A consciência negra no contexto latino americano


A consciência negra, no território latino, exprime e expressa a relação desigual de poder frente à lógica de crise permanente instituída pelo capital contra o trabalho

Roberta Traspadini

Foto: Douglas Diego

A consciência negra no recorte de classe

Em meio à atual crise do capitalismo e sua forma de propagação no continente latino, a classe que vive do trabalho deveria parar no mês de novembro, para discutir em profundidade, os temas advindos da consciência negra, frente à inconsciência da barbárie geral do capital contra o trabalho.

Na América Latina, vivem, ou melhor, sobrevivem, segundo os relatórios de pesquisa da cepal, aprox. 120 milhões de homens e mulheres afro-descendentes. Destes, 76 milhões são brasileiros, 10 milhões são colombianos, 9 milhões são mexicanos, 2,5 milhões venezuelanos, e os outros 22,5 milhões se distribuem nos demais países do continente.

Na lógica da dominação burguesa este grupo étnico-racial, conta com uma condição histórica singular no nosso continente: a de ser herdeiro da invasão e deslocamento territorial-continental a que foi submetido, para cumprir em terras longínquas às suas, com os desígnios da exploração européia, reproduzida e ampliada na conquista-saqueio da América. Lógica que utiliza a diversidade e a diferença como violenta forma de manifestação de seus históricos conteúdos de escravização e neo-colonização.

Estamos falando de uma visível forma de dominação que objetiva tornar invisíveis diferenças centrais na sua lógica de exercício do poder. Estamos falando da invisibilidade centrada na diferença da cor da pele. Estamos falando da invisibilidade da cor da pele mesclada com o gênero. Isto é, da invisibilidade da população negra, e dentro desta de mulheres negras, frente à geral opressão-exploração vivida por muitos trabalhadores/as. Estamos falando da intencional invisibilidade dada pelo capital aos sujeitos produtores do próprio e reprodutores do alheio que se tornaram ao longo do tempo, negros e negras latino-americanos.

As consciências expressas na consciência negra:

A consciência negra, no território latino, exprime e expressa a relação desigual de poder frente à lógica de crise permanente instituída pelo capital contra o trabalho. As crises de realização do capital evidenciam as permanentes, mas sempre inconclusas conformações dos pactos de poder contra o trabalho. O que permanece, em meio às múltiplas crises, é a sujeição de parte expressiva da população latina à condução econômica-política-ideológica dos donos do capital que atuam no continente em sua aliança com os Estados (trans)Nacionais.

Frente a isto, alguns elementos chaves, comuns, como classe que devem estar contidos no debate a partir da histórica condição de negros e negras no continente latino, são:

A consciência negra sobre a histórica disputa de classe, em meio à brutal dominação burguesa. A consciência negra sobre a exploração do trabalho pelo capital que, aparenta superar a diferença, mas que, em essência, a utiliza como critério de disputa dentro do mundo do trabalho, para sua realização, a partir de uma redução ainda maior dos salários pagos aos negros e negras do continente. A consciência negra sobre a opressão, na dominação, européia e nacional, na conformação do poder e do pacto político executado ao longo dos últimos 500 anos no continente, um poder que continua sendo branco, rico e masculino. A consciência negra sobre a diferença cultural excludente, onde cultura se mistura com pacto de poder e a indústria dita as normas e as condutas do dever ser de cada época. A consciência negra sobre a organização para a libertação da opressão e exploração, via formação política, educação popular e consolidação de instrumentos políticos de disputa e superação da atual lógica de poder. A consciência negra sobre a esperança diurna, essa que, ao se sonhar acordado, desperta, coletivamente para uma ação rumo à realização de um projeto de fato democrático, com a necessária socialização dos meios de produção, a partir da consolidação de um instrumento político de classe.

A capoeira: pedagogia do exemplo da consciência negra

Uma das mais expressivas formas culturais negras propagadas no continente latino é a capoeira. Essa arte expressa muitas contradições. Mas ao longo da história explicita a rebeldia de contestando a ordem vigente, instituir no canto, ora oculto, ora público, sua condição e a necessidade de superação. A capoeira ganha o continente e globaliza a lógica da rebeldia, da consciência negra frente à exploração e opressão.

Através da capoeira, seus mestres narram, com seus pontos de vistas sobre a história, tanto a opressão quanto a luta pela libertação vivenciada por eles e seus antepassados, em cada período histórico no continente. Estes negros e negras narram, ao mesmo tempo, a condição da consciência de muitos negros analfabetos formais, pois não tiveram acesso à escola, que são políticos negros alfabetizados, mestres alforriados detentores desta arte. A cultura oral, a manifestação às divindades negras, o canto e a musicalização manifestos na capoeira, explicitam que o outro processo global só é possível se a lógica de dominação estiver para além do capital.

A capoeira está em toda América Latina. Está em outros continentes. E por mais que seja praticada por brancos, mestiços e negros, sua raiz manifesta em toda sua expressão, a histórica consciência negra. Por isso, como ferramenta de classe, a capoeira explicita que a formação política, a partir de vários processos pedagógicos diferenciados no nosso continente, conta com a história oral como elemento de recuperação da memória histórica de luta dos povos de nossa América.

Naturalmente, no espaço contraditório da produção do novo em meio à reprodução do velho a capoeira, como outras artes em disputa, está cheia de tensões e de confusas ações apropriadas pelo capital. Mas dentro destas tensões se encontram universos fantásticos de produção, através do corpo, de superação da condição de opressão-exploração-sujeição.

O instrumento político de classe e a consciência negra:

A consciência negra coletiva em nossa América, manifesta a ação política de uma formação que tem na classe sua referência, mas joga para ela o diálogo da diversidade que por anos foi ocultada dentro de uma mesma lógica de reprodução que tenta revolucionar mas reproduz mecanismos de invisibilidade do ser.

Por isso e muito mais, o mês de novembro é central, dado o legado de Zumbi e seus pares, para a reflexão dos lutadores e lutadoras latinos, a partir da tomada de consciência sobre a histórica condição de negros e negras do continente. Consciência que aprende na coletividade a riqueza das aprendizagens particulares. Mas que só se sustenta se tiver claro um instrumento político que, a partir da formação, articule um novo projeto popular para o Brasil e para nossa América.

Em meio à atual crise da hegemonia americana e de seus pares no continente, o permanente é a mudança. E a mudança não ocorre a partir da figura de um sujeito no poder já instituído a partir da cor de sua pele. Em especial quando sua lógica de pensar e agir não se contrapõe à histórica herança de dominação e preconceito desenvolvidos no continente. A mudança não virá do norte tão ao norte, dentro das rígidas estruturas de poder do capital. A mudança está ao sul, logo abaixo. Parte dos territórios autônomos zapatistas e demais regiões camponesas, negras e indígenas mexicanas e vai se mesclando com as demais terras latinas, ainda mais ao sul do nosso continente, tecendo a real teia da projeção do novo.

A mudança se expressa pela capacidade dos povos latinos se organizarem para a consolidação de uma outra lógica de poder, de um outro pacto político de Nação, de um outro sentido de trabalho e de realização para além do capital. A mudança parte da capacidade dos povos latinos executarem o poder popular, a partir da projeção de seus instrumentos políticos: negros/as, índias/os, camponeses/camponesas aliados aos trabalhadores e trabalhadoras das cidades, que no formal e no informal produzem sua sobrevivência, que não lhes permite, na lógica atual, viver.

Roberta Traspadini é educadora e economista

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