I-letrados

Marcela Castilho - aluna do 8º período de letras da Universidade Federal de Ouro Preto
Arquivo pessoal
Hoje, eu e um amigo falávamos sobre o hábito de escrever cartas. São tantos e-mails e scraps que poucas pessoas ainda têm paciência para pegar uma folha de papel a fim de redigir algo. Lembrei-me de um autor, Luciano Martins, que escreveu um livro sobre a dificuldade que algumas pessoas têm para escrever...Quando essa “onda” de internet surgiu, algumas pessoas diziam categoricamente que a escrita ia desaparecer. Até jornais e revistas estavam fadados ao desaparecimento, tudo seria on-line e não mais impresso. Eu não consigo ter o mesmo prazer numa leitura virtual do que quando folheio cada página de um livro.

Bem; à época do início dessa revolução criada pelo advento da internet, um dirigente de uma das multibilionárias corporações que brotaram no novo cenário da comunicação virtual chegou a dizer que dentro de poucos anos não seria preciso alfabetizar as crianças. Seria preciso apenas ensiná-las a operar os programas de reconhecimento de voz dos computadores. Alguns sociólogos e teóricos da comunicação começaram a especular sobre o possível surgimento de uma nova categoria de cidadãos, os i-letrados, ou letrados da internet, aquelas pessoas capazes de vocalizar textos, mas que tecnicamente continuariam analfabetas. Jamais conseguiriam elaborar idéias e colocá-las no papel, em formato de texto. Não sei se chegaremos ao ponto de apenas ensinar às crianças como operar um ou outro programa, mas creio que os i-letrados já estão por aí.

Hoje, depois de mais de uma década da invenção que deixaria o povo ainda mais distante do domínio do idioma e da boa redação, a internet não pára de avançar. Os celulares são a bola da vez e a cada dia tornam-se mais sofisticados. Os pequenos de hoje ensinam aos pais todos os recursos que os aparelhos nos oferecem. Parece que já nascem sabendo os domínios da tecnologia. Nós, seres ainda analógicos quando no mundo intra-uterino, precisaremos de aulas para manejar os equipamentos cada vez mais lotados de recursos. Que vergonha!

O mundo hoje faz conta em caracteres e talvez por isso o português tem se transformado em algo praticamente ilegível. Quem visita o Orkut sabe muito bem do que estou falando. Eh Kda veis complikadu intende o q a mininada iskreve! Se antes da criação do MSN e do Orkut já era difícil mostrar aos estudantes todas as peripécias que a ortografia nos prega, agora o caso está ainda mais grave. Acentos foram praticamente abolidos e pontuação é algo que parece estar em extinção. Letras que antes eram raríssimas, agora se fazem tão presentes nas palavras como as vogais.

Talvez a escrita nunca desapareça como previram alguns estudiosos, mas sem sombra de dúvidas a geração de I-letrados começa a desabrochar e mostrar não só para os professores, mas para o resto do mundo, que escrever está ficando cada vez mais difícil e complicado. Talvez esteja aí um novo mercado: teremos que fazer um curso para que possamos entender a nova linguagem que, ao que tudo indica, veio para ficar. E quem era aluno poderá se tornar professor.

Um comentário:

Marcela Castilho disse...

Adorei ver meu texto postado aqui...Obrigada!!!