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Exército, polícia, violência (ou a banalização da vida)

Maria Clara Lucchetti Bingemer

A cidade do Rio de Janeiro e com ela o país amanheceram estarrecidos no último dia 14 de junho com a notícia de que três policiais militares encarregados de manter a ordem e a segurança no Morro da Providência haviam entregue três rapazes por eles retidos aos traficantes que ocupam o Morro da Mineira. O espanto que tomou conta de todos era não só pela bárbara violência com que o crime foi cometido, com requintes de tortura e sadismo como também por se tratarem de três policiais militares, ali colocados como um reforço de segurança para a comunidade constantemente em sobressalto com a violência que o crime organizado instaura nas favelas cariocas.

Parece haver ultimamente em nosso país uma inversão e uma confusão dos conceitos e terminologias que acabam redundando em tragédias como a do último dia 14. O que é o exército e qual a sua função? Exército, pelo menos em termos da lei brasileira, é a força armada que, como instituição nacional, permanente e regular, organizada com base na hierarquia e na disciplina, e sob a autoridade do presidente da República, tem a seu cargo a defesa da pátria e a garantia dos poderes constituídos, da lei e da ordem. O exército é, pois, a instancia à qual a população recorre a fim de manter-se protegida e dentro dos parâmetros da tranqüilidade necessária para o transcurso de uma vida sem sobressaltos.

Quando esta instancia recusa seu papel e função e se transforma em instancia instauradora do terror e da morte, o que resta à população civil, acossada sob a ameaça constante da violência do crime organizado? Não lhe resta nada, pois para qualquer lado que olhe, desejando e pedindo proteção e segurança, encontrará o mesmo estado de coisas: o desrespeito à lei, a banalização da vida que passa a não valer absolutamente nada e poder ser retirada a qualquer momento e sob qualquer pretexto e o horror da barbárie, da brutalidade e da morte.

Assim aconteceu no crime que chocou o Brasil no último dia 14. Aqueles que eram protetores da vida se converteram em seus algozes. Tornaram-se cúmplices dos que supostamente deveriam combater e responsáveis, consequentemente, pelo agravamento da situação caótica de crime, medo e violência em meio da qual está mergulhada a população do Rio de Janeiro.

Como pano de fundo da tragédia, aparece o domínio crescente do tráfico sobre parte significativa da cidade. A favela da Mineira é controlada pela facção criminosa ADA (Amigos dos Amigos), rival do CV (Comando Vermelho), que por sua vez controla o morro da Providência. Trata-se, portanto, de uma guerra civil instalada com toda desfaçatez em lugar onde residem pessoas inocentes, trabalhadoras e que não conseguem viver e trabalhar em paz, devendo pagar tributo ao descontrole administrativo e ao desleixo dos governantes. E agora, à corrupção das forças armadas.

Sequer foi um soldado raso o responsável pelo crime. Segundo depoimento dos militares presos e do delegado que os ouviu, a decisão de entregar os jovens foi de um tenente. Portanto, de alguém com cargo de chefia e missão de liderar subordinados sob suas ordens. Parece, segundo o delegado, que o tenente “não teria gostado” da decisão de seu superior de liberar os jovens, após eles serem detidos no alto do morro da Providência e levados a um quartel do Exército no sábado. Depois disso, planejou, durante uma reunião com outros militares, a entrega dos jovens aos traficantes da favela rival.

Ainda segundo o delegado, o oficial superior não queria registrar a queixa e punir os jovens, mas o tenente não acatou sua ordem e decidiu, por conta própria, cometer o crime e deixar os jovens nas mãos dos traficantes do morro da Mineira, sabendo muito bem qual seria o seu destino. Encontrados no lixão em Gramacho, os jovens com seus cadáveres acenderam a indignação dos moradores do morro, que queimaram ônibus em protesto.

E lá vai a espiral da violência, como labaredas em floresta, não havendo nada que a detenha. E como pode haver algo que a detenha, se o militar se torna bandido e o bandido atua como militar fazendo julgamentos sumários que lembram a corte marcial e executando inimigos como se estivesse em um batalhão em guerra?

O governador pronuncia-se contra o crime dos militares que não honram a farda que vestem. Mas a população continua perplexa. Em quem confiar? No governo que fala mas não tem força para deter essa avalanche mortífera que se abate sobre a cidade? A quem recorrer pedindo proteção? À polícia e ao Exercito que são responsáveis pela lei e pela ordem mas acabam entregando jovens nas mãos de bandidos na certeza de que estes os matariam? De quem ter mais medo? Da polícia ou do bandido? Do Exército ou do Comando Vermelho e da Ação dos Amigos? Questões complexas que, se não fossem tão aterradoras e mortais, seriam no mínimo tragicômicas.

* Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio, e Diretora Geral de Conteúdo do Amai-vos. É também autora de "A Argila e o espírito - ensaios sobre ética, mística e poética" (Ed. Garamond), entre outros livros

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