Cinema : Sem Deixar a Bola Cair

Em Linha de passe, dirigido por Walter Salles e Daniela Thomas, a realidade brasileira é sintetizada a partir da história de uma família da periferia da cidade de São Paulo
Sérgio Rodrigo Reis
Primeiro Plano/Reuters
A brasileira Sandra Corveloni, com trajetória conhecida no teatro, foi escolhida melhor atriz em Cannes

O cineasta Walter Salles tem uma teoria para explicar o Brasil que a diretora Daniella Thomas sempre repete: “No Brasil, a ficção tem que correr atrás, porque a realidade é inacreditável”. O filme Linha de passe, que repete a dobradinha dos dois na direção depois de produções como Terra estrangeira, ilustra bem a velha máxima. Por trás da história da uma família da periferia que tenta reinventar o próprio destino, a realidade nua e crua da metrópole se apresenta. Numa São Paulo de 19 milhões de habitantes, quatro irmãos buscam formas de sobrevivência à falta de perspectiva na vida. No centro de tudo está a empregada doméstica Cleusa (Sandra Corveloni), a matriarca que luta para mantê-los na linha. “A idéia central em Linha de passe é de que a bola não pode cair”, resume a diretora. Há outras variáveis em questão.

A intenção, desde o início do projeto, foi levar o espectador a acreditar que aquela família existe fora da tela. “Queríamos que as pessoas entrassem no filme de cara. Daí a opção por atores desconhecidos. Encaramos o processo com ajuda da Fátima Toledo (preparadora de atores)”, diz a cineasta. Os escolhidos passaram por quatro meses de treinamento para encontrar um tom mais natural para a narrativa. “É um filme que fala do cotidiano, algo difícil de realizar. Narrar essas situações exige simplicidade e profundidade. Não pode ser dramático, melodramático ou vazio. Foi um trabalho minucioso, quase um bordado”, compara a atriz Sandra Corveloni, escolhida como melhor atriz no último Festival de Cannes por esta atuação. O papel representou um desafio.

Sandra conquistou o personagem no início do processo de seleção. Sonho antigo da atriz, que até estrear no cinema tinha história bem-sucedida no teatro paulista. “Às vezes me pegava antes de dormir imaginando um dia fazer um filme que falasse da minha terra e fosse feito com gente bacana.” O projeto veio sob medida quando uma amiga realizou os testes e achou que Sandra poderia representar Cleusa, o eixo moral do filme. Não foi fácil o desafio. “No início, agia como se fosse irmã e, aos poucos, fui construindo essa mãe, me impondo a eles e fazendo-os acreditar em minha autoridade. Foi duro. Mas ninguém economizou nada.” O que arrebatou os críticos do mundo inteiro em Cannes, onde conquistou este ano o prêmio de melhor atriz, para ela, foi a entrega à personagem. “Esse mergulho apareceu. Sou protagonista tanto quando meus quatro filhos e a cidade de São Paulo. A Cleusa representa milhões de pessoas invisíveis que vivem nas grandes cidades.”

O que mais impressionou a equipe de filmagem em Cannes foi como os estrangeiros foram fisgados nos primeiros dois minutos de projeção e só largaram depois dos créditos. “Houve gente que disse que colocamos uma câmera escondida na vida daquela família”, cita Daniella. A afinidade com Walter Salles foi crucial para este resultado. “A escrita do cinema não parece complexa. Mas exige uma língua muito própria para que, quando o espectador assistir ao resultado na tela, pareça algo natural. O Walter é um exímio falador deste ‘cinemês’.” Ao contrário das parcerias anteriores, em que era possível observar as contribuições individuais ao processo, em Linha de passe o resultado é bastante orgânico. “Senti-me bem mais à vontade neste projeto. Chegamos num ponto que nos comunicamos de maneira sutil. Só com o olhar”, conclui a cineasta Daniela Thomas.



"Narrar situações cotidianas exige simplicidade e profundidade. Não pode ser dramático, melodramático ou vazio. Foi um trabalho minucioso, quase um bordado"

Sandra Corveloni, atriz

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