O pensamento de Milton Santos devolve-nos a esperança na construção de um mundo mais humano e serve de antídoto à crueza dos tempos atuais e à descrença nos valores de uma história verdadeiramente humana
Péricles Cunha, Pesquisador independente, é mestre em Lingüística (Unicamp) | ![]() |



Os textos reunidos são artigos publicados na Folha de S, Paulo nos anos 80 e 90 do século passado e nos dois primeiros anos deste novo século XXI (2) O livro é aberto com uma apresentação de Wagner Costa Ribeiro, Professor da USP (‘Milton Santos: do território à cidadania’), e fecha com um ensaio de Carlos Walter Porto Gonçalves, professor da Universidade Federal Fluminense (‘Milton Santos: ciência, ética e responsabilidade social’), este último, uma ótima introdução ao seu pensamento. Dividido em três partes: 1. O país distorcido, 2. Por uma globalização mais humana e 3. Os deficientes cívicos, todos, títulos de artigos aí incluídos, e contendo em apêndice, uma bibliografia de livros, artigos e entrevistas recentes do autor, (3) o livro aborda vários sub-temas, centrados nos três temas do subtítulo. Na Parte 1, encontramos textos referentes a intervenções nos debates por ocasião da Constituinte, a críticas ao modelo de inserção do país ao mundo globalizado, a sua visão da Universidade, e da importância da pesquisa científica e tecnológica, o papel do intelectual, a necessidade da preservação da memória nacional e a questão da indústria cultural. Na Parte 2, os textos abordam a situação da África nos anos 80, o caráter estrutural (e não mais conjuntural) das crises no mundo globalizado, a incompletude da redemocratização na América Latina (a partir do caso da Venezuela), a cidadania, o papel do Estado e do ‘território’. Na Parte 3, explorando o tema da desigualdade, trata das cidades e da cidadania, do recomeço da história, do papel da imprensa, da questão dos preconceitos, do que significa ser negro no Brasil, do uso político das estatísticas e faz a defesa da lentidão, diante da velocidade imposta pelos tempos atuais.

A globalização é vista pelo autor como o resultado de um longo processo de internacionalização, empreendido inicialmente pelos países europeus e, mais recentemente, a eles se juntando os EUA. Milton Santos situa o início desse processo no Mercantilismo dos séc’s. XVII e XVIII, a sua expansão, com a industrialização do séc. XIX, e a sua intensificação e ampliação nos últimos tempos, quando adquire novas feições: o mundo inteiro passa a se envolver em todo tipo de troca (técnica, comercial, financeira, cultural...), abrindo, com isso, um novo período na história da humanidade. O desenvolvimento científico, diz ele, conduzindo o progresso técnico voltado para a produção, faz com que o planeta seja dominado por um único sistema técnico, ‘indispensável à produção, ao intercâmbio, e fundamento do consumo’ (p.79). E continua: com a instantaneidade das trocas informacionais, a produção e a informação se tornam globalizadas, fazendo emergir um lucro em escala mundial que, acionado pelas firmas globais (as ‘multinacionais’), passa a ser o verdadeiro motor da atividade econômica. A concorrência entre os principais agentes econômicos se acirra (a ‘competitividade’). Os lugares (locus da multidimensionalidade da vida, da convivência do diverso) tendem a ser globais: ‘o que acontece em cada um deles tem relação com o que acontece a todos os demais’ (p.79). Isso redunda na ilusão de vivermos num mundo sem fronteiras (a ‘aldeia global’). Mas (aqui incide a sua crítica fundamental à globalização), por um lado, ‘essas relações globais estão restritas a um número muito reduzido de agentes: a grandes bancos e empresas transnacionais, alguns Estados, as grandes organizações internacionais’ (p. 80), e por outro, mais desigualdades são produzidas: crescem o desemprego, a pobreza, a fome, a insegurança, a difusão das drogas, as doenças, as epidemias dos 3º. e 4º. mundos. Com isso, fragmenta- se o mundo, que parece ‘girar sem destino’, ampliam-se as fraturas sociais, e as possibilidades oferecidas pelas conquistas científicas e técnicas, que deveriam estar a serviço da humanidade, não estão sendo adequadamente usadas em seu benefício, decorrendo daí o caráter perverso desta globalização.

Não mais ‘a visão pretensiosa de um país ou continente sobre os outros, considerados bárbaros ou irrelevantes’ (p. 154), co-incidindo, assim, a produção dessa história universal e a relativa liberação do homem em relação à natureza, a tão esperada superação do reino da necessidade. Além disso, ‘os materiais responsáveis pelas realizações preponderantes são cada vez mais objetos materiais manufaturados, e não mais matérias primas naturais’. Isto faz com que esta era possa ser chamada de ‘era da inteligência’. Uma era em que o homem ‘fabrica a natureza ou lhe atribui valor e sentido por meio de suas ações já realizadas, em curso ou meramente imaginadas’(p. 154). Entretanto, a mesma materialidade que permite criar um mundo ‘confuso e perverso’ vai permitir a construção de um mundo mais humano. Para isso, afirma, bastaria que se completassem as duas grandes mutações em curso na espécie humana: a mutação tecnológica (a emergência das técnicas da informação) e a mutação filosófica (a atribuição de um novo sentido à existência de cada pessoa e também do planeta).
Na era que vivemos, prossegue, o homem descobre novas forças, na mesma medida em que o meioambiente se torna menos aleatório, já que cada vez menos natural, a previsibilidade e a eficácia das ações aumentam, as escolhas se ampliam e se diversificam ao se combinar adequadamente a técnica e a política, enfim, o mundo se aproxima de cada homem, que passa a ter a certeza e a consciência de ser mundo, de estar no mundo. Por outro lado, grandes migrações tornam as cidades uma ‘humanidade misturada’, como se o mundo aí se instalasse, colaborando, pelo entrechoque de idéias e costumes (pela ´práxis coletiva’), para uma renovação contínua da produção do entendimento e da crítica da existência. São pois essas ricas dialéticas da vida nos lugares que vão permitir a proposição e o exercício de uma nova política. Desse modo, ‘a história do homem sobre a terra dispõe afinal das condições objetivas, materiais e espirituais, para superar o endeusamento do dinheiro e dos objetos técnicos e enfrentar o começo de uma nova trajetória.’ (p.155).
Haveria muito mais a dizer sobre ‘O país distorcido’, e sobre o autor, tais como a sua posição diante do problema racial brasileiro, as suas distinções entre causa e contexto, entre informação e comunicação, os seus conceitos de espaço geográfico e território, cidadania, formação sócio-espacial, verticalidades e horizontalidades, estrutura, processo, forma e função, a sua metáfora das rugosidades, a sua sugestão de um programa de governo para as cidades brasileiras, e muito mais, inclusive sobre o seu interessante conceito de “olhar distorcido’, que explica e esclarece o seu lugar de ver (4), o que não caberia neste espaço. Portanto, as considerações aqui esboçadas me fazem recomendar vivamente a leitura desse livro, que é uma porta aberta para a sua obra, além de, creio eu, provocar no leitor, como fez em mim, a restauração de suas forças. Trazendo de volta a fé na ação política do animal humano, esse livro faz renascer as esperanças, reinstalando o futuro em seus devidos lugares: lá, como o objetivo final a ser alcançado, onde ele nos aguarda na dependência de nossas ações anteriores; e cá, como sonhos, desejos, intenções e emoções, os criadores, catalisadores e mobilizadores das ações presentes que, só elas e na qualidade delas, nos conduziriam aos estados desejados.
Para finalizar, deixemos a palavra com o Mestre: ‘...a globalização atual não é irreversível. Agora que estamos descobrindo o sentido de nossa presença no planeta, pode-se dizer que uma história universal verdadeiramente humana, finalmente, está começando.’ (p. 156). (5)
(1) SANTOS, Milton. (2001) O país distorcido: o Brasil, a globalização e a cidadania. Org. Apres. e notas de Wagner Costa Ribeiro; ensaio de Carlos Walter Porto Gonçalves. São Paulo: Publifolha
(2) o autor faleceu em 24 de junho de 2001, escrevendo e publicando até as vésperas de sua morte.
(3) Senti falta das referências bibliográficas na Apresentação e no ensaio final.
(4) Cf. o conceito de ‘redução sociológica’ de Guerreiro Ramos.
(5) A construção deste textos e baseou principalmente em dois artigos do Prof. Milton Santos ‘Por uma globalização mais humana’ e ‘A reconstrução da história’. As informações sobre o autor e a sua obra foram extraídas à ‘Apresentação’ do Prof. Wagner Costa Ribeiro e ao ensaio final do Prof. Carlos Walter Pinto Gonçalves.

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