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Violência doméstica: uma questão nacional

Maria Clara Lucchetti Bingemer

Antigamente o mês da mulher era maio. Não tinha esse nome, mas era (e ainda é) em maio que a sociedade civil comemora o Dia das Mães e a Igreja Católica celebra mais intensamente Nossa Senhora, mãe de Jesus e modelo de mulher. Só mais recentemente, 8 de março foi instituído como Dia Internacional da Mulher, celebrando as conquistas das mulheres modernas que disputaram com o homem o espaço público e tiveram avanços significativos.

A ideia da existência de um Dia Internacional da Mulher foi inicialmente proposta na virada do século XX, durante o rápido processo de industrialização e expansão econômica que levou aos protestos sobre as condições de trabalho. As mulheres empregadas em fábricas de vestuário e indústria têxtil foram protagonistas de um desses protestos em 8 de Março de 1857, em Nova York, quando se manifestavam sobre as más condições de trabalho e reduzidos salários. No Ocidente, o Dia Internacional da Mulher foi comemorado durante as décadas de 1910 e 1920, mas depois esmoreceu. Foi revitalizado pelo feminismo na década de 1960. Em 1975, designado como o Ano Internacional da Mulher, a Organização das Nações Unidas começou a patrocinar o Dia Internacional da Mulher.

As conquistas da mulher nas últimas décadas são muitas e inegáveis. A entrada no mercado de trabalho, os salários, a notoriedade em profissões antes apenas masculinas colocaram a mulher em um patamar de visibilidade que antes não tinha, restrita ao papel de esposa e mãe. Testemunha disso é a crença estabelecida e legitimada de que a mulher que não se casava era “encalhada”, “solteirona” etc. E a que se casava dependia quase que totalmente do marido.

No entanto, ao lado desses avanços e progressos, estão outros sinais que parecem nos dizer o quanto ainda falta para que a mulher seja realmente livre e emancipada. A violência doméstica talvez seja o mais triste e preocupante de todos. Recentemente trazido ao proscênio da mídia, o caso da menina de Recife que engravidou de gêmeos do próprio padrasto, reacendeu a discussão e fez vir à tona diversos outros casos que foram acontecendo pouco antes ou pouco depois.

Em diversos pontos do país aconteciam coisas parecidas com mulheres muito jovens, algumas meninas impúberes, violentadas por homens tarados dos mais diversos tipos, desde desconhecidos que invadiram suas casas ou interceptaram seu caminho na volta da escola até o inimigo que dormia em sua própria casa, disfarçado no papel de pai, padrasto, irmão, tio etc.

Todos esses aterrorizantes episódios nos interpelam e nos pedem que voltemos nosso olhar e nossa atenção para as vítimas. Ou seja, para aquelas mulheres, em muitos casos meninas, que ainda não estão emancipadas nem libertas, mas pelo contrário, amargam dura escravidão e opressão nas mãos de homens irresponsáveis e violentos que muitas vezes moram em sua própria casa.

Não é possível que enquanto nos orgulhamos de frivolidades tais como ter “investment grade” e havermos sido agregados ao grupo dos países respeitáveis internacionalmente, ainda admitamos em nosso meio atos de barbárie em tão larga escala. O caso da menina de Recife apenas engrossa estatísticas que já têm dimensões simplesmente terríveis. Tanto é assim que a mídia parecia não se interessar muito por sua pessoa. Estava mais preocupada em confrontar os médicos, o bispo, a polícia etc. Estava mais preocupada com a discussão que o caso ia gerar e que certamente ajudaria a vender jornal e aumentar a audiência.

Por isso, enquanto a violência contra a mulher, sobretudo aquela que é menor de idade, for uma realidade tão constante em nosso país, não faz o menor sentido comemorarmos estatísticas que falam de libertação da mulher. As vítimas nos interpelam e a nossos discursos triunfalistas. Voltemo-nos para as prioridades que ainda não estão atendidas. E quando se virem os frutos desse esforço que deve ser de todos, aí sim, poderemos celebrar.

* Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio, e Diretora Geral de Conteúdo do Amai-vos. É também autora de "A Argila e o espírito - ensaios sobre ética, mística e poética" (Ed. Garamond), entre outros livros.

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