, que nunca havia uma família negra comendo lá. A mesma coisa acontecia nas lojas de shoppings, não via muitos negros fazendo compras. Perguntava aos universitários quantos negros havia nas salas deles e me respondiam "um ou dois".
Fui percebendo que não havia muitos advogados ou médicos negros. Comecei a achar estranho estar em lugares onde sou o único negro. As pessoas ficam dizendo que [a discriminação] é econômica, mas há algo mais de muito errado.

FOLHA - Na sua visão, o Brasil é mais racista que os EUA?
GREEN
- Eu diria que qualquer negro tem muito mais chance de fazer o que quer que seja e de crescer se viver fora do Brasil, na Europa e nos EUA.

Aliança contra Aids


SEXO & SAÚDE


>> Jairo Bouer - jbouer@uol.com.br

HOJE SE comemora o Dia Mundial da Luta Contra a Aids. Nesta data, ações são desencadeadas em todo o mundo para lembrar e alertar a população sobre os riscos da epidemia. E nossa coluna, que trata basicamente de saúde e sexualidade, não poderia ficar fora dessa iniciativa.
Os últimos dados do Boletim Epidemiológico (que divulga os números da Aids no país), produzido pelo Programa Nacional de DST/ Aids, mostram que o Brasil continua em um momento de estabilidade. Mas essa estabilidade significa, ainda, mais de 30 mil pessoas recebendo o diagnóstico de Aids a cada ano.
Na faixa jovem, dos 13 aos 19, há menos casos em 2007 do que nos anos anteriores. No entanto, continuamos a perceber uma tendência preocupante: as garotas estão se contaminando mais do que os garotos.
Desde 1997 há mais casos novos entre meninas do que entre meninos nessa faixa de idade. Essa diferença resulta em mais de 1.300 garotas diagnosticadas nesse período em relação ao número de garotos com Aids (4.318 garotas e 2.974 garotos).
Essa inversão do maior número de homens contaminados (que é uma marca clássica da epidemia da Aids) só acontece de forma constante entre os jovens de 13 a 19. Na média nacional (em todas as faixas de idade), há cerca de 1,5 vez mais homens do que mulheres com novos diagnósticos de Aids.
É importante tentar entender o porquê dessa situação entre os mais jovens. De uma forma geral, as garotas têm maior facilidade para falar sobre sexualidade e podem ser consideradas mais bem informadas sobre o assunto. Então, por que estão se expondo mais e se contaminado com doenças sexualmente transmissíveis e Aids?
Uma série de pesquisas de comportamento jovem mostra que elas usam, em média, menos preservativos do que os garotos. Elas parecem "confiar" mais em seus parceiros, enxergam estabilidade nas relações afetivas mais cedo (e aí a camisinha passa a ser vista como não sendo mais necessária), são mais pressionadas pelos garotos a não se proteger e, muitas vezes, principalmente entre as menos escolarizadas, têm menor poder de negociar sua proteção.
Romantismo, confiança no parceiro (que muitas vezes não é fiel) e falta de poder são fatores que aproximam mais a mulher dos riscos. Já que não temos uma vacina à vista, nem cura da doença, que tal garotos e garotas se aliarem nessa luta? Faça sua parte!

Nascimento, vida e paixão da Aids


VICENTE AMATO NETO e JACYR PASTERNAK


Cada vez mais a epidemia da infecção pelo HIV ocorrerá entre os pobres. Miséria e Aids completam-se bem, e romper o ciclo é muito árduo

TEMOS UMA idéia bem aproximada do nascimento da Aids como doença humana e como isso ocorreu: foi no começo do século passado, em pequenas aldeias da África, quando o vírus causador (vírus da imunodeficiência humana -HIV-1) passou do nosso primo, o chimpanzé, para o homem. O motivo foi o uso de carne de caça, quando os citados primos foram caçados e devorados, e o sangue entrou na corrente sangüínea da espécie humana. O HIV-2 apareceu da mesma maneira, a partir de seu hospedeiro natural, o macaco verde.
Na África, na primeira metade do século 20, sem assistência médica, as complicações que acompanham a Aids eram rapidamente fatais e não diagnosticadas.
Como a Aids espalhou-se pelo mundo? Pela globalização e pelos fenômenos socioeconômicos a partir da Segunda Guerra Mundial: com a descolonização da África e as fronteiras artificiais, surgiram beligerâncias entre as várias etnias africanas. Podemos discutir as razões e atribuir culpas, mas, do ponto de vista objetivo, a infra-estrutura do atendimento médico, que já era ruim, ficou pior.
Além disso surgiram novos conflitos, havendo clara interferência estrangeira: mercenários de muitas proveniências andaram pela África e por certo tiveram relações sexuais.
Igualmente após a Segunda Guerra Mundial, homens africanos tiveram que trabalhar longe de suas origens e se tornaram em usuários freqüentes e obrigatórios de prostitutas. Estabeleceu-se na África o curioso sistema de circuitos sexuais, possibilitando participação de parceiros freqüentes e sucessivos: muitos homens africanos têm parceiras em cada canto, que, por sua vez, não são monógamas.
A Aids pode ter chegado às Américas por haitianos que foram trabalhar no Congo e retornaram com o vírus.
Nessa época, ocorreram outros importantes fatos: a pílula contra a gravidez e a mudança de costumes que levou à liberação sexual. Inclusive o preconceito contra os homossexuais sofreu modificações importantes. Tudo isso foi muito bom, mas tornou a disseminação da Aids mais fácil.
Vale acrescentar que, nesse período, houve expansão dos usuários de drogas de uso endovenoso.
A descoberta do vírus em 1984 e o entendimento da maneira como ele age foram extremamente rápidos.
Não conseguimos imaginar a catástrofe que seria a Aids se ela tivesse aparecido nos séculos 18 e 19. Felizmente, quando surgiu, as ferramentas da pesquisa microbiológica permitiram um célere progresso.
Ingenuamente, porém, achamos que, descoberto o vírus, teríamos logo uma vacina. Ilusão total. Seguiram-se descobertas de medicamentos -muitos- capazes de tratar a infecção pelo HIV e dar qualidade de vida decente a quem foi contaminado e, se houver aderência ao tratamento, proporcionar expectativa de vida bem razoável.
A Aids, porém, avança em terrenos novos. A doença não se propagou na Ásia como na África (em alguns lugares, de 30% a 40% da população está com o HIV), mas a infecção está se espalhando na Europa oriental.
Na África, sobrevieram claros progressos. Contudo, no seu mais rico país, a atitude amalucada de dirigentes negando a ação do HIV e propondo remédios folclóricos, como ingestão de beterraba, prejudicou seriamente o combate à epidemia.
Para onde vamos? Quando a Aids vai ser controlada, acabar e ter sua paixão? Podemos imaginar alguns cenários. Vacina, se algum dia tivermos, será para daqui dez ou 20 anos. Microbicidas de uso vaginal são uma esperança e, por enquanto, não passam disso. Há novos remédios úteis para o tratamento, e o arsenal terapêutico está sempre maior, se bem que tais produtos são caros. O atendimento fica, portanto, cada vez mais dispendioso, sem curar ninguém, porquanto só controla a replicação do vírus.
Sem dúvida, a população está sendo educada, de modo que os mais instruídos protegem-se contra o vírus e não o adquirem. O problema é mudar condutas de pessoas com baixa escolaridade e controlar um dos impulsos mais fortes do ser humano, o sexual.
Cada vez mais a epidemia da infecção pelo HIV ocorrerá entre os mais pobres, os menos educados, os de comportamento marginal, ou seja, exatamente as parcelas mais vulneráveis e de acesso mais laborioso aos recursos educacionais. Miséria e Aids completam-se muito bem -e romper esse ciclo é muito árduo.
Biologicamente, a longo prazo, poderá ocorrer na espécie humana a seleção que se verificou entre os chimpanzés: o vírus conviverá com o hospedeiro sem causar, na maior parte deles, grandes desgraças. Mas não podemos descartar o aparecimento de alguma variante do HIV dispersável com maior eficácia e talvez de alguma maneira que ainda não exista hoje. Isso, sim, seria um legítimo pesadelo.
No momento, é pura ficção científica.


VICENTE AMATO NETO, 80, médico especialista em clínica de doenças infecciosas e parasitárias, é professor emérito da Faculdade de Medicina da USP.
JACYR PASTERNAK, 68, médico especialista em clínica de doenças infecciosas e parasitárias, é doutor em medicina pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

Aids: os fracassos da prevenção


CAIO ROSENTHAL e MÁRIO SCHEFFER


O Brasil ainda não se deu conta, enfim, da importância de uma política nacional de prevenção mais abrangente

ESTIMA-SE que 630 mil pessoas vivam hoje com HIV e Aids no Brasil. Ainda que a relativa estabilização da epidemia e o aumento da sobrevida dos pacientes sejam motivo de comemoração governamental permanente, é preciso também assumir os fracassos da prevenção.
Dobrou em uma década a incidência entre homens e mulheres com mais de 50 anos. Aumentaram os registros de Aids entre a população escolarizada, com oito a 11 anos de estudo. Os homossexuais, sobretudo os mais novos, vivem o "rebote" da epidemia e engrossam as taxas de infecções recentes. As regiões Norte e Nordeste seguem tendência de aumento dos casos. Superlotados, presídios e cadeias continuam a ser campo fértil para a propagação da doença. E nunca deixaram de estar em condições de vulnerabilidade os profissionais do sexo, as mulheres pobres, os jovens que iniciam a vida sexual cada vez mais precocemente, as travestis e as transexuais, os usuários de drogas, os portadores de transtornos mentais, dentre outros estratos da população.
A distribuição dos medicamentos anti-retrovirais na rede pública de saúde tem importante papel no controle da epidemia. Para um programa que almeja ser um dos melhores do mundo, a baixa testagem anti-HIV na população revela falha grave na prevenção: 43% dos brasileiros com HIV chegam aos serviços de saúde já com imunidade debilitada ou sintomas clínicos da doença, perdendo com isso a oportunidade de se beneficiarem em plenitude do tratamento.
Após os frustrantes resultados das pesquisas de uma vacina contra a Aids, as atenções do mundo se voltaram novamente à prevenção. Edição recente da prestigiosa revista "The Lancet" traçou um panorama dos atuais modelos de prevenção do HIV, do qual se extraem lições que o Brasil pode muito bem incorporar.
Num primeiro momento da epidemia, a prevenção visou favorecer uma tomada de consciência sobre a Aids, mudar a imagem negativa da camisinha e combater a discriminação das pessoas infectadas. Numa etapa posterior, foi dirigida a públicos específicos e aos pontos críticos da vida sexual, como o primeiro encontro, novas relações, múltiplos parceiros, infidelidade conjugal.
O que falhou foi a tentativa de reduzir o sexo a um ato anti-séptico. O ser humano faz sexo para procriar, por prazer, por dinheiro ou quando é forçado a isso. A prevenção exige mudanças radicais, que respeitem as escolhas individuais, mas também os contextos nos quais as pessoas estão inseridas.
O uso permanente da camisinha é a pedra de toque da prevenção. Busca-se hoje aliá-lo a novas formas de prevenir a Aids -entre as quais estão os ainda polêmicos estudos sobre diminuição do risco com a circuncisão, os microbicidas e os medicamentos para profilaxia pré-exposição ao vírus. É evidente que essas possíveis novas práticas ensejarão mudanças de comportamento -o que tornará a prevenção tarefa ainda mais desafiadora. Talvez a maior ameaça à prevenção da Aids no Brasil seja o arrefecimento da aliança entre a sociedade civil, os profissionais de saúde, a mídia e o poder público. Essa rede solidária garante a circulação do conhecimento sobre a Aids, o que faz dela um tema de interesse geral e produz novas atitudes. Sem isso, é reduzido o efeito amplificador da comunicação preventiva dirigida à população.
Desmotivadas, sem novos voluntários -além de dependentes exclusivamente de dinheiro público-, as ONGs têm cada vez menos condições de assumir a terceirização da prevenção, um dos pilares da resposta brasileira à epidemia. Em decorrência da agonia desses aliados e devido à crescente concentração da Aids em grupos mais vulneráveis, a responsabilidade estatal na prevenção tornou-se muito maior.
O Brasil ainda não se deu conta, enfim, da importância de uma política nacional de prevenção mais abrangente -como o faz ao garantir o acesso universal ao tratamento anti-Aids.
O país já demonstrou, contudo, coragem política ao abordar temas-tabu nos campos da sexualidade, de gênero, do uso de drogas e da redução de riscos e danos. Tem tudo para incorporar nova atitude diante da epidemia atual. Os fracassos da prevenção pedem uma liderança firme baseada em decisões realistas e sustentadas.


CAIO ROSENTHAL, 59, médico infectologista, é membro do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo.
MÁRIO SCHEFFER, 42, comunicador social e sanitarista, é membro do Grupo Pela Vidda/SP e pós-doutorando do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP.

COMBATE À AIDS


Campanha para todas as idades
Landercy Hemerson
Tradicionais pontos de encontro de homens com idades acima dos 50 anos, os cafés Nice e Pérola, na Praça Sete, Centro de Belo Horizonte, recebem na tarde de hoje, Dia Mundial de Combate à Aids, a campanha estadual contra a doença, com o tema "Prevenção não tem idade: contra a Aids, use sempre camisinha". A ação é realizada pela Secretaria de Estado de Saúde, que este ano tem como foco homens com mais de 50 anos, público que em 1996 representava 7,5% dos contaminados pelo vírus, mas que em 2006 chegou a 15,7%, segundo o Ministério da Saúde.

A campanha estadual foi lançada sexta-feira. No fim de semana, na capital, foram desenvolvidas atividades no Mercado Central, com distribuição de camisinhas e material educativo. Ontem, no Mineirão, torcedores que foram assistir a Atlético x Santos, também receberam material da campanha. A ação está sendo desenvolvida também em cidades como Juiz de Fora, Uberlândia, Uberaba, Pouso Alegre, Montes Claros, Varginha e Governador Valadares.

Desde 1982, começo da epidemia, foram notificados 28,7 mil casos em Minas. Desses, 68% são homens e 22%, mulheres. Em 2004, 586 cidades mineiras fizeram notificação. Quatro anos depois, já são 668 municípios, 15 dos quais concentrando 64% dos casos. No estado, tem sido observado o crescimento da Aids na faixa etária de 50 a 59 anos a partir de 1997, quando foram confirmadas 112 contaminações. Em 2007, esse grupo populacional registrou 192 casos, ou seja, 71,4% a mais.