Roubo de donativos

Caso de Santa Catarina pede reflexão sobre a corrupção e a impunidade no Brasil
As águas deste fim de ano ainda nem terminaram e já produziram muitas tragédias, destruição e mortes em várias cidades mineiras e fluminenses, depois de ter arrasado regiões inteiras no Sul do país. Mas, até agora, nenhum desastre chocou mais do que o flagrante do furto de donativos para flagelados de Santa Catarina, praticados por voluntários e por soldados do Exército que ajudavam no socorro às vítimas da mais dramática enchente dos últimos tempos naquele estado. De repente, o país, que havia se comovido e se solidarizado com o sofrimento daquelas famílias, acompanhou revoltado pela televisão as cenas degradantes de pessoas que, embora não tenham sido atingidas pela enxurrada, subtraíram sem o menor constrangimento roupas, alimentos e objetos destinados a reduzir o sofrimento das vítimas da enchente. Um desastre moral.

Felizmente, esses aproveitadores da desgraça alheia são minoria. Mas o golpe que perpetraram não atingiu apenas os flagelados catarinenses. O assalto impõe uma reflexão sobre o tamanho do estrago que o sucesso da corrupção e a impunidade podem estar causando nos espíritos mais fracos deste país. Afinal, não têm faltado maus exemplos, oferecidos todos os dias por governantes, políticos, empresários e até magistrados que se locupletam, ora com o desvio do dinheiro público, ora com o ilícito comercial. Portanto, não se trata apenas de cobrar mais eficiência dos órgãos públicos responsáveis por receber e administrar o fruto da generosidade de milhares de brasileiros, essa sim, a virtude que melhor representa a média do nosso povo. É preciso reforçar os processos civilizadores e de transmissão de valores morais, a começar pela educação e pelo funcionamento mais ágil e eficaz da Justiça.

Se há gente roubando de quem perdeu tudo, a culpa não é só da insuficiente segurança do depósito de donativos. A coisa é muito mais grave. Na verdade, estamos falhando em construir uma sociedade fundada na ética, e não na esperteza do egoísmo; no trabalho, na honradez, e não na malandragem e na frouxidão de caráter. Que prevaleça o exemplo de Daniel Manoel da Silva, o catarinense que perdeu netos, um irmão, a casa, o trabalho e, mesmo assim, mandou devolver R$ 20 mil, esquecidos num casaco de pele que sua família recebeu em doação. "Esse dinheiro não era para mim. Não é certo usar o que não é seu", disse ele. Foi o bastante para resgatar a verdadeira índole do povo de seu estado e promover uma enchente de esperança nas pessoas de bem de todo o país.

E o rádio digital? Uma análise responsável


O rádio digital, mesmo nos países de origem, tem ainda muitos problemas, que precisam ser solucionados antes de tomarmos uma decisão que terá um impacto direto nas comunicações
Hélio Costa, Jornalista, senador da República, ministro das Comunicações
O artigo de Nair Prata (3/12) sobre o projeto de rádio digital, em estudos no Ministério das Comunicações (Minicom), merece reparos em virtude dos inúmeros equívocos cometidos pela autora. O primeiro é não ver que a TV digital está com o seu cronograma de instalação adiantado em 18 meses e que, em apenas um ano, desde seu lançamento, em 2 de dezembro de 2007, cerca de 46% da população brasileira, inclusive a de Belo Horizonte e região, já tem cobertura de TV digital. Os Estados Unidos levaram 10 anos para chegar a esse índice em um país que tem aproximadamente a mesma extensão territorial do Brasil. Diferentemente da TV, o rádio digital continua enfrentando sérios problemas nos seus países de origem. Em retrospecto, quando chegamos ao Ministério das Comunicações, há três anos, algumas das principais emissoras brasileiras já estavam testando, sem observação de normas técnicas, o sistema norte-americano IBOC de rádio digital. O grupo de trabalho que criamos para supervisionar as decisões sobre o rádio digital sugeriu a realização de testes oficiais e rigorosos com o IBOC e também com os padrões europeus. O nosso objetivo é encontrar as ferramentas básicas de um sistema que transmita em ondas médias (OM) e freqüência modulada (FM), de modo a que o receptor do rádio digital possa captar as transmissões no sistema analógico atual, em OM e FM, e passar automaticamente para o digital onde a tecnologia estiver disponível. Caso contrário, precisaríamos de três receptores diferentes: um para o rádio analógico que você tem em sua casa ou no carro, um para captar a transmissão em FM digital e outro para captar a transmissão em ondas médias ou OM digital.

Os padrões norte-americano e europeu de rádio digital têm diferenças fundamentais. Enquanto o IBOC transmite no mesmo canal, sem utilização de um novo espaço no espectro eletromagnético, tanto em OM quanto em FM, o europeu DAB (digital audio broadcasting) , precisa de freqüências diferentes para a transmissão em ondas médias e não faz transmissões em FM, ou freqüência modulada. O DRM, por sua vez, também só transmite em OM e precisa de novos canais, impossibilitando a sua utilização nas principais cidades brasileiras. Só recentemente o padrão europeu DRM informou que está estudando um sistema de freqüência modulada, transmitido no mesmo canal, no sistema digital. A empresa IBiquity, detentora da patente do IBOC, ou Radio HD, se prontificou a trazer os equipamentos para os testes que estão sendo conduzidos no Brasil pela Universidade Mackenzie, supervisionados pelo Ministério das Comunicações, Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert). Os europeus, entretanto, até agora, não viabilizaram a aparelhagem necessária às medições de campo, fundamentais para uma avaliação científica e correta dos seus padrões. Outra questão que os três sistemas precisam resolver é a transmissão em baixa potência, que ainda não está definida, para que o rádio digital, no Brasil, não exclua as rádios comunitárias autorizadas, principais instrumentos de interação dos bairros e pequenas comunidades. Na verdade, esperamos que os EUA e a Europa resolveram os problemas que encontraram na implantação do rádio digital e que impediram, até agora, a sua popularização.

Vejam os exemplos: a edição do Wall Street Journal de 4 de novembro trouxe um artigo assinado pela editora de tecnologia Sarah McBride, no qual diz que “apesar dos milhões de dólares gastos no desenvolvimento e divulgação do Rádio Digital HD, os consumidores, até agora, não têm informações suficientes e ainda não demonstram qualquer entusiasmo pela nova tecnologia”. A revista Radio World, editada por engenheiros de rádio, em artigo de Paul J. McLane, diz que apenas 0,0015% dos norte-americanos ouvem o rádio digital, que está sendo testado comercialmente por 1,8 mil rádios de um total de 13 mil emissoras existentes no país. A FCC, a agência reguladora norte-americana, informa que o Radio HD cobre, atualmente, só 1,5% do território norte-americano e que tem apenas 450 mil usuários em uma população de 300 milhões de pessoas. A revista Radio World critica, também, o preço do receptor de rádio digital nos EUA: US$ 80 (R$ 170), o mais barato. Imagine a que preço esse rádio chegaria ao Brasil. Na Europa, a implantação do rádio digital também está com enormes problemas. A conceituada publicação Observatório do Direito à Comunicação, em 22 de fevereiro deste ano, fez uma análise crítica da questão sob o título “A transição para o rádio digital ainda está em xeque na Europa”. O artigo relata o “relativo fracasso do rádio digital, em ondas médias, reafirmando que os testes demonstraram que a qualidade do áudio do sistema DAB ou transmissão de rádio digital é pior do que o áudio da transmissão FM analógica”. O jornal inglês The Guardian, por sua vez, foi ainda mais incisivo na observação técnica que fez, e reproduziu assim o pensamento dos radiodifusores europeus: “Nós temos medo de dizer isso publicamente, mas, se pudéssemos, todos nós (dirigentes de rádios digitais) devolveríamos nossas licenças de DAB amanhã”. O analista de mídia do Dresdner Kleinwort, Richard Menzies-Gow, completou: “Os custos são altos e o formato não gera lucro”.

Como se vê, claramente, nem mesmo nos Estados Unidos e na Europa o rádio digital está aprovado. O Brasil está atento a tudo isso e só tomará uma decisão quando ela for tecnicamente correta e atender o interesse público. A demora não é nossa. O rádio digital, mesmo nos países de origem, tem ainda muitos problemas que precisam ser solucionados antes de tomarmos uma decisão que terá um impacto direto nas comunicações, na indústria eletroeletrônica e principalmente nas políticas públicas de inclusão digital. Por outro lado, como fez na decisão da TV Digital, o Governo Brasileiro não escolherá “um sistema de rádio digital até o fim de 2008”, como diz equivocadamente a articulista. Vamos indicar as ferramentas que devem compor a arquitetura do rádio digital. Na verdade, entre outras exigências, já amplamente divulgadas, o sistema terá de contemplar a transmissão em FM e OM, no mesmo canal, cobrir todas as zonas de sombras do rádio analógico, dar à indústria brasileira acesso aos detalhes técnicos do padrão, promover a transferência de tecnologia e não ter custo para o rádio-ouvinte.

Assim, ao contrário do que diz um e-mail divulgado pelo Núcleo de Pesquisa de Rádio e Mídia, e citado pela articulisa Nair Prata no Estados de Minas, o Minicom não propôs qualquer parceria com a empresa americana IBiquity. O que sugeriu foi que as indústrias brasileiras de eletroeletrônicos procurem os detentores das patentes dos sistemas norte-americano e europeus para discutir a transferência de tecnologia e os direitos de uso, especialmente do IBOC estadunidense, um sistema proprietário e com várias ferramentas exclusivas que demandam pagamento de royalties. Os mais recentes testes do rádio digital, realizados na cidade de São Paulo pela Universidade Mackenzie, concluíram, em julho último, que o IBOC, em ondas médias, apresenta sérios problemas de propagação, com áreas de sombra maiores do que as que são observadas no sistema analógico. O sistema europeu, DRM, por sua vez, só agora anuncia que está trabalhando com a possibilidade de transmissão em FM, no mesmo canal. Ainda ao contrário do que diz a articulista, o Ministério das Comunicações não defendeu, e nem defende, a adoção de qualquer dos sistemas estudados enquanto os técnicos do Minicom e da Anatel não estiverem satisfeitos com os testes que estão sendo realizados no Brasil e forem criteriosamente avaliadas as experiências com o rádio digital nos EUA e na Europa. Certamente, precisamos modernizar o rádio, mas só podemos fazer isso quando os sistemas estiverem funcionando a contento, seguindo as normas técnicas exigidas no exterior e no Brasil.

A cara do povo

Sandra Werneck prepara o lançamento de Sonhos roubados, filme rodado na periferia carioca.O longa aborda o dia-a-dia de três garotas que vivem em comunidades carentes
Janaina Cunha Melo
Vantoen Pereira Júnior/Divulgação
O rapper MV Bill interpreta o presidiário que se envolve com uma das meninas de Sonhos roubados
O filme Sonhos roubados, da diretora Sandra Werneck, funde realidade e ficção ao abordar a juventude na periferia. Com o realismo de quem há anos se debruça sobre esse universo, mas sem perder a referência da subjetividade, a cineasta conta que o novo trabalho é inspirado no livro-reportagem As meninas da esquina, da jornalista Eliana Trindade. O projeto vem sendo desenvolvido desde 2006 e foi proposto à autora por outros produtores. “Acho que pesou o fato de eu ser mulher. Talvez por isso tenha conseguido os direitos autorais”, lembra ela.

Antes de terminar o documentário Meninas, sobre gravidez precoce, Sandra já pensava em Sonhos roubados. Para ela, essa é a oportunidade de unir a observação de documentarista, mais atenta a questões sociais, à abordagem das relações pessoais. O filme, que deve estrear em 2009, retrata o cotidiano de três garotas do subúrbio carioca. “Falo do que é ser adolescente nessas comunidades, de como é sobreviver onde falta apoio e escola, de famílias desestruturadas”, adianta.

Entre as personagens está Daiane (Amanda Diniz), que tem adoração pelo pai, mas mora com o tio e é vítima de abuso sexual por parte dele. O sonho da garota é comemorar 15 anos como as adolescentes de classe média. Sabrina (Kika Farias) se apaixona por um bandido e fica grávida dele. Jéssica (Nanda Costa) perde a guarda da filha, mora com o avô e faz o impossível para recuperar o direito de conviver com a criança. Esse são os fios condutores da trama de Sandra, que resulta numa história de afetos, desencontros e amizade. No dia-a-dia das meninas há funk, pagode e a efervescência cultural de regiões onde a criatividade se oferece como alternativa à pobreza.

RAPPER O rapper MV Bill está no elenco principal. A diretora conta que ele foi convidado por demonstrar interesse em discutir a situação da juventude nas favelas a partir do ponto de vista feminino, como no livro Mulheres do tráfico, que escreveu em parceria com Celso Athayde, e pela série televisiva Falcão. “Foi maravilhoso trabalhar com ele. Bill entende o que estou fazendo, traz uma verdade sensacional ao filme. Ele é ótimo parceiro”, elogia. Para atuar, o rapper contou com o apoio de colegas experientes como Caio Blat, além de passar por processo de preparação cênica. “Ele chegava tranqüilo ao set. Trabalhamos bastante para dar tudo certo”, revela Sandra.

MV Bill interpreta o presidiário que se envolve com uma das protagonistas. O elenco também conta com Nanda Costa, Amanda Diniz, Kika Farias, Marieta Severo, Nelson Xavier, Daniel Dantas, Lorena da Silva, Guilherme Duarte, Ângelo Antônio, Silvio Guindane e Zezé Barbosa.

O ambiente retratado de forma violenta – sobretudo pelos telejornais, que enfocam as ações da polícia e do tráfico de drogas – interessa à cineasta. Sandra buscou outros aspectos dessas comunidades, chamando a atenção pelo sentimento de brasilidade que elas despertam. “É incrível a alegria da periferia por causa do futebol aos sábados, dos bailes. Não se imagina que seja assim um lugar retratado pelo tiro. Isso me seduz”, afirma ela.

Essa convicção fez com que a diretora trabalhasse com figurantes da comunidade, optando por gravar fora do estúdio para ficar o mais perto possível da realidade local. A maioria das cenas foi filmada em Ramos e em Curicica. “Será a primeira vez que o cinema mostrará o famoso piscinão de Ramos”, avisa ela.

Os vários meses de contato com as favelas permitiram a Sandra Werneck outras descobertas. O intercâmbio com os figurantes e os moradores, em clima de muita gentileza, e a disposição deles em filmar demonstram que o trabalho representou muito mais que a possibilidade de reforçar o orçamento. “O cinema dá às pessoas o poder de sonhar, ainda que por tempo determinado. Por isso eles foram tão solícitos. É importante que o cinema também mostre a cara do povo, para que o Brasil possa se reconhecer como nação”, conclui.

Grito dos Excluídos propõe plataforma de luta dos migrantes



O Grito dos Excluídos divulgou nesta quinta-feira (18), Dia Internacional do Migrante uma proposta de plataforma para um segmento dos movimentos sociais que tende a conquistar dramática atualidade devido à crise global capitalista: o dos trabalhadores emigrados. A proposta parte de uma concepção de luta por ''Um Mundo Sem Muros''.


A plataforma encontra-se nas conclusões de um longo artigo publicado no portal Adital, vinculado ao Grito, sobre A crise sistêmica do capitalismo e as migrações latino-americanas e caribenhas.*

Com base em dados da Organização Internacional para as Migrações (OIM), o artigo estima que atualmente há mais de 200 milhões de migrantes internacionais no mundo. Os latino-americanos somam 25 milhões, dos quais quase a metade provém do México. O Brasil, segundo o artigo, ''tem mais de 4 milhões de emigrantes, dos quais 1.5 milhões estão nos Estados Unido''.

O texto aponta que a ''profunda crise sistêmica do capitalismo mundial'' tornou a situação dos trabalhadores migrantes ''mais vulnerável em todo o mundo''. Deixa em aberto se a crise levará a um retorno dos migrantes aos seus países de origem ou, ao contrário, a um aumento do fluxo migratório. Ao mesmo tempo, denuncia a política das metrópoles da América do Norte e União Européia, que ''criminalizam e vulneram'' os migrantes.

O artigo fornece uma visão panorâmica das lutas dos migrantes, destacando o 1º de Maio de 2006 nos Estados Unidos. Fala também da sua organização:

''Muitas dessas organizações e associações de migrantes têm feito do Fórum Social Mundial das Migrações, derivado do Fórum Social Mundial, um espaço de reflexão, organização e denúncia das violações a seus direitos, demandando respostas de seus países e dos países receptores. Outro importante espaço é o Fórum Global sobre a Migração e o Desenvolvimento que reúne uma grande quantidade de organizações de migrantes asiáticas/os em sua luta contra as políticas dos governos que promovem o desenvolvimento à revelia dos próprios migrantes.''

O texto do Grito dos Excluidos – assinado também pela articulação panamericana equivalente, a Aliança Social Continental – apresenta como conclusão uma proposta de plataforma, que elvanta ''a bandeira da Cidadania Universal e de uma integração dos povos baseada sobre novos princípios de solidariedade, complementaridade, respeito à dignidade humana e responsabilidade com a natureza, entre outros''. Veja a plataforma:

''Definimos a Cidadania Universal que reconhece a todo ser humano (e grupo de humanos) em função de sua humanidade e não de sua origem nacional, ser titular/es de direitos econômicos, sociais, políticos e culturais, com respeito à diversidade, onde estejam. A Cidadania Universal compreende:

- Acesso e pleno desfrute dos direitos humanos e políticos consagrados pelos direitos internacionais e nacionais sobre essas matérias, inclusive o direito ao voto. É imprescindível que todos os governos assinem, ratifiquem e ponham em prática a Convenção Internacional da ONU sobre os Direitos dos Trabalhadores Imigrantes e de suas Famílias.

- Não criminalização das pessoas migrantes devido à situação administrativa em que se encontrem, pois não existe ser humano ilegal.

- Livre circulação das pessoas migrantes em nossa região, bem como nos Estados Unidos e na Europa (os principais destinos das/os migrantes latino-americanas/os).

- Regularização Geral, pois para poder chegar a uma verdadeira integração dos povos é necessário que todas as pessoas tenham asseguradas as mesmas condições de acesso a uma vida digna.

- A partir dessa perspectiva, condenamos a ‘Diretiva de Retorno’, a ‘Tolerância Zero’ e os ‘Muros da Vergonha’ que a EU e os estados unidos erigem como muros visíveis e invisíveis à dignificação das pessoas migrantes.

- A Cidadania Universal é uma urgência atual no mundo no qual acontecem as migrações, pois a dignificação das pessoas não pode esperar mais e devemos seguir a luta pela mesma com mais compromisso quando os governos das grandes potências e de muitos outros países impõem legislações punitivas, persecutórias e racistas contra as pessoas que saem de seus países buscando a forma de sobreviver dentro de um sistema econômico e social que as obrigou a deixar seus países e que, ao chegar a outro as castiga, como se as pessoas fossem responsáveis ou culpadas por ter sido obrigadas a emigrar.

- Que a migração seja uma eleição livre das pessoas e não uma imposição, uma opção forçada.

- Que a crise seja paga pelos que a causaram: OMC, FMI, Banco Mundial e pelas empresas especuladoras e pelos bancos. Não podemos tirar recursos da sociedade para salvá-los.

- A solução não é consumir mais, pois o planeta não agüenta mais; a solução é repartir, distribuir de forma justa e equitativa segundo as necessidades humanas em todo o mundo.

- Necessitamos uma mudança de modelo econômico, já que este de cunho neoliberal tem demonstrado não mais servir e que nunca serviu para a humanidade em geral.''

O Grito dos Excluídos é uma iniciativa da Igreja Católica no Brasil. Nasceu em 1995, por iniciativa do Setor Pastoral Social da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), como uma forma de dar continuidade à reflexão da Campanha da Fraternidade. Afirmou-se sobretudo graças ao protesto que realiza a cada ano durante a Semana da Pátria, na cidade de Aparecida (SP).

Com informações da http://www.adital.com.br

Aborto: o Brasil não pode fechar os olhos





O debate sobre os direitos sexuais e reprodutivos da mulher tem ocupado, a cada dia, mais espaço na agenda do governo, do parlamento e do judiciário. Isso se deve à luta das mulheres em suas mais variadas organizações por reconhecimento a direitos negados em nome, principalmente, da ética e moral religiosa.

Contudo, e talvez pela primeira vez na história do país, o principal dirigente do Estado arriscou dar declarações favoráveis à mudança do foco que tem prevalecido na abordagem do tema, trazendo-o para a ótica da saúde pública.

No Brasil, estima-se que mais de 1 milhão de abortos clandestinos aconteçam por ano. Dados do SUS mostram que nos últimos cinco anos, mais de 1,2 milhão de mulheres foram internadas com os mais variados problemas de saúde em consequência de abortos realizados sem as mínimas condições de higiene e segurança.

Os depoimentos do presidente Lula sobre essa questão geraram forte reação dos movimentos contra o aborto, em particular dos setores mais vinculados à Igreja. Na ocasião da visita do Papa Bento XVI ao Brasil o assunto ganhou grande visibilidade na mídia e reascendeu a discussão. Outro momento sensível do debate foi a apreciação e votação, pelo Supremo Tribunal Federal, da liberação do uso de células tronco embrionárias para terapias genéticas que, na visão dos setores contra o aborto, seria um passo para abrir a discussão da legalização da interrupção da gravidez nos país.

A reação a um possível posicionamento do governo favorável ao tema veio na forma de protestos, de apresentação de projetos de lei anti aborto na Câmara dos Deputados, inclusive alguns que são piores que a já ultrapassada legislação existente, que permite o aborto em casos de risco de morte para a mãe e de estupro.

Recentemente, a Justiça do Estado do Mato Grosso do Sul abriu verdadeira caça às bruxas a partir do fechamento de uma clínica que realizava abortos. Os arquivos do local foram apreendidos e cerca de 10 mil mulheres foram indiciadas, numa ação inaceitável e que passa por cima dos mais elementares direitos humanos.

O Brasil precisa avançar muito nesse debate. As declarações do presidente Lula, inclusive a mais recente feita durante a abertura da 11ª Conferência Nacional dos Direitos Humanos, precisam ter desdobramentos práticos no sentido de garantir à mulher esse direito. O país não pode mais olhar de braços cruzados esse drama que atinge, particularmente, as mulheres das camadas mais populares, as principais vítimas desse atraso na legislação brasileira.



Ódio a pichadores me deixou tanto tempo presa, afirma jovem


Caroline Pivetta da Mota, 24, ficou 54 dias detida por pichar a parede do "andar vazio" da Bienal de São Paulo

Única presa na ação, garota diz que raiva da sociedade é causada pelas "malditas pessoas que picham um muro branco"

LAURA CAPRIGLIONE
DA REPORTAGEM LOCAL

Caroline Pivetta da Mota, 24, ganhou ontem a liberdade, depois de 54 dias de prisão. Ela chegou a chorar ao se despedir da condenada por assalto a mão armada com quem dividiu uma cela na Penitenciária Feminina de Santana (zona norte de São Paulo). Saiu com uma micose que lhe provoca coceiras pelo corpo todo, "culpa da sujeira daquele lugar", e com a convicção de que sua prisão prolongada foi decorrência do ódio que a sociedade dedica aos pichadores, causado pelas "malditas pessoas que picham um muro branco". Como é que é?
Caroline, 20 tatuagens espalhadas pelo corpo, incluindo uma caveira entre os seios, piercing no nariz e na língua, baixinha, 1,55 metro, cabelos vermelhos, sobrancelhas recém-depiladas e risonha de felicidade ontem, foi um dos 40 jovens que, no dia 26 de outubro, picharam o andar vazio do prédio projetado por Oscar Niemeyer no parque Ibirapuera, onde acontecia a 28ª Bienal Internacional de São Paulo. Ela foi a única presa.
Caroline diz que foi agarrada pelos seguranças, jogada ao chão, xingada. Novata no mundo da pichação, a garota chegou a ser apresentada como liderança do grupo. Ela nega: "Eu só fiquei sabendo da ação na quinta-feira, três dias antes".
O advogado Augusto de Arruda Botelho Neto, que assumiu o caso da jovem, diz que ela foi vítima de um "equívoco".
"Nem o Fernandinho Beira-Mar, se fosse pego pichando um muro, receberia a pena que ela já recebeu. O Ministério Público denunciou a Caroline pelo crime de destruição de um bem protegido por lei, quando deveria tê-la denunciado pelo crime ambiental de pichação. Já seria um erro. Há mais. Também não se aplica a "destruição". O muro pichado por ela foi pintado e continua lá. Não houve destruição nenhuma." [Leia nesta página texto com pareceres de outros advogados sobre o caso].
Para Carol Sustos, como é conhecida entre seus camaradas de spray, a pichação na Bienal tinha o objetivo de "chamar a atenção para esta arte marginal". Ela provoca: "Por que é que se aceita que uma pessoa exibindo-se nua [refere-se ao artista Maurício Ianês] seja uma forma de arte e uma parede com algumas letras e siglas não possa ser?"

Aristocrata
Carol Sustos é uma legítima representante da aristocracia dos pichadores, os que atacam prédios (quanto mais altos, melhor), admirados por seus pares pela coragem e ousadia. Como tal, nutre uma espécie de desprezo pelos pichadores do chão. "Eu detestaria que alguém fosse lá pichar a parede da minha casa. Se eu quisesse um muro sem qualquer cuidado, eu teria deixado sem qualquer cuidado. Mas não, eu pintei de branco. É lógico que vou ficar com raiva se alguém descaracterizá-lo", surpreende.
Para a garota, rara representante feminina na categoria dos pichadores, o encanto da pichação de prédios (ela admite o ataque a 37) vai muito além do registro com spray naquela caligrafia peculiar.
"Eu gostava da dissimulação. De passar pela portaria, o porteiro me perguntar onde eu iria, eu despistá-lo e entrar, subir até o ponto mais alto, abrir a porta ou a janela e, lá em cima, olhar o céu, sentir o vento, ver a cidade de longe, em paz e em silêncio. É lindo. Deixava a minha vida muito mais contente", diz a pichadora.
Ela terá de deixar essa beleza de lado. Sabe que, se pichar, volta para a cadeia, o que não quer. Vegetariana por compaixão dos animais, Carol sofreu com a dieta da cadeia. "Tu sabes, a comida lá era triste", diz. "Aliás, aquele lugar inteiro era muito triste, 3.000 mulheres que não têm direito nem a um ginecologista; baratas, mofos e ratos por todos os lados."
Carol chegou a participar de uma "rebelião pacífica" com suas colegas de cana. Naquele dia, nenhuma presa trabalhou, ou comeu. Ficou todo mundo fora das celas até as 23h. O protesto foi pela melhoria, entre outras coisas, da alimentação.
Ontem à tarde a jovem ainda não sabia onde dormiria. Durante a prisão, ela perdeu o apê em que morava, por falta de pagamento do aluguel.
Sem um real no bolso, Carol quer retomar o trabalho como artesã e morar no centro da cidade. Por enquanto, jura, ficará longe das latinhas de spray.

CORRUPÇÃO


Palavra conhecida em todo o mundo


José Carlos Morais - Uberlândia-MG

“A palavra corrupção talvez seja hoje a mais pronunciada pela população mundial. Diferentes estudos e experiências mostram que a corrupção é um fenômeno complexo recorrente em todos os países e produz efeitos políticos, sociais e econômicos que prejudicam o desenvolvimento das nações. Mas de acordo com especialistas em educação, o debate sobre a corrupção é fundamental e necessário logo no ambiente escolar. Para eles, mais do que saber o que é corrupção, é importante que os alunos aprendam a examinar, a criticar e a julgar mediante provas as várias faces da corrupção. Feito isso repetidamente, como um hábito, estaremos formando cidadãos honestos. A lei determina que as escolas desenvolvam valores, atitudes e comportamentos de cidadania. Quando se levanta dinheiro para fazer uma festa ou excursão e o aluno participa desse processo, ele pode aprender a respeitar o bem comum. Quando são eleitos representantes de turmas e, sobretudo, se estabelece a interação entre representantes e representados, os alunos aprendem o que são cidadania e democracia. Essas situações, vividas desde a infância, têm maior valor do que conteúdos programáticos. Em vez de ensinar a história do Brasil do passado para o presente, seria interessante partir do presente e verificar como o país foi se formando. Em vez de decorar termos, é melhor fazer um júri simulado sobre a corrupção e suas raízes históricas. Segundo estimativas do Banco Mundial, a cada ano cerca de US$ 1 trilhão em propinas e subornos alimentam a corrupção mundial. De acordo com dados do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime, países que combatem a corrupção e fortalecem a aplicação da lei podem aumentar sua renda nacional em até 400%. Da mesma forma, a corrupção reduz a habilidade dos governos de prover as necessidades e serviços básicos para os cidadãos, fazendo com que investimentos em países corruptos possam ser até 20% mais onerosos do que em outros. Eduquemos, pois, nossos filhos, com a orientação devida, para que pautem seus atos sempre dentro da ética e dos bons costumes. Só assim, vamos combater essa maldita chaga, a corrupção.”

Rap é o caminho

Mano Brown encerra série de conversas com jovens, militantes e artistas das periferias de BeloHorizonte e aproveita para desfazer mitos em relação à música que denuncia as desigualdades
Janaina Cunha Melo
Euler Júnior/EM/D.A Press




Não basta ser malandro
e fazer cara de maluco porque vai ser
cobrado do mesmo jeito
na hora de pagar a conta

Mano Brown, rapper


O rapper Mano Brown, dos Racionais MCs, encerrou hoje série de bate-papos que realizou nas periferias de Belo Horizonte, a convite do Grupo Cultural NUC, do Alto Vera Cruz. Desde quarta-feira, ele está na cidade, conversando com jovens, militantes e artistas, sobre protagonismo em vilas e favelas. Acompanhado por Dom Pixote, do U-Time, e Du Bronx, do Rosana Bronx, ele trouxe rappers dos grupos apoiados em São Paulo pelo selo Cosa Nostra, do Racionais. Receptivo, bem-humorado e disposto ao diálogo franco com os participantes, ele iniciou conversa desfazendo mitos: “O rap não é solução. É apenas um caminho, entre muitos outros, para ajudar a resolver nossos problemas”, disse.

Recentemente, Mano Brown afirmou em show em Contagem que era chegado o momento de o movimento hip hop se repensar. Depois de mais de 20 anos de denúncias contra a desigualdade e injustiça social, ele defende mais ação. “Se o movimento só se repetir, vai cair na rotina, vai virar sistema, como ocorre com tudo que não se renova”, ele disse no palco. Durante a palestra ontem, na Escola Municipal Israel Pinheiro, no Alto Vera Cruz, o rapper argumentou sobre a importância de os veteranos motivarem a nova geração. “A gente que faz rap tem a obrigação de trazer mais um para perto, como elos de uma corrente. Montamos a gravadora para ter condições de produzir, orientar, ajudar que está chegando.”

Diferentemente do artista que dispara rimas ácidas, com deboche e ironia, Mano Brown falou de seu dia-a-dia no Capão Redondo, na periferia paulista. “Um minuto depois de acabar o show, estou de volta à realidade.” O cotidiano do rapper que se tornou uma das principais referências para a juventude negra e favelada – mas também tem sucessos repetidos em coro por jovens da classe média – é cercado por fãs de todas as idades. “Sei da minha responsabilidade. Converso, explico, acompanho. Conheço os atalhos e tento fazer algo positivo. O rap é minha vida, minha família.”

ELEGÂNCIA Autor de sucessos como Negro drama, Vida louca, Diário de um detento, que revelam a poesia sofisticada e atenta, Mano Brown conta que sua composição se alimenta dos sentimentos diversos. Raiva, emoção, felicidade, tudo está nas letras que convencem milhares de fãs no país. “O verdadeiro compositor não pode fazer média nem para favelado. Em tudo que faço, mostro a cara, mas nem sempre a verdade é o que agrada”, ele disse, comentando as inúmeras vezes em que foi mal interpretado.

Referência para os adolescentes, ele não contemporizou. Criticou números alarmantes de desempregados nas favelas mineiras, a desatenção governamental, mas também chamou a atenção das lideranças comunitárias e dos moradores dos aglomerados. “Quem tem acesso a esses números escandalosos precisa fazer pressão. Nosso povo é alegre, festivo, passa por dificuldades com elegância, mas, se a vida está de cabeça para baixo, não se pode negligenciar a situação”. E mandou recado direto aos mais jovens: “Não basta ser malandro e fazer cara de maluco porque vai ser cobrado do mesmo jeito na hora de pagar a conta. A cadeia está cheia de gente que não alcançou a meta, que multiplicou o crime querendo abraçar o mundo”, sentencia.

O novo CD dos Racionais MC’s está sendo anunciado para o segundo semestre do ano que vem. Três faixas inéditas, incluindo a polêmica Mulher elétrica, já estão circulando no mercado informal, em coletâneas de hip hop.

Nóis Tudo Hip-Hop


por Marcelo Buraco*

A primeira premiação do movimento hip hop da região do grande ABC foi um evento marcante e reuniu uma seleção de grandes artistas, produtores e militantes do movimento da região que fizeram e fazem à história do hip hop no ABC paulista.


Buraco, comemora o prêmio Guerrilheiro Cultural

A iniciativa pioneira foi da rapaziada do selo “Pau de dá em doido” que também se destaca na cena do movimento e marcaram um golaço ao juntar toda esta galera, trazendo a lembrança seus feitos e legados. Eu não poderia faltar nesta festa e me fiz presente. De quebra fui um dos homenageados e vou narrar pra vocês como foi a premiação intitulada “Nóis Tudo Hip Hop”.

Dia 5 de dezembro de 2008 às 18 horas começam a chegar manos e minas das sete cidades que compõem a região do Grande ABC paulista: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra. O local escolhido para o evento foi o Saguão do Teatro Municipal de Santo André.

Pra quem nunca veio a região do ABC paulista, vale a pena destacar a importância econômica, cultural e social da região que possui uma população de quase 3 milhões de habitantes. Extensos corredores de vias urbanas interligam toda região com a capital na qual faz limite de um lado, e do outro lado à baixada Santista que possui o maior porto do Brasil. O que acontece aqui reverbera em todo Estado de São Paulo e consequentemente no país. Perguntem ao torneiro mecânico onde ele trabalhava antes de ir pro Palácio do Planalto.

Com o movimento hip hop no ABC a parada foi à mesma. Os grupos daqui se organizaram logo no inicio do movimento no Brasil. Várias casas de shows animavam as noites da galera. As sedes e praças dos bairros e cidades eram tomadas aos finais de semanas pela galera que se reunia pra se divertir e apresentar suas músicas, danças e graffites. E foi assim que artistas da região marcaram presença destacada neste movimento sócio-cultural que foi tomando conta das periferias em São Paulo.

Mesmo que relativamente próximos um dos outros, é mô treta reunir no mesmo evento tantos manos e minas que já fizeram várias correrias no movimento, e até por isto mesmo, geralmente estão organizando algum evento, atividades, nos corres de trabalhos ou tarefas pessoais, não é fácil reunir esta nata, a maioria com mais de 15 anos de atuação no hip hop.

Aí a galera do selo “Pau de dá em doido” capitaneado pelos manos: Enézimo que é vocalista do grupo Armagedom, grupo revelação do rap em 2000, Arnaldo Tifu que vem se destacando São Paulo a fora nos eventos de rap free style e o DJ Nato PK, tiveram a idéia de realizar a primeira premiação do movimento hip hop da região do grande ABC. E nesta primeira de muitas outras edições, como eles fizeram questão de frisar, iniciou homenageando aqueles que se destacaram aos longos dos anos devido à importância ou contundência de seus trabalhos.

Som rolando, a galera chegando se cumprimentando, interagindo e os manos avisaram: Vamos chega todo mundo no Anfitetro porque vamos dar inicio a noite de premiação.

Telão preparado e monitorado pelo DJ Nato PK, no palco reluzia as condecorações e os Mestres de Cerimônias Tifu e Stefânie deram inicio a premiação.

Outra grande sacada foi a particularidade com que chamaram cada premiação: ao DJ que marcou a história do movimento na região a nomenclatura do prêmio foi chamada de “Baileiro”, em função dos grandes bailes realizados pelos DJ’s que reuniam a galera pras festividades. Ao MC deram o nome de “Sonzera” devido ao peso que significou a música na cabeça da galera. E a cada premiação se abria no Telão o mano Enézimo fazendo um breve relato sobre o hip hop, aquele elemento cultural que estava em premiação e fazia também um relato do homenageado.

Só pra vocês terem uma idéia, quando eu tinha 13 anos saia de casa na madruga pra ver o DJ Tubarão que recebeu a homenagem de “Baileiro” tocar no Clube House, uma antiga casa de shows que sacudia as noites de fim de semana. Hoje ele toca pelo Brasil inteiro e já gravou com grandes nomes até da MPB.

Vocês se lembram daquele Rap: Alguém pague uma cerveja agora pra mim/ Já fui a outros bares, agora estou aqui/ Só foi 5 cervejas que eu bebi/ Mas ih daí... quem vai pagar pra mim?

Estou falando de Mister Théo que recebeu o prêmio “Sonzera” e vinte anos atrás foi tocado de norte a sul do Brasil com o rap da cerveja, criada em cima da melodia do rap The Doctor de Kool Moe Dee. A galera foi à loucura quando o mano que há muito tempo não víamos, cantou no palco acompanhado no compasso das palmas.

Outra pegada nervosa foi quando o mano Déxter direto do exílio falou ao radinho agradecendo a homenagem pro grupo “509 E” na premiação “além da quebrada” se destacando com principal grupo de rap do ABC no cenário nacional.

O Mano Nino Brow foi homenageado com o prêmio “História Viva” e aí nem precisa explicar muito o porquê, né? O cara simplesmente foi um daqueles que viveu a transição do “original funk” de James Brown e George Clinton para o rap de hoje.

Foram vários os destaques da noite, aliás, a noite toda foi de destaque, mas gostaria de falar de mais um que foi o prêmio “Quilombo 20” que representa o local ou projeto que marcou a cena do hip hop da região por reunir cotidianamente a galera das periferias de todo ABC, a Casa do hip hop de Diadema, reconhecida mundialmente.

Enfim manos e minas, a fita foi pesada e terminou regado de muito hip hop com a Back Spin Break Crew, DJ Nato PK, o rap do Armagedom com participação do Polemikaos. Fica o convite pra próxima edição do “Nóis tudo Hip Hop” que até no nome traz a marca da mistura do singular com o plural, e do erro proposital na concordância por parte daqueles que nunca ou pouco tiveram oportunidades, mas aí criaram pra si mesmo a sua própria chance.

Eu e o Beto Teoria que compomos a Nação Hip Hop Brasil e somos da região do Grande ABC fomos homenageados na premiação, eu com o prêmio “guerrilheiro cultural” e o Beto Teoria com o prêmio “resistência”. Agradecemos aos manos e minas do “Selo Pau de dá em doido” pela homenagem, e mais do que isto, por escreverem mais esta bela página da história do movimento. E o fizeram com muita criatividade, esforços pessoais e coletivos, muita competência na produção e união.

Segue na íntegra a relação de todos os homenageados pelo “Nóis Tudo Hip Hop”.

Baileiro - DJ Tubarão
Sonzera - Mister Theo
Black Power -Paradise
Arrisco um Risco (graffite) - Guerra de Cores
Role Certo (Casa de Baile) – Clube do Rap
Quilombo 20 - Casa do Hip-Hop de Diadema
Mulher Hip-Hop - Neuza
Multimídia Alternativa – Rádio Zumbi
Guerrilheiro Cultural – Marcelo Buraco
Literatura Hip-Hop – Livro ABC RAP
Vanguarda – Mc´s Black
Coletivo – Posse Hausa
Resistência – Beto Teoria
Dança Urbana – Back Spin Crew
Além da Quebrada - 509-E
História Viva - Nino Brown




*Marcelo Buraco, Membro-fundador da posse Negroatividade de Santo André


Festa do hip hop no Francisco Nunes


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Marcos Michelin/EM/D.A Press %u2013 30/10/08
Júlio César de Souza, Fabiola Rafaela e Bruno Eustáquio formam o Elemento.S
A terceira edição do Hip Hop In Concert – Mostra Metropolitana de Hip Hop de Belo Horizonte será sexta e sábado, no Teatro Francisco Nunes, com entrada franca. A festa, que começou ontem, reúne artistas de break, grafitti, MCs e DJs, além da competitiva de rap. Concorrem hoje os grupos Elemento.S, Instinto e APR – Artilharia Pesada da Rima. Serão destacados melhor performance de palco, conteúdo poético das letras, melodia e originalidade, além da classificação final.

O encontro conta ainda com Foyer Temático sobre elementos da cultura de periferia e com o seminário Hip Hop Chama, sobre profissionalização, autogestão e auto-sustentabilidade. Na noite de encerramento, amanhã, tem show do Sobreviventes do Terceiro Mundo e edição especial do Duelo de MC’s, além de espaço aberto para freestyle. A discotecagem é do DJ Dentinho. Durante a programação, será lançado o livro Guia ilustrado de grafitti e quadrinhos, de Piero Bagnariol e Fabiano Barroso. Realizado anualmente, o Hip Hop In Concert é promovido pela prefeitura com apoio de artistas, instituições e articuladores locais.

HIP HOP IN CONCERT
Teatro Francisco Nunes, Av. Afonso Pena, s/nº, Centro, Parque Municipal. Sexta e sábado, das 19h às 22h. Entrada franca.

Mensagem de Natal

São muitas as solicitações e também as deturpações que se inserem na compreensão do sentido mais verdadeiro da festa
Dom Walmor Oliveira de Azevedo, arcebispo metropolitano de Belo Horizonte
Esta mensagem é uma reverência inspirada na delicadeza de Deus, o Pai de todos os homens e mulheres, a maior delicadeza, a delicadeza insuperável, a delicadeza de enviar Jesus, o seu Filho Amado, ao mundo. Ele vem ao encontro: “Quando se completou o tempo previsto, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher, nascido sujeito à Lei, e todos recebemos a dignidade de filhos” (Gl 4,4). A delicadeza de Deus, na encarnação do Verbo, Jesus Cristo, estabelece diálogo direto entre corações, divino e humanos: “Muitas vezes e de muitos modos, Deus falou outrora aos nossos pais, pelos profetas. Nestes dias, que são os últimos, falou-nos por meio do Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas e pelo qual também criou todo o universo” (Hb 1,1-2). A grandeza desta delicadeza de Deus, Jesus Cristo feito homem, Deus conosco, nos sustenta e inspira para que “corramos com perseverança na competição que nos é proposta, com os olhos fixos em Jesus, que vai à frente de nossa fé e a leva à perfeição” (Hb 12,1b-2ª).

Com os olhos fixos em Jesus! Faço votos que o tempo do Natal seja vivido assim por nós todos. Tendo os olhos fixos n’Ele, seremos sensibilizados por esta delicadeza de Deus, compreendendo o sentido de nossas vidas e vivendo a certeza de que n’Ele está a fonte de toda alegria duradoura. Não é fácil, em se considerando as circunstâncias atuais, fixar os olhos em Cristo Jesus, razão única e insubstituível das festas natalinas. Não é fácil porque são muitas as solicitações; também as deturpações que se inserem na compreensão do sentido mais verdadeiro da festa. A tendência é fixar o coração no que está do lado de fora. As confraternizações são vividas, tantas vezes, apenas como um momento de encontro e de desfrute que pouco alimenta uma fraternidade solidária. A fraternidade solidária é muito mais do que o congregar-se já tradicional para comer, beber. A fraternidade solidária nasce de uma redobrada atenção a esta presença de Deus Conosco.

A alegria desta presença faz brotar no coração um modo novo de ver as coisas e de sentir. Gera os propósitos novos e indispensáveis para qualificar melhor a vida que se tem como dom deste Deus que vem ao nosso encontro para, oferecendo a própria vida, garantir o resgate definitivo da vida de todos nós. Penso, neste momento, especialmente, nas crianças, também nos jovens. Mas particularmente nas crianças. Seus corações estão alimentados pelo folclore em torno de Papai Noel. Esta dimensão folclórica das festividades natalinas tem também seu sentido. Suas origens, tantas vezes pouco conhecidas, remetem ao sentido do bem e da solidariedade, ao compromisso com a alegria que se pode devolver ao coração das pessoas. Contudo, não pode substituir a razão primeira, única, central, insubstituível, inigualável da festa deste tempo do Natal: “Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16). Não há outra razão mais importante para este tempo de festa.

É necessário, pois são estes os verdadeiros votos para que seja abençoado este tempo do Natal, colocar no centro de nossas comemorações e festividades, no centro de nossos corações e de nossas vidas, como está no centro do presépio, Cristo Jesus. Cristo é a luz verdadeira. Ele é a garantia de que “o povo que andava nas trevas viu uma grande luz, para os que habitavam as sombras da morte uma luz resplandeceu” (Is 9,1). Esta luz fulgurante, presença amorosa de Deus Conosco, ilumina os cenários que dolorosamente emolduram o Natal do Senhor deste ano, de cada ano. Estes cenários fazem desfilar diante de nós todos os sofrimentos da humanidade, as dores de homens e mulheres, os escárnios lançados sobre os pobres, as perversidades que perpetuam as brigas e desavenças, a incapacidade de transformar ódios em perdão e reconciliação, os descasos, a ganância que chafurda tantas pessoas na lama da corrupção e dos interesses espúrios.

A delicadeza de Deus, Jesus Cristo, o Salvador, que vem ao nosso encontro, tem força para recuperar a sensibilidade perdida, a convicção de que é bom ser bom e o empenho por uma sociedade justa e solidária, enquanto caminhamos com Ele, indo ao encontro do Pai, que o envia, nossa vida definitiva. Faço votos de que este tempo de Natal seja um exercício meditativo e orante, muito profundo, desta verdade. Este exercício encharcará o coração e fará dele uma fonte inesgotável de delicadezas, grandes e pequenas, nos gestos e palavras, nas partilhas e pelo comprometimento com grandes projetos para o bem de todos, pela vida, a vida, em razão da qual o Senhor Jesus veio: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10, 10). Seja esta a experiência do nosso Natal. Assim, nosso Natal será Santo, abençoado. São estes os meus votos, de coração, reacendendo em todos nós a chama da esperança.

SÃO PAULO - O Tribunal de Justiça (TJ) de São Paulo concedeu nesta quinta-feira liberdade provisória para a estudante Caroline Pivetta da Mota. Caroline estava presa há mais de 50 dias depois de ter pichado o andar da 28ª Bienal de Artes de São Paulo. De acordo com a assessoria de imprensa do TJ, o alvará de soltura da estudante já foi expedido e um oficial de Justiça irá levar até ela na sexta-feira. A Justiça de São Paulo já havia negado por duas vezes o pedido de liberdade de Caroline.


De acordo com a Secretaria de Administração Penitenciária (SAP) de São Paulo, o alvará de soltura ainda não chegou até Caroline. Como o expediente já foi encerrado, Caroline só deixará a prisão na sexta-feira, informou a assessoria.

Após ser detida pelos seguranças, a garota foi levada ao 36º Distrito Policial (Paraíso) e três dias depois foi presa na Penitenciária Feminina Sant’Ana, no Carandiru.

Ré primária, Caroline dividiu a cela com uma detenta. Seu companheiro de grupo, o taxista Rafael Martins, de 27 anos, também foi preso, mas liberado após sete dias.

Os dois ainda podem responder processo por destruição de prédio público, com pena de um mês a dois anos de prisão. A acusação pode agravar porque o prédio é tombado.

Diagnóstico de Anemia Falciforme em Minas

Diagnóstico de Anemia Falciforme em Minas - ainda um longo
caminho a ser percorrido - continuação
Foto: Daniel Cardoso

Daniela Giovana, Jornalista e
mestranda em História pela UFMG


Remédios e Exames especializados
Outra dificuldade que atinge em cheio os falcêmicos mineiros diz respeito às consultas especializadas. A Anemia Falciforme funciona como uma anemia crônica que pode afetar qualquer órgão do corpo. Quando afeta o cérebro pode ocasionar derrame, inclusive em crianças de 4 ou 6 anos. O paciente pode ter complicações respiratórias graves e precisar ir para o CTI; complicações no coração e precisar de uma consulta com um cardiologista. Pode ter uma complicação de vias aéreas e necessitar de uma consulta com um otorrino, e assim por diante. Mas muitas vezes o acesso a esses exames, que precisam ser conseguidos em caráter de urgência, é obtido na base da ‘política de boa vizinhança’, a partir de contatos dentro dos hospitais.

O Sistema Único de Saúde (SUS) vê esse paciente como qualquer outro, não respeitando as particularidades da doença e relegando o atendimento à vala comum. Mas o que falta para que o sistema de saúde passe a tratar a doença como sendo de alta complexidade? “Falta aplicar um princípio aprovado pelo próprio Ministério da Saúde que é a equidade racial. O ministério já reconheceu, mas ainda precisa ser aplicado. Assim, esse paciente não vai entrar na vala comum porque vai ter suas particularidades formalmente compreendidas, estabelecidas em portarias, bem conhecidas pelas pessoas. Hoje em qualquer gestor que você vá, ele fala que tem problema com AIDS, com leucemia, com tuberculose, e te pergunta por que ele deveria tratar os doentes falciformes de maneira diferente. Para evitar isso basta que o ministério aplique um princípio que ele mesmo criou”, explica o médico e professor José Nélio Januário.

75% das famílias ganham menos de um salário mínimo, 80% dos pais não têm escolaridade primária e 90% dos pacientes não completam o ensino fundamental. Diante desse quadro, fica fácil perceber a dificuldade presente na hora de comprar os remédios receitados para dar uma continuidade ao tratamento após a saída do hospital. “A gente tem lutado junto às secretarias municipal e estadual para conseguir essa medicação. Muitos pacientes vivem na periferia com baixa renda, isso quando estão trabalhando. Mas por muitas vezes nós temos que procurar a própria Promotoria de Saúde do Estado que dá um grande apoio porque conhece as nossas necessidades”, sentencia o presidente da Dreminas.
O ser humano por trás da doença

Tassia Ludmila Gonçalves Machado, 4, já passou por várias intercorrências, muitas delas obrigando a internação da mãe junto da filha. A última contabilizou o saldo de 15 dias no hospital, com uma crise de dor que teve que ser tratada a base de morfina. “Costumo dizer que essa é uma doença que causa muita dor física para o paciente, mas que traz uma grande dor emocional e psicológica para os pais. A gente vive esse drama dia após dia, igual a uma bomba relógio. Hoje ela está bem, mas amanhã ela pode amanhecer com uma dor que pode ser fortíssima”, confidencia Cláudio Henrique.

As implicações psicológicas que envolvem familiares e pacientes ainda são aspectos pouco ou quase nunca observados pelo sistema de saúde. Diante de uma doença como a Anemia Falciforme em que os processos de dores são estendidos por toda uma vida, a começar do nascimento, aspectos de inclusão social desse paciente e acompanhamento da família são fatores que também não podem continuar a serem esquecidos. Por mais que hospitais cuidem, a família é quem vai acompanhar integralmente a vida desse paciente.

“Muita coisa já avançou, a qualidade da parte técnica do sangue está bem melhor, mas o lado humano ainda fica a dever. Estava na sala de espera e uma criança estava chorando porque não queria tirar sangue. Precisava ter ali uma psicóloga para conversar com essa criança e explicar que ela precisa tirar sangue. Não é fácil ficar numa cama tomando picada para fazer 50 exames. Quando sou internada peço um acompanhamento psicológico, uma pessoa que tem uma doença crônica tem que ter esse atendimento. Muitas mães são simples, acham que se pedirem um psicólogo vão achar que o filho é doido. Muitas não sabem desse direito”, afirma D. Rose Maria Betran.

Preconceito e longos períodos de internação que acarretam em perdas de aulas, contribuindo para o abandono dos estudos, são outras barreiras que dificultam a inserção social. “Parei de estudar no primeiro ano do magistério, fiquei um mês doente e depois não voltei mais, desanimei. Minha mãe dizia ‘se o corpo não está bom, a cabeça está’. Quando ficava em casa lia muito, cheguei a dar aulas particulares para crianças e também fazia artesanatos”, conta D. Rose.

Muitas empresas ao fazerem os exames de admissão não estão contratando pessoas com Anemia Falciforme devido ao grande número de faltas que esse funcionário terá. Em se pensando um mercado de trabalho com a disputa desigual que vemos hoje, a situação se complica ainda mais. A saída tem sido o sub-emprego, com atividades desempenhadas sem carteira assinada.

Ação social que vira política pública
Hoje ainda não se percebe no Estado uma política pública voltada para a Anemia Falciforme. O passo mais concreto nesse sentido foi dado com a Lei Estadual 14.088 de 6 de dezembro de 2001, que dispõe sobre a prestação de aconselhamento genético e assistência médica integral aos portadores de traço e Anemia Falciforme. A Lei foi aprovada após um longo período para ser sancionada e a luta agora é para colocá-la em prática em todo o Estado. Ela existe, mas ainda não funciona. O foco principal deve ser o interior do estado, onde, por falta de informação, até mesmo transfusões de sangue desnecessárias são feitas. Muitos profissionais nos municípios não têm o treinamento para fazer o diagnóstico e o tratamento corretamente.

O trabalho dos movimentos sociais chega à instância governamental e acaba virando política pública. Esta realidade está presente em quase todos os setores da sociedade. “Se a sociedade não se manifestar e mostrar o problema em que vivem ela não alcança os objetivos lá na frente. Por exemplo, hoje as secretarias já estão capacitando o Programa de Saúde da Família, isso foi uma luta do movimento para mostrar a necessidade de se informar sobre a doença e que hoje o governo está olhando com o cuidado de levar isso para âmbito estadual. É uma conquista do movimento”, explica Cláudio Henrique.
A situação mineira no trato com a Anemia Falciforme aponta um quadro de excelência no atendimento ambulatorial, demonstrando uma boa integração entre a capital e os hemocentros do interior. E isso é um resultado direto de um bom entendimento entre uma universidade (UFMG) e uma fundação (Hemominas).
Demonstra na prática os benefícios que podem ser alcançados quando todos os envolvidos juntam forças para conseguir melhorias para suas lutas como é o caso concreto do Centro de Educação, Informação e Apoio ao Doente Falciforme (Ceiadof). Mas é uma experiência que ainda carece de mais investimentos na parte do poder público estadual e municipal no que se refere a parte de tratamento: melhores atendimentos em hospitais, acesso universal a consultas especializadas e medicamentos, sem deixar de lado é claro a atenção humana ao paciente.

Analisando a Anemia Falciforme em Minas Gerias é possível perceber que mudanças mais significativas necessitam de uma urgente reforma do sistema de saúde com aplicação universal de um direito que é garantido ao homem em seu nascimento pela constituição: a igualdade.

Diagnóstico de Anemia Falciforme em Minas

Diagnóstico de Anemia Falciforme em Minas - ainda um longo
caminho a ser percorrido - continuação
Foto: Daniel Cardoso

Daniela Giovana, Jornalista e
mestranda em História pela UFMG


Hoje existem duas formas de atendimento nos ambulatórios do Hemominas. O primeiro caso, e também o mais comum, é feito por crianças triadas para doença falciforme. “A partir do momento que o sangue é colhido, no quinto dia de vida pelo exame do pezinho, ele é levado para o NUPAD/UFMG, onde é feito o diagnóstico. Quando é identificado um caso positivo, a criança é encaminhada para um dos hemocentros mais próximos de sua casa para fazer a primeira consulta e os pais receberem as orientações necessárias”, explica Júnia Guimarães Mourão Cioffi, Diretora Técnico Científico da Fundação Hemominas. O segundo tipo de entrada fica por conta de pacientes em uma faixa etária maior, detectados por meio de estudo familiar ou atendimento de atenção básica. Atualmente 4.800 pacientes portadores de doença falciforme estão em tratamento na Fundação Hemominas em Belo Horizonte.

Foto: Pedro VilelaNeste acompanhamento, que é ambulatorial, uma vez que a Fundação Hemominas não possui uma estrutura hospitalar, o paciente recebe todas as vacinas básicas e especiais e é atendido por uma equipe multidisciplinar: hematologistas, pediatras, clínicos, infectologistas, assistentes sociais, psicólogos, dentistas, pedagogos, fisioterapeutas, fisiatras e ortopedistas. “Nas unidades que não possuem um desses profissionais, e o paciente precisa de atendimento, ele é referenciado para a capital, mas muitas vezes o atendimento é feito na própria rede. É um paciente diferenciado”, afirma a hematologista Mitiko Murao, da Fundação Hemominas e do Hospital das Clínicas.

Esta uniformização no atendimento pode ser atribuída as próprias características da Fundação Hemominas de funcionamento em rede, utilização de protocolos de atendimento padronizados discutidos periodicamente com as outras unidades do Estado e o próprio protagonismo no atendimento a pacientes falcêmicos. “O Hemominas, criado em 1985, tornou-se referência porque desde o início os paciente com doença falciforme e conglopatias hereditárias eram referenciados para ele. Em 1998 culminou com a triagem neonatal. O paciente quando detectado já era encaminhado para um local de referência e atendido desde o início. O programa de tiragem neonatal e a rede de hemocentros em Minas são bastante diferenciados”, explica a hematologista Mitiko Murao.

Muito se avançou em Minas para o diagnóstico precoce e acompanhamento ambulatorial, mas as etapas seguintes de tratamento continuam carecendo de mais atenção.

Foto: Pedro VilelaDesafios hospitalares
Movimento social, médicos e pacientes são unânimes em apontar as dificuldades de atendimento hoje encontradas nos setores de urgência e emergência da rede hospitalar no estado. Belo Horizonte é uma das cinco capitais de pior atendimento em urgência e emergência do país, segundo ranking levantado pelo Ministério da Saúde. Há um grande sucateamento na atenção a saúde, tanto na capital, quando no âmbito das responsabilidades do Estado.

“A urgência e emergência é um problema principalmente para os adultos”, afirma a médica Mitiko Murao. A mesma opinião é compartilhada pelo médico José Nélio Januário: “a grande dificuldade hoje no estado é com relação às urgências. As crises de dor são um dos principais motivos das intercorrências. Esses atendimentos são parcialmente resolvidos na região metropolitana, mas nós não temos ainda um plano para todo o Estado”.

No entanto, o que se percebe é que esse problema só será totalmente resolvido com uma ampla reforma no sistema de saúde nacional, em que deverão ser colocados em prática os princípios garantidos pela constituição que garante atendimento médico e educação de forma ampla e irrestrita a todos os cidadãos. Enquanto isso não acontecer será muito difícil que a população tenha uma atenção universal voltada para a igualdade no atendimento.

Foto: Pedro VilelaNos hospitais a falta de informação por parte dos profissionais de saúde também compromete o atendimento. “Nós tivemos vários pacientes que chegaram ao médico com crise falando que tinham Anemia Falciforme e os médicos não sabiam como avaliar esse diagnóstico, como fazer esse tratamento a partir dessa crise. Um dos problemas que temos hoje de modo geral em Minas Gerais é a falta de informações tanto de gestores e de médicos, como também de toda a população. Muitas vezes a própria família não sabe como aplicar em casa os primeiros atendimentos ao doente”, afirma o presidente da Dreminas.

Com a experiência de quem vive há 47 anos com uma anemia talessêmica, dona Rose Marie Betran diz que muitas vezes, mesmo em crise, tem que ficar explicando para os médicos o que é a doença na hora de um atendimento de urgência. “A maioria dos médicos não sabem. Já fiquei 5 horas numa fila esperando, fui atendida por um clínico para só depois chegar a um especialista”, conta a artesã. “Há situações em que a família orienta o próprio médico e eles costumam ficar incomodados com isso”, atesta o professor José Nélio Januário. Um caso que chegou ao conhecimento da Dreminas foi o de uma mãe que após receber uma receita médica em que foi prescrita Ferratina informou ao médico que a filha não poderia tomar aquela medicação. O médico perguntou à mãe quem era o doutor, ela ou ele.

Para a médica Mitiko Murao a capacitação dos profissionais “tem que ser contínua, porque a gente sabe como os profissionais flutuam nas unidades de saúde. Esse processo não tem fim e tem que ser feito o tempo inteiro”, entende. Para José Nélio essa questão deve ser vista de uma forma mais ampla. “A rigor todo clínico médico tem condições de fazer um atendimento porque os problemas são clínicos. À medida que esse atendimento se transforme em um programa global de atenção à saúde o paciente poderá ser acompanhado por um pediatra comum. A universidade precisa fazer mais pesquisas em relação à Anemia Falciforme, principalmente pesquisas na área clínica. Novos fármacos, novas intervenções para aliviar o sofrimento das pessoas”, diz.

Em Belo Horizonte as maiores referências para o atendimento de urgência são o Hospital das Clínicas, ligado a UFMG, e o Centro Geral de Pediatria.

Diagnóstico de Anemia Falciforme em Minas

Diagnóstico de Anemia Falciforme em Minas - ainda um longo
caminho a ser percorrido
Foto: Daniel Cardoso

Daniela Giovana, Jornalista e
mestranda em História pela UFMG


“Você sabe o que é Anemia Falciforme?”. É assim que a cabeleireira Dora Alves, 50, costuma abordar pessoas nos ônibus e em seu salão de beleza, no trabalho de divulgadora que exerce voluntariamente em Belo Horizonte. “Muitos negros não sabem e muitos profissionais de saúde também não. Desconfio que meu pai, que morreu com 33 anos de AVC, possa ter sido um portador da doença e não sabia”, conta a cabeleireira.

A Anemia Falciforme é uma doença transmitida de pai para filho, em que os glóbulos vermelhos apresentam uma deformação em forma de foice, por isso o nome falciforme. Os glóbulos vermelhos são células do sangue que carregam um pigmento chamado hemoglobina. As pessoas portadoras da doença recebem de seus pais hemoglobina anormal que oferece dificuldade para a circulação do oxigênio no organismo. No Brasil esta anomalia está presente entre a população negra e afro-descendente. Assim, mesmo não tendo a pele negra, a pessoa pode ser portadora do traço ou até mesmo da doença falciforme.

A desinformação é um dos aspectos que mais chamam a atenção quando a questão é colocada. A incidência em Minas Gerais é de 3,2% da população, ou seja, a cada 30 recém-nascidos, um é portador do traço falciforme e cerca de 260 crianças nascem todos os anos com a anemia detectada.
Este dado estatístico revela uma proporção que leva a doença a ser enxergada enquanto um problema de saúde pública que deve ser identificado no nascimento, já que a transmissão é genética, garantindo assim uma vida com mais qualidade ao doente.

Diferentemente de outros estados, Minas Gerais tem desenvolvido um trabalho eficaz junto aos falcêmicos, mas isso não significa que a situação já tenha alcançado níveis ideais de atendimento. O caminho adotado parte do princípio da parceria entre a Secretaria Estadual de Saúde, Secretarias Municipais de Saúde de todo o estado, Universidade Federal de Minas Gerais, por meio do Núcleo de Pesquisa em Apoio Diagnóstico (NUPAD), Associação dos Drepanocíticos e Talacêmicos do Estado de Minas Gerais (Dreminas), Fundação Centro de Hematologia e Hemoterapia de Minas Gerais (Hemominas) e voluntários.

Foto: Pedro VilelaEsse esforço conjunto resultou na criação do Centro de Educação, Informação e Apoio ao Doente Falciforme (Ceiadof), com previsão de inauguração dentro de dois meses. O prédio fica na avenida Francisco Sales, 1715, região hospitalar de Belo Horizonte. O objetivo do Centro é otimizar os esforços para o atendimento aos doentes de todo o estado e se tornar um centro de excelência para a informação das famílias e da população em geral. “Com o Ceiadof vamos dar continuidade à questão da educação continuada, trabalhando em nível municipal e estadual as informações ligadas aos hemocentros e famílias em toda a Minas Gerais. Isso é muito importante. A família recebe um diagnóstico neonatal de Anemia Falciforme. O que fazer nesse momento? Há um desespero enorme dos pais. Por muitas vezes já tivemos com famílias que acharam que iam perder o filho da noite para o dia. A informação chega de uma maneira inadequada”, desabafa o presidente da Dreminas Cláudio Henrique Machado Santos.

Atendimento Ambulatorial
Por meio da Triagem Neonatal, mais conhecido como Teste do Pezinho, toda criança passa a ter direito ao acompanhamento ambulatorial gratuito feito pelo Hemominas. “A ação concreta mesmo foi a de Minas Gerais, em 1998. O Estado junto com a UFMG implementou a triagem para a Anemia Falciforme. Não tinha uma portaria, não tinha uma política nacional, nada. Em Minas aproveitamos a triagem neonatal que já era feita desde 1993 e o programa se alastrou. Em 2001, o Ministério da Saúde torna obrigatória a triagem neonatal para todo o país a partir da experiência mineira”, explica o professor de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da UFMG e diretor do NUPAD/UFMG José Nélio Januário.

O exame, que no Estado de Minas Gerais passou a investigar a Anemia Falciforme a partir de 1998 soma hoje 1 milhão 922.840 crianças triadas, dentre as quais 1.536 foram identificadas positivamente como portadoras da hemoglobina SS, o que configura o quadro de Anemia Falciforme. O modelo de triagem feito hoje em Minas é referência nacional.

A maior parte das crianças vão ao óbito nos primeiros 5 anos de vida, com um acometimento maior até os 2 anos de vida. A finalidade da triagem é instituir o tratamento nos primeiros cinco anos com penicilina, vacinação e acompanhamento rigoroso, aumentando a sobrevida. “Se você não fizer absolutamente nada, 50% morrem até chegar a adolescência, agora quando você institui um tratamento ambulatorial correto, de 45% a 50% vão atingir os 50 anos de idade. A diferença é brutal. Por isso o foco é a infância. Antes da triagem, as crianças estavam morrendo e a morte sendo atribuída a outras coisas, agora não tem jeito: a criança bate na porta da unidade de saúde dizendo que tem anemia falciforme e que quer tratamento”, explica o diretor do NUPAD.

Um tapinha dói e é crime. Defenda seus direitos e denuncie!!!




Vânia Dias, Estudante de jornalismo das
Faculdades Integradas da Bahia (FIB)


De acordo com dados do último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), dos 53 milhões de brasileiros pobres, 33,7 milhões são afro-descendentes. Eles representam hoje 70% dos 10% mais pobres do país. Estudos que denunciam agressões assinalam uma interseção entre raça, gênero e classes sociais, a fim de evidenciar os fortes contrastes entre brancos e negros, ricos e pobres na sociedade brasileira. De acordo com a pesquisa “A mulher brasileira nos espaços públicos e privados”, realizada pela Fundação Perseu Abramo, 6,8 milhões de mulheres no Brasil já foram espancadas ao menos uma vez. Destas mulheres, a maioria é negra. Na Bahia, o Coletivo de Mulheres do Calafate luta em defesa de mulheres negras e pobres que sofrem violência doméstica. O distrito composto por 12 bairros do subúrbio tem uma média de 244 mil 880 habitantes. No Calafate, um dos bairros deste distrito, a violência contra a mulher é uma característica bastante comum. A cada dia surge um novo caso de mulher vítima de violência, declara a coordenadora do Coletivo de Mulheres, Marta Leiro: “Não há uma pesquisa específica para definir o número exato de vítimas e nem quantas já foram atendidas, mas trabalhamos na tentativa de conscientizar e inibir novos casos semelhantes”.

O Coletivo, nos seus 13 anos de trabalho, sempre enfrentou preconceitos. De marido que tirou a mulher à força do grupo a milhares de casos de agressão. Com fama de separar muitos casais, Marta, mesmo em defesa da violência, também é uma vítima. Ela sofre atualmente ameaças de morte por coordenar esta atividade e luta para combater as tentativas de enfraquecimento do Coletivo. “Querem podar nosso trabalho, mas a luta continua. Não se pode intimidar com ameaças”, declara.

Motivada pelo medo de ser ainda mais violentada, ou mesmo, assassinada, Janete Brito dos Santos (38 anos), auxiliar de apoio em escola estadual, sofreu calada por 20 anos, as agressões praticadas pelo pai de seus três filhos e, na época, seu marido, Edmundo Moreira Ferreira. A última agressão praticada por Edmundo aconteceu em um domingo de maio, em um bar onde Janete tomava cerveja com os amigos. Sem nenhum motivo aparente, Edmundo, ao passar pelo bar e ver a sua ex-mulher, agrediu-a publicamente, com um tapa no rosto. “Eu nunca me senti tão humilhada”, declara Janete. Everaldino Sacramento (28 anos), um vizinho que presenciou a agressão, partiu em defesa de Janete e revidou a violência dando um murro em Edmundo. Jorge Cerqueira, atual marido de Janete, mesmo sabendo de todas as agressões, prefere não se envolver no assunto.

Orientada pelo Coletivo de Mulheres do Calafate, Janete pela primeira vez depois de 20 anos prestou queixa na Delegacia Especial da Mulher (Deam). “Se não fosse o Coletivo, eu não teria denunciado”, diz Janete, que recebeu todo apoio e acompanhamento. Aline de Jesus Sacramento (24 anos), mãe de dois filhos, foi agredida na cabeça pelo ex-marido, 25 dias após o parto. Na ocasião, integrante do Coletivo, ela prestou queixa na Deam, mas o caso não foi adiante, não havendo nenhuma punição para o agressor. Para Aline, os vizinhos, baseados no ditado de que em “briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”,não se envolvem, apenas fazem fofocas e julgamentos.

Casos como os de Janete, Aline e de tantas outras mulheres contam agora com a nova legislação, que transforma agressões domésticas em crimes. A inserção dos parágrafos 9º e 10º do artigo 129 altera a detenção de três meses a um ano, para a inclusão da violência doméstica no código penal como crime específico e pena de seis a doze meses de detenção. Órgãos de defesa do direito da mulher, a exemplo da Deam, querem instituir além de multas e cestas básicas, punições consideradas inócuas para os agressores, penas educativas, como o serviço à comunidade e participação em grupos de reflexão. Mesmo com a nova lei, a prisão só é aplicada para casos extremos, como estupro, que é crime hediondo.

Antes de se aprofundar nas múltiplas formas de violência, Marta não tinha consciência de que quando era chamada de burra pelo ex-marido estava sofrendo um caso de agressão verbal e psicológica. “Eu achava que nunca tinha sido agredida, até ser apresentada à violência”, diz Marta. Nos primeiros momentos, o Coletivo de Mulheres fazia encaminhamento de intervenções, entrava na casa da pessoa agredida para garantir a defesa dela. Atualmente, espera-se que a vítima peça ajuda. O Coletivo oferece também palestras, aulas e oficinas que visam a uma maior conscientização e transformação dos problemas locais.

Veraldino Sacremento, conhecido como BS, é professor e presidente do Grupo de Capoeira Calafate. Alegando imaturidade e ciúmes, ele confessa já ter agredido uma ex-namorada e sua ex-mulher. Na ocasião, mesmo sabendo que podia ser punido pela justiça, BS não tinha medo da cadeia, mas da possibilidade de vingança de algum parente. “A justiça não nos protege, a lei da vida não tem sentença e nem regras, difícil é manter-se vivo”, desabafa. Depois de participar de palestras e oficinas oferecidas pelo Coletivo, diz-se consciente e arrependido das agressões. Hoje dá conselho a outros homens que praticam violência no bairro e é ameaçado de morte, por ter defendido Janete da agressão do seu ex-marido, Edmundo. Ficou por muito tempo sem poder andar pelo bairro, deslocando-se apenas de táxi. O caso está na 2º vara criminal e a primeira audiência está marcada para o dia 13 de julho.

Serviço
Para fazer denuncia ou procurar orientação em Salvador:
• Balcão de Justiça e Cidadania - das 9h as 12h – 71 3253-9904,
• Delegacia de Atendimento a Mulher – 71 3245-5481,
• Centro de Atendimento as Vítimas de Violência na Bahia – 71 3362-9090.

Como evitar ou reconhecer os sinais de possíveis agressões violentas:
- Ele olha para mulher ou age de um jeito que provoca medo;
- Deixa ela constrangida falando palavrões ou diminuindo a sua auto-estima;
- Controla o que ela faz, quem encontra, com quem fala e aonde vai;
- Impede a mulher de sair de casa., ver ou falar com os amigos ou parentes;
- Faz ela pedir dinheiro, Fica com o dinheiro dela e recusa a dar dinheiro;
- Diz que não é boa mãe, ameaça tirar as crianças ou machucá-las;
- Sacode, esbofeteia ou bate;
- Destrói as coisas, esconde os documentos ou ameaça matar animais;
- Intimida com armas de fogo ou armas brancas;
- Não se importa com as agressões, tenta culpá-la ou nega ter sido violento;
- Obriga você a retirar a queixa quando você vai a policia;
- Ameaça se suicidar;
- Ameaça matar.

Informações disponibilizadas na Delegacia Especial a Mulher, em Salvador.

Consciência Hip Hop encerra agenda de Festivais da Abrafin em 2008



O festival de hip hop ainda é o único do segmento associado

O Festival Consciência Hip Hop encerra a agenda dos festivais associados a Abrafin - Associação Brasileira de Festivais Independentes. A associação nasceu em 2005 com o intuito de reunir, organizar e potencializar o circuito de festivais de música independente, desde então, em ascensão no Brasil, promovendo a troca de conhecimento entre produtores associados, bem como entre grupos, produtoras e coletivos responsáveis pela realização dos festivais.

O Consciência Hip Hop é ainda o único festival de Hip Hop associado, fato este que demonstra a necessidade de reunir e organizar também os artistas do Hip Hop Fora do Eixo, rede de trabalhos que possui a mesma lógica e intenção do Circuito Fora do Eixo. A meta em 2009 é organizar os eventos formatando uma agenda única.

A Abrafin tem em seu catálogo 32 festivais, dos mais variados segmentos e atingem pelo menos 300 mil pessoas, circulando nada mais nada menos do que 600 bandas nacionais e internacionais, que movimentam um montante superior a cinco milhões de reais por ano. Os festivais são principais vetores de estímulos da cadeia produtiva da música independente brasileira, e geram três mil empregos fixos e temporários, impulsionando também a abertura do diálogo com os mercados ligados ao setor em nível internacional.

SERVIÇO
O que: Festival Consciência Hip Hop
Quando: dia 20 e 21 de Dezembro
Onde: Clube Feminino
Quanto: R$ 5
Mais Informações: 3028-1114

Assessoria de Comunicação – Cufa
Fernanda Quevedo
favelacomunicacao@gmail.com

-- Favela Comunicação | CUFA MT
Fone fax: (65) 3028 - 1114 \ 9287-5518
Msn: favelacomunicacao@hotmail.com

Cotas, sim; negros, nem pensar


Edson Lopes Cardoso
edsoncardoso@irohin.org.br
A negação sistemática do corte racial nas políticas públicas por parte dos principais jornais brasileiros, em razão dos elevados custos humanos que acarreta, pode ser aproximada da negativa de Thabo Mbeki e de seu governo em reconhecer a AIDS e os medicamentos necessários para combatê-la.

A Folha de S. Paulo, em editorial (“Cotas de imperfeição” 25.11.08, p. 2) reafirma que o critério racial não serve para ‘categorizar pessoas’ porque não tem fundamento científico.

Pois bem, na redação da ‘Folha de S. Paulo’ e outros grandes jornais quantas pessoas têm pele escura e cabelo crespo? Alguém duvida de que exista aqui uma classificação sistemática que, independente do que possa afirmar a genética, se apóia em características também biológicas (cor da pele, textura do cabelo, etc.)?

Que divindade, se não o deus da Omissão Cínica, o mantra “raça não existe” invoca mesmo? Aliás, o mantra só é recitado quando os negros pressionam para reduzir os privilégios daqueles que reelaboram, pela negativa, o conceito de raça para servir à manutenção de suas posições e objetivos políticos.

Raça não existe, mas o Brasil é um país de profundas desigualdades raciais. A negação da raça pelos estratos superiores pretende perpetuar as desigualdades... raciais. Se todos são mestiços nos espaços de prestígio e poder, queremos incluir nesses espaços um tipo de mestiço que a eles não tem acesso.

Quando se argumenta, como no citado editorial da Folha, na defesa de cotas sócio-econômicas para ingresso na universidade, sob a alegação de que ‘negros e mulatos’ estariam aí contemplados, identifica-se, ainda que a contragosto, a existência, entre os pobres, de um subconjunto de afro-brasileiros.

Na alternativa das cotas raciais, recusada pela Folha, os ‘negros e mulatos’ não podem ser precisamente identificados: raça não existe, o Brasil é um país mestiço. Na alternativa sócio-econômica, defendida pela Folha, ‘negros e mulatos’ existem e seriam beneficiados também.

Paradoxalmente, quanto mais submersos na noção de classe, mais visíveis se tornam os negros aos olhos da Folha. A tão alegada homogeneidade mestiça desaparece como por encanto, quando submetida ao crivo sócio-econômico defendido pela empresa de comunicação. Nas cotas sociais, os negros serão beneficiados – com a vantagem, para os superiores, de se dispensar a afirmação identitária.

A identidade negra, por essa visão, parece superestimada como fonte de conflitos, potencialmente geradora de ‘divisões radicais’. Alguns negros podem vir a ser beneficiados, mas para isso devem renunciar a sua identidade.

Nos termos da cultura política dominante, pode-se aceitar de todo modo um arranjo, desde que fique assegurado que a identidade negra será submersa em generalizações sócio-econômicas. Os negros poderiam assim ser tolerados, de modo contingente, desde que se pudessem atenuar as dimensões ameaçadoras de sua afirmação identitária.

Por aí se vê que a questão não é cota, nem reserva de vagas. A questão é mesmo a identidade negra, seu conteúdo histórico, suas incontornáveis reivindicações reparatórias, justas e legítimas.

O recalque da identidade negra parece jogar assim um papel decisivo entre nós na manutenção do sistema político e dos modos de representação, na permanência de sistemas simbólicos que realimentam os grupos hegemônicos, e na manutenção da ordem social e econômica.
Edson Lopes Cardoso
edsoncardoso@irohin.org.br
A negação sistemática do corte racial nas políticas públicas por parte dos principais jornais brasileiros, em razão dos elevados custos humanos que acarreta, pode ser aproximada da negativa de Thabo Mbeki e de seu governo em reconhecer a AIDS e os medicamentos necessários para combatê-la.

A Folha de S. Paulo, em editorial (“Cotas de imperfeição” 25.11.08, p. 2) reafirma que o critério racial não serve para ‘categorizar pessoas’ porque não tem fundamento científico.

Pois bem, na redação da ‘Folha de S. Paulo’ e outros grandes jornais quantas pessoas têm pele escura e cabelo crespo? Alguém duvida de que exista aqui uma classificação sistemática que, independente do que possa afirmar a genética, se apóia em características também biológicas (cor da pele, textura do cabelo, etc.)?

Que divindade, se não o deus da Omissão Cínica, o mantra “raça não existe” invoca mesmo? Aliás, o mantra só é recitado quando os negros pressionam para reduzir os privilégios daqueles que reelaboram, pela negativa, o conceito de raça para servir à manutenção de suas posições e objetivos políticos.

Raça não existe, mas o Brasil é um país de profundas desigualdades raciais. A negação da raça pelos estratos superiores pretende perpetuar as desigualdades... raciais. Se todos são mestiços nos espaços de prestígio e poder, queremos incluir nesses espaços um tipo de mestiço que a eles não tem acesso.

Quando se argumenta, como no citado editorial da Folha, na defesa de cotas sócio-econômicas para ingresso na universidade, sob a alegação de que ‘negros e mulatos’ estariam aí contemplados, identifica-se, ainda que a contragosto, a existência, entre os pobres, de um subconjunto de afro-brasileiros.

Na alternativa das cotas raciais, recusada pela Folha, os ‘negros e mulatos’ não podem ser precisamente identificados: raça não existe, o Brasil é um país mestiço. Na alternativa sócio-econômica, defendida pela Folha, ‘negros e mulatos’ existem e seriam beneficiados também.

Paradoxalmente, quanto mais submersos na noção de classe, mais visíveis se tornam os negros aos olhos da Folha. A tão alegada homogeneidade mestiça desaparece como por encanto, quando submetida ao crivo sócio-econômico defendido pela empresa de comunicação. Nas cotas sociais, os negros serão beneficiados – com a vantagem, para os superiores, de se dispensar a afirmação identitária.

A identidade negra, por essa visão, parece superestimada como fonte de conflitos, potencialmente geradora de ‘divisões radicais’. Alguns negros podem vir a ser beneficiados, mas para isso devem renunciar a sua identidade.

Nos termos da cultura política dominante, pode-se aceitar de todo modo um arranjo, desde que fique assegurado que a identidade negra será submersa em generalizações sócio-econômicas. Os negros poderiam assim ser tolerados, de modo contingente, desde que se pudessem atenuar as dimensões ameaçadoras de sua afirmação identitária.

Por aí se vê que a questão não é cota, nem reserva de vagas. A questão é mesmo a identidade negra, seu conteúdo histórico, suas incontornáveis reivindicações reparatórias, justas e legítimas.

O recalque da identidade negra parece jogar assim um papel decisivo entre nós na manutenção do sistema político e dos modos de representação, na permanência de sistemas simbólicos que realimentam os grupos hegemônicos, e na manutenção da ordem social e econômica.